Banco Central americano (FED) põe fim a seis anos de estímulos para a economia dos EUA

Publicado em 29/10/2014 19:05 473 exibições
no El País

Acaba uma época, uma experiência única de uma das piores crises do capitalismo. O Federal Reserve pôs fim hoje ao programa de compra massiva de ativos financeiros e empréstimos hipotecários para inundar de liquidez os mercados e estimular a economia dos Estados Unidos. Novembro será o primeiro mês dos últimos 37 em que o Fed não comprará dívida, o que implica deixar a primeira economia do planeta sem o motor que começou a bombear dinheiro em 2008, depois da hecatombe do Lehman Brothers.

O comunicado do banco afirma que a taxa de juros continuará sendo de 0% durante um período de tempo "considerável", provavelmente até meados de 2015 (o Fed manterá um balanço de ativos de 4,5 trilhões de dólares – cerca de 11,1 trilhões de reais), sempre e quando os indicadores atuais forem confirmados e a inflação, controlada em 1,7%, continuar dando margem.

O tom geral do documento é positivo, com o objetivo de tranquilizar os mercados, algo voláteis nos últimos dias. As autoridades tinham motivos para isso. Ainda é preciso saber se os investidores superam a dependência dos mais de 3,5 trilhões de dólares injetados durante esses anos e se a recuperação dos EUA é suficientemente robusta para navegar sozinha. Janet Yellen, presidenta do Fed, acredita que chegou o momento de se livrar dessa dependência.

Acertar o momento e o calibre do aumento das taxas é um dos pontos mais espinhosos que o Fed deve enfrentar. E as pressões não ajudam. Os detentores de bônus, fundos poderosos, empresas financeiras e magnatas de todo tipo querem taxas que mantenham amarrada a inflação para não ver seus títulos se depreciarem.O banco central indica uma "expansão moderada" da economia com um "sólido" ritmo de criação de emprego. Nesse sentido, e em contraste com comunicados anteriores, destaca-se a "gradual redução dos obstáculos" para a contratação. Entretanto, o Fed indica que a pressão inflacionária está em baixa e que o mercado imobiliário mostra uma "recuperação lenta", o que justificaria uma margem de tempo antes de subir o preço do dinheiro.

Em junho de 2013, a simples sugestão de uma retirada de estímulos por parte do então chefe do banco central dos EUA, Ben Bernanke, provocou pânico nas Bolsas. O fechamento da torneira foi progressivo para que o paciente não sentisse a mudança bruscamente. Em janeiro deste ano, o Fed reduziu de 85 bilhões de dólares a 75 bilhões a quantidade mensal dedicada à compra de ativos. Mês a mês foi limando a cifra até chegar aos 15 bilhões do último mês. A redução escalonada permitiu que os mercados absorvessem a noticia, aceitando-a hoje sem turbulências. Depois do anúncio, o índice Dow Jones registrou uma queda de meio ponto.

A operação de estímulos massivos começou em 2008. Depois da quebra do Lehman Brothers e da confirmação de uma das piores crises da história do capitalismo, o banco central dos EUA reduziu suas taxas de juros a quase zero para tentar fortalecer os motores da economia. Não foi suficiente e teve de lançar três etapas de compra de dívida no mercado (2008, 2010 e 2012). Na última delas, o compromisso foi fechar a torneira quando a economia mostrasse sinais de estabilização e um crescimento razoável. O momento chegou, mesmo que com matizes.

Desde 2012, o desemprego caiu de 8,1% a 5,9% em setembro. A previsão de crescimento para este ano é de 1,7%, e de 3% para 2015. Os indicadores de produção estão no positivo. A recuperação, portanto, é um fato. Os analistas advertem, contudo, que ainda existem algumas debilidades. Um exemplo são os salários, que estão estancados.

