Obra de Cumbica anunciada para dia 20 tem desabamento

Publicado em 02/12/2011 18:05 424 exibições
por Reinaldo Azevedo, em veja.com.br

Obra de Cumbica anunciada para dia 20 tem desabamento

Primeiro a informação de Gabriela Gasparin, no Portal G1. Abaixo comento:

O novo terminal remoto do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, cuja inauguração foi anunciada nesta sexta pela Infraero para o dia 20 de dezembro, sofreu um desabamento de estrutura da obra por volta das 14h. Segundo a Delta, responsável pelas obras, duas pessoas ficaram feridas sem gravidade. Com isso, a data da inauguração deverá ser reavaliada, segundo a empresa.

Em nota, a Delta informou que “uma parte da estrutura auxiliar de sustentação dos dutos de ar condicionado cedeu na obra do novo terminal de passageiros domésticos do Aeroporto de Cumbica”. Os dois feridos foram atendidos e liberados logo após o incidente e a situação na obra foi normalizada.

Inauguração
A data de inauguração do terminal no dia 20 foi anunciada também nesta sexta-feira pelo presidente da Infraero, Gustavo do Vale. Segundo ele, a previsão era de que o terminal fosse inaugurado ainda antes do término das obras, previsto para 23 de janeiro. Algumas companhias já iniciariam suas operações no local já no dia 20.

“Ele (o terminal) vai começando aos poucos (a funcionar), como foi planejado”, disse Vale. “Esse terminal é um terminal de verdade. Só para voos domésticos e a capacidade dele é de 5,5 milhões de pessoas por ano”, afirmou Vale.

Construído onde ficava o antigo galpão de cargas da Vasp, o novo terminal é remoto, ou seja, desconectado do aeroporto. Fica a cerca de 2 km de distância dos Terminais 1 e 2. Na prática, é o terceiro terminal de Cumbica, embora oficialmente o Terminal 3 propriamente dito ainda esteja em fase de terraplenagem. O Terminal 3 será uma obra da iniciativa privada, tocada pela empresa que ganhar a concessão de Cumbica. O leilão está marcado para o dia 22.

Em setembro, as obras do terminal chegaram a ser paralisadas por determinação da Justiça Federal por “contratação sem licitação” da empresa responsável pelo serviço, a Delta Construções S/A. No dia 14 de setembro, entretanto, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região determinou a retomada das obras por entender que a construção tem caráter emergencial, o que justifica a dispensa de licitação.

Por Reinaldo Azevedo

Ah, essa memória que não me abandona! As relações especiais da Delta, empresa que toca sem licitação a obra de Cumbica, com o poder e os poderosos

Ah, essa memória que não me larga!

No post anterior, vocês leram que parte do terminal remoto do Aeroporto de Cumbica, cuja inauguração está prevista para o próximo dia 20, desabou. A obra já chegou a ser paralisada por determinação legal. Para tocar o empreendimento, a Infraero escolheu, sem licitação, a empreiteira Delta. O dono da empresa, Fernando Cavendish, é um homem que tem amigos poderosos. Dois dos mais destacados são Sérgio Cabral e José Dirceu. No Rio, a Delta toca obras de R$ 600 milhões. Pelo menos R$ 164 milhões desse total foram contratados sem licitação. Naquele trágico fim de semana de junho, em que um acidente de helicóptero matou sete pessoas no litoral baiano, incluindo a nora de Cabral, o governador integrava o grupo que estava na Bahia para comemorar o aniversário de Cavendish. Cabral viajou àquele estado no avião particular de outro potentado do setor privado: Eike Batista (se quiser mais sobre o mundo cabralino, clique aqui . Adiante.

Cavendish cresceu muito durante o governo petista. Teve um “consultor” de peso: Dirceu. No começo de maio, VEJA publicou uma reportagem sobre a meteórica ascensão de Cavendish.

Em entrevista à revista, dois empresários, José Augusto Quintella Freire e Romênio Marcelino Machado, acusam o ex-ministro e chefão petista de fazer tráfico de influência em favor da Delta. Segundo os dois, Dirceu foi contratado por Cavendish para facilitar seus negócios com o governo federal. E como eles sabem? Eles eram donos da Sigma Engenharia, empresa que seria incorporada pela Delta em 2008; os três se tornariam sócios. O negócio emperrou e foi parar na Justiça. Oficialmente, a Delta contratou Dirceu como consultor para negócios junto ao Mercosul. Receberia modestos R$ 20 mil mensais pelo trabalho. De fato, dizem os denunciantes, a Sigma passou a ser usada por Cavendish para fazer transferências bancárias a Dirceu.

Um trecho da reportagem informa o desempenho da empresa de Cavendish no governo petista. Seu grande salto se dá a partir de 2009, ano da contratação de Dirceu. Segue trecho daquela reportagem em azul:
Durante o governo do ex-presidente Lula, a Delta passou de empresa de porte médio a sexta maior empreiteira do país. É, hoje, a que mais recebe dinheiro da União. Sua ascensão vertiginosa chamou a atenção dos concorrentes. Em 2008, a Delta já ocupava a quarta colocação no ranking das maiores fornecedoras oficiais. Em 2009, houve um salto ainda mais impressionante: a empresa dobrou seu faturamento junto ao governo federal. Em 2011, apesar das expectativas de redução da atividade econômica, o faturamento da Delta deve bater os 3 bilhões de reais - puxado por obras estaduais e do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento.”

