Para retomar economia Dilma terá de tomar medidas impopulares

Publicado em 27/10/2014 19:15 e atualizado em 28/10/2014 14:13 2650 exibições
no EL PAÍS

Retomar a confiança dos investidores e da população na economia brasileira deve ser a prioridade ‘zero’ da presidenta Dilma Rousseff,reeleita com 51% dos votos para governar o país por mais quatro anos. A tarefa, entretanto, promete impor um alto custo político para a petista, já que algumas opções previstas para o ‘menu’ de 2015 são, para muitos, ‘indigestas’: cortar gastos públicos, elevar a taxa de juros e aumentar impostos.

Em entrevista um dia após a vitória de Dilma, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a prioridade da próxima gestão – da qual ele não fará parte – será controlar as contas públicas e afastar o ‘fantasma’ da inflação, que está acima do teto da meta (de 6,5%) e é uma das maiores reclamações dos brasileiros. “A prioridade é fortalecer os fundamentos fiscais da economia. Manter um bom resultado fiscal para que a dívida pública fique sob controle. (...) A prioridade é manter a inflação sobre controle”, reiterou o ministro.

Para controlar o aumento dos preços dos produtos, um dos caminhos é manter elevada a taxa básica de juros, atualmente em 11% ao ano. “O caminho para 2015 será o ajuste fiscal. Aumentar os impostos e controlar os gastos públicos. A Dilma também deve considerar subir ou manter elevados os juros, para controlar a inflação”, avalia o economista Roberto Padovani, do banco Votorantim.

Contudo, eis a ‘saia justa’ da presidenta: manter os juros elevados provoca um crescimento mais lento, embora implique na retração da inflação ao desestimular o consumo. Por outro lado, juros baixos estimulam o crescimento, mas jogam a inflação às alturas. O primeiro mandato de Dilma foi marcado por um ‘vai e vem’ da taxa de juros. A presidenta conseguiu fazer com que o Banco Central levasse a taxa Selic à mínima histórica, de 7,25% ao ano (mantida por seis meses), em um ciclo de queda que durou cerca de um ano. Mas ela foi obrigada a dar início a um novo ciclo de alta em abril de 2013, justamente para conter a escalada inflacionária.

Por outro lado, um aumento dos juros também pode representar um agravamento do desequilíbrio das contas públicas, uma vez que encarece a dívida do próprio Governo, o que também deixa os investidores desconfiados. Já para acertar as contas do Tesouro e a dívida pública, uma opção é aumentar os impostos, outra medida cujo efeito colateral pode ser a desaceleração do crescimento e uma enxurrada de críticas dos consumidores e empresários.

Qualquer que seja o caminho escolhido, dificilmente o Brasil conseguirá cumprir a meta de levar a inflação, atualmente em cerca de 6,5% ao ano, a 4,5% e crescer mais que 1% em 2015, avaliam os especialistas. “A inflação brasileira é resistente. E isso não vai mudar em 2015. Tentar baixar essa inflação implica em um custo econômico muito grande. Acho que é difícil o governo mexer nisso”, afirma Antonio Corrêa de Lacerda, economista e professor da PUC-SP.


Outra dificuldade que o Governo terá é estimular o crescimento do país mantendo o desemprego baixo, que atualmente é de cerca de 5%, e é justamente um dos principais pilares da reeleição de Dilma. “É uma gestão macroeconômica que implicará no aumento do desemprego, em esfriar o mercado de trabalho para aumentar produtividade. Mas a Dilma não pode se contaminar pelo discurso de campanha. O Brasil é pragmático e faz o que precisa ser feito, com racionalidade”, completa Padovani.

Empregos

Já o ajuste fiscal esperado implica em cortes dos gastos públicos, cujas consequências impopulares podem representar desde o crescimento baixo até o corte de investimentos públicos em setores estratégicos. Para os economistas, é pouco provável que o Governo mexa nos programas sociais, como o Bolsa Família, já que são esses programas a principal vitrine da gestão petista.

Os caminhos são duros e a pressão sobre Dilma é forte. O Brasil, que já teve sua nota de crédito reduzida neste ano pela agência de classificação de risco Standard&Poors (S&P), devido ao temor de uma recessão, corre o risco de ver reduzida novamente sua nota do grau de investimento, entre outras razões, pela dificuldade em cumprir as metas do superávit primário. Daí a importância de Dilma não errar nas escolhas que tomar. Para Lacerda, porém, 2015 será um ano de “observação”.

