Desespero se transforma em indignação por rompimento de barragem da Vale e número de mortos chega a 60

Publicado em 28/01/2019 15:15 e atualizado em 29/01/2019 09:37
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BRUMADINHO, Minas Gerais (Reuters) - A dor pelas centenas de pessoas desaparecidas devido ao rompimento da barragem de mineração da Vale em Brumadinho (MG) se transformou em um sentimento de indignação para familiares das vítimas e políticos, que acusam a empresa e as autoridades públicas de não terem aprendido nada com a tragédia de Mariana (MG).

O tenente-coronel Flávio Godinho, coordenador da Defesa Civil de Minas Gerais, informou agora à tarde que  para 65 o número de mortes confirmadas após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG) e ainda existem 279 pessoas desaparecidas. É pequena a chance de serem encontradas com vida.

Godinho disse que o número de pessoas resgatadas se manteve em 192. Entre os óbitos, 31 corpos foram identificados.

As ações da Vale despencavam 23 por cento no início da tarde. Na sexta, a B3, onde os papéis são negociados, estava fechada por conta do feriado de aniversário de São Paulo.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, disse que a companhia deve ser fortemente responsabilizada inclusive criminalmente. Os executivos da Vale também devem ser pessoalmente responsabilizados, disse ela.

O diretor-presidente da Vale, Fabio Schvartsman, disse no domingo que as instalações foram construídas de acordo com os padrões de segurança, e que equipamentos mostraram que a barragem estava estável duas semanas antes.

"Eu não sou técnico em mineração, eu segui a orientação dos técnicos e esse negócio deu no que deu, não funcionou", disse o executivo. "Estão 100 por cento dentro de todas as normas, e não houve solução."

O desastre na mina do Córrego do Feijão ocorreu pouco mais de três anos depois que uma barragem desabou em uma mina em Mariana operada pela Samarco, uma joint venture entre a Vale e a BHP Billiton, matando 19 pessoas e atingindo o importante rio Doce, no maior desastre ambiental da história do país.

Apesar de o desastre da Samarco de 2015 ter despejado cerca de cinco vezes mais resíduos de mineração, o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho na sexta-feira deixou muito mais mortos por ter soterrado um refeitório lotado da Vale e uma área povoada.

"O refeitório estava em uma área de risco", disse Renato Simão de Oliveira, de 32 anos, enquanto procurava por seu irmão gêmeo, funcionário da Vale, em uma estação de atendimento de emergência. "Só para economizar dinheiro, mesmo que isso significasse perder o cara... Esses empresários só pensam em si mesmos."

Ademir Rogério, um morador de longa data da região, chorava enquanto vasculhava a lama do local onde um dia ficaram as instalações da Vale.

"O mundo acabou para nós", disse ele. "A Vale é a maior mineradora do mundo. Se isso pode acontecer aqui, imagina se fosse uma mineradora menor."

Nestor José de Mury disse que perdeu seu sobrinho e colegas de trabalho na lama.

"Nunca vi nada parecido, matou todo mundo", disse.

indígenas Pataxó Hã-hã-hãe vivem na aldeia Naõ Xohã, às margens do rio Paraopeba.Lucas Hallel/Ascom Funai
DEBATE SOBRE SEGURANÇA
O conselho da Vale, que no último ano elevou o pagamento de dividendos, suspendeu todos os pagamentos aos acionistas e os bônus aos executivos, após o desastre colocar sua estratégia corporativa sob escrutínio.

Muitos se perguntam se o Estado de Minas Gerais, batizado pela atividade de mineração que talhou sua paisagem há séculos, deveria ter padrões de segurança mais elevados.

"Há formas seguras de mineração", disse o deputado João Vítor Xavier (PSDB), presidente da Comissão de Minas e Energia na Assembleia Estadual. "É que diminui as margens de lucro, então eles preferem fazer as coisas da maneira mais barata -- e colocar vidas em risco."

Vale perde mais de R$ 70 bilhões em valor de mercado

A Vale perdeu R$ 71 bilhões em valor de mercado hoje, no primeiro pregão da Bolsa brasileira após o rompimento da barragem da mineradora em Brumadinho.

