A tolice de supor que Dilma é estrela de uma “glasnost” petista

Publicado em 15/02/2011 18:42 652 exibições
do blog de Reinaldo Azevedo (veja.com.br)

A tolice de supor que Dilma é estrela de uma “glasnost” petista. Ou: quando o crime compensa

A presidente Dilma Rousseff é tratada por alguns analistas como se fosse a protagonista de uma “glasnost” petista. Se Lula flertava com mecanismos de censura à imprensa, a ela se atribui o repúdio a qualquer iniciativa nesse sentido; se Lula dava o braço a tiranos do mundo inteiro, ela diz que a política de direitos humanos é central no seu governo; se Lula era um gastão, ela acena com corte de R$ 50 bilhões  — corte que não ocorrerá, mas vá lá: ainda que ocorresse, o Orçamento de 2011, mesmo assim, seria quase 10% maior do que o do ano passado; se Lula era falastrão e autocentrado, ela é econômica nas palavras e pensa no conjunto; se Lula, enfim, era um ignorante intuitivo, ela é uma letrada racional. Bem, assim seria se assim fosse. Mas vocês sabem que essa é a fantasia que anda por aí, o que leva muita gente a se dizer “surpresa com o desempenho de Dilma.

Quero chamar a atenção de vocês para algo importante: essa “glasnost” — que é, obviamente, mentirosa — convive com o brutal fortalecimento do PT no governo Dilma. O partido é muito mais poderoso agora do que era sob Lula e tem sabido trazer os aliados em rédeas relativamente curtas. O PMDB dá um pouco mais de trabalho, mas o fato é que também ele perdeu poder no terceiro mandato do PT, embora tenha o vice-presidente da República.

Enquanto Dilma enganava Arnaldo Jabor, provando, segundo ele, que ela não é uma costela de Lula, o PT ia assumindo um peso na administração incompatível com o seu tamanho no Congresso e mesmo com a força de seus aliados nos estados. Desde que chegou ao poder em 2003, a máquina partidária nunca foi tão forte com é agora e nunca esteve tão presente na administração. Como demonstra reportagem na VEJA desta semana, até os aliados reclamam. Um deputado do PSB fez as contas: com seis governadores, seu partido tem dois ministérios e administra R$ 5,4 bilhões do Orçamento; os 17 do PT correspondem a… R$ 164,2 bilhões! Mais de 29 vezes maior!

Essa é uma das evidências de que a “glasnost” dilmista é conversa para enganar jornalistas e cineastas — uma boa parte deles ao menos. Mas não é a única. O PT está num franco movimento para reintegrar Delúbio Soares, o tesoureiro que virou símbolo do mensalão. Com efeito, houve certa injustiça em transformá-lo no bode expiatório: os crimes nunca foram apenas seus. Ele era um funcionário do partido e agia segundo as ordens da cúpula partidária, de que Lula sempre foi o chefe inconteste. Delúbio ter saído da história como a Geni do Chico Jabuti, e Lula, como o demiurgo, o redentor dos oprimidos, é desses milagres que só o PT pôde realizar — não sem contar com a ajuda de setores da imprensa, que sempre se negaram a tratar Lula como um político comum.

A reinserção de Delúbio no partido vem junto com a afirmação canalha de que o mensalão nunca existiu. Tudo teria sido uma conspiração das oposições com a mídia para depor o governo Lula. Em sua volta à cena, há dias, quando reassumiu a condição de presidente de honra da sigla, o Babalorixá de Banânia insistiu nessa tese. Agora é Marco Maia (RS), presidente da Câmara, quem pede a volta do velho companheiro. O julgamento do mensalão no STF deve ficar para o ano que vem. Até lá, o partido espera que a negação da história ganhe mais adeptos. No ambiente da reforma política, pretende-se aprovar o financiamento público de campanha — uma forma a mais de bater a certeira do eleitor — justamente como suposto antídoto a coisas como o mensalão, como se este fosse a conseqüência de um modelo ruim de custeio da política, uma fatalidade decorrente do modelo, não uma escolha consciente de vigaristas que não respeitam a lei.

