EDITORIAL DO ESTADÃO: A pequenez da presidente

Publicado em 20/11/2014 14:57 1720 exibições
E Dilma "Atrás do biombo", por Lauro Jardim, de Veja.com

Uma notícia que começa informando que a presidente Dilma Rousseff passou mais de 10 horas reunida com seus conselheiros na residência oficial do Alvorada para tratar do impacto da Operação Lava Jato permitiria supor que finalmente a chefe do governo resolveu mudar de atitude - se não "para sempre", como acredita que a devassa da corrupção na Petrobrás fará com o País, pelo menos para olhar nos olhos a crise que não cessa de se desdobrar. A uma leitura apressada, portanto, Dilma teria compreendido que o escândalo não se esvairá a tempo de preservar o seu segundo mandato, nem, muito menos, poderá ser neutralizado mediante bruxarias destinadas a preservar os interesses das levas de protagonistas que o cevaram. Eis por que, em um assomo de lucidez, teria se trancado com interlocutores de confiança em busca do caminho mais adequado para agir à altura da hora.

Nada disso, evidentemente. Dilma mais uma vez demonstrou que lhe falta imaginação política, para não falar em grandeza moral ou figurino de estadista: na bonança ou sob a tormenta, é a mesma mediocridade, a mesma cegueira, a mesma esperança pueril de que as adversidades se dissiparão por si mesmas e tudo convergirá para o desfrute de mais quatro anos de mando soberano. Pois o que se informa é que o motivo da interminável reunião de anteontem foi preparar uma "agenda positiva" para tirar do centro das atenções a sangria da Petrobrás, que pode ter alcançado entontecedores R$ 21 bilhões, segundo estimativas de um banco americano. Ou, por alto, 200 mensalões. Depois de exaustiva falação, os convidados da presidente - o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, o seu colega da Justiça, José Eduardo Cardozo, e a estrela em ascensão no Planalto, o governador da Bahia, Jaques Wagner, provável ministro ainda não se sabe do que - parecem ter chegado a uma conclusão momentosa.

Diferentemente do que assessores palacianos não identificados teriam dito à chefe, a trinca avaliou que o anúncio dos primeiros membros do futuro Gabinete, a começar pelo titular da Fazenda, não dariam conta de abafar o incêndio da Petrobrás e de impedir que o fogaréu se alastre ao coração do poder. Tivessem eles concluído o oposto, ou não ter concluído nada, tanto faz. O estarrecedor, o que não pode ser minimizado, é que nenhum dos bravos companheiros da presidente, muito menos a anfitriã, parece ter se enfurnado no Alvorada para descortinar como ela poderia intervir, na condição de chefe de Estado, no escândalo que concentra as atenções nacionais. Estavam todos ali, irmanados na mediocridade, atrás de uma fresta para a qual a presidente deveria correr a fim de ficar ao abrigo dos estilhaços e não pôr em risco o suposto capital político da reeleição. Suposto porque, como se sabe, Dilma saiu apequenada da batalha.

A fragilidade da presidente aumenta na razão direta das denúncias, delações e confissões envolvendo os capitães da empreita brasileira e do acúmulo de evidências de promiscuidade entre eles com antigos e atuais figurões da Petrobrás e dirigentes petistas. O tesoureiro do partido, deputado João Vaccari, encabeça o que decerto se revelará uma lista de apreciáveis proporções. Uma planilha apreendida pela Polícia Federal indica que a cunhada do político teria recebido R$ 244 mil do onipresente Alberto Youssef, o doleiro que, em troca de redução da pena, desencapou o fio da história escabrosa. Numa hipótese caridosa, Dilma simplesmente não sabe o que fazer diante do enrosco. O mais provável, no entanto, é que sabe, mas não se dispõe a fazer, para não derrubar sobre a própria cabeça as colunas do esquema de poder às quais se mantém abraçada. De outro modo, não se explica por que ela ainda não tomou a decisão de trocar toda a diretoria da Petrobrás.

Esta é uma presidente sem estofo. Das manobras de varejo que o jargão planaltino chama de "agenda positiva", embora não seja nem uma coisa nem outra, faz parte o engavetamento das medidas de ajuste das contas públicas, como aumento de impostos. Com a mesma intenção, o ministro Aloizio Mercadante anuncia - agora! - o início das atividades de um grupo de trabalho para estimular a indústria.

Atrás do biombo

dilma

Dilma anda sumida

A impressão geral, inclusive dentro do governo e do PT, é que Dilma Rousseff está encolhida, se escondendo da crise.