É a maior perda de valor de mercado em um único dia na Bolsa brasileira, registra a Folha.

Com isso, a mineradora caiu de terceira para quinta maior empresa do país –atrás de Petrobras, Itaú, Bradesco e Ambev.

Até agora, foram contabilizados 60 mortos na tragédia de Brumadinho, com 292 desaparecidos.

Vale vai doar R$ 100 mil para cada família de desaparecido

O diretor financeiro da Vale, Luciano Siani, anunciou há pouco que a companhia vai fazer uma doação de R$ 100 mil, a partir de amanhã, para cada família que teve alguma pessoa desaparecida pelo rompimento da barragem em Brumadinho.

O valor será depositado antes e independentemente de indenização a ser cobrada posteriormente da mineradora, pela Justiça, em favor das famílias.

“De forma a minorar a incerteza de curto prazo com relação ao ganha-pão das famílias, a Vale vai fazer doação a todas as famílias que perderam entes queridos. Não tem nada que ver com indenização, [que] nós sabemos que são valores muito maiores”, disse Siani.

Abalados, funcionários da Vale se unem e querem mudança em produção mineral

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Abalados e na espera de informações sobre centenas de colegas desaparecidos no desastre de Brumadinho (MG), funcionários da Vale estão se mobilizando para exigir mudanças no modelo de produção, incluindo a utilização de tecnologias já existentes para eliminar rejeitos da mineração.

Os trabalhadores, representados pelos sindicatos, avaliam ainda que baixos investimentos da empresa em segurança acabam garantindo minério de ferro barato ao mercado global às custas de vidas e do meio ambiente.

Uma reunião de emergência de sindicatos foi convocada logo no sábado em Itabira (MG), a três horas de carro de onde no dia anterior a Barragem 1, da mina de ferro Córrego do Feijão, da Vale, rompeu-se em Brumadinho, liberando uma avalanche de um reservatório com cerca de 12 milhões de metros cúbicos de lama. No desastre, dezenas de pessoas morreram.

No encontro de sindicalistas, cerca de 30 representantes de trabalhadores de diversos sindicatos se queixaram da prática da companhia de armazenar rejeitos, quando já há tecnologia para eliminar esses passivos ambientais, e decidiram unir forças para mudar o cenário, reivindicando também maior participação dos funcionários em decisões por segurança.

Rafael Ávila, diretor-presidente do Sindicato Metabase Inconfidentes, que representa cerca de 1.500 trabalhadores, disse que ainda é cedo para falar em greve, mas que os empregados vão buscar unificar o movimento com sindicatos de todo o país e pressionar a empresa para serem ouvidos.

"É muito simples. Tem como fazer a filtragem desse material e depositar a seco, sem utilização de barragens, o problema é que é um investimento que eles não fazem", disse Ávila.

"A Vale, em um trimestre, tem 5 bilhões de reais de lucro, mas isso não traz investimento em mudança do modelo de produção, e isso é uma bomba relógio", acrescentou ele, queixando-se da ausência de informações sobre segurança nos planos da empresa, que nos últimos tempos está focando seu bilionário fluxo de caixa livre no pagamento de dividendos, oportunidades de crescimento e aquisições.

No sábado, além do Sindicato Metabase Inconfidentes, estavam representantes do Sindicato Metabase Itabira, Sindicato da Construção Civil Pesada (Siticop), Sind UTE Contagem, Sind UTE Barreiro, Sind Rede (professores de BH), brigadas populares e o partido PSTU.

Outras duas reuniões de emergência foram marcadas para esta segunda-feira, em Belo Horizonte, uma das centrais sindicais de MG e outra chamada pela Central Sindical e Popular-Conlutas, com diversos representantes de trabalhadores.

Ávila pontuou que "a Vale, só quando é pressionada pela produção, muda alguma coisa", e que reclamações por segurança feitas por funcionários são desencorajadas, até mesmo por demissões.

Especialistas concordam que a tecnologia utilizada pela Vale deveria mudar.

