No ESTADÃO: Doleiro diz que Lula ordenou pagamento. PF identificou dois repasses, num total de R$ 1,7 milhões

Publicado em 25/10/2014 05:01 e atualizado em 25/10/2014 18:05 2293 exibições
Sem dar detalhe ou apresentar prova, Youssef cita telefonema de 2010 do então presidente da República ao então presidente da Petrobrás (Por Ricardo Brandt e Fausto Macedo, de O estado de S. Paulo)

O doleiro Alberto Youssef afirmou nos termos de sua delação premiada que o então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva teria dado uma ordem em 2010 ao então presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, para que ele resolvesse uma pendência com uma agência de publicidade suspeita de integrar o esquema de corrupção na Petrobrás.

Foto: Tasso Marcelo/Estadão

“O Lula ligou para o Gabrielli e falou que tinha que resolver essa merda”, revelou o doleiro em um dos seus vários depoimentos que vem prestando à Justiça a fim de tentar reduzir sua pena ao colaborar com as investigações da Operação Lava Jato.

Youssef, que está preso sob acusação de integrar um megaesquema de lavagem de dinheiro que envolvia contratos milionários da Petrobrás, não deu detalhes sobre como ficou sabendo desse suposto telefonema.

No depoimento, Youssef afirmou que, depois da suposta ordem, Gabrielli teria acionado o então diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, outro personagem central do caso, e pedido para que ele usasse “o dinheiro das empreiteiras e passasse para a agência”.

Empreiteiras são suspeitas de pagar pedágio ao esquema com o objetivo de obter contratos da Petrobrás. Esse pedágio seria usado para abastecer partidos da base do governo Lula e do governo da presidente Dilma Rousseff, segundo disseram o doleiro e o ex-diretor da Petrobrás em suas delações premiadas. A dupla implicou o PT, o PMDB e o PP. Costa ainda afirmou que o PSDB, da oposição, recebeu dinheiro para ajudar abafar uma CPI sobre a Petrobrás em 2009.

Foto: Fabio Motta/Estadão

Repasses. A agência de publicidade que teria recebido o repasse de empreiteiras, ainda segundo disse Youssef, é a Muranno Marketing/Brasil. Trata-se de uma empresa suspeita de integrar o esquema de propinas.
Segundo o doleiro, a agência tinha valores a receber e, em razão disso, ameaçava tornar pública a corrupção na Petrobrás.

Youssef não cita datas nem como foi feito o pagamento à agência. A Polícia Federal, porém, identificou dois repasses, num total de R$ 1,7 milhão, à agência via MO Consultoria, empresa do doleiro. O repasse é datado de 22 de dezembro de 2010. Houve ainda outros três depósitos à agência, num total de R$ 509 mil, nos dias 12 e 13 de janeiro de 2011, feitos pela empresa Sanko Sider, também investigada pela Lava Jato.

Ouviu dizer. Além do suposto telefonema entre Lula e Gabrielli, o doleiro fez outras referências a Lula e à suposta ciência do Palácio do Planalto em relação ao esquema: “Todas as pessoas com quem eu trabalhava diziam o seguinte: ‘todo mundo sabia lá em cima, que tinha aval para operar. Não tinha como operar um tamanho esquema desse se não houvesse o aval do Executivo. Não era possível que funcionasse se alguém de cima não soubesse, as peças não se moviam”.

O doleiro também disse no depoimento da delação: “Era impossível o Lula governar se não tivesse esse esquema. O Lula era refém desse esquema”, afirmou. Como exemplo, citou o episódio da disputa pela Presidência da Câmara dos Deputados em 2005. Na ocasião o PT queria no cargo o então deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), mas teve que se curvar à exigência de José Janene (PP-PR), que morreu em 2010 e é apontado como a ponte entre o esquema e o Congresso. Na época, Janene teria imposto o nome de Severino Cavalcanti (PP-PE) para o comando da Câmara. Cavalcanti acabou eleito.

Youssef é apontado como sócio de Janene e suposto criador do esquema de propina na Petrobrás comandado pelo PP.  O doleiro, que ainda não teve a delação homologada pela Justiça, diz que ainda apresentará provas sobre suas declarações. O esquema teria atuado entre 2004 e 2012, período em que Costa esteve na diretoria de Abastecimento da Petrobrás.

