Sobre Jorge Viana, relator do Código Florestal no Senado... (por Reinaldo Azevedo))

Publicado em 01/06/2011 10:22 e atualizado em 01/06/2011 11:02 974 exibições

Ele é amigo da floresta, claro!, e é do PT, mas seu governo bateu recorde de desmatamento. Com o apoio de Marina

Vejam este gráfico.

desmatamento-viana

O tempo passa, o tempo voa, mas a memória do Tio Rei continua numa boa! Epa! Essa ainda é do tempo do governo FHC, quando banco incompetente quebrava… Sigamos. Sei lá, devo ter comido muito peixe na infância, né? Ou foram as águas de Dois Córregos… O fato é que a memória é uma das duas coisas que têm melhorado com o tempo. A outra, não digo porque não estou no mercado, e a propaganda seria inútil e pareceria jactância. Bem, chega de cascata! O fato é que o senador petista Jorge Viana (PT-AC), do grupo de Marina Silva — eles caminham para 16 anos de poder no Acre — foi escolhido relator no novo Código Florestal na Comissão de Meio Ambiente do Senado. Os ambientalistas deveriam estar preocupados. Por quê? Primeiro leiam o que informa a Folha Online.

Senador ligado a Marina será um dos relatores do Código Florestal

Por Márcio Falcão e Gabriela Guerreiro:
O senador Jorge Viana (PT-AC) foi escolhido relator da reforma do Código Florestal na Comissão de Meio Ambiente do Senado. Ligado a ex-ministra Marina Silva (PV) e aliado do Palácio do Planalto, Viana defendeu mudanças no texto aprovado pela Câmara, mas evitou polemizar em temas que enfrentam resistência especialmente dos agricultores. A indicação do petista deve abrir uma nova frente de disputa com o PMDB, que não aceita que a última comissão a analisar a proposta seja a de Meio Ambiente, como defende o governo. O nome de Viana não foi bem recebido na bancada do PMDB, que reclama da aproximação com Marina.

Os peemedebistas articulam a indicação de relatores das comissões de Constituição e Justiça e de Agricultura. O PMDB trabalha para que o texto seja fechado na Comissão de Agricultura. A tramitação do código no Senado ainda não foi decidida. A expectativa é que o texto aprovado pela Câmara seja entregue na quarta-feira aos senadores. Questionado sobre a ligação com Marina e os ambientalistas, Viana adotou um discurso independente. Antes da indicação ser oficializada, Viana, Marina e o presidente da Comissão de Meio Ambiente Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), se reuniram com mais senadores da área ambiental para discutir o texto.

Viana disse que vai procurar costurar um acordo não só com os senadores, mas também com governo e a Câmara, tendo em vista que se o Senado alterar o texto, ele volta para análise dos deputados. O futuro relator do código na Comissão do Meio Ambiente sinalizou com mudanças nos pontos polêmicos, como a participação dos Estados na regularização ambiental e na medida que legaliza todas as atividades agrícolas em APPs (Áreas de Preservação Permanente), como várzeas e topos de morros, mantidas até julho de 2008 –a chamada anistia dos desmatadores.

Segundo ele, os Estados podem participar do processo de regularização ambiental, mas as regras gerais terão que ser definidas pelo governo federal. Em relação à anistia, Viana disse que poderá aproveitar “alguma coisa” desse tema da forma como saiu da Câmara, mas não precisou o que seria.

Voltei
“O que aquela cascata toda de memória tem a ver com o caso, Reinaldo Azevedo?” Eita leitor aflito! Vejam de novo aquele gráfico que abre o post. A edição nº 2003 de VEJA, de 11 de abril de 2007, trazia esta reportagem de Leonardo Coutinho. Leiam, Volto para concluir.

*
O petista Jorge Viana governou o Acre por oito anos, de 1999 a 2006. Logo que chegou ao poder, percebeu que o discurso ambiental poderia lhe render projeção nacional e batizou sua gestão de “governo da floresta”. No segundo ano de mandato, passou a alardear que havia contido o desmatamento em seu estado. Tornou-se um dos astros do petismo e aproximou-se do presidente Lula. Seu peso político aumentou tanto que, agora, mesmo sem mandato, disputa com José Sarney e Jader Barbalho quem apadrinhará o próximo superintendente da Sudam, a Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia. A imagem de Viana como protetor da natureza, no entanto, está tão ameaçada quanto a mata que ele diz defender.

