Produtor de frutas em Baraúna amarga prejuízos após lucros extraordinários

Publicado em 17/01/2011 08:21 650 exibições
O município de Baraúna, distante 40 quilômetros de Mossoró, tem quase 24 mil habitantes, sendo que mais da metade trabalha e mora na zona rural, conforme dados do IBGE. E é um bom lugar para morar. Tem o solo mais fértil que a ciência tem conhecimento do país, um aquífero no subsolo vigoroso e uma insolação ideal para agricultura irrigada.

O principal produto é o melão. Apesar da redução de 50% na produção, em 2010 foram exportadas 800 mil toneladas. O segundo produto é o mamão, que também reduziu pela metade em 2010, atingindo uma produção superior a 70 mil toneladas. Mas o produto que mais chama atenção em Baraúna, no momento, é a cebola. Isto mesmo, a cebola que dá o sabor na comida.

A produção começou tímida, em 2003, através de um grupo de onze agricultores. Os onze fundaram a Associação de Agricultura Familiar de Primavera, pegaram R$ 155 mil emprestados para comprar duas propriedades e outros R$ 160 mil para estruturar as áreas. O negócio deu certo e cresceu rápido, tão rápido quanto o número de outros agricultores que passaram a plantar cebola.

Em 2010, a fome de produzir ultrapassou a capacidade do mercado de absorver a produção. Resultado: prejuízo coletivo e dos grandes. Os produtores estão com os armazéns cheios de cebolas já começando a apodrecer. Alguns não colheram ainda, mesmo com o início das chuvas, que certamente vai estragar a produção. Outros estão nas margens do RN 015 com sacas e mais sacas de cebola oferecendo a preço de custo, ou seja, algo em torno de R$ 5,00.

O estranho observado é que os produtores de cebolas não estão fazendo cara feia, mesmo com o prejuízo que vai de R$ 50 mil a meio milhão de reais, calculado conforme a área plantada e produção negociada. Os produtores, ao invés de chorar com a cebola estocada ou se perdendo nos canteiros, estão é sorrindo, ainda comemorando o lucro que obtiveram em 2009.

Depois do inverno de 2009, os agricultores haviam plantado uma área de 700 hectares e negociado a saca de cebola por valores que variou, conforme a época e o produto, de R$ 12,00 a 40,00. Para quem investiu R$ 5,00 para produzir uma saca, o lucro foi extraordinário. A fome de ganhar mais e mais, levou-os a ampliar a área plantada em quase quatro vezes, resultando em prejuízo.

Não existe ainda um cálculo nem aproximado do tamanho do prejuízo dos plantadores de cebola em 2010. Segundo explica o produtor Lourenço Santos da Costa, o César, por dois motivos: primeiro por ser grande a quantidade de pequenos e grandes produtores e pelo fato da safra ainda estar em andamento. O técnico agrícola Francisco Girolando de Freitas, do Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), atesta que o prejuízo será grande, mas também diz ser quase impossível se calcular valores diante do quadro.

Associação se destaca no PNCF

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) tem aproximadamente 300 áreas de assentamento no Rio Grande do Norte. Poucos ou nenhum cumprem com o seu papel social, ou seja, melhorar a vida no campo. O mesmo não se pode dizer com relação ao Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF). O RN, segundo o ex-diretor nacional do programa, Marlon Barbosa, se destaca como referência nacional.

E foi exatamente o PNCF que fez toda a diferença na vida de pelo menos 11 famílias na comunidade de Primavera, perto da área urbana de Baraúna. Um desses onze pais de família é o agricultor Lourenço Santos da Costa, de 46 anos, semianalfabeto, casado, pai de duas filhas, da localidade de Primavera. “No início eu só tinha força e vontade de trabalhar e hoje tenho casa boa, carro do ano (Corsa Sedan), duas motos, casa na cidade de Baraúna e uma propriedade pessoal, além dos bens que tenho em parceria com o sócio Francisco Laci Bezerra”, diz.

