Por que o socialismo sempre irá fracassar?

Publicado em 10/11/2014 14:03 e atualizado em 12/11/2014 15:09 1244 exibições
por Hans-Hermann Hoppe, do Ludwig von Mises Institute
O socialismo e o capitalismo oferecem soluções radicalmente diferentes para o problema da escassez: já que é impossível que todos tenham, imediatamente e ao mesmo tempo, tudo aquilo que querem, como então podemos decidir de modo eficaz quem irá controlar os recursos que temos? 
A solução que for escolhida trará profundas implicações.  Ela pode significar a diferença entre prosperidade e empobrecimento, trocas voluntárias e coerção política, liberdade e totalitarismo.
O sistema capitalista soluciona o problema da escassez ao reconhecer o direito à propriedade privada honestamente adquirida.  O primeiro a utilizar um determinado bem torna-se o seu proprietário.  Outros podem adquiri-lo por meio de trocas e contratos voluntários.  Mas até que o dono da propriedade decida fazer um contrato para comercializar sua propriedade, ele pode fazer o que quiser com ela - desde que ele não interfira na propriedade alheia, danificando-a fisicamente.
O sistema socialista tenta solucionar o problema da propriedade de uma maneira completamente diferente.  Assim como no capitalismo, as pessoas podem ser donas de bens de consumo.  Mas no socialismo, diferentemente do capitalismo, as propriedades que servem como meios de produção são coletivizadas, não possuindo proprietários.  Nenhuma pessoa pode ser dona das máquinas e dos outros recursos utilizados na produção de bens de consumo.  É a humanidade, por assim dizer, a dona desses recursos.  
Apenas um tipo de pessoa pode comandar os meios de produção: os "zeladores" do sistema, aqueles que controlam todo o arranjo socialista.
As leis econômicas garantem que a socialização dos meios de produção sempre irá gerar efeitos econômicos e sociológicos perniciosos.  Qualquer experimento socialista sempre acabará em fracasso, por cinco motivos.
Primeiro, o socialismo resulta em menos investimentos, menos poupança e um padrão de vida menor.  Quando o socialismo é inicialmente imposto, a propriedade precisa ser redistribuída.  Os meios de produção são confiscados dos atuais usuários e produtores, e entregues à comunidade de "zeladores".  Mesmo que os proprietários e usuários tenham adquirido os meios de produção via consentimento voluntário dos usuários anteriores, os meios serão transferidos a pessoas que, na melhor das hipóteses, tornar-se-ão usuárias e produtoras de coisas que elas não possuíam anteriormente.
Sob esse sistema, os proprietários e usuários anteriores são penalizados em prol dos novos donos.  Os não-usuários, não-produtores e não-contratantes dos meios de produção são favorecidos ao serem promovidos à posição de zeladores de propriedades que eles não utilizaram, não produziram ou não alugaram para usar.  Assim, a renda dos não-usuários, não-produtores e não-contratantes aumenta.  O mesmo é válido para o não-poupador que se beneficiou à custa do poupador cuja propriedade poupada foi confiscada.
Torna-se claro, portanto, que, se o socialismo favorece o não-usuário, o não-produtor, o não-contratante e o não-poupador, ele necessariamente eleva os custos sobre os usuários, os produtores, os contratantes e os poupadores.  É fácil entender por que haverá menos pessoas exercendo essas últimas funções.  Haverá menosapropriações originais dos recursos naturais, menos produção de novos fatores de produção e menos contratantes.  Haverá menos preparação para o futuro porque todos os investimentos secarão.  Haverá menos poupança e mais consumo, menos trabalho e mais lazer.
Isso significa menos bens de consumo disponíveis para trocas, o que leva a uma redução do padrão de vida de todos.  Se as pessoas estiverem dispostas a se arriscar para obtê-los, elas terão de ir para o mercado negro e para a economia informal, onde poderão tentar contrabalançar essas perdas.
Segundo, o socialismo resulta em escassez, ineficiências e desperdícios assombrosos.  Essa foi a grande constatação de Ludwig von Mises, que ainda em 1920 já havia descoberto que o cálculo econômico racional é impossível sob o socialismo.  Ele mostrou que, em um sistema coletivista, os bens de capital serão, na melhor das hipóteses, utilizados na produção de bens de segunda categoria; na pior, na produção de coisas que não satisfazem absolutamente nenhuma necessidade.