COM A PALAVRA, A DEFESA:

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que “não comenta vazamentos parciais de delação premiada, nem depoimentos aos quais sequer teve acesso”.

O ex-presidente da Petrobrás (2005-2012), hoje secretário de Estado de Planejamento da Bahia, José Sergio Gabrielli, rechaçou com veemência as informações do doleiro Alberto Youssef em sua delação.

Por meio de sua assessoria, Gabrielli assegura que jamais tratou de eventuais problemas de pagamentos a agências de publicidade com o doleiro, alvo da Operação Lava Jato, “ou com qualquer outra pessoa”.

Gabrielli esclareceu, ainda, taxativamente, que “não conhece o senhor Alberto Youssef e nunca teve qualquer tipo de contato presencial ou telefônico com ele ou com pessoas ligadas às suas empresas”. Para o ex-presidente da Petrobrás, “as falsas informações atribuídas à delação premiada do doleiro são uma tentativa desesperada de interferir no 2.º turno das eleições”.

“Os advogados do ex-presidente já analisam medidas judiciais cabíveis para reparar as acusações infundadas divulgadas”, destacou a assessoria.

A Muranno Marketing foi procurada nos contatos disponíveis e ninguém foi localizado.

O criminalista Antonio Figueiredo Basto, que comanda o núcleo de defesa de Youssef, argumentou que não pode comentar o depoimento de seu cliente no âmbito da delação premiada porque ela é protegida pelo sigilo. Ele afirmou que Youssef nunca citou a ele os nomes da presidente Dilma e do ex-presidente Lula. “O Beto (Youssef) me disse apenas que tudo ‘vinha lá de cima’, Lamento que esse clima de eleição está gerando loucura no Brasil, muita especulação.”

Basto diz suspeitar que o vazamento da delação “é obra de algum grupo econômico que quer ‘melar’ a delação”. “Eu não posso desmentir nem confirmar (os dados da delação) porque a defesa não ficou de posse dos depoimentos.”

Em último debate Aécio usa Petrobrás e Dilma, a crise hídrica

No último debate antes da votação em 2.º turno, realizado na noite de sexta-feira pela TV Globo, Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) adotaram um comportamento mais polido, mas sem deixar de insistir nas táticas de desconstrução que marcaram toda a campanha presidencial. O tucano reforçou a estratégia de ligar a candidata do PT a casos de corrupção e questionar a situação econômica do País, enquanto Dilma levou para a discussão a crise hídrica do governo do PSDB em São Paulo e questionou a gestão de Aécio em Minas.

Após a rejeição demonstrada ao clima beligerante de encontros anteriores, os candidatos demonstravam a nítida preocupação de não parecerem agressivos nas perguntas e respostas. Eles entraram lado a lado no estúdio da emissora, no Rio de Janeiro, e se cumprimentaram antes do início do debate.

Marcos de Paula/Estadão

Dilma e Aécio estiveram menos agressivos que em debates anteriores

O clima cordial parou por aí. Para garantir a audiência inicial do debate, Aécio abordou a reportagem da Veja logo na primeira pergunta. Segundo a revista, que adiantou para sexta-feira a circulação de sua edição do fim de semana, em depoimento na Justiça Federal como parte do acordo delação premiada, o doleiro Alberto Youssef – preso na Operação Lava Jato – disse que Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabiam do esquema de corrupção na Petrobrás.

O tucano questionou se a presidente tinha conhecimento das irregularidades. Ao introduzir a pergunta, voltou afirmar que ele, Marina Silva (PSB) e Eduardo Campos (PSB) – que morreu em um acidente aéreo – enfrentaram uma “campanha sórdida” e foram vítimas de calúnias e difamação promovidas pela campanha petista. Dilma respondeu em linha semelhante ao que havia feito ao longo do dia, no programa eleitoral e nas redes sociais.

“Essa revista tenta dar golpe eleitoral e não é a primeira vez. O povo não é bobo, candidato. O povo sabe que está sendo manipulada a informação porque não há nenhuma prova”, afirmou Dilma, que acusou Aécio de “endossar” a publicação. A presidente repetiu ainda que irá à Justiça para se defender.