Para conseguir o patrimônio e relativa melhora na qualidade de vida, César, como é conhecido Lourenço em Baraúna, conta que ele e outros 10 pais de família fundaram a Associação de Agricultores Familiares de Primavera (AAFP) em 2003. Depois apresentou a proposta de compra e estruturação de duas propriedades à Secretaria de Estado de Assuntos Fundiários e de Apoio à Reforma Agrária (Seara), do Governo do Estado do Rio Grande do Norte.

A proposta foi aprovada e os agricultores foram encaminhados ao Banco do Nordeste para ter acesso aos recursos para pagar as duas propriedades, no caso R$ 95 mil para uma e R$ 60 mil para outra. Ficam próximas. Os agricultores pegaram emprestado mais R$ 160 mil para investir na abertura de estradas, comprar máquinas, sementes, construção de casas, contratar apoio técnico, perfurar poços, entre outros. Os empréstimos foram feitos com 3 anos para começar a pagar.

Segundo César, a proposta de cultivo foi a cebola. Inicialmente numa área de 1 hectare. O primeiro ano não foi bom. Em 2004, foram plantados dois hectares e os agricultores ficaram no prejuízo de novo, mas em 2005 o negócio deu certo. Rendeu lucro que cobriu os prejuízos iniciais. Em 2006, já foram plantadas 6 hectares e novamente o lucro foi bom, permitindo que os agricultores pagassem com tranquilidade a primeira parcela do empréstimo ao BNB.

Nos anos de 2007 e 2008 foi de crescimento. Os lucros foram muito além do esperado. Os produtores cresceram, compraram mais tratores, mais máquinas e ampliaram a área de seleção e empacotamento de cebola. Com produto de boa qualidade, avançaram no mercado. Passaram a enviar cebola até para a região Norte do país. As parcelas do empréstimo no BNB foram pagas religiosamente em dia, o que fez os agricultores ganharem descontos nos anos de 2009 e 2010.

E foi em 2009 que os onze membros da AAFP conseguiram o maior lucro. Plantaram 28 hectares e o que colheram foi suficiente, se quisessem quitar o empréstimo no BNB. “Mas os mais experientes, como Francisco Laci, orientou aos demais a investir em propriedades e casas como forma de garantir o futuro da família e continuar pagando as parcelas normalmente”, conta César, mostrando com orgulho a casa que construiu e as plantações de cebola.

Francisco Laci tinha razão. Em decorrência do lucro que tiveram plantando cebola, centenas de outros agricultores entraram no negócio e, em 2010, as onze famílias da Associação de Primavera só não tiveram prejuízo maior porque são organizados e já tinham clientes fixos no mercado. Eles plantaram 35 hectares de cebola, num universo de 2,5 mil hectares cultivados no município. Mas poucos ligaram para o prejuízo em 2010, pois o lucro de 2009 cobriu tudo, ou seja, deu para pagar a parcela do BNB e se preparar para produzir em 2011.

Envolvimento das famílias faz o diferencial

O Programa Nacional de Crédito Fundiário, segundo o secretário Gilberto Jales, da Secretaria de Estado de Crédito Fundiário e Apoio à Reforma Agrária (Seara), assim como fez com a família de César, em Baraúna, já mudou a vida de milhares no Rio Grande do Norte.

Somente em 2010, havia previsão de providenciar terra para pelo menos 900 famílias. No período de 2003 a 2008, centenas foram beneficiados, não só com a compra da propriedade, mas também aqueles que precisavam do título da terra, como na Serra do Mel. “Eu não sei ainda informar se essa meta de assentar 900 famílias em 2010 foi alcançada. Estamos levantando estas informações assim como estamos fazendo uma projeção de investimentos para 2011/2012. A governadora quer ampliar”, destaca Gilberto Jales.

O secretário disse que através do PNCF, a família tem mais chances de se desenvolver do que nos assentamentos normais. Ele disse que as pessoas têm acesso ao crédito para comprar a terra e outro a fundo perdido para infraestrutura. No projeto já está previsto o apoio técnico para o produtor. “Dá certo porque existe o envolvimento do grupo na formação e fundação da associação e na execução dos projetos”, explica Jales.

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Fonte:
Tribuna do Norte

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