A constatação de Mises é simples, porém extremamente importante: como no socialismo os meios de produção não podem ser vendidos, não existem preços de mercado para eles.  Assim, seu "zelador" não pode determinar os custos monetários envolvidos na fabricação ou na modificação das etapas dos processos de produção.  Tampouco pode ele comparar esses custos à receita monetária das vendas.  E como ele não tem a permissão de aceitar ofertas de outros empreendedores que queiram utilizar seus meios de produção, ele não tem como saber quais as oportunidades que está perdendo.  E sem conhecer as oportunidades que está perdendo, ele não tem como saber seus custos.  Ele não tem nem como saber se a maneira como ele está produzindo é eficiente ou ineficiente, desejada ou indesejada, racional ou irracional.  Ele não tem como saber se está satisfazendo as necessidades mais urgentes ou os caprichos mais efêmeros dos consumidores.
Ou seja, a propriedade comunal dos meios de produção (por exemplo, das fábricas) impede a existência de mercados para bens de capital (por exemplo, máquinas).  Se não há propriedade privada sobre os meios de produção, não há um genuíno mercado entre eles.  Se não há um mercado entre eles, é impossível haver a formação de preços legítimos.  Se não há preços, é impossível fazer qualquer cálculo de preços.  E sem esse cálculo de preços, é impossível haver qualquer racionalidade econômica — o que significa que uma economia planejada é, paradoxalmente, impossível de ser planejada.  
Sem preços, não há cálculo de lucros e prejuízos, e consequentemente não há como direcionar o uso de bens da capital para atender às mais urgentes demandas dos consumidores da maneira menos dispendiosa possível.  
No capitalismo, o livre mercado e o sistema de preços fornecem essa informação ao produtor. A propriedade privada sobre o capital e a liberdade de trocas resultam na formação de preços (bem como salários e juros), os quais refletem as preferências dos consumidores e permitem que o capital seja direcionado para as aplicações mais urgentes, ao mesmo tempo em que o julgamento empreendedorial tem de lidar constantemente com as contínuas mudanças nos desejos dos consumidores.  
Já no socialismo, não há preços para os bens de capital e não há oportunidades de trocas voluntárias.  O "zelador" fica à deriva e no escuro.  E como ele não conhece a situação de sua atual estratégia de produção, ele não sabe como melhorá-la.  Quanto menos os produtores podem calcular e fazer aprimoramentos, maior a probabilidade de desperdícios e escassezes.  Em uma economia na qual o mercado consumidor para seus produtos é muito grande, o dilema do produtor é ainda pior.  
Desnecessário dizer que, quando não há um cálculo econômico racional, a sociedade irá afundar em um empobrecimento progressivamente deteriorante. Qualquer passo rumo ao socialismo é um passo rumo à irracionalidade econômica.
Terceiro, o socialismo resulta na utilização excessiva dos fatores de produção — até o ponto em que eles se tornam completamente dilapidados e vandalizados.  Um proprietário particular em um regime capitalista tem o direito de vender seu fator de produção no momento em que ele quiser, e manter para si as receitas da venda.  Sendo assim, é do seu total interesse evitar perdas no valor de seu capital.  Como ele é o dono, seu objetivo é maximizar o valor do fator responsável pela produção dos bens e serviços por ele vendidos.
A situação do "zelador" socialista é inteiramente diferente.  Como ele não pode vender seu fator de produção, ele tem pouco ou nenhum incentivo para fazer com que seu capital retenha valor.  Seu estímulo, ao contrário, será aumentar a produção sem qualquer consideração para com as consequências disso sobre o valor de seu fator de produção — o qual, por causa do uso constante e desmedido, só irá cair.  
Há também a hipótese de que, caso o zelador vislumbre uma oportunidade de utilizar seus meios de produção em benefício privado — como produzir bens para serem vendidos no mercado negro —, ele terá o incentivo de aumentar a produção à custa do valor do capital, consumindo completamente o maquinário.  Afinal, ele não tem nada a perder e tudo a ganhar.
Não importa como você veja: quando não há propriedade privada e livre mercado — ou seja, quando há socialismo —, os produtores estarão propensos a consumir o capital até sua completa inutilização.  O consumo de capital leva ao empobrecimento.