“A avaliação dos analistas de risco é que 2015 será um ano de observação, então a reclassificação (da nota de crédito) deve ocorrer em 2016. Mas como o ônus é muito grande politicamente (de ter a nota reduzida), o Brasil vai optar por fazer esses ajustes o quanto antes”, pondera.

Mercado financeiro castiga a reeleição de Dilma Rousseff

A Bolsa de Valores amanheceu em queda de 6% e o dólar subiu para 2,54 reais

Como era de se esperar, o mercado reagiu mal à reeleição da presidenta petista Dilma Rousseff. Nesta segunda-feira, dia seguinte às eleições, a Bolsa de Valores amanheceu em queda de 6%, quando abriu, às 10h, e o dólar avançava 3,46%, saltando para 2,54 reais na venda. Até o início da tarde, as ações da Petrobras haviam registrado uma queda em torno de 13%. “Não se esperava nada diferente disso”, diz Alex Agostini, analista da Austin Corretora.

Para Agostini, a volatilidade dos investidores deve permanecer, prevalecendo o nervosismo, enquanto Dilma não se pronunciar a respeito da política econômica que adotará pelos próximos quatro anos. “O mercado está muito indignado com a política econômica do governo.”, diz Agostini. “Por isso, até que o governo faça declarações sobre a condução da política econômica, na área monetária e internacional, de controle de inflação e ajuste fiscal, o mercado deve reagir com bastante nervosismo”, explica.

Neste domingo, em seu discurso de vitória, a presidenta agora reeleita acenou aos investidores, anunciando que dará "mais impulso" à atividade econômica em todos os setores, especialmente no industrial. Rousseff afirmou que promoverá "com urgência" as ações para a retomada do crescimento econômico.

Mas sozinhos, os anúncios não devem acalmar os agentes financeiros. Além do pacote de medidas, outra expectativa é em relação ao futuro ministro da Fazenda, já que Dilma Rousseff sinalizou, ainda no primeiro turno das eleições, que o atual ministro Guido Mantega não deve permanecer no Governo. Especulações citam o nome do atual ministro da Educação, Aloizio Mercadante como novo ministro da Fazenda, mas essa informação não é oficial. A permanência ou não do atual presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, é outra dúvida que inquieta os investidores.

“O mercado deve viver uma situação de montanha russa, mas com mais descidas que subidas”, diz Agostini. Sabendo disso, é provável que o Governo se apresse em anunciar ao menos parte das suas medidas na área econômica. Mas segundo o analista, as políticas adotadas não devem apresentar mudanças significativas, ao menos não no primeiro ano. “As mudanças serão graduais. Não esperamos uma mudança total de gestão, até porque não é o ideal do PT”, diz Agostini.

Com uma reeleição apertada, Dilma Rousseff precisará agradar o mercado se quiser fazer um sucessor em 2018. E isso significa uma mudança nos rumos da sua política econômica. “Ficou evidente nessa eleição que há um grande risco de que se não houver mudanças significativas, o PT perderá as próximas eleições”, diz Agostini. Para ele, uma das medidas que o Governo deve anunciar será acelerar o processo de concessões para desonerar o Governo dos investimentos em algumas áreas, já que o corte de gastos será fundamental.

Segundo a Austin Corretora, o país deve crescer 0,3% neste ano. Porém, Agostini avisa que essa previsão está sendo revisada, embora ainda não possa dizer o número final. “Estamos em processo de revisão, muito provavelmente para baixo. Existe a possibilidade, inclusive de uma pequena queda do PIB neste ano”.

 

Um país dividido, por The Economist

Foi uma jornada emocionante. Após uma disputa acirrada e provocativa, marcada por inúmeras reviravoltas, a presidente brasileira Dilma Roussef, de esquerda, foi reeleita no dia 26 de outubro para um segundo mandato de quatro anos com 51,6% dos votos válidos. Aécio Neves, da oposição de centro-direita, ficou com 48,4%. Essa é a quarta eleição presidencial seguida vencida pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Mas a margem de vitória foi a menor da história eleitoral brasileira.

Talvez a vitória de Dilma fosse inevitável. Apenas três presidentes latino-americanos perderam nas tentativas de reeleição nas três décadas mais recentes. Os pleitos favorecem os incumbentes,  com todo o maquinário do poder e do clientelismo ao seu dispor. Dilma pode se gabar do baixíssimo desemprego, do aumento nos salários e da queda da desigualdade durante os mandatos do PT. Mas Aécio, considerado pela Economist o candidato mais bem preparado, disputou com ela corajosamente, apontando, com razão, que o progresso estagnou desde a primeira vez em que Dilma foi eleita, em 2010.