VEJA teve acesso a um estudo encomendado pelo próprio petista que mostra que, nos seis primeiros anos de sua gestão, a velocidade do desmatamento no Acre triplicou e chegou à marca de 995 quilômetros quadrados em 2004. É como se uma área de floresta do tamanho de catorze campos de futebol fosse derrubada por hora. Pior: o estudo, feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), revela ainda que, de todo o desmatamento do Acre, cerca de um terço ocorreu durante a administração de Viana. O então governador recebeu as conclusões do estudo em agosto do ano passado - e as escondeu.

Em setembro de 2003, VEJA já havia informado que a devastação no estado aumentara no governo do PT. Viana se esforçou para desqualificar a reportagem. Alegou que os números apresentados estavam errados e escalou jornalistas pagos com dinheiro público para replicar sua defesa pelo país. Em seu estado, usou dinheiro do Erário para atacar VEJA nos jornais e TV locais. “No meu governo, o desmatamento só cai”, jurava ele. Poderia ter-se poupado. O estudo do Imazon, feito com base em imagens de satélite, tem um grau de precisão inédito no país e confirma o diagnóstico da destruição. No Acre, entretanto, Viana mantém sua boa imagem, principalmente entre os onguistas. Sintomático. Lá, nem os “povos da floresta” andam preocupados em manter as árvores em pé.

No seringal Nova Esperança, em Xapuri, 36% da floresta dentro de sua área foi destruída. A Reserva Extrativista Chico Mendes está salpicada de pastagens. Fatos assim mostram que a falta de avaliações isentas e sem romantismo ameaça tanto a preservação ambiental quanto o crescimento econômico em um estado que já perdeu 11% de suas florestas e continua a ostentar alguns dos piores indicadores sociais do país.

Voltei
Então… O Imazon é a mesma ONG  que apontou o desmatamento no Mato Grosso, com  base em imagens dos satélites 
MODIS, francês, e Landasat, americano — desmatamento estupidamente atribuído ao novo Código Florestal. Viana não tinha de enfrentar esse debate, mas, como se vê, a floresta andou mal por lá, onde, reitero, Marina Silva também era — e ainda é — governo.

Os que, como eu, defendem o código de Aldo Rebelo, que propõe medidas muito sensatas para preservar a floresta, agora ficaram um tanto preocupados… É temerário entregar a relatoria de uma comissão para analisar o novo código a alguém com esse passivo ambiental, não é mesmo? Só não se fez escândalo sobre esses números naquele período — que eram deles, não de seus adversários — porque Viana, afinal de contas, é um “deles”, certo?

Dados os fatos e sua leitura política, Viana não poderia ser o relator em nome da… preservação! A Santa da Floresta teria transformado num Judas do Meio Ambiente qualquer um com esse “passivo ambiental”, como dizem os verdolengos.

Que mundo engraçado!

PS - Prometo continuar a incomodar a turma com as minhas lembranças.

Por Reinaldo Azevedo

Dicas para o homem comum, o classe-média, não ser vítima do bullying jornalístico

Dei em outro post algumas dicas para alguns especialistas que navegam na contra-corrente da metafísica influente (e, pois, quase sempre com a verdade) se proteger do jornalismo que os quer usar apenas como o “outro lado” que justifica uma tese. estúpida. E prometi algumas orientações para que também o homem comum possa se proteger de jornalistas. Preciso explicar algumas coisas, claro! O que chamo “homem comum” é aquele coitado de classe média que subiu um tantinho na vida e pode, inadvertidamente, topar com um desses amigos do povo que estão fazendo reportagem de comportamento e tendência para as edições de domingo. Então vamos ver.

Leitor, você é aquele ser desprezível que mora num bairro bom; que ganha a vida com o suor do seu rosto; que tem prazer em andar num carro bacana porque, afinal, fez por merecer; que se esforça para manter os filhos numa boa escola; que junta uma grana para viajar para o exterior a cada três, quatro anos e que NÃO TEM EMPRÉSTIMO SUBSIDIADO DO BNDES? Cuidado! O amigo pode ser vitima do bullying da imprensa esquerdopata, de  um golpe conhecido como “Boa Noite, Laura!”, que é a variante jornalística do “Boa Noite, Cinderela”. Quando acordar, já lhe levaram a reputação.

