Economia caminha para terminar com crescimento pífio ou estagnação

Publicado em 02/11/2014 06:39 125 exibições
BC dá a largada a ajuste que afetará crescimento (Folha de S. Paulo deste domingo)

O desempenho da economia em 2015 pode ser tão ruim quanto em 2014, que caminha para terminar com crescimento pífio ou estagnação.

Esse é o cenário considerado otimista por economistas e leva em conta que o governo continuará subindo a taxa de juros e fará um ajuste nos gastos públicos.

O aumento inesperado da taxa básica Selic para 11,25% na última semana foi visto como indício de que o governo pode tomar esse rumo, apesar do discurso contrário defendido por Dilma Rousseff na campanha eleitoral.

Embora seja considerado necessário para recolocar a economia na rota do crescimento, o ajuste significaria expansão mais fraca no curto prazo. Isso tem levado analistas a rever para baixo as previsões de crescimento.

"Se o ajuste for feito, vai exigir aumento do desemprego e queda no ritmo de expansão de salários", diz José Márcio Camargo, sócio da Opus, gestora de investimentos.

Camargo trabalhava com projeção de crescimento de 1% no próximo ano, mas diz que o número pode ser menor, talvez perto de zero.

A economista Silvia Matos, da FGV, também prevê que a expansão da economia em 2015 será fraca, perto de 1%. "Depois de um ano de crescimento zero, é muito pouco."

Ela ressalta, porém, que não fazer o ajuste seria pior:

"Seria um suicídio político. Não fazê-lo é perder o grau de investimento na certa."

A perda da nota, um selo de que o país é destino seguro para os investimentos, pode desencadear uma saída de recursos do Brasil, o que resultaria na alta do dólar e no encarecimento do financiamento a governo e empresas.

CONTAS EM COLAPSO

Essa ameaça foi detonada pela deterioração das contas públicas, devido à alta dos gastos do governo em ritmo superior ao da arrecadação de impostos. Na sexta (31), o governo informou que a receita não foi suficiente para cobrir as despesas em setembro. Isso ocorre há cinco meses.

A estratégia era aumentar as despesas públicas para reativar o crescimento, o que não ocorreu. Agora aparecem os efeitos colaterais.

"A política fiscal colapsou. Não gerou crescimento e virou fonte de inflação e de perda de confiança dos empresários", diz Zeina Latif, economista-chefe da corretora XP.

A piora nas contas públicas tem sido acompanhada por um aumento do deficit nas transações do país com o exterior, outra fonte de desequilíbrio que causa preocupação em relação ao Brasil.

Na opinião de Latif, não ajustar as contas do governo levará à recessão. "Ao contrário da intuição, o ajuste vai ser bom", diz.

Fazê-lo será também um desafio, já que o crescimento mais fraco deprime mais a arrecadação de impostos. O efeito é potencializado pelo aumento dos juros pelo Banco Central, que tenta frear a inflação limitando a expansão do crédito.

Mas, segundo economistas, o ajuste pode ajudar a recuperar a confiança de empresários, permitindo a retomada dos investimentos.

"Se não fizer o ajuste, o desempenho da economia em 2015 pode ser ainda pior porque a chave de tudo é a confiança", diz Caio Megale, economista do Itaú Unibanco.

ndústria de sucata de ferro dispensa 10% da sua mão de obra

O setor de sucata de ferro demitiu o maior volume de funcionários desde a crise de 2008, segundo o Inesfa (que representa as empresas).

A redução do preço do minério e do consumo interno são alguns dos motivos apontados para os desligamentos.

"A tendência é que ocorram mais dispensas, pois o período de final de ano é historicamente menos produtivo nas indústrias que consomem sucata", diz Marcos Fonseca, presidente do Inesfa.

Desde os meses de junho e julho, foram aproximadamente 4.000 funcionários, 10% de toda a mão de obra do setor no país.

"É um termômetro da construção civil e da indústria de bens que contenham aço, como automóveis, linha branca e latas. Se esses segmentos não vão bem, eles não compram sucata."

Os cortes só não se assemelham aos reflexos da última crise por conta do desempenho das exportações, que em setembro subiram 30,2% em relação ao mês anterior.

A demanda interna pela matéria-prima, por sua vez, diminuiu 30% no segundo semestre deste ano, em relação aos primeiros seis meses.

No mesmo período, houve uma queda de geração de 15%, diz Fonseca.

Fabricantes de móveis do RS terão resultado negativo em 2014

A indústria moveleira do Rio Grande do Sul deverá registrar retração neste ano, de acordo com a Movergs (associação das empresas do setor do Estado).

A projeção é de uma queda de 2% na produção. Em 2013, o resultado havia sido uma alta de 6,8%.

O faturamento deverá crescer nominalmente ao redor de 7,5%. "Mas a inflação do nosso setor está acima do IPCA. Utilizamos muita matéria-prima importada, cotada em dólar", diz o presidente da entidade, Ivo Cansan.

"No final, deveremos ter um recuo na receita."

No ano passado, o faturamento real das moveleiras gaúchas avançou 4,1%, somando R$ 6,7 bilhões.