Comprando senadores
Informa ainda a VEJA:
“Em reunião com os sócios, no fim de 2009, quando discutia exatamente as razões do litígio, o empresário Fernando Cavendish revelou o que pensa da política e dos políticos brasileiros de maneira geral: “Se eu botar 30 milhões de reais na mão de políticos, sou convidado para coisas para ‘c…’. Pode ter certeza disso!”. E disse mais. Com alguns milhões, seria possível até comprar um senador para conseguir um bom contrato com o governo: “Estou sendo muito sincero com vocês: 6 milhões aqui, eu ia ser convidado (para fazer obras). Senador fulano de tal, se (me) convidar, eu boto o dinheiro na tua mão!”.

“Relações promíscuas”
VEJA publicou uma entrevista com os dois empresários (reproduzo trechos) e volto para encerrar.
Que tipo de consultoria o ex-ministro José Dirceu realizou para o grupo Delta?
 
Romênio - 
Tráfico de influência. Com certeza, é tráfico de influência. O trabalho era aproximar o Fernando Cavendish de pessoas influentes do governo do PT. Isso, é óbvio, com o objetivo de viabilizar a realização de negócios entre a empresa e o governo federal.

E os resultados foram satisfatórios?
Romênio -
 Hoje, praticamente todo o faturamento do grupo Delta se concentra em obras e serviços prestados ao governo.

A contratação de José Dirceu foi justificada internamente de que maneira?
Romênio -
 A contratação foi feita por debaixo do pano, através da nossa empresa, sem o nosso conhecimento. Um dia apareceram notas fiscais de prestação de serviços da JD Consultoria. Como na ocasião não sabia do que se tratava, eu me recusei a autorizar o pagamento, o que acabou sendo feito por ordem do Cavendish.

O que aconteceu depois da contratação da empresa de consultoria do ex-ministro?
Quintella 
- A Delta começou a receberconvites de estatais para realizar obras sem ter a capacidade técnica para isso. A Petrobras é um exemplo. No Rio de Janeiro, a Delta integra um consórcio que está construindo o complexo petroquímico de Itaboraí, uma obra gigantesca. A empresa não tem histórico na área de óleo e gás, o que é uma exigência Ainda assim, conseguiu integrar o consórcio. Como? Influência política.

A Delta, por ser uma das maiores empreiteiras do país, precisa usar esse tipo de expediente?
Romênio - 
Usa. E usa em tudo. O caso da reforma do Maracanã é outro exemplo. A Delta está no consórcio que venceu a licitação por 705 milhões. A obra mal começou e já teve o preço elevado para mais de l bilhão de reais. Isso é uma vergonha. O TCU questionou a lisura do processo de licitação. E quem veio a público fazer a defesa da obra? O governador Sérgio Cabral. O Cavendish é amigo último do Sérgio Cabral. A promiscuidade é total.

Voltei
É isso aí.

Depois de tudo, em julho, na inauguração do teleférico no Complexo do Alemão, na presença de Dilma, o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, celebrou a obra e a “vitória sobre os Ministérios Públicos”, fazendo um agradecimento explícito à Delta (aqui). Em agosto, dois meses depois do acidente, Cabralvoltou a celebrar acordos com a Delta sem licitação, no valor, desta vez, de R$ 37,6 milhões. Tudo para “obras emergenciais”.

A Delta é mesmo a preferida do Rio e de Brasília. É a empresa que mais tem obras do PAC. Parte da de Cumbica, contratada sem licitação, desabou.

Por Reinaldo Azevedo

Dêem-me um só motivo razoável para a presidente Dilma Rousseff não demitir Carlos Lupi, seu ministro do Trabalho. Convenham: ele já não está mais na categoria dos demissíveis, mas dos enxotáveis.

É tão ridícula, é tão constrangedora, é tão absurda a situação desse ministro que não há alternativa possível: Dilma só fica com Lupi porque, por enquanto, demiti-lo provocaria mais estragos do que mantê-lo.

Até que ele próprio não seja convencido de que tem de sair ou que não lhe seja oferecida alguma boa compensação, ele fica. Empregando uma palavra de seu vocabulário e gosto pessoais, o fato é que ele tem “bala” para decidir se e quando vai sair.

Um governo que se estabeleceu do modo como se estabeleceu o do PT, desde a era Lula, cairia, um dia, vítima de alguma grande chantagem. Até agora, todos os aliados operaram com a contenção própria de pistoleiros da “realpolitik”: todos brigam muito, mas ninguém atira. Em 2005, quando um contrariado decidiu disparar — Roberto Jefferson —, nós vimos bem as conseqüências. Com um pouco mais de coragem das oposições, Lula teria sido impichado.

O deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), em entrevista concedida ontem ao Estadão, limitou-se à chantagem eleitoral. É pouco para manter Lupi. O ministro que afirmou que só sairia a bala — mas tinha de ser coisa grande… — é, no momento, dono de seu cargo. E tem um grande trunfo que lhe permite dizer a Dilma o que ela deve ou não deve fazer nesse particular.