Por outro lado, a presidente vai liderar um país dividido. Ela conquistou uma ampla vitória em boa parte das regiões mais pobres do norte e nordeste - ajudada pela gratidão dos brasileiros menos abastados pelos populares programas sociais do PT, mas também pela alegação infundada feita pela campanha dela segundo a qual Aécio acabaria com esses mesmos programas. A maior parte das regiões mais ricas, ao sul, sudeste e centro-oeste, optou pelo rival dela, mais próximo dos mercados. Em São Paulo, que abriga um quinto da população do país e responde por um terço de sua economia, ele venceu por 64% a 36%; em toda a capital do estado os poucos fogos de artifício e a marcha celebrando a vitória de Dilma foram recebidos por um pesado silêncio. No sudeste Aécio perdeu no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, segundo maior estado do país, governado por ele em dois mandatos sucessivos entre 2003 e 2010 - uma derrota inexplicável que pode ter custado a ele a presidência.

Em seu discurso de vitória Dilma falou em "união", "consenso" e "diálogo". Mas o trabalho de cicatrização das feridas da campanha começou mal quando Dilma nem sequer mencionou Aécio (que pouco antes tinha telefonado para parabenizá-la pelas eleições e desejar-lhe sucesso) ou seu Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), de centro-direita. As cicatrizes são profundas. O antecessor e mentor político de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido por seu estilo menos sofisticado, chegou a comparar o PSDB aos nazistas por causa do seu suposto desprezo pelos menos favorecidos. O PSDB, por sua vez, acusou repetidas vezes o PT de estar irreparavelmente mergulhado na corrupção, citando uma investigação em andamento envolvendo um esquema de repasse de dinheiro na Petrobrás, a gigante estatal do petróleo, que teria beneficiado o partido de Dilma e alguns aliados de sua coalizão.

Levando-se em consideração tanta acidez, o bipartidarismo parece ser uma perspectiva distante; lideranças do PSDB já indicaram que o partido perdeu a eleição porque sua oposição ao governo foi demasiadamente fraca nos anos mais recentes. Eles certamente pressionarão pela abertura de um inquérito parlamentar para o escândalo da Petrobrás. Esses e outros enfrentamentos iminentes não facilitam muito o tipo de amplo consenso que será necessário se Dilma pretende levar a cabo a primeira prioridade descrita no seu discurso de vitória: uma reforma política para tornar o país mais governável.

Mas, por enquanto, a disfunção só deve aumentar. A partir de janeiro o congresso vai abrigar 28 partidos, um aumento em relação aos 22 atuais, já difíceis de administrar. A fraca maioria dos votos obtida por Dilma - a mais baixa votação recebida por um governo eleito desde a restauração da democracia no país - tornará difícil a tarefa de reunir cabeças para fazer avançar mudanças significativas. A promessa dela de realizar um referendo para a reforma política merece crédito. Mas uma tentativa anterior, estimulada por imensos protestos que tomaram o país em junho de 2013 e pediam essa mudança, entre outras demandas, foi abafada por um congresso satisfeito com o arranjo atual.

Mais urgente, o Brasil precisa sair do pântano do crescimento nulo e da alta inflação, que chega a 6,7% ao ano. Para tanto, Dilma deveria adotar as ideias econômicas de Aécio, criticadas por ela durante a campanha como sendo responsáveis pelo alto desemprego, juros elevados e salários estagnados durante os mandatos anteriores do PSDB, de 1995 a 2002. Estas incluem menos interferência do governo na economia, retidão fiscal e independência do Banco Central, bem como reformas na impenetrável burocracia e no labirinto fiscal do Brasil. Nos anos 1990, longe de provocarem o caos como alardeia a campanha do PT, essas medidas ajudaram a estabilizar uma economia afetada pela hiperinflação e falta de competitividade, construindo os alicerces para as políticas sociais de Lula. Infelizmente, até o momento a presidente não chegou nem mesmo a reconhecer que o Brasil tenha problemas estruturais, que dirá agir para remediá-los. O empresariado que aguardava sinais de uma trégua no discurso de vitória de Dilma, para além das platitudes a respeito da necessidade de crescimento mais acelerado e apoio aos empreendedores, ficou desapontado.

