Na FOLHA: Levy já é 'bombardeado' por petistas antes de ser oficializado na Fazenda

Publicado em 24/11/2014 05:56 1367 exibições
Ex-secretário do Tesouro entrou em conflito com Mantega em 2006 por visão sobre salário mínimo. Petistas veem contradição na escolha de Levy após campanha de Dilma afirmar que Aécio cortaria mínimo , por ANDRÉIA SADI, da Folha de S. Paulo em BRASÍLIA

Convidado para assumir o Ministério da Fazenda, Joaquim Levy coleciona críticas de ministros atuais de Dilma Rousseff e tem sido alvo de petistas, que nos bastidores tentam reverter a indicação. Eles argumentam que Levy tem perfil liberal e é contra a política de valorização do salário mínimo.

Um dos principais adversários de Levy no governo Lula foi justamente Guido Mantega, então presidente do BNDES e hoje titular demissionário da Fazenda.

Em março de 2006, Mantega acusou Joaquim Levy, então secretário do Tesouro Nacional, de ter uma visão "conservadora, não sintonizada com a política social do governo Lula".

Os programas sociais são a principal vitrine dos 12 anos dos governos Lula e Dilma.

Na ocasião, Mantega contestou um estudo elaborado por Levy, hoje no Bradesco, que apontava o aumento do salário mínimo como o responsável por parte substancial do crescimento do gasto público em 2005. O estudo foi divulgado no site do ministério da Fazenda.

"Estão equivocados. Este governo tem por objetivo elevar o valor do salário mínimo e executar os programas sociais. Isso é o que diferencia este governo. Nenhum burocrata pode impedir que o presidente o faça. Quem for contra está em outro governo", atacou Mantega em uma entrevista para o jornal "O Estado de S. Paulo" em 2006.

Na sexta, Dilma convidou Joaquim Levy, Alexandre Tombini e Nelson Barbosa para integrarem a sua nova equipe econômica.

PROXIMIDADE COM PSDB

Uma ala do PT quer reverter a escolha de Levy para a Fazenda alegando sua proximidade com a política econômica do PSDB de Aécio Neves. Eles lembram, reservadamente, que a indicação pode representar uma contradição em relação às críticas feitas por Dilma durante a campanha eleitoral.

Dilma criticou a escolha de Aécio por Armínio Fraga, presidente do BC no governo FHC, que ficaria à frente da Fazenda. A presidente chegou a dizer que Fraga "não gosta do salário mínimo".

"Ele acha que, no Brasil, para resolver os problemas, eles têm de reduzir o salário mínimo porque está excessivo. Isso é um escândalo", afirmou a presidente.

Na TV, Dilma explorou uma frase de Aécio, segundo a qual, se eleito, tomaria medidas "impopulares". A peça dizia que poderia isso significaria "eventuais cortes na educação, saúde e em programas sociais".

A indicação de Levy, revelada pela Folha na sexta (21), foi bem recebida pelo mercado. A Bolsa subiu 5% e dólar caiu 2,08% para R$ 2,519.

 

ANA'LISE DE VALDO CRUZ:

Dilma, a juíza

BRASÍLIA - O PT não gostou nem um pouco, mas a equipe de Dilma Rousseff já ensaia o discurso em defesa da escolha de Joaquim Levy para substituir Guido Mantega no comando do Ministério da Fazenda.

Tudo bem que ele é um economista adepto da ortodoxia, algo considerado uma doença para petistas. Mas hoje, dizem dilmistas, o futuro ministro, tudo indica, está bem mais maduro e mais consistente.

Fazem questão de lembrar que Levy fez críticas aos juros altos quando era secretário do Tesouro do governo Lula. Reclamava que cumpria sua parte no controle de gastos e o Banco Central exagerava um pouco no aperto da política monetária.

Além disso, o Palácio do Planalto aposta numa equipe econômica mais equilibrada neste segundo mandato, criando um ambiente para um "debate saudável" sobre os rumos da economia brasileira a partir de 2015.

De um lado, Levy e sua ortodoxia. De outro, Nelson Barbosa com sua visão mais desenvolvimentista no Ministério do Planejamento. E, no BC, Alexandre Tombini mirando a inflação no centro da meta.

No primeiro mandato, só deu a linha desenvolvimentista. Se gerou desemprego baixo e renda do trabalho em alta, deixou inflação elevada, juros salgados, rombo nas contas externas e crescimento medíocre. Mistura explosiva e pronta para destruir as conquistas sociais.

Não por outro motivo Dilma Rousseff fez o que fez. Para surpresa de amigos, depois de bater na Neca do Itaú na campanha, convidou o Trabuco do Bradesco e escolheu Joaquim Levy para Fazenda, também do Bradesco e adepto da mesma cartilha econômica de Armínio Fraga.

Total incoerência com o discurso eleitoral, daí a tristeza no mundo petista. Pior, porém, seria insistir nos erros que estavam levando o país a um quadro de estagflação.

Agora, depois dos bons sinais na escolha da nova equipe, é preciso saber como Dilma Rousseff exercerá seu papel de árbitra da economia.

 

comentário de RICARDO MELO:

Governo novo, ideias velhas

Primeiros nomes do ministério frustram eleitor que esperava renovação para melhor em 2015

Nem no seu nascimento o PT se pretendia um partido revolucionário, na acepção clássica do termo. Nem sequer reformista, nos moldes da social democracia do século passado. No máximo poderia ser caracterizado como um partido reformador.