"As famílias estão endividadas demais e os juros subiram muito. Os consumidores perderam a confiança e acabaram cortando gastos", acrescenta Cansan.

45 mil é o número de empregados pelo setor no Rio Grande do Sul

18,6% do faturamento da indústria moveleira brasileira concentra-se no Estado

2.580 são as empresas no RS

ANÁLISE DE VINICIUS TORRES FREIRE:

O choque sendo chocado

Um país com dólar, juros e impostos maiores; de contenção do consumo, por algum tempo

A CALAMIDADE confirmada das contas do governo, os motivos que o Banco Central apresentou para aumentar os juros e ideias que circulam entre aqueles que podem comandar a economia dão pistas do choque que está sendo chocado para o governo Dilma 2.

Isto é, pelo menos até que a presidente se revolte com esse programa mínimo e diga "cortem as cabeças" de quem quer "ajuste". Mas a presidente, que no fundo é uma boa alma, talvez volte inspirada pelos ares da Bahia, onde descansa, e comande a mudança para evitar o pior.

DÓLAR EM ALTA. O Banco Central deu a entender que espera alta duradoura do dólar e de preços regulados (combustíveis, eletrici- dade, talvez passagens). O BC pode ter parte ativa na desvalorização do real. Nas próximas semanas, decide se continua com o progra- ma de controle do preço do dólar implementado em agosto de 2013.

O deficit externo do país está alto: consumimos mais do que produzimos, comprando e financiando a diferença no exterior. Num mundo de capital mais escasso e de descrédito do Brasil, a tendência é que o financiamento desse deficit fique algo mais difícil. Deixar o real se desvalorizar é um modo de conter esse excesso de consumo e, talvez, melhorar as exportações brasileiras, dando algum lento à economia deprimida.

O efeito colateral disso é infla- ção maior, o que demandará ju- ros mais altos. Tanto mais altos quanto menor for a correção das despesas do governo.

ONDE CORTAR? Quase não há corte fácil e imediato de gastos a fazer. O governo pode reduzir seus magros investimentos, que inclu- em os subsídios ao Minha Casa Minha Vida. Reduzir gastos com INSS, só no ano que vem, quando seria possível conter o reajuste do salário mínimo e, talvez, ter apro- vado normas para conter a despesa com pensões por morte, seguro-desemprego e abono salarial.

MAIS RECEITA, MAIS IMPOSTO. O governo deve voltar a cobrar o tributo sobre combustíveis (Cide). Deve diminuir o subsídio da eletricidade. Voltar a arrecadar parte do IPI que deixou de cobrar sobre carros etc. Talvez volte com algum imposto sobre operações financeiras. Cobrar IOF não exige lei; uma nova CPMF precisa de aval do Congresso.

ANOS DE ARROCHO. Se raspar o fundo do tacho e promover os aumentos de impostos menos inviáveis, o governo deve fazer uma poupança de 1% do PIB (superavit primário, receita maior que a despesa que não inclui a conta de juros). O mínimo necessário para equilibrar as contas e o crédito públicos é 3% do PIB, se não houver problemas adicionais (juros altos demais por mais tempo, seca e racionamentos etc.).

Dado que o crescimento de 2015-16 será mínimo, assim como o da receita de impostos, chegar a um superavit de 3% do PIB demandará anos de arrocho de gasto público e/ou aumento adicional de impostos.

TERRENO MINADO. O Judiciário quer aumento. Há projetos de gastos bombásticos no Congresso indócil. Seca e escassez de eletricidade podem criar novos custos (São Paulo já pediu dinheiro ao governo federal, para citar apenas um exemplo). Há as promessas de campanha. Etc.

Esses são os magros indícios de um programa mínimo, "só para começar". Está difícil.

NA COLUNA PAINEL: 

Caixa de Pandora Um ministro que conhece o Congresso como a palma da mão aposta que a disputa pela presidência da Câmara ficará em suspenso até que se conheçam todos os políticos investigados no caso da Petrobras.

Vem bomba O auxiliar de Dilma Rousseff diz que a revelação dos parlamentares que receberam do doleiro Alberto Youssef forçará um rearranjo na Câmara e no Senado. "A eleição começa quando a lista vier à tona. Será avassaladora", prevê.

Chegou atrasado Horas depois de uma comissão especial do Senado aprovar medida provisória que muda a carreira da Polícia Federal, na quinta, o ministro Ricardo Berzoini (Relações Institucionais) telefonou para os senadores da base orientando-os a não votar o projeto.

Volta às aulas Avisado de que a votação já havia acabado, Berzoini se surpreendeu. Achava que o texto só entraria na pauta na próxima semana. Senadores viram novo sinal de que o Planalto perdeu o pulso do Congresso.

Volta, Lula Nas primeiras reuniões depois da vitória de Dilma, parlamentares do PT desabafaram: as bancadas do partido passaram os últimos quatro anos afastadas do Planalto.

Jardineira Enquanto corria a campanha, em outubro, a Presidência assinou contrato de "irrigação automatizada" do gramado do Palácio da Alvorada. Vai custar R$ 259 mil em cinco meses.

Fonte:
Folha de S. Paulo

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