Quarto, o socialismo leva à redução da qualidade dos bens e serviços disponíveis ao consumidor.  Sob o capitalismo, um empresário pode preservar e expandir sua empresa apenas se ele for capaz de recuperar seus custos de produção.  E como a demanda pelos produtos de sua empresa depende da avaliação que os consumidores fazem do preço e da qualidade (sendo o preço um critério de qualidade), a qualidade dos produtos tem de ser uma preocupação constante para os produtores.  Isso só é possível se houver propriedade privada e trocas voluntárias de mercado.
Sob o socialismo, as coisas são diferentes.  Não apenas os meios de produção são coletivamente geridos, como também é coletiva a renda obtida com a venda de toda a produção.  Isso é outra maneira de dizer que a renda do produtor tem pouca ou nenhuma conexão com a avaliação que os consumidores fazem do seu trabalho.  Todos os produtores, obviamente, sabem desse fato.
Assim, o produtor não tem motivos para fazer um esforço especial para melhorar a qualidade do seu produto.  Ao invés disso, ele irá dedicar menos tempo e esforço para produzir o que os consumidores querem e gastar mais tempo fazendo o que ele quer.  O socialismo é um sistema que incentiva os produtores a serem preguiçosos.
Quinto, o socialismo leva à politização da sociedade.  Dificilmente pode existir algo pior para a produção de riqueza.
O socialismo, pelo menos em sua versão marxista, diz que seu objetivo é a completa igualdade.  Os marxistas observam que, uma vez permitida a propriedade privada dos meios de produção, está permitida a criação de diferenças sociais.  Se eu sou o proprietário do recurso A, isso implica que você não é — logo, nossa relação com o recurso A torna-se diferente e desigual.  
Ao abolir de uma só vez a propriedade privada dos meios de produção, dizem os marxistas, todos passarão a ser co-proprietários de tudo.  E isso seria o mais justo, pois estaria refletindo a igualdade de todos como seres humanos.
A realidade, porém, é muito diferente.  Declarar que todos são co-proprietários de tudo irá solucionar apenas nominalmente as diferenças de posse.  Mas não irá resolver o real e fundamental problema remanescente: ainda existirão diferenças no poder de controlar o que será feito com os recursos.
No capitalismo, a pessoa que é dona de um recurso pode também controlar o que será feito com ele.  Em uma economia socializada, isso não se aplica, pois não mais existem proprietários.  Não obstante, o problema do controle continua.  Quem irá decidir o que deve ser feito com o quê?  No socialismo, só há uma maneira: as pessoas resolvem suas desavenças a respeito do controle da propriedade sobrepondo uma vontade à outra.  Enquanto existirem diferenças, as pessoas irão resolvê-las por meios políticos.
Se as pessoas quiserem melhorar sua renda sob o socialismo, elas terão de ascender a posições mais valorizadas dentro da hierarquia dos "zeladores".  Isso requer talento político.  Sob tal sistema, as pessoas terão de despender menos tempo e esforço desenvolvendo suas habilidades produtivas e mais tempo e esforço aprimorando seus talentos políticos. 
À medida que as pessoas vão abandonando seus papeis de produtoras e usuárias de recursos, percebe-se que suas personalidades vão se alterando.  Elas deixam de cultivar a capacidade de antecipar situações de escassez, de aproveitar oportunidades produtivas, de estar alerta a possibilidades tecnológicas, de antecipar mudanças na demanda do consumidor e de desenvolver estratégias de marketing.  Elas perdem a capacidade da iniciativa, do trabalho e da resposta aos anseios de terceiros.
Nesse cenário, as pessoas passam a desenvolver a habilidade de mobilizar apoio público em favor de suas próprias posições e opiniões, utilizando-se de artifícios como demagogia, poder de persuasão retórica, promessas, esmolas e ameaças.  Sob o socialismo, as pessoas que ascendem ao topo são diferentes das que o fazem sob o capitalismo.  Quanto mais alto você olhar para uma hierarquia socialista, mais você encontrará pessoas excessivamente incompetentes para fazer o trabalho que supostamente deveriam fazer.  Não é nenhum obstáculo para a carreira de um político-zelador ser imbecil, indolente, ineficiente e negligente.  Só é necessário que ele tenha boas habilidades políticas.  
Isso é uma receita cera para o empobrecimento de qualquer sociedade.
Hans-Hermann Hoppe é um membro sênior do Ludwig von Mises Institute, fundador e presidente da Property and Freedom Society e co-editor do periódico Review of Austrian Economics. Ele recebeu seu Ph.D e fez seu pós-doutorado na Goethe University em Frankfurt, Alemanha. Ele é o autor, entre outros trabalhos, de Uma Teoria sobre Socialismo e Capitalismo eThe Economics and Ethics of Private Property.