Lupi, como se diz na minha terra, “de bobo, só tem o andado…”

Por Reinaldo Azevedo

O caso do ministro Carlos Lupi, do Trabalho, começa a jogar sobre o governo Dilma a sombra do ridículo, do patético. A Soberana tem sido, nestes quase 12 meses, bastante poupada de si mesma e de suas escolhas por boa parte da imprensa. Como se dá de barato que o chamado “presidencialismo de coalizão” conduz o governante a fazer, muitas vezes, coisas de que não gosta, então se entende que Dilma “herdou” uma gestão cheia de problemas e foi corrigindo as distorções ao longo do tempo.

Trata-se uma leitura certamente generosa, bondosa mesmo! Dilma tem, sim, de governar com os partidos, mas era forte o bastante para, se quisesse, ter operado algumas trocas já na largada. Que Carlos Lupi nunca foi, assim, de uma ortodoxa moralidade, até os vastos gramados de Brasília sabiam. No entanto, ela decidiu ficar com ele. O homem nunca lhe foi estranho. Foi seu correligionário de PDT e companheiro de ministério quando ela era a gerentona. Dilma o escolheu porque quis, e assim foi com os cinco outros demitidos em meio a acusações de lambança: Antonio Palocci, Alfredo Nascimento, Pedro Novais, Wagner Rossi e Orlando Silva.

Desta vez, Dilma decidiu resistir, e o Planalto conseguiu emprenhar boa parte do jornalismo político pelo ouvido. Tudo faria parte de uma grande estratégia para tirar o PDT na reforma ministerial. Substituir Lupi agora corresponderia a deixar o ministério nas mãos do partido, que indicaria o substituto. A desculpa me parece um tanto ridícula. Se a presidente quiser o apoio do PDT, terá de lhe dar um ministério — o do Trabalho ou outro. É claro que essa pasta é do especial agrado dos pedetistas por causa da Força Sindical, do deputado “Paulinho da Força” (SP), presidente da central.

Sim, Dilma gostaria de se ver livre de Lupi. Mas não há motivos para deixar de constatar o óbvio: ela ainda não o demitiu não porque não queira, mas porque não pode. Dessa forma, o homem não aceita! E deve ter bons motivos para impor a sua vontade e ainda fazer o governo cobrar explicações da… Comissão de Ética! É ridículo! O grupo nada mais fez do que expressar a perplexidade de toda gente. Até agora, lembrou a comissão, não se sabe nem quem pagou o tal jatinho em que o ministro viajara em companhia de um empresário que jurou não conhecer.

A cada dia, aquela fala agressiva de Lupi de que só sairia a bala e de que teria de ser uma “bala bem grande” porque ele é “pesadão” vai se mostrando menos bravata do que parecia. Os outros cinco ministros, vamos convir, caíram com muito menos evidências do que as que há contra o pedetista. Por que o tratamento com ele é diferente? Algumas pessoas que circulam na periferia da presidente sugerem que ela decidiu que a “imprensa não demitiria mais” mais ministros seus. Imprensa? O jornalismo nem contrata nem dispensa os auxiliares de Dilma. Ela é a responsável pela recondução de Lupi ao cargo e por sua permanência. A imprensa apenas noticia o que sabe. Se os fatos não ajudam a desenhar um perfil virtuoso do ministro do Trabalho, fazer o quê? Paciência!

Dilma bravinha
Os assessores palacianos da presidente que lidam com a imprensa mandaram espalhar que ela ficou chateada porque a Comissão de Ética vazou o seu parecer antes de falar com ela. Queria o quê? Trata-se de uma “Comissão de Ética Pública”, não de assessoramento privado da cidadã Dilma Rousseff. A mandatária, consta, quer que a comissão dê algumas explicações. Que parte da lambança de Lupi Dilma não entendeu até agora?

Escrevi ontem sobre a Lei da Ficha Limpa, e alguns leitores, não sei se “luperinos”, perguntam-me por que acho que a presunção de inocência não vale também para o ministro. Quem disse? Não estou pedindo que ele seja imediatamente enviado à cadeia por conta das acusações que há contra ele. Acho que ele tem de ser demitido de um cargo político, de confiança; é coisa completamente diferente. Não me parece que possa ser ministro de estado alguém que, de modo deliberado, conta uma inverdade numa comissão da Câmara, evidenciada depois por fotos, vídeos, testemunhos. Daria até para colher as impressões digitais do ministro no tal avião.

O governo Dilma não será caracterizado por grandes êxitos na economia — a maré não é das melhores — nem por sua operosidade. As denúncias de malversação de recursos públicos nas obras da Copa começam a tomar volume. Que sinal Dilma está emitindo?  Não há estratégia política que justifique a leniência com Lupi. O que vai ficando claro é que ele só sai se e quando quiser.

Parece que, de fato, a bala para derrubá-lo tem de ser muito grande, maior ao menos do que a bala que ele pode ter para disparar contra o governo.

Por Reinaldo Azevedo

Ou Lupi tem a bala no pente ou… “é o amooorrr”

Pelo andar da carruagem, se a Comissão de Ética recomenda a demissão de Carlos Lupi, há alguns procedimentos possíveis: cobrar mais explicações da comissão, como fez Dilma (!!!); ignorar o que diz o grupo ou, trabalho um pouquinho mais difícil, mudar o sentido da palavra ética.