E quando isso ocorre? Sempre que houver alguma questão que sugira um confronto entre ricos e pobres. Sim, querido leitor de classe média:  os “ricos”, para essa turma, não são aqueles milionários ou bilionários que estão à sua esquerda e financiam as ONGs verdes e socialistas e votam no PT. Esses são “companheiros”. O inimigo público do pobre é… VOCÊ! Quando aquela figura estranha encostar de bloquinho na mão perguntando sobre o incômodo de os mendigos usarem a praça como dormitório, diga que “não”. Poderiam até dormir na sala do seu apartamento; é que falta espaço… Ouse: “Dormir ao relento é um dos direitos que igualam ricos a pobres, já que as moradias confortáveis não podem igualá-los”. Repita o raciocínio, que tem alguma complexidade, porque a pessoa que o entrevista não entendeu direito.

Cuidado nos aeroportos! O golpe “Boa Noite, Laura” vai tentar saber, como quem não quer nada, se você não sente saudade do tempo em que as salas de embarque eram menos cheias e se cumpriam, quase sempre, os horários. Um ser normal diria “sim”, e isso seria tomado como evidência de seu preconceito contra o povo, que agora anda de avião. Poetize:  não há conforto que pague a alegria da comunhão de classes — a B, a C e a D, já que a “A” não responde a esse tipo de indagação porque tem avião ou aluga jatinho.  Tente outra frase de efeito: “Já que, infelizmente, são tantas as desigualdades na terra, que, ao menos, o céu nos faça a todos iguais”. Repita.  Ela não entendeu de novo. Ensaie uma análise que apele à infraestrutura: “Precisamos de mais investimento neste novo Brasil”.

A praia também o expõe ao bullying jornalístico. Nunca dispare coisas como “Farofeiro enche o saco!” ou “Porra! Por que eles não tocam essa música na praia que os pariu?!” Isso tem cheiro de intolerância de classe. A professora Heloísa Ramos poderia até ver uma variante do “preconceito lingüístico”. Conceda que o som é até bem animado e que o funk da cachorra, da cadela e da vaca tem a sua poesia. Seja enigmático:  Tati Quebra-Barraco é mais complexa do que parece. E pare por aí porque também não é bom exagerar.

Se quiserem meter uma estação de metrô na porta do seu prédio, afirme que isso é bom, que essa história de propriedade é uma etapa superada da civilização; que você acredita na “função social da propriedade, à qual a nossa Constituição se refere seis vezes, lembra?” A pessoa fará de conta que sabe do que se trata. Por conseqüência,  o MST é um movimento justo e pacífico, e o certo é haver invasões de propriedades privadas urbanas também.

Se lhe perguntarem se há empregada doméstica em sua casa, responda como Marilena Chaui fez um dia: “Não, querida(o), eu não levo a luta de classes pra dentro de casa”. Com aquela resposta, ela evidenciava não saber o que é “luta de classes” nem na acepção marxista, mas o jornalista que vai entrevistá-lo, com certeza absoluta, também não sabe.  Citar Marilena pega bem.

Se o indagarem sobre cotas raciais nisso e naquilo, ainda que você seja um ser humano normal, desses democratas que acreditam que todos devem ser iguais perante a lei, minta. Afirme que o caminho mais curto para a igualdade é promover a desigualdade. Se quiser, pode até apelar a alguns ministros do Supremo, que andam dizendo que é preciso tratar desigualmente os desiguais.

Eu poderia passar a noite aqui a dar dicas. Os temas são inesgotáveis. Sob nenhuma hipótese revele gostos e hábitos de consumo, por exemplo. Se disser que gosta de tomar um Prosecco de vez em quando, vão tratá-lo como um cafona pretensioso e ignorante, porque quem é do riscado tem dinheiro é para tomar champanhe de… Champagne!  Não sendo um daqueles contemplados com juros subsidiados do BNDES, petistas roxos, eventuais contratantes dos serviços de consultoria de Antonio Palocci, você não tem dinheiro para certas extravagâncias.

Bem, queridos,  a essa altura, o agente do “Boa Noite, Laura!” está furioso porque a pauta está caindo, e domingo é dia de publicar essas matérias mais descontraídas, de comportamento e tendências. Terão de pegá-lo de algum jeito. Eu os protegi até aqui da pecha de “reacionários”. Nervoso, o ser que o entrevista tentará em seguida provar que, bem…, algum dinheiro você ganhou, mas é um ignorante! Aí virá a tentativa para desqualificá-lo intelectualmente. Mas esse terá de ser outro post.