A queda do Muro: a perspectiva de Alan Greenspan

Amanhã a queda do Muro de Berlim completa seu vigésimo-quinto aniversário. Foi um marco da história, selando definitivamente o fracasso da experiência socialista, que precisou erguer um muro para impedir a saída do próprio povo.

No capítulo 6 do seu livro de memórias A Era da Turbulência (Elsevier Editora, 2007), Alan Greenspan comenta sobre os empolgantes anos da queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética mais tarde. A seguir, coloco alguns trechos que considero mais interessantes:

“Como os Chevrolets 1957 nas ruas de Havana, aquela relíquia (um trator a vapor da década de 1920) representava a diferença fundamental entre sociedades sob planejamento central e sociedades capitalistas: lá não havia destruição criativa, não existia o ímpeto para construir melhores ferramentas.”

“Sem mercados eficientes para determinar a oferta e a demanda, as conseqüências quase sempre são enormes excedentes de produtos que ninguém quer e enormes faltas de produtos que muita gente quer, mas que não são produzidos em volumes adequados.”

“Sem a ajuda de mecanismos de formação de preços, o planejamento econômico soviético não contava com a orientação constante do feedback eficaz. Igualmente importante, os planejadores não contavam com os sinais das finanças para ajustar a alocação das poupanças para investimentos reais produtivos, que acomodassem as mudanças nas necessidades e nos gostos da população.”

“Depois da Segunda Guerra Mundial, as democracias européias se deslocaram para o socialismo e o equilíbrio se inclinou na direção do controle governamental central, mesmo nos Estados Unidos – afinal, todo o esforço de guerra da indústria americana fora obra, na verdade, do planejamento central.”

“Em economia, experimentos controlados raramente são possíveis, mas, com esse propósito, não se poderia desenvolver nada melhor que a comparação entre a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental, nem mesmo em laboratório. Ambos os países começaram com a mesma cultura, com a mesma língua, com a mesma história e com o mesmo sistema de valores. Então, durante quarenta anos, competiram em lados opostos de uma linha, com muito pouco comércio entre si. A grande diferença sujeita a teste eram os sistemas político e econômico: capitalismo de mercado versus planejamento central.”

“A queda do muro expôs um grau de decadência econômica tão devastador que surpreendeu até os mais céticos. A força de trabalho da Alemanha Oriental, constatou-se, apresentava apenas um terço da produtividade da força de trabalho da Alemanha Ocidental, bem aquém dos 75% a 85% supostos até então.”

“’Fim da União Soviética – Gorbachev, último líder soviético, renuncia; EUA reconhecem independência das repúblicas’, foi a manchete do New York Times de 26 de dezembro – ao deparar com ela, lamentei que Ayn Rand não estivesse viva para vê-la. Ela e Ronald Reagan foram duas das poucas pessoas a prever, algumas décadas antes, que a URSS acabaria implodindo.”

“O colapso do planejamento central não estabeleceu imediatamente o capitalismo, ao contrário das previsões róseas de muitos políticos conservadores. Os mercados ocidentais se erguem sobre vasta base de cultura e de infra-estrutura, que evoluiu ao longo de gerações: leis, convenções e comportamentos, além de profissões e práticas de negócios, que não eram necessárias nas economias sob planejamento central. Forçados a fazer a mudança da noite para o dia, os soviéticos alcançaram não o sistema de livre mercado, mas o do mercado negro. (…) Falta a certeza do direito de propriedade, pino mestre da economia de mercado. (…) Poucas pessoas arriscarão o próprio capital se as recompensas estiverem sujeitas à apreensão arbitrária pelo governo ou pelas massas.”