Por Lauro Jardim

 

Volta, João

santana e dilma

Santana: fazendo falta

Um experiente ex-governador do PMDB acha que descobriu porque Dilma se enrolou tanto desde o dia seguinte à sua vitória na eleição. Eis o diagnóstico do irônico ex-governador:

- Foi o João Santana sumir e a coisa desandar.

Por Lauro Jardim

 

No velório

Trabalhando dobrado em defesa das grandes empreiteiras

Velório em São Paulo

Dilma Rousseff mudou sua agenda hoje e vai a São Paulo para o velório de Márcio Thomaz Bastos.

Por Lauro Jardim

 

Os planos A e B

Barbosa: no banco

Barbosa: no banco (de reservas)

O plano A de Dilma Rousseff para o Ministério da Fazenda é Luiz Carlos Trabuco. Se não rolar, o Plano B está pronto: Nelson Barbosa.

Por Lauro Jardim

 

O acerto entre Dilma e Temer

Conversa no Alvorada

Conversa no Alvorada

Dilma Rousseff e Michel Temer tiveram uma reunião hoje de manhã, no Palácio da Alvorada, e acertaram que PT e PMDB vão se esforçar para que a mudança na LDO seja aprovada na segunda-feira na Comissão Mista de Orçamento.

Será um bom teste para medir o grau de ascendência de Temer sobre seu partido.

Por Lauro Jardim

 

Térmicas no fio da navalha

Termelétricas em ação

Termelétricas em ação

De acordo com dados do próprio governo, a segunda-feira registrou o segundo recorde de acionamento de termelétricas em toda história: 16 895 megawatts (MW).

Para que o leitor possa entender o tamanho da encrenca, no mesmo dia em 2013, foram consumidos 10 899 MW a partir de térmicas – ou seja, 55,0% menos.

Na verdade, o recorde do uso de térmicas só não foi quebrado porque faltou energia vinda das termelétricas.  Toda a capacidade instalada disponível foi utilizada.

Na terça-feira e ontem, o uso intenso das térmicas continuou: 16 776 MW anteontem e  16 727 MW ontem.

Por Lauro Jardim

 

Salve-se quem puder

PF sai fortalecida

PF sai fortalecida

Um experiente criminalista, atuando na Operação Lava-Jato, estava ontem preocupado.

Motivo: cada um dos suspeitos está tomando um caminho de defesa – um diz que foi achacado; o outro que deu dinheiro, mas sem achaque; e um terceiro afirmando que nunca deu nada.

Em sua opinião, esse “cada um para um lado” fragiliza a defesa e fortalece a acusação.

Por Lauro Jardim

 

Baiano confiava em PRC

 

Baiano: fala ou não fala?

Baiano: fala ou não fala?

Tem muito peemedebista certo de que Fernando Baiano vai aguentar o tranco e não abrir o bico. Não custa contar uma história em que o próprio Baiano é personagem.

Logo depois da prisão de Paulo Roberto Costa em abril, na primeira fase da Operação Lava-Jato, Baiano disse a um interlocutor porque não temia que o ex-diretor da Petrobras o entregasse:

- Somos amigos, passo as férias com as filhas dele. Estou tranquilo.

Deu no que deu. Apertado, Costa revelou que Baiano era o “operador do PMDB”.  Ou seja, depois que o sujeito está preso nem sempre consegue responder por si.

O próprio Pedro Barusco, o gerente confessadamente corrupto da Petrobras, é um exemplo. Mal sentou na cadeira de réu e já negociou a devolução de 97 milhões de dólares surrupiados da Petrobras. Nem precisou ser muito apertado e já saiu falando.

Por Lauro Jardim

 

Dia da Consciencia Individual

Caro leitor, hoje é o Dia da Consciência Negra, feriado aqui no Rio. Antes era uma data em homenagem a Zumbi dos Palmares, mas foi estendida para toda a “raça”. Nem preciso dizer que não aprecio tal segregação racial em nosso miscigenado país. Portanto, resgato um texto que escrevi no GLOBO alguns anos atrás, em mesma data:

Dia da Consciência Individual

Cada indivíduo possui diversas características que ajudam a identificá-lo, entre elas: crença religiosa, altura, classe social, sexo, postura política, nacionalidade e cor da pele. O coletivista é aquele que seleciona arbitrariamente alguma dessas características e a coloca no topo absoluto da hierarquia de valores. Para o nacionalista, a nacionalidade é a coisa mais relevante do mundo. Para o socialista, a classe é tudo que importa. Para o racialista, a “raça” define quem somos.