É claro que o petismo não articula a volta de Delúbio só para ser justo e generoso com o companheiro. Desde sempre, o ex-tesoureiro é o homem que sabe demais, o arquivo vivo. E já amarga quase seis anos de ostracismo — embora esteja longe de viver uma vida difícil, é evidente. Quem tem os padrinhos que Delúbio tem não morre pagão, certo? O fato é que ele quer voltar a ser considerado um “petista de bem” ao menos dentro do partido. Se realmente bater o pé, poucos se atreverão a lhe dizer “não”. Quem tem PT tem medo.

Essa Dilma “menos petista” que setores da imprensa inventaram — reitero: é uma  construção falsa; basta ver quantos cargos ela deu ao partido — serve perfeitamente aos propósitos de “reunificação” do PT, recolhendo os companheiros que tiveram de ficar pelo caminho. É como se ela fosse uma coisa — a “rainha”, lembram-se? — e o partido, outra, de sorte que decisões polêmicas da legenda não guardariam qualquer intimidade com a administração. Assim seria se assim fosse; assim seria se o governo federal, as autarquias, as estatais, as fundações e os fundos de pensão não estivessem coalhados de companheiros — companheiros de Delúbio.

Inexiste uma “glasnost” petista, com Dilma no lugar de Gorbatchev (até porque a referência é, a seu modo, desastrosa), e Lula como estrela da Velha Guarda. Isso é de uma bobagem monumental. Tirados o glacê e as construções da marquetagem, o que se tem é o contrário: o PT nunca teve tal domínio da máquina pública e nunca esteve tão disposto a chamar de virtudes os seus crimes.

Se alguma dúvida ainda houvesse, ela se dissiparia assim: Jeter Ribeiro de Souza, ex-gerente da Caixa Econômica que acessou ilegalmente o sigilo do caseiro Francenildo Costa, foi nomeado assessor especial de Dilma. O nome do cargo: “Assessor do gabinete-adjunto de Informações em Apoio à Decisão da Presidente.”  Uau! Quem assinou a nomeação foi a Casa Civil, cujo chefe é Antonio Palocci, que era o único interessado na quebra daquele sigilo.

Espero que Arnaldo Jabor não fique chateado ao descobrir que, também no governo Dilma, o crime compensa.

Por Reinaldo Azevedo

Palocci, o “moderno”, leva violador de sigilo para dentro do governo

O PT aumentou enormemente seu poder no governo, como vimos. Quem comandou o processo? Antonio Palocci, o queridinho daqueles que os petistas antigamente  chamavam “direita”. Ele também é apresentado e se apresenta como a garantia de civilidade contra José Dirceu. Entendo. Com o seu cicio charmoso — para alguns menos  —, vai comandando a expansão petista em nome do seu real chefe: Luiz Inácio Lula da Silva. Até aí, bem…

Numa República um pouquinho mais exigente, Palocci jamais seria chefe da Casa Civil depois do episódio Francenildo Costa. Um direito assegurado pela Constituição foi violado. O presidente da Caixa Econômica Federal foi mobilizado para quebrar o sigilo de um adversário circunstancial do então ministro. Não obstante, Palocci está aí, também ele, em muitos aspectos, mais poderoso do que antes.

Por que digo isso? Porque continua a ter influência na área econômica e é quem comanda a política. Luiz Sérgio só distribui raspas e restos. Pois bem! Sob o patrocínio da Casa Civil, Jeter Ribeiro de Souza, ex-gerente da CEF e quem efetivamente acessou a conta de Francenildo, virou assessor especial de Dilma. Obra de Palocci!

É um acinte, eu sei. Mas é assim. Palocci é o petista moderado. Ensinam por aí que os radicais é que têm de ser temidos. Bem, eu diria que temo mais um não-radical. O petismo simpático pode ser tão ou mais danoso do que o malcriado.

Por Reinaldo Azevedo

Agora é o petista que preside a Câmara a defender Delúbio e a negar a existência do mensalão

Depois de a cúpula do partido defender a volta de Delúbio Soares, chegou a vez de o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), fazê-lo. Maia era do baixo-clero petista, mas foi ascendendo. A rigor, tem mais importância no país, acreditem — é o terceiro na linha sucessória —  do que no partido. Num programa de TV, veio com a cascata de que o mensalão não existiu e de que não pode haver pena perpétua para o patriota Delúbio. Na madrugada, num texto maior, abordo o alcance dessa fala em face da equação mais geral do petismo.