Lupi esteve com Dilma, e ela decidiu pela sua sobrevida. “O ministro esteve aqui, conversou com a presidenta e disse que também vai oficiar à Comissão de Ética pedindo os elementos da decisão; acho que inclusive a ata, a degravação da reunião…Todos os elementos do processo para recorrer, pedir reconsideração”, afirmou Helena Chagas, da Secretaria de Comunicação.

Entendi. Quem tem de se explicar é a Comissão de Ética!

Imprensa generosa
A imprensa tem sido generosa com a Soberana. Os Gilbertos Carvalhos e arredores ficam inventando supostas estratégias mirabolantes para justificar a permanência de Lupi. A explicação, em síntese, seria esta: se Dilma o demite agora, obriga-se a manter o Trabalho nas mãos do PDT; se deixa para a reforma, pode apear o partido de lá… Coisa de Maquiavel de sacristia.

Vênia máxima, não passa de uma cascata! A situação do ministro é tão vexaminosa que mantê-lo significa o óbvio: condescender com a maior soma de lambanças de um só ministro, mesmo considerando o grupo que já foi pra rua.

Fica evidente que Lupi tem o poder de decidir a hora de sair. Até que não se convença disso — vai acabar acontecendo —, fica lá. E só age com esse despudor quem tem uma carta na manga. Ou uma bala no pente.

Ou é isso ou “é o amooorrrr”.

O resto é conversa mole.

Por Reinaldo Azevedo
Da coluna Direto ao Ponto de Augusto Nunes:

O ministro fora-da-lei conseguiu ser condenado pela comissão que absolve até serial killer de filme americano

As reuniões mensais da Comissão de Ética Pública da Presidência da República sempre mereceram dos inquilinos do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios a mesma atenção que os hóspedes de um presídio de segurança máxima dispensariam às aulas de  um curso de boas maneiras. Nenhuma. Desde a sessão inaugural ocorrida em 2000, os sete integrantes do grupo jamais conseguiram enxergar bandidos por perto. Se não viram nada de mais no que fizeram os cinco ministros despejados por envolvimento em falcatruas denunciadas pela imprensa, certamente enxergariam no prontuário de Carlos Lupi uma folha de serviços prestados à nação, certo? Errado, descobriram nesta quarta-feira os padrinhos e comparsas do ministro do Trabalho.

Enquanto a comissão tratava do caso numa sala do Anexo 1 do Planalto, os participantes da ofensiva dos cafajestes davam por consumada a condenação de Lupi à impunidade perpétua. “É preciso acabar com essa onda de denuncismo”, decidiu José Dirceu. “Denuncismo hipócrita”, sublinhou o decano dos jornalistas estatizados. Um colunista federal lembrou que Dilma é “incorruptível”. Rui Falcão, presidente do PT, caprichou na pose de magistrado para emitir seu parecer: “Vendo o teor das denúncias, não vi razão para substituí-lo. Não tem nenhuma denúncia comprovada”. Gilberto Carvalho concordou: “O Lupi continua ministro, a vida segue. Para nós, o assunto está encaminhado”.

A conversa fiada foi para o espaço no fim da tarde, quando o canastrão apaixonado conseguiu ser declarado fora-da-lei pelo que parecia, até agora, o júri dos sonhos de qualquer serial killer de filme americano. Por unanimidade, a comissão presidida pelo jurista Sepúlveda Pertence, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, decidiu pedir a Dilma Rousseff a pronta exoneração do canastrão apaixonado. A decisão foi tomada depois de examinadas as explicações oferecidas por Lupi para as irregularidades registradas em convênios celebrados com ONGs e entidades sindicais. “As explicações não foram satisfatórias”, resumiu Pertence. “Houve uma resposta inconveniente para um ministro de estado”.

Nesta quinta-feira, antes de embarcar rumo à Venezuela, Dilma ordenou à chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que solicitasse da comissão o envio dos “elementos que embasaram a decisão e a sugestão encaminhada à Presidência”. Sepúlveda deveria recomendar a Dilma a leitura dos jornais e revistas, ou perguntar-lhe se quer informações sobre os convênios ilícitos ou também gostaria de conhecer melhor a história do funcionário fantasma. Em vez disso, fingiu ver na manobra protelatória um sinal de interesse. Deveria ter-se demitido imediatamente. Preferiu renunciar à vergonha.

Dilma repetiu que vai resolver o problema sem pressa. Soterrada por provas e evidências contundentes de que Lupi é um criminoso comum, quer arrastar o morto-vivo até janeiro, quando deverá ocorrer o que os paspalhos do Planalto batizaram de “reforma ministerial”. Se o quadrilheiro do PDT continuar no emprego, dezembro de 2011 será lembrado como o mês em que o respeito à lei e aos códigos morais foi oficialmente revogado pela presidente da República.