"Isso custa dinheiro, é possível de ser feito. Claro. Só que nós temos que passar esse custo para o minério. Hoje o Brasil produz minério para o mundo subsidiando esse preço de produção com o nosso meio ambiente, com as nossas vidas. Isso tem que ser discutido, se nós queremos continuar fazendo isso", disse o professor Carlos Martinez, da Universidade Federal de Itajubá e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Procurada, a empresa não comentou o assunto.

Em entrevista à Globonews, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse nesta segunda-feira que a indústria mineradora do Brasil precisa substituir técnica de acúmulo de rejeitos de minérios em barragens, por tecnologia a seco onde for possível.

Ele não comentou se o governo avalia tornar obrigatória por lei uma mudança da política de disposição de rejeitos por mineradoras no Brasil.[nL1N1ZS0H4]

O advogado especializado na área ambiental Tiago Lima destacou que o Brasil vem tratando rejeitos de mineração da mesma forma há décadas.

"Aquele rejeito que fica naquela barragem, a primeira coisa que você pode pensar, é que aquilo nem devia estar ali... As empresas têm que usar essas tecnologias para transformar aquele rejeito em resíduo", afirmou Lima, sócio do escritório Queiroz Cavalcanti.

Além disso, Lima ressaltou as falhas também das autoridades em exigir mudanças.

O desastre de Brumadinho ocorre pouco mais de três anos após uma barragem da Samarco (joint venture da Vale e da anglo-australiana BHP) se romper, em Mariana (MG), deixando 19 mortos, centenas de desabrigados e poluir o rio Doce por quilômetros, até o mar do Espírito Santo.

"Se aconteceu um segundo acidente, inclusive no mesmo Estado e com a mesma atividade, está claro que a fiscalização está deficitária... trata o problema depois que acontece, vem multando, buscando todo o recurso do mundo, mas depois que ocorreu", afirmou.

NOVO DESASTRE, VELHOS PROBLEMAS

Ronilton Condessa, secretário do Sindicato Metabase Mariana, que representa cerca de 8 mil trabalhadores diretos da Vale e da Samarco, disse que ainda não conseguiu processar como uma tragédia como essa pode se repetir tão perto de casa e ressaltou que também não entende como uma empresa como a Vale não zela pelos seus funcionários.

Mas evitou fazer muitos comentários, destacando que tudo o que "falar agora vai ser tomado pela emoção".

"Nós somos funcionários da empresa trabalhando embaixo de barragem, então tem que se rever isso tudo", disse Condessa.

A avalanche de lama da barragem de Brumadinho atingiu o prédio administrativa da Vale e também o restaurante da unidade --a maioria dos desaparecidos é de funcionários da própria empresa.

Até o momento, autoridades contam 60 mortos e 292 desaparecidos com a tragédia.

O temor dos funcionários em trabalhar próximos de barragens foi algo destacado pelos sindicalistas ouvidos pela Reuters, principalmente depois de o diretor-presidente da companhia, Fabio Schvartsman, afirmar que a barragem de Brumadinho estava com atestados atualizados, provando que a estrutura era estável.

"A comunidade está muito temerosa em função do que aconteceu, muito próximo, em espaço de três anos, e a Vale garantindo a estabilidade da barragem", disse Carlos Estevam, conhecido como Cacá, vice-presidente do Sindicato Metabase Itabira.

"A deposição a seco é uma tecnologia que já existe, depois do que aconteceu em Mariana, a Vale já poderia estar adotando."

Valério Vieira, diretor do Sindicato Metabase Inconfidentes, afirmou que "desconfiança e temor é geral".

"A Vale divulgou em todas as áreas que fez inspeção em todas as barragens, inclusive no nosso caso, porque exigimos isso em acordos coletivos e fora dele. Mas o que estamos observando com esse novo crime é que a política do lucro prevalece sobre a segurança dos trabalhadores e das comunidades no entorno dessas grandes unidades de mineração", afirmou.

Vieira disse ainda que os trabalhadores são deixados de fora de decisões.