Todos eles ignoram a menor minoria de todas: o indivíduo. Schopenhauer disse: “A individualidade sobrepuja em muito a nacionalidade e, num determinado homem, aquela merece mil vezes mais consideração do que esta”. De fato, parece estranho se identificar tanto com alguém somente com base no local de nascimento. O mesmo pode ser dito sobre a cor da pele. Deve um liberal negro ter mais afinidade com um marxista negro do que com um liberal branco? Fica difícil justificar isso.

Entretanto, o “Dia da Consciência Negra” apela exatamente para este coletivismo. Consciência é algo individual; não existe uma “consciência negra”. Compreende-se a luta contra o racismo, justamente uma forma de coletivismo que deprecia um grupo de indivíduos por causa de sua cor. Mas não creio ser uma boa estratégia de combate ao racismo enaltecer exatamente aquilo que se pretende atacar: o conceito de “raça”. Um mundo onde indivíduos são julgados por seu caráter, não pela cor da pele, como sonhava Martin Luther King, não combina com um mundo que celebra a consciência de uma “raça”.

A origem do feriado coloca mais lenha na fogueira. Zumbi dos Palmares, ao que tudo indica, tinha escravos. Era a coisa mais natural do mundo em sua época. Ele lutava, portanto, pela sua própria abolição, não da escravidão em si. A humanidade conviveu com a escravidão desde sempre. Diferentes conquistadores transformaram em escravos os conquistados. Os gregos, romanos, incas, astecas, otomanos, todos fizeram escravos. As principais religiões consideravam isso algo normal. Não havia um critério racial para esta nefasta prática. Tanto que os próprios africanos eram donos de escravos.

Somente o foco no indivíduo, com o iluminismo, possibilitou finalmente aposentar a escravidão. A Declaração de Independência Americana seria a síntese desta nova mentalidade. Os principais abolicionistas usaram suas poderosas palavras como argumento definitivo contra a escravidão. No famoso caso Amistad, em 1839, o ex-presidente John Quincy Adams fez uma defesa eloqüente dos africanos presos: “No momento em que se chega à Declaração de Independência e ao fato de que todo homem tem direito à vida e à liberdade, um direito inalienável, este caso está decidido”.

O Brasil apresenta um agravante prático: a própria noção de “raça”. Afinal, aqui predomina a mistura, como o recém-falecido Lévi-Strauss percebeu em Tristes Trópicos. Para o antropólogo, ‘negro’ é um termo que “não tem muito sentido num país onde a grande diversidade racial, acompanhando-se de pouquíssimos preconceitos, pelo menos no passado, possibilitou misturas de todo tipo”. Como celebrar a “consciência negra” num país de mestiços, caboclos e cafuzos? Deve o mulato priorizar uma parte de sua origem, em detrimento da outra? A mãe negra é mais importante que o pai branco, ou vice-versa?

Eu gostaria muito de viver num país onde não houvesse racismo. Infelizmente, acho que feriados que enaltecem a “consciência da raça” não ajudam. Seria melhor criar o “Dia da Consciência Individual”.

Rodrigo Constantino

Fonte:
O Estado de S. Paulo + VEJA

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2 comentários

  • JURANDIR MONTANHER NOVA LONDRINA - PR

    O BRASIL TEM TUDO PARA SER UM PAIS DE PRIMEIRO MUNDO EM QUALIDADE E PRODUÇÃO SOMENTE PRECISAMOS QUE OS GOVERNANTE DEVERIA TER RESPEITO PELO CARGO QUE OCUPA E NÃO QUERER TRAPACIAR A NAÇÃO UMA VEZ QUE ESTAMOS EM UM PAIS QUE VOTAR NÃO É DESCIDIR O RUMO DO PAIS E SIM AUTORIZAR MAL INTENCIONADO A ROUBAR O DINHEIRO DO COFRE DA NAÇÃO E ARRECADAÇÃO DE IMPOSTO,VAMOS MUDAR PARA COMECAR A CRESCER, VOTO TEM QUE SER DE PESSOAS ESCLARECIDA E QUE ESCUTA AS PROPOSTA E SAIBA DIFERENCIAR DE PROMEÇA ELEITOREIRA, QUE FAZ PROMEÇA ESTA SEMPRE MAL INTENCIONADO, NÃO TEM RESPEITO PELA PATRIA, E SEMPRE BUSCA TIRAR PROVEITO, PARA ESTAS PESSOAS DEVERIA SER ADOTADO NO PAIS PENA DE MORTE POR CUMPLICIDADE PASSIVA DE CORRUPIÇÃO.

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  • Sérgio Nogueira Avaré - SP

    Parabens Rodrigo, o dia da Consciencia Individual sera excelente, porem num pais onde o governo faz um trabalho arduo para deixar o povo inconsciente, acredito que vamos demorar um pouco para chegar a isto.

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