Por Reinaldo Azevedo

O nome do que Cid Gomes pratica é improbidade administrativa; dá perda de mandato e suspensão dos direitos políticos

O governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), foi mimoseado com o “empréstimo” do jatinho do empresário Alexandre Grandene para passar férias nos EUA (veja abaixo). Grandene tem três fábricas no Ceará, onde goza de incentivo fiscal.

O nome disso é improbidade administrativa. A Lei 8429 é claríssima a respeito:
Art. 9º Constitui ato de improbidade administrativa importando enriquecimento ilícito auferir qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade nas entidades mencionadas no artigo 1º desta Lei, e notadamente:
I - receber, para si ou para outrem, dinheiro, bem móvel ou imóvel, ou qualquer outra vantagem econômica, direta ou indireta, a título de comissão, percentagem, gratificação ou presente de quem tenha interesse, direto ou indireto, que possa ser atingido ou amparado por ação ou omissão decorrente das atribuições do agente público;

E qual é a pena? A lei estabelece:
I - na hipótese do artigo 9º, perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio, ressarcimento integral do dano, quando houver, perda da função pública, suspensão dos direito e políticos de oito a dez anos, pagamento de multa civil de até três vezes o valor do acréscimo patrimonial e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de dez anos;

Por Reinaldo Azevedo

A nova “hegemonia moral” dos Irmãos Gomes

Na coluna Holofote da VEJA desta semana, informa Felipe Patury o que segue. Volto em seguida:


Dê férias ao seu governador

A Grendene mantém uma profícua relação com o governador do Ceará, Cid Gomes. Os benefícios fiscais que a fabricante de calçados recebe naquele estado, onde mantém três unidades, foram renovados por mais quinze anos, em 2009. No ano passado, a Grendene doou 1,2 milhão de reais à campanha de reeleição de Cid. Agora, a empresa fez uma cortesia pessoal ao governador. Alexandre Grandene cedeu um jato Falcon 7X a Cid, para que ele e sua família desfrutassem de férias nos Estados Unidos e no Caribe entre os dias 20 e 27 de janeiro. Ninguém quis comentar o mimo.

Voltei
Pois é…  O chefe do clã dos Gomes é Ciro, aquele que quer ser presidente da República em nome de uma nova hegemonia moral no país. Entendi: quando ela triunfar, todos teremos direito a jatinho particular. Só pode ser isso… Cid é um viajante emérito. Já levou até a sogra em seus passeios. Acusado uma outra vez de usar recursos públicos para viagem privada, pode ter pensado: “Por que não, então, recorrer ao financiamento privado?”

Nova hegemonia moral!

Por Reinaldo Azevedo

Marta Suplicy: a confluência de três ignorâncias

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) representa a síntese de três autoritarismos: o de origem, o ideológico e o da ignorância. Nesta terça, no comando da sessão do Senado — ela é a primeira vice-presidente; vocês entenderam aonde chegamos, certo? —, voltou a provocar uma saia-justa, informa Gabriela Guerreiro na Folha Online.

Foi assim. Tião Viana, senador estreante pelo Acre, do mesmo partido de Marta, fez seu discurso inaugural. Em vez dos 10 minutos a que tem direito, falou 30, sob o silêncio cúmplice da companheira, que ouviu a tudo tão atentamente quanto ela consegue. Aí chegou a vez de o senador Mário Couto, do PSDB do Pará, fazer um comunicado. Ele avançou um tantinho no tempo e foi implacavelmente  interrompido por Madame. Couto reagiu:
“Quero dizer a Vossa Excelência que o Regimento Interno não diz que, na estréia, o senador pode falar a hora que quiser. Eu vou descer desta tribuna certo de que não fui intimidado, certo de que neste Senado ninguém vai cortar a minha palavra, a palavra do meu povo, a palavra daqueles que me colocaram aqui, senadora. Ninguém, ninguém!”

Marta, então, respondeu:
“Talvez até ele tenha falado 30 [minutos], mas se ele falou a mais, era um discurso de estréia, e a sua é uma comunicação inadiável. Então, o senhor tem dois minutos a mais, por favor.”

Vamos ver
É claro que Couto tem de respeitar o tempo. Mas Viana também. O tucano está certo quando afirma que não há nada no Regimento Interno que autorize um senador a falar  o triplo do tempo, seja ou não discurso de estréia. Sinhazinha tem de entender que a cadeira não lhe dá o direito de inventar regras.