“Marx de modo algum foi o primeiro a condenar a propriedade privada; a noção de que a propriedade privada é pecaminosa, assim como a obtenção de lucro e o empréstimo a juros, tem raízes profundas no cristianismo, no islamismo e em outras religiões. Apenas com o Iluminismo surgiram princípios opostos, que forneceram a base moral da propriedade, do lucro e do juro. John Locke, grande filósofo britânico do século XVIII, escreveu sobre o ‘direito natural’ de todos os indivíduos ‘à vida, à liberdade e à propriedade’. Essa reflexão exerceu profunda influência sobre os Pais da Pátria americana, e contribuiu para fomentar o capitalismo de livre mercado nos Estados Unidos.”

“A confiança na palavra alheia, principalmente de estranhos, era outro elemento que notoriamente faltava na nova Rússia. Quase não pensamos nessa faceta do capitalismo de mercado, mas ela é crucial. (…) Nas sociedades livres, quase todas as transações são, portanto, inclusive por necessidade, espontâneas. Esses intercâmbios voluntários, por sua vez, exigem confiança. (…) Mas a confiança precisa ser conquistada; a reputação é, em geral, o ativo mais valioso de uma empresa.”

“Por fim, ainda persiste certo protecionismo latente, nos Estados Unidos e alhures, que pode emergir como força poderosa contra o comércio e as finanças internacionais, debilitando o próprio capitalismo de livre mercado, mormente se a economia mundial de alta tecnologia, hoje predominante, perder o viço. Entretanto, o veredicto contra o planejamento central já havia sido proferido, e fora inequivocamente adverso.”

Infelizmente, grande parte do povo brasileiro ainda não acordou para este fato!

Rodrigo Constantino

Você quer um mundo em que as pessoas andem descalças?

Por Carolina de Vasconcellos*, publicado noInstituto Liberal

De acordo com Nathaniel Branden, psicólogo americano autor do livro “The Psychology of Self-Esteem” (“A Psicologia da Autoestima”), autoestima é “a disposição de experienciar-se como competente para lidar com os desafios básicos da vida e ser merecedor da felicidade. É a confiança na eficácia da nossa mente, nossa capacidade de pensar. Portanto, é a confiança na nossa habilidade de aprender, fazer escolhas apropriadas e responder efetivamente à mudança. É também a experiência de que sucesso, realização, preenchimento – felicidade – são certos e naturais para nós.”

Não é de se admirar que, diante disso, Branden se classifique como um libertário.

Em sua palestra na Libertarian Party of California, em 2000, o americano discorreu a respeito de temas libertários e sua relação com a psicologia. Neste artigo, me propus a analisar algumas de suas colocações mais marcantes (em aspas, as frases dele; no resto do artigo, minhas ponderações).

“A mentalidade libertária pressupõe a disposição em aceitar responsabilidade por sua própria existência”.

A questão da autorresponsabilidade é um dos pilares do conceito de autoestima de Nathaniel Branden. Trata-se da compreensão de que nós temos a capacidade de causar efeitos desejados em nossas vidas e sermos responsáveis por nosso futuro, através de uma vida orientada ativamente e não passivamente (ou “victim-like”).

De acordo com Branden, apesar dos programas de bem-estar social terem surgido com o objetivo de diminuir a dependência, eles somente pioraram este problema, através da corrosão da autoestima e autorrespeito das pessoas.

Imagine que você esteja doente ou passando por momentos de dificuldade. É comum que sua autoestima fique fragilizada, por vezes desacreditando em sua capacidade de enfrentamento ou no sucesso futuro. Entretanto, diversos estudos mostram que pessoas que lidam com essas dificuldades de forma positiva tem melhor qualidade de vida e saem das dificuldades com maior facilidade. Bem, isso é o que a psicologia nos ensina.

E o que nos ensina a política? O exato oposto. O poder político sobrevive justamente das demandas de auxílio e proteção. O governo certamente faz um bom trabalho em convencer as pessoas de que, sem ele, não seriam capazes de conquistar quase nada e ficariam indefesas. E quanto mais vitimizado e frágil você se sentir, mais delegará sua própria existência ao auxílio e proteção externos. Com isso, cresce o poder do Estado, o estatismo e as demandas, num círculo vicioso.