(por Augusto Nunes)

O vídeo prova que Dilma fica desolada quando o governo perde um corrupto

O guerrilheiro aposentado José Dirceu não sabe distinguir o pente de uma Mauser de um pente Flamengo, e acha que o cão do Colt 45 é uma raça de cachorro. Mas faz quase 50 anos que atira na verdade sem jamais errar o alvo. Vê pecadores em quem não tem culpa no cartório, absolve liminarmente bandidos de nascença, solta rajadas de mentiras com a perícia de um fuzileiro naval americano. Foi o que fez Dirceu neste fim de semana, na entrevista ao jornal espanhol El País.

Empunhando a metralhadora imaginária em defesa dos seis ministros desempregados por envolvimento em patifarias diversas, o trapalhão vocacional acabou disparando uma verdade de grosso calibre: “Dilma se viu obrigada, contra sua vontade, a prescindir de seus ministros”, constatou. Todo 171 sabe reconhecer um colega de ofício. Uma faxineira de araque não engana um guerrilheiro de festim. E ambos sabem que uma dilma tem tanto apreço por códigos éticos quanto um dirceu.

O discurso de posse da presidente somou 3.612 palavras. As mais citadas foram “brasileiras” e “brasileiros” (17 vezes). “Corrupção” ficou numa só menção. O falatório durou 40 minutos. Dilma precisou de 11 segundos e 21 palavras para liquidar a questão da roubalheira desavergonhada: “Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente”. Passados 11 meses, teve seis chances para mostrar ao país que fora sincera. Desperdiçou-as todas.

O vídeo de 2min39 editado pela repórter Fernanda Nascimento, do site de VEJA, é um documento tão penoso quando revelador. Curto e contundente, começa e termina com o trecho do discurso de posse em que o combate à corrupção apareceu pela primeira e última vez num palavrório presidencial. A fantasia recitada em 11 segundos é destroçada por cenas que registram as despedidas de Antonio Palocci, Alfredo Nascimento, Wagner Rossi, Pedro Novais e Orlando Silva. A sexta chance atirada ao lixo continua homiziada no Ministério do Trabalho.

Como admite Dirceu e o vídeo comprova, Dilma não demitiu ninguém. Depois de fazer o que pôde e o que não podia para livrá-los do castigo merecidíssimo, aceitou desolada o pedido de demissão que os pecadores redigiram depois de perdida a esperança de salvação. Se pudesse, manteria por perto todos os parceiros que afrontaram o Brasil decente com o espetáculo da bandalheira impune. No Palácio do Planalto, corrupção deixou de ser crime. É garantia do que os donos do poder chamam de “governabilidade”. É esse o novo nome da velha bandidagem sem perigo de cadeia.

(por Augusto Nunes).

Por Cida Alves, na VEJA Online:
O empresário Marcos Valério foi preso na madrugada desta sexta-feira, em sua casa na região da Pampulha, em Belo Horizonte, na Operação Terra do Nunca, do Ministério Público da Bahia (MP-BA) e da Polícia Civil. De acordo com informações dos promotores de Justiça da Bahia George Elias Gonçalves Pereira e Carlos André Milton Pereira, o empresário cometeu fraude documental e formação de quadrilha. Também foram presos três sócios de Valério: Ramon Cardoso, sócio na empresa SMP&B, e Francisco Castilho e Margareth Freitas, sócios na DNA Propaganda.

Segundo o MP-BA, Valério atuava em conjunto com advogados e oficiais de cartório na falsificação de documentos públicos, criando matrículas de imóveis inexistentes. Esses documentos eram entregues como garantia no pagamento de dívidas das empresas de Marcos Valério. As fraudes vieram à tona em 2005, quando foram iniciadas as investigações pela Polícia Civil, que envolvem dez inquéritos policiais.  Neste mesmo ano foi revelado o envolvimento de Valério no esquema do mensalão, para pagamento de propina a parlamentares da base aliada do governo Lula. O empresário era operador do esquema e é réu na ação do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o caso.

O advogado de defesa de Marcos Valério, Sérgio Leonardo, nega ligação direta entre a prisão desta sexta-feira e o processo do mensalão. “Acontece que desde que explodiu o mensalão, começaram a investigar todas as atividades que tenham uma suposta participação do Marcos Valério. E os assuntos relacionados a ele ganham um rigor maior por parte do judiciário”, disse.

Na operação, estão sendo cumpridos 23 mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em Minas Gerais e nos municípios de Barreiras, Santa Maria da Vitória e São Desidério, no oeste baiano. Na Bahia, a operação é realizada com o apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) e, em Minas Gerais, com a participação do MP estadual e da Polícia Civil. Um avião do governo da Bahia deve levar os presos em Belo Horizonte para Salvador ainda nesta sexta-feira.

Defesa
O advogado de Marcos Valério, Sérgio Leonardo, disse que teve acesso apenas às informações preliminares da promotoria do caso. Mas adiantou que considera a prisão ilegal e desnecessária. Segundo ele, os papéis falso a que se refere o Ministério Público estariam relacionados a uma fraude contra o INSS.   “São papéis que, segundo a acusação, o Marcos Valério teria apresentado como garantia de pagamento de dívidas trabalhistas da DNA Propaganda”, disse. “Há cerca de três anos ele foi chamado na Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais para prestar esclarecimento sobre o assunto, compareceu e negou seu envolvimento nessas acusações. Isso é assunto velho”.