Espaço existia, como prova a história: num país com desigualdades tão acentuadas como o Brasil, uma legenda reivindicando ser porta-voz dos trabalhadores e tendo em seu programa a luta, mesmo genérica, contra abismos sociais, conseguiu a proeza de emplacar quatro mandatos seguidos na direção do Planalto. Mas a fórmula não é eterna.

Impossível escapar. A política de agradar a Deus e ao Diabo encontra seus limites no sistema capitalista --embora no Brasil nem tarefas democráticas básicas, como a reforma agrária, ainda tenham sido cumpridas.

Mesmo com todas estas condicionantes, o triunvirato econômico que se dá como fechado para o próximo governo extrapola os limites da moderação. Na fase final da campanha, Dilma Rousseff abraçou o slogan de governo novo, ideias novas. Nada mais velho e cheirando a mofo do que os nomes aparentemente indicados para o núcleo duro da economia.

Não por acaso Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini são comemorados pelo chamado mercado --aquele ente supostamente imaterial que afogou o planeta numa das maiores crises da história contemporânea.

Levy tem uma história vinculada ao "caixa": sua obsessão confessa é fazer o azul superar o vermelho, seja em que sentido for. Sua visão dispensa maiores preocupações com os custos sociais das fórmulas matematicamente "elegantes", capazes de levar a banca, grande capital e um setor da academia ao êxtase e ao mesmo tempo disseminar o desespero na maioria que possui pouco ou quase nada.

Barbosa e Tombini têm pouco a apresentar aos milhões que votaram na presidenta. São figuras miúdas, ideais para compor um time suscetível à pressão do mais forte. Moldáveis ao gosto do freguês.

Como brinde, anuncia-se a nomeação de Kátia Abreu para a Agricultura. Ainda não se sabe direito se é apenas um balão de ensaio ou um fato consumado. Confirmada a segunda hipótese, a coisa assume ares de provocação para uma parcela destacada dos que reconduziram Dilma ao Planalto.

Esta é a questão de fundo, aliás. Nos seus primeiros sinais, a administração vindoura parece ignorar as condições de sua vitória. Na eleição mais disputada dos últimos anos, o PT teve que recorrer às raízes profundas do partido, mantidas sob sedativos por anos de adaptação de fatias da legenda a benesses do poder. O apelo foi respondido com um triunfo inquestionável sobre a ofensiva conservadora.

Era de se esperar dos vencedores medidas no mesmo sentido. Todos percebem que a economia anda aos trancos e barrancos, fruto de uma crise mundial que não poupa ninguém e também da timidez do governo em aprofundar um caminho de ruptura com modelos vigentes. Some-se a isto o pessoal que aposta na profecia que se autorrealiza, entre os quais um setor importante do empresariado. A turma do "não investimos porque o país não vai crescer, e não crescemos porque deixamos de investir".

Longe de qualquer observador equilibrado esperar rupturas bruscas, mas sim de enxergar um horizonte que mantenha e aprofunde as conquistas sociais. Salvo pela existência de uma bem guardada carta na manga, impossível de se vislumbrar até agora, o novo governo vem andando na contramão do que prometeu. Um jogo mais do que perigoso.

 

análise de LUIZ FERNANDO VIANNA:

Farinha pouca

RIO DE JANEIRO - Se confirmadas, as escolhas de Kátia Abreu e Joaquim Levy podem provocar um bocado de tristeza, mas zero de surpresa. O Ministério da Agricultura já está nas mãos do agronegócio há muito tempo. Era sonho impossível uma guinada em prol dos trabalhadores rurais, das terras indígenas, das preocupações ambientais.

E, a despeito do discurso algo esquerdista da campanha de Dilma, já se esperava na Fazenda um economista linha-dura, que tente pôr as contas em ordem e satisfaça os sempre insatisfeitos "mercados".

Reformas ministeriais são maçantes, pois só mudam os nomes, não os interesses que representam. Mas há dois ingredientes novos.

Um, claro, são as investigações na Petrobras. É provável que o ventilador alcance dezenas de políticos, inclusive da oposição. Sabe-se lá como vai ficar a "base aliada" (nome curioso, pois com aliados desse nível não se precisa de inimigos). Num cenário quase ingênuo, Dilma ganhará mais liberdade de escolha, já que parte de seus interlocutores partidários estará na cadeia. No pior cenário para ela, alguns de seus escolhidos estarão presos ou sem cacife.

O outro ingrediente é que há mais gente na arena pública. A telefonia celular e a internet, por exemplo, criaram novas formas de inclusão econômica, social e política. No Brasil dos últimos 20 anos, cresceu a renda per capita, caiu o desemprego, conquistaram-se direitos --graças a programas de governo e à militância de diversos segmentos.

Mas a fartura acabou. Quem melhorou de vida, abrindo pequenas fissuras no nosso sistema de castas, não vai querer recuar. Os barões, no entanto, estão na frente e já asseguraram dois ministérios. Somos um país de coalizões tramadas em gabinetes. Talvez, agora, uma parte da escassa farinha seja disputada à luz do sol. Se não for assim, já sabemos quem comerá o pirão.

Fonte:
Folha de S. Paulo

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1 comentário

  • Eduardo Lima Porto Porto Alegre - RS

    Sucessão de análises medíocres. Esse País está realmente condenado, seja pela incapacidade incorrigível dos Políticos, seja pela absoluta burrice de Jornalistas que deveriam estar recolhidos as suas correspondentes insignificâncias. A Folha de São Paulo já teve gente mais qualificada em seus quadros, agora não passa de um pasquim de quinta categoria impregnado por Comunistas.

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