“Nós criamos uma nação com números crescentes de pessoas que realmente pensam que tem direito a tudo aquilo que acham que precisam”.

Uma das consequências esperadas da mentalidade estatista é a transferência da responsabilidade pelo próprio futuro para o outro. O “outro” seria o Estado, não fosse o próprio Estado dependente de “outros”. Como se caíssem do céu e precisassem somente de “vontade política” para recolhê-los e distribuí-los, bens e serviços recebem uma nova nomenclatura: direitos. Basicamente são uma “garantia”, em forma de lei, de que você receberá aquilo de que necessita ou deseja. No mundo real, aquele que existe fora das fantasias megalomaníacas de legisladores (que acreditam em canetas com poderes sobrenaturais), temos restrições executivas e morais a este plano. Bens e serviços não nascem pela “vontade política”, mas pelo trabalho das pessoas. Se alguém tem que te dar algo de graça, significa que está trabalhando de graça. Portanto, bens e serviços não são direitos, como Branden explica primorosamente:

“Você não pode ter um direito natural a algo que outra pessoa tem que produzir. Você não pode ter um direito somente pelo fato de ter nascido, porque veja a posição em que isso coloca as pessoas de quem você coletará este direito, elas viram seus servos”.

Outro aspecto interessante em relação aos estudos de Branden refere-se à capacidade de responder às mudanças. Em seu discurso, ele compara a transição de duas eras – a de economia industrial, nos anos 1980, para a economia de informação, nos anos 2000.

“Estamos vivendo em um mundo em que o principal ativo de capital é o que carregamos entre as orelhas”.

Para o psicólogo, este novo mundo em que vivemos requer um nível mais alto de desenvolvimento psicológico do que em épocas anteriores. Há poucas décadas, a maioria dos trabalhos necessitava de um curto treinamento prévio, com posterior aplicação deste treinamento de forma quase monótona; com a era da informação, devido à rapidez com que o conhecimento tem se aprimorado, o mundo tornou-se um lugar cheio de oportunidades, porém também mais assustador – depende de como está sua autoestima e, portanto, sua resposta a essas mudanças.

“Uma das razões para o ressurgimento do fundamentalismo religioso, do tribalismo, do racismo, é que as pessoas estão assustadas”.

Na própria conceituação de autoestima, a palavra “confiança” é continuamente repetida, ela é peça-chave do próprio conceito. Em uma mente dominada pelo medo, há pouco espaço para a confiança. Os movimentos acima citados são movimentos coletivistas, que anulam o indivíduo. Com a perda da confiança no indivíduo e a atribuição externa das responsabilidades, a ideia de “grupos” se fortalece – inclusive de “grupos inimigos”. O medo aumenta a demanda por segurança – para isso, muitos estão dispostos a abrir mão da própria liberdade.

“Uma sociedade libertária requer um nível de maturidade psicológica mais alto que a requerida num estado de bem-estar social, ou numa sociedade socialista”.

A ideia de autorresponsabilidade e adaptação a mudanças são essenciais para uma sociedade libertária, que não se baseia em coerção, proteção ou privilégios estatais, e sim em voluntarismo. Infelizmente, como bem ressalta Braden, não nos preparamos para ela, pelo contrário: as crianças hoje tendem a ser criadas com um senso de merecimento inato, sem os instrumentos para lidar com a realidade econômica atual ou as oportunidades de uma sociedade livre.

“Uma das maneiras que considero úteis para fazer as pessoas ao menos entenderem o que é o Libertarianismo é construir pontes entre a arena em que elas entendem o que é autorresponsabilidade e mostrar como se aplica à área em que não pensaram em aplicar ainda”.

Finalmente chegamos à parte dos sapatos, que deu o título a este artigo. Branden pede que imaginemos que estamos no início da formação dos EUA e que chegou-se à conclusão de que o governo deveria ser responsável por prover sapatos para as pessoas. Isso pareceria óbvio, já que ninguém quer que os cidadãos andem descalços. Imagine então que um “radical maluco” dissesse: “Eu não acho que o governo deve prover sapatos, acho que deveríamos privatizar a questão dos sapatos”. As pessoas diriam: “Você está maluco? Não tem compaixão? Você quer um mundo de pessoas pobres e criancinhas andando descalças?”. Então Nathaniel Branden interrompe a imagem mental e diz: “Este é um erro que não cometemos”. Pelo acesso aos sapatos pelas diferentes classes sociais em todo o mundo, sabemos que ele está certo.