Por Reinaldo Azevedo

A mentira como instrumento da luta política

É claro que há divergências na sociedade! Ainda bem! Eu seria o último a querer acabar com elas. Eu nem mesmo estou entre aqueles que dizem na mesa de bar que as ideologias morreram. Quando alguns liberais ou quase insistiam nisso há coisa de 15 anos, afirmando que a melhor ideologia era a eficiência, eu afirmava: “Não contem comigo”. E continuo achando essa conversa enjoada. Eu reconheço a legitimidade da divergência.  Meu blog é uma expressão disso. “Então por que não o libera para aqueles que você chama ‘petralhas’”? Porque eles não debatem, aparelham. Já expliquei isso algumas vezes. Não vêm falar o que pensam como indivíduos; trazem as respostas do “partido” — que façam seu proselitismo em seu… partido, ora essa!

Divergir é da natureza do jogo. Eu divirjo também de pessoas que admiro muito, com o sabem. Mas um compromisso se faz necessário: o fato. Se uma opinião ou análise é  construída em cima de uma mentira, nem mesmo se pode dizer que se trata de mero jogo ideológico — eu estou entre aqueles que reservam à ideologia um outro papel, parente da utopia. Ela expressa um conjunto de valores que revela um anseio. Acaba, sim, muitas vezes, criando uma impressão distorcida do fato, mais ou menos como o torcedor de um time que se nega a reconhecer o lance genial do adversário ou que um pênalti marcado contra a sua equipe realmente aconteceu. Mas somos feitos de paixões também. É inútil tentar reconstruir o homem sem elas.

Dou um exemplo. Por uma questão ideológica, algumas pessoas acreditam que a privatização da Telebrás foi uma tragédia. Terão lá os seus motivos, por mais insanos que eu possa considerá-los. Mas sustentar, como se fez tantas vezes, que as ações foram vendidas “a preço de banana”, aí já é só uma mentira, que não é necessariamente uma característica da ideologia, que organiza, entendo, outras escolhas: mais estado ou menos; mais tributação e liberdade de empreender ou menos; mais regulação do mercado de trabalho ou menos? Acredito que, com dados objetivos, é possível escolher um caminho, outro, muitos intermediários.

A mentira é coisa de outra natureza. Já integra o terreno da guerra suja, da tapeação, da tentativa de ludibriar o outro. É o que se tem verificado, de modo espantoso, no debate sobre o Código Florestal, repetindo, como se e o país não tivesse apreendido nada, a farsa que resultou, em 2009, na demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, e na expulsão dos arrozeiros da região. O resultado é trágico: miséria, favelização, empobrecimento.

Publiquei aqui ontem um artigodo deputado Aldo Rebelo, que é do PC do B. Todos conhecem a minha simpatia pelo comunismo e pelas esquerdas, não é mesmo? Aldo, além de tudo, é palmeirense, o que é realmente imperdoável… Pergunto: quantos dos que atacam o seu relatório se deram ao trabalho de efetivamente lê-lo, inclusive na imprensa? As ligeirezas vêm até de pessoas das quais, pelo hábito, espera-se rigor. Assisti ontem a parte do programa Roda Vivacom o inteligente Eduardo Giannetti, hoje ligado a Marina Silva. Ele afirmou que o texto do novo código é um retrocesso. Muito bem! É ideologia. É legítimo! Mas “retrocesso” por quê? Porque, sugeriu, permite a ampliação do desmatamento. Aí não dá! Isso é mentira! Giannetti é um estudioso e “popularizou”, nos meios mais intelectualizados, a expressão “auto-engano”. Não permite, não! O texto apenas legaliza situações de fato e, atenção, professor!, ELE PREVÊ, NA PRÁTICA, A RECOMPOSIÇÃO DA FLORESTA NAS PROPRIEDADES COM MAIS DE QUATRO MÓDULOS RURAIS. Portanto, não aumenta o desmatamento; diminui!

Giannetti é informado o bastante para não precisar da mentira, certamente involuntária — acho mesmo — para defender um ponto de vista. Também se afirmou no programa, não lembro quem, com a sua anuência, que a divergência com o PMDB se deu porque a emenda apresentada pelo partido permitia mais desmatamento. Falso! A Emenda 164 prevê que estados e União compartilhem o controle das Áreas de Preservação Permanentes (APPs) já ocupadas pela atividade agropecuária, às vezes há séculos!!! Quem comentou não sabia o que tinha sido votado. Quem respondeu também não.

