Milho: Brasil tem safra recorde e preços abaixo dos custos de produção

Publicado em 12/08/2013 12:44
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Os produtores brasileiros de milho vêm amargando preços baixos e preocupantes no mercado interno. Em alguns estados como Paraná, Mato Grosso e Goiás os valores já chegam a estar abaixo do preço mínimo e dos custos de produção. 

O principal fator de pressão para os preços tem sido a entrada da nova safrinha, a qual registra um volume recorde esse ano. Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), a segunda safra deverá totalizar 45.141,4 milhões de toneladas, e o total entre as duas safras deverá ser de 80,252 milhões de toneladas. 

As boas perspectivas para a nova safra dos Estados Unidos também pesam sobre o mercado brasileiro, haja vista que têm provocado uma intensa baixa nas cotações em Chicago e essas são referência para a formação dos preços internos. Os produtores norte-americanos deverão colher mais de 350 milhões de toneladas, já que as condições climáticas foram muito favoráveis durante o desenvolvimento da produção do país, apesar do atraso no plantio. 

De acordo com informações do Cepea, diante desse cenário, os produtores têm negociado o que ainda resta da safra velha de soja e têm estocado o milho à espera de preços melhores. No entanto, em muitos estados, a falta de infraestrutura de armazenagem também acaba atuando como fator de pressão para as cotações, bem como uma logística insuficiente e ineficiente. O escoamento da produção fica comprometido e agrava a situação dos armazéns brasileiros. 

No Paraná, a desvalorização do cereal nos últimos dias foi de mais de 10% na região de Cascavel. Dilvo Grolli, presidente da Coopavel, afirma que os entraves com infraestrutura tem agravado a perda de rentabilidade dos produtores há anos, porém, tem um impacto menor do que nos estados do Centro-Oeste. 

"O Brasil tem uma deficiência de logística de 20% de norte a sul, de leste a oeste. Nos estados de sul, essa defasagem, porém, não é tão acentuada porque somos estados consumidores (...) e isso faz com que se tenha uma rotatividade e um melhor aproveitamento. Os estados que não têm a mesma oportunidade sofrem com essa falta de infraestutura", explica. 

A situação descrita é confirmada por presidentes de sindicatos rurais de Goiás, Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. "Jataí hoje é o maior armazenador estático do Brasil, mesmo assim estamos encontrando uma dificuldade enorme de armazenagem, temos caminhões muitos dias nas filas e não temos mercado comprador para o que está sendo colhido", disse o presidente do sindicato rural do município, Ricardo Peres. A saca de milho na região tem sido negociada a R$ 15,00. 

Os preços em Sinop e região, no Mato Grosso, estão ainda mais baixos - entre R$ 8,00 e R$ 9,00 por saca -, deixando muitas contas em aberto e um cenário inviável para o produtor do estado, segundo explicou o vice-presidente do Sindicato Rural, Antônio Galvan. 

"Os custos estão bem acima desses valores que são colocados pelo mercado. Então, para remunerar o produtor, com um boa média de produtividade, no mínimo uns R$ 15,00 para não deixá-lo no prejuízo", diz Galvan. O que ameniza a situação, apesar dos preços baixos com cerca de 30 a 50% de prejuízo em cima das lavouras, é que há compradores para o produto. 

Na região de Sinop, já há muito milho a céu aberto, com os grãos perdendo qualidade dia após dias, e a colheita ainda não foi concluída. "A maior preocupação é com o momento em que começarem as chuvas", diz o presidente do sindicato. 

Já em São Gabriel do Oeste, no Mato Grosso do Sul, os mesmo R$ 15,00 são insufientes e as perspectivas do mercado preocupam. "Os melhores preços pagos pelo milho são de cerca de R$ 15,30, ou seja, R$ 2,11 abaixo do preço mínimo. Isso impacta diretamente na renda do produtor, as contas não fecham, mas esse é o único mercado que existe em São Gabriel, já que os armazéns estão todos completamente cheios e a colheita ainda não terminou", relata Júlio César Bortolini, presidente do sindicato rural da cidade. 

Na última semana, o Mato Grosso do Sul foi colocado na lista da Conab dos estados participantes dos leilões de Pepro, porém, a quantidade a ser ofertada não deverá causar um alívio muito significativo nos gargalos de logística e armazenagem, porém, já é visto como o começo de uma solução. 

"Apesar de ser muito pequeno o volume de milho no leilão que contempla nosso estado, de uma certa forma já começa a facilitar o envio de milho para outras regiões, porque às vezes o arrematador é de outro estado. Mas nós precisaríamos de 250 mil toneladas por semana nos leilões para começar, de fato, a fluir o produto e o produtor ter uma expectativa de ganho para ele pelo menos empatar o investimento que fez na safrinha", avalia Bortolini. 

Segundo o boletim Custos e Preços, elaborado pela CNA (Confederação Nacional da Agricultura), os preços do milho devem permanecer em baixa até o final deste ano. “A colheita da safrinha (2ª safra) ainda não atingiu 50% e o produto já está sobrando nas regiões produtoras”, apontou o boletim. 

Ainda de acordo com o relatório, de junho a julho os preços apresentaram um recuo expressivo em importantes praças produtoras. Em Sorriso (MT), a saca de 60 quilos foi comercializada, em média, a R$ 13,79, que representam queda de 15% em relação ao mês anterior. Comparada a julho de 2012, a redução foi ainda maior: 35,3%. Em Lucas do Rio Verde (MT), o preço no mês passado chegou a R$ 9,85, 13% inferior ao de junho. Em Londrina (PR) e Unaí (MG), as quedas mensais registradas foram de 11% e 4,7%, respectivamente.

Nos links abaixo, confira a íntegra das entrevistas dos presidentes dos sindicatos rurais e da Coopavel ao Notícias Agrícolas.

>> Dilvo Grolli - Presidente da Coopavel

>> Ricardo Peres - Presidente do Sindicato Rural de Jataí/GO

>> Antônio Galvan - Vice-Presidente do Sindicato Rural de Sinop/MT

>> Júlio César Bortolini - Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste/MS

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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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