Suiá Missú: População local se mostra fortalecida diante de tantas carências

Publicado em 17/12/2012 08:38 986 exibições
Na ausência do Estado, moradores ‘são’ as leis e fortalecem auto defesa em período de guerra por resistência

Não existe um policial sequer em Posto da Mata (Estrela do Araguaia), no nordeste de Mato Grosso. Também não existem médicos. Nem saneamento básico ou fornecimento de água. O distrito ‘tem’ duas prefeituras (Alto Boa Vista e São Feliz do Araguaia), mas parece ‘descolado’ da pátria brasileira. O poder público ainda não chegou.

Estrela do Araguaia, até pouco tempo atrás, contava com dois policiais civis e uma escrivã, mas todos saíram do distrito após a decisão que determinou a desintrusão de não-índios do local, em operação iniciada na segunda-feira (10).

Da delegacia só sobraram escombros. Os próprios moradores quebraram a estrutura, mas sem arrependimento algum, pois explicam que a própria comunidade é que construiu a estrutura. O medo era que as forças policiais usassem o local como base. 

Agora, a mando do delegado regional lotado em Porto Alegre do Norte, o ponto é protegido por Rivaldo Mariano, 32 anos, que se sente o xerife da área. "Doutor Ronan que mandou eu ficar cuidado. Eu que rocei tudo aí ao redor. Ele pediu que ninguém entrasse aqui dentro. Eu venho e aviso para os caras não entrar", explica. Questionado sobre como procede caso alguém insista em ocupar a estrutura em ruínas, Rivaldo manda o recado: "Aí a gente vê se o cara é forte mesmo, se ele é potência".

“Aqui nunca teve polícia, não. Quando acontecia alguma coisa ai era o povo mesmo que prendia [o suspeito]”, declara dona Helena Maria de Jesus. A saúde também é precária. A única ambulância que transita no distrito é privada, propriedade do fazendeiro local Antônio Mamed Jordão, conhecido como ‘Alemão’. O povoado conta apenas com um posto de saúde, conta com uma enfermeira.

“Se aqui você quebrar um pé, amigo, como aconteceu comigo, eu fiquei dois dias pra ser engessado. Eu fui pra Alto [Boa Vista] e de Alto fui pra São Felix [do Araguaia] e depois fui pra Confresa. Dois dias. 700 e poucos quilômetros. Não tem uma ortopedia. Que covardia, o cara tem que ter uma saúde de ferro pra morar aqui”, afirma Alemão, durante uma volta por sua propriedade. 

A ausência do Estado fez com que a própria população reclamasse para si os poderes de direção coletiva. “Aqui não tem lei, né? Aqui não tem delegacia, quando tinha delegacia não se atuava tanto e quem fez o prédio da delegacia foi o povo. Quem fez a energia foi o povo, então o povo é quem fez tudo aqui. O povo que faz. O povo aqui tem as falhas, mas é trabalhador”, defende Jordão, dono de uma das maiores fazendas da região. 

E aquilo que tinha potencial para o surgimento de um poder paralelo acabou ganhando contornos mais fortes agora. Além da necessidade de organização básica, os moradores, que vivem um momento de guerra pela resistência na área, tiveram de se estruturar em núcleos mais específicos e estratégicos.

O número de lideranças emergentes, no entanto, é grande, levando-se em conta a população local. A ausência de centralização da tomada de decisões faz com que não haja planejamento ou consenso nas as ações tomadas neste momento de ‘luta’.

Muito se falava - nas conversas informais pelo distrito desde que a desintrusão começou - em queimar pontes. Na manhã deste sábado (15), quando o tráfego foi liberado na BR 158, um caminhão caiu. A estrutura da ponde havia sido destruída, suspeita de sabotagem. Rapidamente os moradores começaram um ato de mobilização para reconstruir a ponte e negam que tenham sido os autores do atentado.

A ausência de policiamento em tal ambiente só acirra os ânimos. Durante momentos de maior tensão, os caminhoneiros usaram as câmeras de televisão para fazer um apelo pela vinda da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para a região. As estradas acabaram sendo liberadas brevemente, mas a PRF ainda não chegou.

Os únicos policiais na área são os da Força Nacional de Segurança (FNS), Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal instalados próximos ao Posto da Mata e escalados para a operação de desintrusão.

De acordo com a assessoria de imprensa da PRF, no entanto, o quadro no distrito está prestes a mudar. Os policiais já possuem autorização superior para encerrarem o bloqueio da rodovia que dura mais de uma semana.

PRF envia ônibus para o Norte Araguaia equipado com Centro de Controle Avançado

Agentes da Polícia Rodoviária Federal de outros Estados foram convocados para auxiliar na desocupação da Terra Indígena Marãiwatsédé. A determinação partiu do Ministério de Justiça, que autorizou ainda o uso moderado da força caso ocorram novos confrontos entre as equipes que trabalham na desintrusão e resistentes a deixarem a área dos xavantes.

A PRF de Brasília encaminhou para a região do Baixo Araguaia mato- grossense um ônibus equipado com Centro de Controle Avançado para monitoramento da área.

Para desobstruir os bloqueios feitos pelos manifestantes em vários pontos da BR-158, foi autorizado à PRF usar a tropa de choque da corporação. Na manhã de ontem, as interdições das cidades de Ribeirão Cascalheira, Água Boa, Porto Alegre do Norte e Nova Xavantina foram abertas. Somente o bloqueio do Posto da Mata, onde concentra o maior número de moradores da TI, permanece.

Representante da Associação dos Produtores de Suiá- Missú (Aprosum), Sebastião Prado afirma que não pedirá aos manifestantes liberarem a rodovia, pois eles não demonstram interesse em desmobilizar o movimento.

Afirma que todos estão cansados, mas de prontidão para um enfrentamento e resistência, caso haja necessidade. Amanhã, completa uma semana do início da operação de desocupação. Órgãos envolvidos se reunirão para fazer um balanço dos trabalhos realizados e dar encaminhamentos. Até sexta-feira (14), 13 propriedades foram vistoriadas. A maioria das propriedades visitada, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), estava desocupada.

Na semana, foram registradas 2 situações graves, além de várias ações de resistência. No primeiro dia, moradores do Posto da Mata foram até a Fazenda Jordão (a 6 quilômetros do Distrito) para impedir a desocupação. Manifestantes atacaram os policiais com pedaço de paus e pedras. O revide foi com tiros de borracha e bombas de efeito moral. Cerca de 10 pessoas ficaram feridas entre policiais e civis. Na noite de quinta-feira (13), um grupo perseguiu o caminhão da Força Nacional para tentar reaver a mudança de um despejado. Conforme a PRF, não houve novo confronto porque os policiais con- seguiram contornar a situação.

Além dos bloqueios nas rodovias, também houve queima da ban- deira nacional em protesto à retirada dos invasores, que vivem na terra há mais de 20 anos.

Suborno - A denúncia de Sebastião Prado sobre o pedido de R$ 12 milhões feito em nome do secretário nacional de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, para manter o grupo na área foi rebatida pelo ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, que anunciou a responsabilização do produtor na Justiça. Prado destaca que aguarda uma investigação séria sobre o caso. "Basta quebrar o sigilo telefônico de quem pediu o dinheiro para saber que não estou mentindo. O governo fala que ameaçamos pessoas. Isso nunca existiu".
Fonte:
Agência da Notícia

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