Terras da União
O esquema esquema de que participava o empresário Marcos Valério, preso na manhã desta quinta-feira, incluía até a falsificação de documentos para que ele aparecesse como proprietário de terras na Bahia que na verdade pertencem à União, informou o Ministério Público Estadual da Bahia (MP-BA). Com a colaboração de advogados e oficiais de cartório, o empresário também conseguiu adquirir terrenos em São Desidério, no oeste do estado, por meio de documento irregulares, o que caracteriza crime de grilagem.

Além disso, há registros em nome de Valério de imóveis que não existem. Todas essas propriedades eram apresentadas pelo empresário como garantia no pagamento de dívidas. Três sócios do empresário participavam do esquema: Ramon Cardoso, sócio na empresa SMP&B, e Francisco Castilho e Margareth Freitas, sócios na DNA Propaganda. Todos foram presos nesta sexta.
(…)
Os acusados respondem por falsificação de documentos e formação de quadrilha. Todos devem ser levados no fim da tarde desta sexta-feira para Salvador.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

Por Cecília Ritto e Leslie Leitão, na VEJA Online:
Andréa Gouvêa Vieira certamente não tinha conhecimento do outro lado de William. Nem ela nem o vice-governador Luiz Fernando Pezão; o governador Sérgio Cabral; o senador Marcello Crivella (PRB); o apresentador de TV Luciano Huck; a presidente Dilma Rousseff; o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o tenista Gustavo Kuerten, o ator americano Ashton Kutcher e uma infinidade de pessoas que, em algum momento, abraçaram William À mesa, com o traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, dois homens conversam, um deles exibe um fuzil AK-47 - uma arma de guerra, comumente vista nas cenas de conflitos no Afeganistão. É um armamento cobiçado por traficantes das favelas cariocas, pelo qual os criminosos pagam bem. Ao fundo, crianças brincam em uma quadra. Os dois interlocutores do traficante Nem são William de Oliveira, o William da Rocinha, lotado no gabinete da vereadora Andréa Gouvêa Vieira (PSDB), e Alexandre Leopoldino Pereira da Silva, o ‘Perninha’ - lotado na Casa Civil do Governo do Estado, como segurança do Palácio Guanabara, sede do governo. Um quarto homem, tesoureiro de Nem, ainda não identificado, organiza bolos de dinheiro.

Os quadros do vídeo, exibidos pela Polícia Civil, mostram que, em certo momento, Nem confere a soma, passa o elástico e entrega uma bolada a Perninha. Outra bolada vai para William, que se põe a contar as cédulas.

O vídeo obtido pela Polícia Civil do Rio levou à prisão, na manhã desta sexta-feira, o homem que, na Rocinha, era tão famoso quanto o bandido Nem. A diferença é que William também era conhecido - e respeitado - fora dos limites da favela. E, a julgar pelas imagens que ele próprio exibe em sua página no Facebook, o conceito de líder comunitário comprometido com as causas da população da Rocinha convencia autoridades e famosos de diferentes segmentos.

William foi preso em sua casa, na Rocinha, por policiais da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA). Na casa foram encontrados, entre outros itens, 10 telefones celulares. Documentos e arquivos de computador foram recolhidos para perícia.

Na apresentação do caso e do próprio William, na manhã desta sexta-feira, a chefe de Polícia Civil do Rio, Martha Rocha, fez um agradecimento às mulheres da Rocinha. A versão oficial para a forma como a polícia obteve o vídeo é a seguinte: “Minha fala será particular para as mulheres da Rocinha. Durante a ocupação, as forças de segurança pediram para que as informações fossem passadas para a polícia. Eu particularmente pedi isso às mulheres. Uma mulher procurou um delegado e entregou o material que permitiu a prisão do William”, contou. O vídeo, segundo Martha Rocha, estava em um DVD, entregue ao delegado.

Além da prisão de William e de Perninha - ainda procurado - o vídeo permitiu que a Polícia Civil obtivesse outra vitória importante. A prova representa mais um indiciamento contra o traficante Nem, e, para o delegado Márcio Mendonça, da DRFA, é prova “forte e segura” de que Nem comandava o tráfico no local. Na prática, isso representa chance de uma condenação mais dura contra o traficante, e dificulta uma tentativa da defesa de tirá-lo da cadeia, antes do julgamento.

“Deu para perceber que ele, William, estava negociando a arma e recebendo o pagamento. Instauramos o inquérito e a prisão temporária dele está expedida. Os três foram indiciados por venda de armas e associação para o tráfico de drogas”, explicou Mendonça.

A prisão de William serve para desanuviar um cenário que, particularmente no Rio, costuma ser nebuloso: os limites das relações entre “lideranças comunitárias” e o tráfico de drogas. Tais líderes, reconhecidos por seu poder de barganha com os traficantes, acabam ocupando uma posição confortável no vácuo deixado pelo poder público. Mediante ações assistencialistas, intercedendo junto às quadrilhas e até decidindo alocação de recursos obtidos ilegalmente, criam fama, angariam simpatia. Não raro, lançam-se na política - com aval do crime organizado.

