Bank of America mede o entusiasmo de investidores com a vitória de Bolsonaro (na FOLHA)

Publicado em 21/10/2018 09:18
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Uma espécie de otimismo moderado toma conta de analistas estrangeiros que acompanham a economia do Brasil. O fato de o líder nas pesquisas Jair Bolsonaro (PSL) ter como assessor econômico o liberal Paulo Guedes já não é suficiente para sustentar a euforia que se viu inicialmente.

A expectativa agora recai sobre medidas e nomes escolhidos na eventual gestão do candidato. Há especial expectativa em relação a quem será o ministro da Casa Civil e se Ilan Goldfajn deixará a presidência do Banco Central, como aventado semana passada.

A avaliação é que, enquanto não houver clareza sobre o rumo a ser adotado após a eleição e, principalmente, da posse, os investimentos estrangeiros em ativos e projetos de mais fôlego no Brasil devem ficar em banho-maria.

“As empresas multinacionais com as quais conversamos neste momento contam que vão esperar para ver”, afirma Alec Lee, analista para Brasil do Frontier Strategy Group, consultoria especializada em mercados emergentes.

Esse compasso de espera deve se manter em novembro e dezembro, quando é esperado que o futuro presidente delineie a composição de seus ministérios.

 Os investidores querem conferir, sobretudo, qual a capacidade do governo de atrair nomes respeitados e alinhados com as propostas reformistas delineadas no programa do candidato do PSL.

James Roberts, especialista em América Latina da Fundação Heritage, um centro de estudos considerado conservador, acredita que o grupo de Bolsonaro será bem-sucedido nessa empreitada inicial.

“Ele não terá esse problema, pode atrair pessoas de qualidade para seu governo. Não vejo fuga de investidores por isso, e acredito que o Brasil terá mais estabilidade política”, diz. “Estou otimista. Ele vai colocar especialistas, e não políticos, nos ministérios.”

Na área econômica, a expectativa de Roberts é que o guru Paulo Guedes ajude a apontar nomes que implementarão medidas que “soam como música para os ouvidos do mercado”, como privatizações e reformas para melhorar as contas públicas do país.

Ainda assim, os investidores não estão 100% seguros sobre o que Bolsonaro priorizaria, caso eleito, e se as medidas anunciadas na campanha efetivamente sairiam do papel.

“O sentimento é positivo, mas, pela natureza contraditória da equipe, muitos defendem que é preciso aguardar para ver se algumas das promessas de campanha não serão desfeitas”, diz Lee.

Declarações do presidenciável lançando dúvidas sobre a reforma da Previdência tocada pelo presidente Michel Temer provocaram apreensão entre os investidores, assim como a resistência demonstrada em relação à venda das distribuidoras da Eletrobras.

“Há dúvidas sobre quais seriam as prioridades dele ao assumir. Há uma linha entre o que você diz que vai fazer e o que efetivamente vai fazer. Há uma incerteza, por isso acho que terá problemas para implementar as medidas que anuncia”, afirma Rachel Ziemba, presidente da Ziemba Insights e especialista em mercados emergentes.

“Também existem divergências de objetivos entre ele e seus assessores econômicos. Eu ouviria mais Bolsonaro do que os assessores. Há algumas dúvidas sobre seus reais objetivos e o que ele conseguiria no Congresso”, avalia.

É o mesmo risco identificado por William Jackson, economista-chefe para mercados emergentes da casa de análise Capital Economics. “A retórica até agora foi positiva para os investidores. Agora, se ele vai conseguir implementar, é outra questão”, diz Jackson. 

“Temos que saber se ele é comprometido com as temáticas. Nas últimas semanas, ele ficou mais despreocupado com algumas questões fiscais, sugerindo um 13º salário para quem recebe Bolsa Família, o que indica que colocou preocupações eleitorais à frente do problema fiscal”, diz o economista.

Ele estabeleceu um horizonte informal de três meses após a posse para que o mercado comece a cobrar a implementação de algumas das medidas anunciadas na campanha do candidato do PSL.

Mesmo com as incertezas, não há dúvidas de que Bolsonaro tem a preferência do mercado e das empresas, mesmo que de uma forma pouco ortodoxa, afirma Ziemba.

“Acho que há gradações de ruim e pior do lado fiscal. Não há um resultado positivo da política fiscal brasileira, só ruim e pior”, afirma. “O mercado tende a gostar de candidatos com propostas que eles consigam medir, focadas na consolidação fiscal no Brasil.”