(Por Marta Nogueira) Reuters

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Equipe de resgate carrega corpo encontrado após colapso de barragem em Brumadinho 28/1/2019 REUTERS/Washington Alves

Lama da barragem da Vale pode chegar à foz do Rio Paraopeba, diz CPRM

Boletim de Monitoramento Especial do Rio Paraopeba elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) prevê que a lama com rejeitos de barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, alcance, entre os dias 15 e 20 de fevereiro, a Usina Hidrelétrica de Três Marias, na Bacia do Rio São Francisco, região  central do estado de Minas Gerais.

General view of mud-filled Paraopeba river, after a tailings dam owned by Brazilian mining company Vale SA collapsed, in Mario Campos near Brumadinho, Brazil, January 27, 2019. REUTERS/Washington Alves
Rejeitos liberados com o rompimento da barragem podem chegar à foz do Rio Paraopeba entre os dias 5 e 10 de fevereiro, diz CPRM - Washington Alves/Reuters/Direitos Reservados

A nascente do Paraopeba está localizada no município de Cristiano Otoni, mesorregião metropolitana de Belo Horizonte, e a foz, na represa de Três Marias, no municío de Felixlândia.

De acordo com boletim da CPRM, a “água turva” percorre a Rio Paraopeba a uma velocidade de 1 km/hora. Amanhã à noite (29), os rejeitos deverão alcançar o município de São José da Varginha e, entre os dias 5 e 10 de fevereiro, a Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, entre os municípios mineiros de Curvelo e Pompeu.

Diariamente, o CPRM emite dois boletins sobre as águas contaminada do Rio Paraopeba, um a partir das 11h e o outro a partir das 17h. A previsão da velocidade dos rejeitos é baseada em dados observados/coletados em campo, considerando as características da bacia hidrográfica.

Água turva avança no Rio Paraopeba em direção à Usina de Três Marias

O Serviço Geológico do Brasil (CPRM), estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia, está monitorando o avanço da turbidez da água no Rio Paraopeba, após o rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG), ocorrido na última sexta-feira (25). O boletim divulgado hoje (28) revela um deslocamento lento da pluma, formada pela mistura de rejeito e água. De outro lado, ele traz a previsão de que a água turva alcançará a Usina Hidrelétrica de Três Marias (MG) entre os dias 15 e 20 de fevereiro.

A barragem integrava a Mina Feijão. O rejeito que se propagou no ambiente após o rompimento chegou primeiro ao Córrego do Feijão, afluente do Rio Paraopeba, que foi posteriormente atingido. De acordo com boletim, a água turva alcançou o município de Juatuba (MG) na noite de ontem (27) e deve chegar à São José da Varginha (MG) na noite de amanhã (29).

Antes de chegar à Três Marias, ela passará ainda pela Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, em Felixlândia (MG). A previsão é de que isso ocorra entre os dias 5 e 10 de fevereiro. Segundo aponta o monitoramento, a pluma se desloca a uma velocidade de um quilômetro por hora.

O Rio Paraopeba encontra o Rio São Francisco justamente na represa de Três Marias, onde fica a hidrelétrica administrada pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Em nota divulgada nesta segunda-feira, a estatal mineira informou que está monitorando, junto com outras autoridades do setor, se haverá necessidade de alguma medida preventiva na operação da usina.

O CPRM está divulgando boletins diários. Trinta pesquisadores foram destacados para o levantamento. A estatal se dedica à produção de conhecimento geológico e hidrológico que auxilie o desenvolvimento sustentável. Ela opera, em parceria com a Agência Nacional de Águas (ANA), estações da Rede Hidrometeorológica Nacional localizadas ao longo do Rio Paraopeba.

Qualidade da água

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) destacou técnicos para realizarem coleta de 44 amostras de água na região atingida com o objetivo de identificar os possíveis riscos de intoxicação. Ainda não há previsão para divulgação dos resultados.

O Rio Paraopeba é usado para o atendimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte, mas a captação de água em seu leito foi suspensa pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) após a tragédia. De acordo com a estatal mineira, o abastecimento não sofreu impactos. As represas do Rio Manso, Serra Azul, Várzea das Flores e a captação, a fio d’água, no Rio das Velhas, estariam sendo sido suficiente para atender a população.

Edição: Fábio Massalli

Fonte: Reuters/O Antagonista/AgBrasil

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