É provável que os mercados obriguem o país a fazer algum grau de ajuste fiscal. E talvez Lula ainda convença sua protegida a ser um pouco mais pragmática e menos hostil aos mercados, como foi o comportamento dele durante sua presidência de 2003 a 2010. Mas o mais provável é que Dilma simplesmente faça ajustes periféricos o bastante para evitar um doloroso rebaixamento na classificação de crédito do país. Na ausência de amplas reformas estruturais, o Brasil vai seguir derrapando, colocando em risco os empregos, a renda e até os tão queridos programas sociais do PT. A partir de agora, a jornada deve ficar mais turbulenta.

À margem do mercado global

editorial deO ESTADO DE S. PAULO

O Brasil perdeu o passo na globalização, continua uma das economias mais fechadas do mundo e participa muito menos que outros emergentes das cadeias produtivas, como confirma o novo relatório anual da Organização Mundial do Comércio (OMC). Embora ainda seja uma das dez maiores economias do mundo, na sexta ou sétima posição pelo valor de seu Produto Interno Bruto (PIB), permaneceu no ano passado em 22.º lugar na lista dos exportadores de bens, de acordo com o relatório. Já ocupava essa posição em 2012, sem avanços importantes ao longo dos últimos dez anos. O documento daria um retrato mais informativo e ainda mais feio se mencionasse também alguns detalhes, como a vinculação do Brasil a um emperrado Mercosul, a dependência da Argentina para as exportações de manufaturados e sua situação quase colonial no intercâmbio com a China, como fornecedor de matérias-primas trocadas por bens industriais.

 

 

O relatório da OMC confirmou, nos aspectos essenciais, o diagnóstico já publicado no Brasil pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo o estudo intitulado Comércio e Protecionismo em Bens Intermediários, do pesquisador Flávio Lyrio Carneiro, a abertura comercial do País pouco avançou nos últimos 20 anos, depois de um ensaio de liberalização. Em 2003, a tarifa média de importação ainda era de 13,62%. Em 2012 continuava muito alta, de 12,96%. A tarifa para bens intermediários - incorporados na produção de outros bens - passou de 12,01% para 10,96% nesse intervalo. A evolução foi muito mais sensível em outros emergentes e essa é uma das explicações para sua maior integração nas cadeias produtivas internacionais.

A expansão das cadeias globais de valores, com crescente presença dos países em desenvolvimento, é uma das quatro grandes tendências apontadas no relatório da OMC. As outras são o aumento da participação dos países em desenvolvimento na economia mundial, a valorização dos produtos agrícolas e dos recursos naturais e, como consequência da maior integração, o impacto cada vez mais amplo dos choques macroeconômicos.

Os países em desenvolvimento agora participam com cerca de metade do comércio de bens intermediários e isso é considerado um indicador de sua presença nas cadeias internacionais de produção. O intercâmbio Sul-Sul corresponde a um quarto das trocas desse tipo de mercadorias. Curiosamente, nos últimos 12 anos a diplomacia comercial brasileira privilegiou a integração comercial com economias emergentes e em desenvolvimento, mas essa orientação foi muito mais ideológica do que pragmática. O Brasil se envolveu em poucos acordos comerciais, geralmente com mercados pouco significativos, e continua à margem da maior parte das grandes transformações ocorridas no comércio global. Segundo o estudo da OMC, o Brasil é uma das três grandes economias, juntamente com Argentina e África do Sul, com menor participação nas cadeias de valor. A própria OMC já havia chamado a atenção para isso, alguns anos antes, ao dedicar um estudo especial a essas cadeias.

Para medir essa participação, os pesquisadores levam em conta o uso de insumos estrangeiros na produção de bens exportados por um país e o emprego de bens vendidos por esse país nas mercadorias exportadas por terceiros. A combinação desses valores correspondeu em 2008 - último dado incluído na pesquisa - a cerca de 40% do valor exportado pelo Brasil. Numa lista de 30 países desenvolvidos e em desenvolvimento, 25 apresentaram indicadores maiores que o brasileiro.

Presença nas cadeias globais de valor tende a proporcionar, para economias emergentes e em desenvolvimento, mais investimentos diretos estrangeiros, maior absorção de tecnologia, ganhos de produtividade e maiores oportunidades de geração de empregos de alta qualidade - além, é claro, de melhores condições de crescimento. A escassa participação nas cadeias produtivas globais coincide claramente, no caso brasileiro, com estagnação industrial, baixo poder de competição e produtividade emperrada. Não há surpresa nessa coincidência.

Fonte:
El País + ESTADÃO

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