Contra William, o que se tem, no momento, é a acusação. E um vídeo que parece ser indefensável: ainda que não estivesse vendendo o fuzil para o bandido, ele terá que explicar como aceitou receber um maço de dinheiro e sentou, longamente, à mesa com o criminoso armado. Na apresentação à polícia, William tentou se defender. “Foi uma armadinha. Eu já tinha ciência dessas imagens, que foram gravadas um dia antes da eleição (outubro de 2010). Minha família e a vereadora não sabem disso”, disse William, que afirma ter se sentido ameaçado. O dinheiro, segundo William, foi dado como contribuição para sua campanha à Assembléia Legislativa, pelo PRB. No momento, segundo William, Nem estava embriagado, e por isso ele aceitou a quantia, que depois - diz ele - foi devolvida.

A vereadora Andrea Gouvêa Vieira saiu em defesa de William no início da manhã. Pôs em dúvida a investigação da polícia. A partir da exibição de quadros do vídeo, Andréa mudou de discurso: afirmou estar “absolutamente estupefata” e sentindo-se traída. “Eu sou a responsável pela nomeação. Ele gozou da minha confiança. Várias vezes, tentei convencê-lo a sair da Rocinha, por causa das ameaças que ele dizia receber do tráfico”, afirmou. “Essas imagens são contrárias a toda a convicção que eu tinha sobre ele até aqui”, disse.

Andréa, certamente, não tinha conhecimento do outro lado de William. Nem ela nem o vice-governador Luiz Fernando Pezão; o governador Sérgio Cabral; o senador Marcello Crivella (PRB); o apresentador de TV Luciano Huck; a presidente Dilma Rousseff; o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o tenista Gustavo Kuerten; o ator americano Ashton Kutcher e uma infinidade de pessoas que, em algum momento, abraçaram William.

A Rocinha inteira, aliás, abraçou a imagem de líder comunitário. Duas semanas depois da ocupação da favela, a reportagem do site de VEJA percorreu as ruas da Rocinha. Estavam lá o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) e integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O guia da comitiva era William, a quem a população se dirigia como quem falava com o poder público - apesar de não ser mais o presidente da Associação de Moradores da Rocinha. Cobravam dele melhorias no recolhimento de lixo, no saneamento, na contenção de encostas.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

Escrevi anteontem um post criticando a aprovação, em primeira votação, no Senado, de um Emenda Constitucional que torna obrigatório o diploma de jornalista. Minha Nossa Senhora de Forma Geral!!! — para citar a “deusa” da devoção de Dilma Dilma Russeff (os novos leitores, e há milhares, podem clicar, mais tarde, aqui para entender o gracejo). O jornalismo seria a única profissão regulamentada na Constituição! A Carta não exige diploma nem de ministro do Supremo (Art. 101). E olhem que há um ou dois que, com efeito… Mas deixo isso pra lá agora. Tornar a regulamentação de uma profissão matéria constitucional é de um ridículo constrangedor.

Alguns leitores ficaram bravos. “Precisa de diploma pra médico? Pra engenheiro? Por que não pra jornalista?” O grande neurocirurgião Marcos Stavale, por exemplo, que abriu a minha cabeça, deve ter diploma, hehe. Não pedi pra ver… A reputação, justíssima!, era gigantesca. Confiei a ele o que tinha de mais precioso depois da Pipoca Maria Corintiana da Silva. Eu não entraria num túnel projetado e executado por curiosos. Alguns engenheiros já dão trabalho, né?… Há profissões que requerem tal aprofundamento técnico e  lapidação de eventuais talentos naturais que seria uma temeridade permitir que as pessoas a exercitassem sem a mais rigorosa e vigiada formação acadêmica. Bem, queridos, com o jornalismo, é diferente. Vamos ver.

Ah, o odor nauseabundo que emana do corporativismo bocó, mas muito eficaz em manter os próprios aparelhos e privilégios. O presidente da Federação Nacional dos Jornalista (Fenaj), Sérgio Murilo, afirma que algumas pessoas que pediram registro de jornalista nunca pisaram numa redação. É mesmo? Se for assim, então elas já podem disputar a direção da Fenaj. Afinal, a maioria dos dirigentes sindicais não saberia a diferença entre um lead e uma touceira.

À diferença do que sustentam alguns energúmenos, sou jornalista “depromado”. Até hoje, não há uma miserável coisa que eu tenha feito na minha profissão — e não posso reclamar da escolha — que me tenha sido dada ou ensinada pelo curso de jornalismo: NADA! ZERO! Já o curso de letras, penso eu, foi essencial para mim — como é o de medicina, arquitetura, direito, culinária etc para outros jornalistas. Sempre destacando que há os que não cursaram coisa nenhuma e fazem um trabalho brilhante. E há pessoas brilhantes que fizeram jornalismo.

A profissão requer duas coisas, além de formação intelectual — que os cursos de jornalismo não fornecem porque passam boa parte do tempo ocupados em “desconstruir” os grandes veículos onde a meninada vai trabalhar depois… Jornalismo requer talento para a narrativa  mesmo a jornalística tem de ter enredo  e um conjunto de procedimentos técnicos, alguns deles ligados à ética da profissão. E é preciso ter algo parecido com intuição, mas que é só questão de inteligência: saber onde está a notícia. Vale dizer: cedo ou tarde, um jornalista tem de ler A Cartuxa de Parma, de Stendhal  ou vai acabar tratando um evento histórico como buraco de rua. Quem ensina isso? A faculdade de jornalismo???