Falou-se ainda da dita “anistia” como causa do desmatamento no Mato Grosso — o que é uma sandice —, ignorando-se o fato de que a renegociação das multas para ocorrências ANTERIORES A  2008 está num decreto em vigor, de Lula e Carlos Minc, que expira no dia 11 de junho e que será reeditado se o Senado não aprovar o código até lá. O texto não  inovou nada nesse particular.

Giannetti tem todo o direito de achar que culturas que estão nas chamadas APPs nas beiras de rios, encostas e topos de morros há 200, 300 anos têm de virar mata nativa outra vez. Eu discordo. No programa, ele afirmou que será bom para o país, no longo prazo, demonstrar que é ambientalmente correto — os outros países não precisam disso, mas parece que nós precisamos, sei lá por quê… Ok! É uma opinião. Eu gostaria de saber se esses pequenos proprietários devem ter o mesmo destino daqueles coitados de Raposa Serra do Sol. Mas isso ficaria para um debate.

O que eu espero de alguém como Giannetti é a clareza, seja ela qual for ela. Por exemplo: “Lamento pelos pequenos proprietários, mas o Brasil tem interesses estratégicos, e pouco importa se há culturas nas APPs há 300 anos, não pode e pronto! Também não quero saber se o decreto em vigor foi apenas incorporado por Aldo no que chamam ‘anistia’. Não é relevante se os agricultores com até quatro módulos podem ou não arcar com o reflorestamento. Vamos ter de fazer isso porque será bom para o Brasil, que está acima dos interesses de grupos”. Ele dissesse isso lá do modo dele, tudo bem! Eu o combateria porque considero tais exigências insanas. À medida que se escolhe como argumento o que não é fato, escolhe-se o caminho da facilidade. E o que é fato?
- o código de Aldo não aumenta o desmatamento, diminui;
- o código de Aldo não inova ao tratar das multas porque apenas incorpora um decreto já existente;
- não há como o debate sobre o código ter gerado desmatamento no Mato Grosso porque não há relação possível de causa e efeito.

A pior de todas as mentiras
Fixei-me nas opiniões de Giannetti para evidenciar que mesmo alguém acostumado a ser rigoroso com as idéias e que costuma cobrar rigor de seus interlocutores pode cair na cilada da ligeireza.

A pior de todas as mentiras nessa área é aquela segundo a qual o Código Florestal e o assassinato de três pessoas envolvidas em conflitos agrários — já se sabe que a quarta morte nada têm a ver com confronto por terra ou madeira — estão, se me permitem, no mesmo “meio ambiente” em que se debate o Código Florestal. Escrevi ontem a respeito. Aí já se trata de uma exploração verdadeiramente criminosa daquelas mortes, duas delas, é bem provável, decorrentes de uma luta entre os próprios assentados.

A luta política e ideológica é legítima. A mentira é intelectual e politicamente criminosa.

Por Reinaldo Azevedo

Carta de Aldo Rebelo: O CÓDIGO FLORESTAL E A QUINTA COLUNA

Conta a lenda que, ao cercar Madri durante a Guerra Civil Espanhola, o general Emilio Mola Vidal, ao ser questionado sobre qual das quatro colunas que comandava entraria primeiro na cidade sitiada, respondeu: a quinta coluna. Mola referia-se aos seus agentes, que de dentro sabotavam a resistência republicana.


Durante a Segunda Guerra Mundial, a expressão tornou-se sinônimo de ações contra o esforço aliado na luta para derrotar o eixo nazifascista. A quinta coluna disseminava boatos, procurava enfraquecer e neutralizar a vontade da resistência e desmoralizar a reação contra o inimigo.


Após a votação do Código Florestal, no último dia 24, um restaurante de Brasília acolheu os principais "cabeças" das ONGs internacionais para um jantar que avançou madrugada adentro. A Câmara acabara aprovar por 410 x 63 votos o relatório do Código Florestal e derrotara de forma avassaladora a tentativa do grupo de pressão externo de impedir a decisão sobre a matéria. 


O ambiente era de consternação pela derrota, mas ali nascia a tática da quinta coluna moderna para pressionar o Senado e o governo contra a agricultura e os agricultores brasileiros. 


Os agentes internacionais recorreriam à mídia estrangeira e espalhariam internamente a ideia de que o Código "anistia" desmatadores e permite novos desmatamentos.