E você, quer um mundo em que as pessoas andem descalças?

* Psiquiatra

 

Chega de doutrinação marxista nas escolas!

Minha mulher levava nossa filha e duas amigas para um shopping quando meu nome veio à tona. É que um professor da escola delas – uma escola particular muito respeitada e rigorosa – fica usando seu canal nas redes sociais para me atacar e defender o governo Dilma. Minha esposa explicava que em sua página ele era livre para tanto, e só não podia fazer campanha partidária – para o PT ou para a oposição – dentro da sala de aula. Isso é crime.

Foi quando o assunto migrou para comunismo versus capitalismo. Uma delas, cuja mãe é empresária, disse que o capitalismo também falhou, afinal, o mundo é imperfeito e com muita desigualdade (só faltou culpar o capitalismo pela miséria africana). E acrescentou que o lado bom do comunismo é desejar que todos tenham as mesmas oportunidades, acesso aos mesmos bens materiais. Ela tem um iPhone, por que os alunos da escola pública em frente não podem ter também?

Estamos falando de meninas com 12 anos. A elite de esquerda tem repetido a mesma ladainha por aí. Para essas pessoas, ser socialista, comunista ou de esquerda é desejar que os mais pobres tenham os mesmos bens que os ricos. Nada mais falso! Mas é o que vem sendo repetido pela esquerda caviar, justificando a contradição entre acumular cada vez mais bens e ao mesmo tempo pregar o socialismo igualitário.

Os socialistas não querem melhorar a vida dos mais pobres, ou ao menos não são os únicos que querem isso. O que fazem é monopolizar as virtudes. Quem efetivamente melhora a vida dos mais pobres é o capitalismo, uma economia liberal com foco na busca do lucro em ambiente de livre concorrência. Todas as experiências comprovam o que a teoria explica.

O que os socialistas efetivamente querem é tirar dos ricos, pois partem da premissa de economia como jogo de soma zero, em que João, para ficar rico, teve de tirar de Pedro. Ou seja, o lucro seria uma exploração, uma “mais-valia”. Rejeitam a ideia de mérito, de vocações e dons distintos, o que sempre levará a desigualdades em ambiente de liberdade. O que os socialistas fazem é explorar a culpa das elites abastadas, e começam a fazer isso bem cedo, como podemos ver.

Gustavo Ioschpe, em sua coluna na Veja desta semana, conta justamente como tem ficado estarrecido com a doutrinação marxista nas escolas particulares do Brasil. Como especialista no tema educação, faz várias palestras, e tem se deparado com alunos que elogiam o modelo cubano, onde só há proselitismo ideológico e as pessoas são proibidas de ler o que desejam.

Alguns chegam ao extremo de acusá-lo de preconceito por cobrar conhecimento objetivo e capacidade de leitura dos alunos. Estamos nivelando por baixo, enaltecendo a mediocridade, e espalhando marxismo por aí, sem que os pais saibam ou façam algo a respeito. Ioschpe faz a seguinte pergunta:

Ioschpe

Pois é. Muitos não sabem, outros não ligam, e alguns acham que faz parte, mas que em casa conseguem inocular seus filhos com o antivírus ao marxismo. Mas o fato é que estão substituindo um ensino mais objetivo por uma máquina de doutrinação ideológica, o que é um absurdo e prejudica bastante o país.

Para começo de conversa, a meritocracia e a responsabilidade individual, dois valores liberais que os socialistas condenam, precisam fazer parte de qualquer ensino de qualidade. Ou será que os professores vão, agora, em nome da igualdade, somar a nota dos melhores com a dos piores e dividir igualmente entre eles? Será que vamos endossar o fim da cobrança individual no desempenho escolar, em nome do coletivismo de esquerda? Ioschpe conclui:

Ioschpe 2

Escola sem partido já! Chega de doutrinação marxista nas escolas de nossos filhos!

Rodrigo Constantino

Fonte:
Inst. Ludwig Von Mises Brasil

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