Talento, lamento!, não se ensina. No máximo, ele pode ser lapidado. Nem todo mundo tem aptidão para a pintura, a música ou a dança. Com o texto, é a mesma coisa. Há gente que não nasceu para viver da escrita  e um jornalista tem de saber escrever, o que a faculdade não ensina. A lapidação se dá no exercício. O que boa parte dos cursos de jornalismo tem feito, aí sim, é distorcer a profissão. Transformaram-se, com raras exceções,  em extensões do “partido”. Professores se dedicam mais a falar do “outro mundo possível” do que a ensinar como se faz um lead neste nosso mundinho imperfeito mesmo.

Qual é, afinal, o objeto de um curso de jornalismo? Economia? Política? Sociologia? Semiótica? O quê? Resposta: um pouco de tudo isso e nada disso, mas com muitas virgulas entre sujeito e predicado… Se a exigência do diploma já era, do ponto de vista democrático, estúpida, agora se tornou incompatível também com as modernas tecnologias a serviço da informação. Quem poderá impedir, sem violentar a Constituição, um veículo jornalístico de abrigar, por exemplo, um blogueiro que tenha o que dizer, seja ele jornalista “depromado” ou não? Vão plantar batatas para colher Imposto Sindical, senhores corporativistas!!!

Que a Fenaj defenda essa excrescência, eis uma coisa que faz sentido. A entidade lutou arduamente em favor da criação do Conselho Federal de Jornalismo, que era um verdadeiro órgão de censura. Poderia até, imaginem!, cassar a licença de um jornalista. E se apresentou, espertos os caras!, para compor a primeira diretoria… O amor dessa gente pela profissão me comove. Contenho aqui uma furtiva lágrima…

Inconstitucional
Só para lembrar: o STF derrubou a exigência do diploma porque ele foi considerado incompatível com o princípio da liberdade de expressão assegurado pela Carta. No caso, tratava-se de uma lei que afrontava o dispositivo constitucional; agora, é uma emenda.

E a proposta não deixa de ser inconstitucional porque emenda — afinal, o Artigo 5º da Carta continua no mesmo lugar, a saber:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
(…)
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
(…)
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

Com alguma ironia, observo que, freqüentemente, tenho dúvidas se o jornalismo é mesmo uma “atividade intelectual”, mas tenho a certeza de que é uma “atividade de comunicação”. E não depende de “censura ou LICENÇA”.

Fim de papo.

PS - Se a Constituição, agora, vai abrigar regulamentação de profissão, por que só jornalismo? E as outras? O Ministério do Trabalho tem um código específico até para a prostituição, destacando os, digamos, requisitos para tal atividade. Imagino a questão tratada naquele que deve ser o nosso documento com sentido de permanência, naquela linguagem decorosa do legalismo: “O exercício das atividades intrafemurais obedece aos princípios do… Sei lá: “do contratante da mão-de-obra”? A boçalidade brasileira é ainda mais extensa do que suas praias…

Voltei
O trecho que vai em azul foi publicado neste blog no dia 14 de julho de 2010. Ali faço uma piada com a regulamentação do “Profissional do Sexo”, que chegou a ser proposta no Brasil. No Catálogo das Profissões do Ministério do Trabalho, era a de nº 5.149. Escrevi um post  post sobre o assunto no dia 12 de março de 2007. A repercussão foi tal que o Ministério do Trabalho, então ocupado por Luiz Marinho, decidiu retirar o texto do site. A sede burocratizante do país é tal — somada a certa propensão para o vale-tudo — que uma página oficial, de um ente do Estado brasileiro, se atrevia a ensinar uma prostitua e um prostituto  o seu trabalho. Eu juro!

O Ministério fazia o que chamava uma “Descrição Sumária da atividade. Assim:
“Batalham programas sexuais em locais privados, vias públicas e garimpos; atendem e acompanham clientes homens e mulheres, de orientações sexuais diversas; administram orçamentos individuais e familiares; promovem a organização da categoria. Realizam ações educativas no campo da sexualidade; propagandeiam os serviços prestados. As atividades são exercidas seguindo normas e procedimentos que minimizam as vulnerabilidades da profissão.”

Notaram o sotaque sexual-esquerdopata?

O Ministério ensinava até o que era “batalhar um programa”, a saber:
Agendar a batalha
Produzir-se visualmente
Aguardar no ponto (esperar por quem não ficou
de vir)
Seduzir com o olhar
Abordar o cliente
Encantar com a voz
Seduzir com apelidos carinhosos
Conquistar com o tato
Envolver com o perfume
Oferecer especialidades ao cliente
Reconhecer o potencial do cliente
Dançar para o cliente
Dançar com o cliente
Satisfazer o ego

Encerro
É… Cheguei à conclusão de que certo subjornalismo errou o número do Catálogo. Está na “Atividade 5.149″… Afinal, trata-se de uma gente que, diante dos poderosos, “agenda a batalha, seduz com apelidos carinhosos, oferece especialidades ao cliente e dança para ele e com ele”.

Por Reinaldo Azevedo

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Blog Reinaldo Azevedo

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