Falei dos três autoritarismos. Vamos ao primeiro. Marta sempre foi notoriamente malcriada, um traço que classifiquei “de origem”. Sempre teve essa postura senhorial, que costuma falar primeiro e pensar logo em seguida… Por que o faz? Pertence àquela categoria que só conhece o ponto de vista de quem dá ordens, jamais de quem obedece. No Senado, tem de se subordinar às regras. Como, pelo visto, não gosta delas, comporta-se como se estivesse em sua casa e faz o que bem entende.

A essa característica, que é herdada, se somou a sua escolha partidária. O PT é notório por seguir as leis com as quais concorda. Desrespeita aquelas que não lhe parecem boas, sempre em nome do povo. Esse é o segundo autoritarismo. E o terceiro, como disse, é mesmo o da ignorância. Madame deve desconhecer que existem certas regras do decoro a que a sua nova função a obriga.

Bobagem?
Isso tudo parece bobagem? Não é, não! Não seguir essas regras bestas é sinal de que pode não seguir as que bestas não são. E também é o caso de ficarmos atentos: tudo indica que ela está agindo de modo deliberado para ser notícia. O ano de 2012 está chegando. Os políticos já se movimentam para ele. Parece que ela está recebendo algumas lições de marketing do ex-marido… Ele tenta sempre fazer o papel de bobo da corte. E ela, tudo indica, quer ser a “mandona”, a “mulher porreta”, que enfrenta os homens…

Na semana passada, Sinhá tentou violentar a gramática, corrigindo José Sarney. Cobrou que ele chamasse Dilma de “presidenta”, como se a forma que ele escolheu  — “presidente” — estivesse incorreta. Hoje, resolveu escrever seu próprio regimento do Senado. Mais um pouco, ela vai pedir um cafezinho a algum senador…

Por Reinaldo Azevedo

Mãos atadas

Em tempos em que a alta dos preços dos alimentos vem impulsionando a inflação, Reinhold Stephanes sentencia: o governo possui instrumentos para influenciar com políticas setoriais apenas os preços de trigo, arroz e feijão. Commodities, os demais alimentos seguem cotações internacionais.

Por Lauro Jardim

A herança maldita sem aspas

“Nós assumimos um país com a inflação fora de controle”, recitou Dilma Rousseff ao longo da campanha eleitoral, depois de decorar aplicadamente outra lição que Mestre Lula ensinou. Falso. A inflação andou regurgitando no fim de 2002 em consequência da inquietação causada pela histórica irresponsabilidade do PT, mas em nenhum momento os índices assumiram dimensões perturbadoras. O dragão enjaulado pelo Plano Real continuou dormindo profundamente.

“Graças ao governo Lula, vou assumir um país com a economia sem problemas”, deu de declamar Dilma depois de eleita. Falso. Como demonstra a reportagem de capa de VEJA, a taxa anual registrada pela inflação em janeiro avisa que a fera ameaça acordar de um sono de 17 anos. O índice oficial de 6.5% já era preocupante. Vê-se agora que a realidade camuflada pelas contas federais é alarmante.

O quilo da carne, o quilo do feijão, o ingresso nos estádios de futebol, os gastos com transportes — é extensa e incontestável a lista dos itens que decolaram espetacularmente no período de 12 meses. ”O poder aquisitivo dos brasileiros subiu”, fantasia o ministro Guido Mantega. Ainda que dissesse a verdade, aumento de poder aquisitivo não resulta automaticamente em elevação de preços, os americanos estariam pagando 100 dólares por um cachorro-quente.

O país pode descobrir mais cedo do que imaginava que Dilma recebeu de Lula o que Lula fingiu ter recebido de Fernando Henrique Cardoso. A “herança maldita” de FHC só existiu na discurseira oportunista do chefe da seita e seus devotos. Dilma vai saber o que é lidar com uma herança maldita sem aspas. Se não sabia de nada, foi uma gerente-geral inepta. Se sabia de tudo, mentiu. E terá de administrar o legado sozinha.

Não adianta pedir ajuda ao padrinho. Ele mora no Brasil Maravilha que registrou no cartório.

 (por Augusto Nunes)



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Blog Reinaldo Azevedo (Veja.com)

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