A sucessão dos fatos ilumina o caminho trilhado pelos conspiradores de botequim. No último domingo, o jornal O Estado de S. Paulo abriu uma página para reportagem assinada pelas jornalistas Afra Balazina e Andrea Vialli, com a seguinte manchete: "Novo Código permite desmatar mata nativa em área equivalente ao Paraná." 


Não há, no próprio texto da reportagem, uma informação sequer que confirme o título da matéria. E é evidente que o projeto votado na Câmara não autoriza desmatamento algum. O que se discute é se dois milhões de proprietários que ocupam áreas de preservação permanente (margem de rio, encostas, morros) devem ser expulsos de suas terras ou em que proporção podem continuar cultivando como fazem há séculos no Brasil, à semelhança de seus congêneres em todo mundo.


No jornal O Globo, um texto assinado por Cleide Carvalho procura associar o desmatamento no Mato Grosso ao debate sobre o Código Florestal e as ONGs espalham por seus contatos na mídia a existência de relação entre o assassínio de camponeses na Amazônia e a votação da lei na Câmara dos Deputados. 


Guardian de Londres publica artigo de um dos chefetes do Greenpeace [o diretor da Campanha Amazônia, Paulo Adario - n.e.] com ameaças ao Brasil pela votação do Código Florestal. Tratam-nos como um enclave colonial carente das lições civilizatórias do Império.


As ONGs internacionais consideram toda a área ocupada pela agropecuária no Brasil, passivo ambiental que deve ser convertido em floresta. Acham razoável que milhões de agricultores sejam obrigados a arrancar lavoura e capim e plantar vegetação nativa em seu lugar, em um país que mantém mais de 60% de seu território de áreas verdes.


A "anistia" atribuída ao relatório não é explicada pelos que a denunciam, nem a explicação é cobrada pela imprensa. Apenas divulgam que estão "anistiados" os que desmataram até 2008. Quem desmatou até 2008? Os que plantaram as primeiras mudas de cana no Nordeste e em São Paulo na época das capitanias hereditárias? Os primeiros cafeicultores do Pará, Rio de Janeiro e São Paulo no século XVIII? Os colonos convocados pelo governo de Getúlio Vargas para cultivar o Mato Grosso? Os gaúchos e nordestinos levados pelos governos militares para expandir a fronteira agrícola na Amazônia? Os assentados do Incra que receberam suas terras e só tinham acesso ao título de propriedade depois do desmatamento?


É importante destacar que pela legislação em vigor são todos "criminosos" ambientais submetidos ao vexame das multas e autuações do Ministério Público e dos órgãos de fiscalização. 


Envolvidos na teia de "ilegalidade" estão quase 100% dos agricultores do País, por não terem a Reserva Legal que a lei não previa ou mata ciliar que a legislação de 1965 estabelecia de cinco a 100 metros e, na década de 1980, foi alterada para 30 até 500 metros.


Reconhecendo o absurdo da situação, o próprio governo, em decreto assinado pelo presidente Lula e pelo ministro Carlos Minc, suspendeu as multas em decorrência da exigência "legal", cujo prazo expira em 11 de junho e que, provavelmente, será reeditado pela presidente Dilma.


O governo e o País estão sob intensa pressão da desinformação e da mentira. A agricultura e os agricultores brasileiros tornaram-se invisíveis no Palácio do Planalto. Não sei se quando incorporou à delegação da viagem à China os suinocultores brasileiros, em busca de mercado no gigante asiático, a presidente tinha consciência de que quase toda a produção de suínos no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná está na ilegalidade, por encontrar-se em área de preservação permanente.


A Câmara dos Deputados, por grande maioria, mostrou estar atenta aos interesses da preservação ambiental e da agricultura, votando uma proposta que foi aceita por um dos lados, mas rejeitada por aqueles que desconhecem ou precisam desconhecer a realidade do campo brasileiro. 


O Senado tem agora grande responsabilidade e o governo brasileiro precisa decidir se protege a agricultura do País ou se capitulará diante das pressões externas que, em nome do meio ambiente, sabotam o bem-estar do nosso povo e a economia nacional.


* O autor é deputado federal pelo PCdoB-SP e foi relator do projeto de lei do Novo Código Florestal Brasileiro, já aprovado pela Câmara dos Deputados ([email protected]).





Tags:
Fonte:
Veja.com.br

0 comentário