O Bank of America tentou mensurar os ânimos. Entrevista realizada entre 5 e 10 de outubro com 43 investidores institucionais e clientes com US$ 113 bilhões de ativos sob gestão ao redor do mundo identificou um pouco da visão em relação aos dois presidenciáveis no segundo turno.

Para 58%, há sete chances em dez de um candidato de centro-direita vencer as eleições. Bolsonaro foi identificado nesse espectro, pelo que se depreende do resultado da pesquisa. Em setembro, nenhum deles apostava numa probabilidade tão elevada.

Os participantes também estão mais positivos em relação à reforma da Previdência —77% têm a avaliação de que será aprovada até o fim de 2019, ante 60% no mês passado. 

O relatório indica que, mesmo num eventual cenário de vitória de Fernando Haddad (PT), a maioria espera sinais de bom senso no caminho.

Para um terço, um governo Haddad seria uma mistura de iniciativas reformistas e outras não agradáveis ao mercado. Além disso, 26% esperam que o pragmatismo do petista desapareça com o tempo.

Bolsonaro vai mexer com salários de servidores e militares?

Jair Bolsonaro prometeu acabar com a "farra de marajás", funcionários públicos que juntam penduricalhos a seus salários altos. Prometeu também reforma da Previdência aguada: "Não podemos penalizar quem já tem direitos adquiridos. O servidor público já sofreu duas reformas".

O candidato parece perdido entre dois mundos. Ainda vive na Terra do Nunca programático, que fica entre o país liberal de seu economista-chefe, Paulo Guedes, e a ilha das corporações estatais, entre elas a militar, da qual fez parte.

No entanto, a arrumação das contas públicas depende de um plano que tem de bulir com servidores públicos e aposentados em geral.

Gastos previdenciários levam 47,7% da despesa total do governo federal; outros 22% vão para gastos com servidores (salários, aposentadorias e benefícios). Somados, dão quase 70%.

O gasto com militares leva um quarto da despesa federal com o funcionalismo. De cada R$ 3 gastos com a folha de pessoal dos militares, R$ 2 vão para aposentadorias e pensões, que custam cerca de R$ 47,5 bilhões por ano.

Aposentados e pensionistas militares custam o equivalente a um ano e meio de Bolsa Família, por exemplo. Outra comparação: os investimentos federais (em obras, como estradas, ou outros) levam apenas 0,8% da despesa total, uma miséria. O gasto com a folha dos militares leva 5,5%.

Por falar em investimento, o orçamento do Ministério da Defesa nessa área perde apenas para o do Ministério dos Transportes. Nos últimos 12 meses, os investimentos da Defesa chegaram a R$ 10,4 bilhões, um quinto do total de investimentos federais. No Ministério da Saúde, investem-se R$ 5,2 bilhões.

Em si mesma, a lista dos investimentos da Defesa parece razoável. Pela ordem, gasta-se em aviões de combate (a compra e o desenvolvimento do caça sueco da FAB e do cargueiro novo da Embraer), em blindados, construção de submarinos, estaleiro naval, barcos, helicópteros, foguetes de artilharia.

Há também gastos quase "civis", como no sistema de controle do espaço aéreo ou no de vigilância de fronteiras, em um projeto de reator nuclear ou na reconstrução da estação de pesquisa na Antártica, aquela que pegou fogo em 2012.

É muito? No caso dos salários, nem tanto.

O rendimento médio dos servidores civis da ativa é cerca de 70% superior ao dos militares. Mas o salário médio do setor público federal é cerca de 30% superior ao dos empregados do setor privado formal com as mesmas características pessoais (idade, instrução, sexo etc.).

Essa conta está em relatório de pesquisa de Izabela Karpowicz e Mauricio Soto, técnicos do FMI, publicado neste mês: "Rightsizing Brazil's Public-Sector Wage Bill" ("O Ajuste da Folha Salarial do Setor Público do Brasil").

De volta à folha dos servidores federais: seu custo equivale a 4,3% do PIB (dos quais 1,9% do PIB vão para aposentadorias e pensões). O pessoal do FMI acha que, para o ajuste das contas públicas dar certo até 2023, seria preciso reduzir tal despesa para 3,3% do PIB.

Um exemplo aritmético de como atingir esse objetivo: seria necessário conter reajustes salariais (mesmo pela inflação) e contratações por quatro anos, com o PIB crescendo a 3% ao ano. Não é uma receita, mas mostra o tamanho da encrenca.

Não deveria ser grande problema para quem quer caçar marajás, como Bolsonaro, mas é difícil para quem se diz adepto de direitos adquiridos —também como Bolsonaro. Por Vinicius Torres Freire (Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

Fonte: Folha de S. Paulo

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