Altas temperaturas e seca ameaçam cafeicultura na Bahia e no Brasil

Publicado em 26/02/2013 08:44 589 exibições
A cafeicultura na Bahia vive o momento mais difícil de sua história, e não apenas pelos preços baixos do café especial, hoje em torno de R$320 a saca de 60kg. É a seca, que se arrasta desde a safra passada, que tira o sono dos cafeicultores, sobretudo da Chapada Diamantina. Os problemas climáticos serão abordados no 14° Simpósio Nacional do Agronegócio Café – Agrocafé, que será realizado de 11 a 13 de março, no Hotel Bahia Othon Palace, em Salvador. O painel “As alterações Climáticas e seus efeitos no Agronegócio Mundial é um dos mais aguardados do evento, e acontecerá no primeiro dia do Agrocafé, das 17h30 às 18h30, ministrado pelo pesquisador da Embrapa, ex-secretário de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente e membro do Comitê Científico do Painel Brasileiro de Mudanças do Clima, Eduardo Assad.

De acordo com o presidente da Associação Baiana dos Produtores de Café – Assocafé, João Lopes Araújo, o risco de abandono da atividade por muitos produtores é iminente. “Esta seca é a mais severa da história da Bahia e o agricultor está sofrendo demais. Ainda que acabasse hoje, o problema se estenderia por pelo menos mais uma safra. É preciso um trabalho grandioso e imediato de liberação de crédito para recuperação dos cafezais”, afirma Araújo.

A necessidade de programas emergenciais de apoio à cafeicultura é uma das prioridades da Secretaria de Agricultura do Estado da Bahia, e, segundo o secretário Eduardo Salles, o Agrocafé será fundamental neste momento para discutir com o Governo saídas para o problema. “O estado é o quarto maior produtor nacional de café, e esta é uma das atividades que mais empregam mão- de-obra no campo. Estamos trabalhando com as instituições financeiras para a disponibilização de linhas de crédito específicas para socorrer o cafeicultor neste momento de crise”, afirmou o secretário.

Abortamento de flor

Se há muito os agricultores não vivenciavam uma seca calamitosa no estado, há pelo menos 15 anos a Embrapa alerta para o problema. Aproximadamente 300 cientistas se dedicam ao tema ao tema na instituição. “Estamos chamando a atenção das autoridades para a subida da temperatura”, diz o pesquisador Eduardo Assad. Segundo ele, o café é uma das culturas mais vulneráveis ao problema, precedido apenas pelo milho e pela soja. Depois dele, vêm arroz e feijão. Todos essas culturas são básicas na alimentação do brasileiro. As altas temperaturas provocam o abortamento da flor do cafezeiro, impedido que elas gerem o fruto, que é o próprio café. Pelos estudos da Embrapa, iniciados em 2000, o café arábica é mais o vulnerável à seca. Já o robusta é mais resistente. Segundo Assad, de 1960 até hoje, a temperatura no planeta subiu um grau centígrado, resultado que se deve em grande parte ao aumento da concentração de gases de efeito estufa.

“Quando o aumento de temperatura encontra a falta de água, temos o pior dos mundos. O impacto do aumento da temperatura no agronegócio brasileiro vai demandar uma revisão da geografia da produção”, informa. Segundo Eduardo Assad, muitas dessas culturas vulneráveis já estão migrando para regiões mais altas, onde a temperatura é mais baixa.

A solução está no Nordeste

A Embrapa e outras instituições, como a Unicamp, estão trabalhando no desenvolvimento de variedades geneticamente adaptadas de café, tolerantes à seca e ao calor. E, de acordo com o pesquisador, a solução para o problema vem justamente do Nordeste. “No semi-árido, temos espécies nativas com alta tolerância à seca e elevadas temperaturas, que devem ser estudadas, pois suas características genéticas podem ser aproveitadas nas outras culturas. Desde 2007, a Embrapa Café vem desenvolvendo pesquisas buscando variedades de mais tolerantes à deficiência hídrica e também a altas temperaturas”, afirma o pesquisador.

“Seguimos três caminhos na busca de soluções. Avaliamos a vulnerabilidade da cultura, estudamos as técnicas de mitigação do problema, como, por exemplo, o sombreamento, e pesquisamos e desenvolvemos cultivares tolerantes”, conclui Eduardo Assad.

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AI Agrocafé

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