A melhora das contas públicas está entre os êxitos da Administração de Obama (o déficit fiscal foi reduzido a 483,4 bilhões de dólares em 2014, equivalente a 2,8% do PIB e o mais baixo desde 2007). No entanto, o mercado de trabalho apresenta algumas incógnitas, principalmente em relação ao percentual de desempregados na população ativa. São muitos os trabalhadores que, por idade ou porque não possuem a qualificação necessária, foram apagados das estatísticas.

O mercado imobiliário tampouco tem todos os números favoráveis. A construção civil e os preços se animaram, mas o crédito prossegue claudicante. Antes da crise se concedia um crédito a cada meia hora. Agora os bancos colocam muito mais obstáculos. Mesmo assim, os empréstimos concedidos a estudantes limitam muito a capacidade de endividamento das famílias mais jovens.

O crescimento é uma realidade, mas é desigual. Os dados oferecem poucas dúvidas. Se a renda dos norte-americanos que ganham menos de 20.000 dólares por mês caiu 6% entre 1997 e 2013, a renda da parcela composta pelos 1% mais ricos, os que recebem mais de 318.000 dólares por ano, cresceu 7% no mesmo período. No mercado, os 1% dos mais ricos concentram 20% dos ativos financeiros do país.

Desemprego dos EUA fica abaixo de 6% pela primeira vez desde 2008

A primeira potência mundial cria 248.000 empregos no mês de setembro

A economia dos Estados Unidos avança em sua recuperação gradual. No mês de setembro, a primeira potência mundial criou 248.000 empregos, o que representa tendência a uma alta sólida diante dos 180.000 de agosto, segundo o último dado revisado daquele mês. O índice de desemprego, assim, caiu dois décimos, para 5,9%, o mais baixo desde julho de 2008. A evolução do mercado de trabalho em setembro pode forçar o Federal Reserve a antecipar sua estratégia no sentido de alta de juros.

O consenso dos analistas antecipava a criação de 215.000 empregos e o mercado especulava porque o desemprego não passava de 6,1%. Mas também havia o temor de que pudesse haver surpresas, porque as estatísticas indicam que setembro costuma ser um mês preguiçoso no mercado de trabalho. No caso, além disso, jogam menos os fatores estacionários, o que teria provocado uma moderação do crescimento. Nos dois anos anteriores, no mesmo mês 160.000 vagas foram criadas.

O dado de agosto melhora também a média de 213.000 empregos criados no último ano. Com as eleições de meio mandato batendo à porta, o presidente Barack Obama dedicou um discurso na quinta-feira às conquistas obtidas graças a sua política. A mensagem foi otimista. Disse que o mercado de trabalho se recuperou e que agora é hora de aumentar os salários e melhorar a qualidade do trabalho. Durante seu mandato, as famílias perderam 2.100 dólares em receita.

O aumento da contratação e a queda do desemprego não se refletindo nos salários. Em parte porque a economia não cresce tão rápido e também porque há muita gente afastada do mercado de trabalho. O índice de participação é de 62,7%. A isso se somam os 7,1 milhões forçados a trabalhar em tempo parcial e ao fato de boa parte da criação de empregos ter ocorrido em setores de baixa remuneração. Essa dicotomia confirma a estratégia de Janet Yellen, do FED.

A evolução do emprego é o indicador principal que o Federal Reserve acompanha em função da primeira alta de juros há oito anos. É algo que deve acontecer entre março e junho de 2015. Em outubro, está previsto que o banco central desmanche o programa de compra de dívida, cortando os últimos 15 bilhões de dólares. O recuo começou em dezembro.

Na última reunião em setembro, o FED disse que espera que o crescimento para este ano ronde os 2,1% para chegar a 2,8% em 2015. Espera-se que o desemprego se mantenha em 6% até o fim de 2014 e que caia para 5,5% no fim do próximo ano. A inflação está a um nível que permite ganhar tempo antes se de dar o próximo passo no sentido da volta à normalidade. Yellen quer fazer as coisas com calma.

Fonte:
EL PAÍS

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