Aécio, por sua vez, respondeu embasando a denúncia da reportagem, argumentando que a delação premiada, por meio da qual surgiu a informação questionada por Dilma, só traz benefício ao delator se forem apresentadas provas. Conforme a reportagem, Youssef não apresentou provas durante o depoimento.

O tema corrupção voltou a ser abordado no terceiro bloco, novamente pelo tucano. Aécio questionou a adversária sobre sua avaliação em relação às condenações no julgamento do mensalão, no qual ex-dirigentes petistas foram sentenciados a penas de prisão. Dilma rebateu questionando por que denunciados no chamado mensalão mineiro – esquema de arrecadação ilegal de recursos para a campanha à reeleição do então governador de Minas, Eduardo Azeredo (PSDB), em 1998 – ainda não foram julgados. Aécio, então, disse na tréplica que o principal acusado do mensalão mineiro, o ex-ministro Walfrido Mares Guia, é coordenador da campanha petista em Minas. Walfrido se livrou do processo em janeiro deste ano, quando a Justiça declarou prescrito os crimes de peculato e lavagem de dinheiro.

Água. Depois de explorar o assunto com mais ênfase no 2.º turno da campanha presidencial, Dilma aproveitou o agravamento do desabastecimento de água no Estado de São Paulo para questionar o adversário se não faltou planejamento à gestão do tucano Geraldo Alckmin. Aécio repetiu declarações anteriores e disse que a crise é culpa da falta de planejamento e de parceria do governo federal e apontou aparelhamento da Agência Nacional de Águas.

Dilma reagiu afirmando que “não planejar os investimentos para evitar a crise hídrica no Estado mais rico do País é uma vergonha”. “O senhor vai me desculpar, mas eu vou concordar com o humorista José Simão (colunista do jornal Folha de S.Paulo), vocês estão levando o Estado para ter um programa 'Meu Banho Minha Vida'. É isso que vocês conseguiram.”

Antes, ainda no primeiro bloco, depois de ser questionado por Dilma sobre o Minha Casa, Minha Vida, Aécio repetiu que a campanha da presidente faz “terrorismo eleitoral” ao afirmar que eventual governo seu acabaria com programas sociais. “Pessoas na lista do cadastro (do programa) estão recebendo mensagem dizendo que, se votarem em mim, sairão do cadastro”, reclamou. O tucano reforçou que pretende manter o programa e ampliá-lo para a faixa de até três salários mínimos. “Ninguém pode querer se apropriar de programas como se fossem seus. Vamos subsidiar, sim, programas sociais como este. O que não vamos fazer no nosso governo é o ‘bolsa empresário’ que ajuda um grupo muito restrito de brasileiros em detrimento da maioria.” Aécio acusou o governo também de não entregar os 3,5 milhões de habitações prometidas, mas apenas metade disso.

Dilma rebateu que Aécio precisa entender melhor as regras do programa, explicando que ele não passa por órgãos políticos, evitando privilégios a empresas nas construções. Ela disse não acreditar na proposta do adversário, acusando o PSDB de ter enfraquecido os bancos públicos e tê-los deixado endividados – a Caixa Econômica Federal é a instituição usada no financiamento do programa habitacional. “Agora vocês vêm com essa conversa que vão fazer política social. A prática fala muito mais que palavras vazias”, afirmou a presidente.

A petista voltou a questionar o fato de o governo mineiro não informar os valores de publicidade oficial destinada às três rádios e um jornal semanal da família de Aécio no Estado. Ela também procurou comparar a criação de empregos no seu governo e no governo Lula em relação à gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso, citando também a valorização do salário mínimo e questionando se Arminio Fraga – ex-presidente do Banco Central e já anunciado por Aécio como seu ministro da Fazenda caso seja eleito – não poderia comprometer a política de aumento real dos salários. Aécio respondeu dizendo ter orgulho da indicação de Arminio, diferentemente de Dilma que “demitiu” seu ministro Guido Mantega.

O debate da Globo teve como diferencial uma arena de 80 eleitores indecisos, selecionados pelo Ibope. Em dois dos quatro blocos, a plateia fez perguntas aos candidatos, que caminhavam livremente pelo estúdio. 

Fonte:
O Estado de S. Paulo

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