Há chance de virada na eleição para presidente? Especialistas acham muito dificil... (no CORREIO BRAZILIENSE)

Publicado em 26/10/2018 13:22 e atualizado em 27/10/2018 11:23
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Cientistas políticos ouvidos pelo Correio apontam como improvável uma virada de Haddad sobre Bolsonaro, apesar de pesquisas mostrarem redução da diferença entre os dois

As últimas 48 horas anteriores às urnas serão marcadas por estratégias distintas dos presidenciáveis Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Enquanto o capitão reformado do Exército tenta segurar o ânimo dos apoiadores na tentativa de evitar algum deslize que comprometa a eleição, o ex-prefeito de São Paulo busca inflamar a militância para uma virada vista como missão quase impossível até entre os próprios petistas.

“É a primeira vez, em sete campanhas, que o PT, finalmente, encontra uma militância à altura na reta final”, afirma o cientista político Leonardo Barreto, numa referência aos correligionários dos dois candidatos. A diferença é que, como favorito, Bolsonaro adotou um discurso cauteloso para os apoiadores. "Não aceite provocações. Se tiver problema, saia. Mude de lugar. As eleições estão praticamente decididas. Não precisamos entrar na pilha deles", disse o deputado federal, ontem, durante entrevista.

A frase de Bolsonaro mostra o quanto está confiante na vitória, apesar de a pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira apontar uma redução na sua vantagem. O que está em jogo para alguns integrantes da campanha é o tamanho da diferença para Haddad. “Ele é favorito, mas a quantidade de votos define muita coisa nos primeiros passos no governo, como a própria relação com o Congresso”, diz Barreto, que, mesmo considerando um fôlego final do PT por causa de tropeços — como a ausência nos debates —, vê com ceticismo uma virada pró-Haddad.

O petista, por sua vez, deve manter os eventos de rua na tentativa de estimular os apoiadores, principalmente depois da queda na rejeição e da diminuição na distância dos votos válidos apresentada na pesquisa Datafolha de ontem (Veja matéria abaixo). “A militância do PT está entusiasmada, isso é o que importa na reta final”, disse o senador Humberto Costa (PT-PE), que ontem participou de ato do ex-prefeito na capital pernambucana.

Discursos

De acordo o cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Leonardo Avritzer, para tentar diminuir mais a diferença de votos, o petista deve assumir dois discursos de frente na reta final. “De um lado, ele deve continuar a defesa da democracia e da liberdade, o que pode contar com reforços, como a volta de Ciro Gomes ao Brasil. Por outro lado, ele deve tentar angariar os votos de pessoas de crenças religiosas porque isso se mostrou um ponto forte da disputa”, diz.

Os eventos públicos de Haddad só começaram a ocorrer nesta última semana, o que fez do ex-prefeito alvo dos próprios petistas, incomodados com o imobilismo do candidato em São Paulo. Os assessores mostraram irritação por causa da estratégia escolhida. “Ele se fechou com um núcleo pequeno de aliados, sem experiência numa campanha presidencial”, disse um deles. Um dos motivos de preocupação está nas fake news nas últimas 48 horas, um período que não é possível mais contar com a reação da Justiça ou mesmo os programas de rádio e televisão, que acabam oficialmente hoje. Tanto o PT quanto Bolsonaro se dizem preocupados com as notícias falsas. “É um período que não se pode errar, não há mais chance para tropeços”, afirmou Antonio Augusto de Queiroz, diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).

O que também inspira cuidado nas campanhas é o número de eleitores indecisos e a volatilidade dos votos, que podem ser decisivos para o resultado final da disputa presidencial. As pesquisas de intenção de votos nem sempre conseguem prever movimentos de última hora. No primeiro turno, pesquisas Ibope e Datafolha realizadas na véspera do dia de votação não conseguiram antecipar mudanças importantes nas disputas pelo governo de alguns estados.
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Os números das últimas pesquisas — como a liderança de Haddad em São Paulo, por exemplo —, segundo Geraldo Tadeu, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), podem apontar um desgaste de Bolsonaro. O movimento, porém, precisaria chegar a outros colégios eleitorais para dar qualquer esperança ao petista. “A possibilidade de virada existe, mas isso precisaria virar uma onda e se espalhar para outros lugares para modificar o resultado final”, comenta o professor.

Com o último dia de campanha eleitoral gratuita no rádio e na televisão, especialistas acreditam que os presidenciáveis devem intensificar o discurso, mas manter os padrões anteriores. Segundo o cientista político Geraldo Tadeu, o horário eleitoral deve ser composto por algumas propostas e críticas intensas entre os adversários. “A primeira parte do horário eleitoral deve ser de reforço de propostas apresentadas. E a segunda parte será usada para desconstruir o opositor. No contexto atual, não basta angariar votos, é preciso tirar votos do adversário. É um jogo de soma zero, para você crescer, tem que conseguir tirar do outro, por isso, as campanhas não devem abrir mão das críticas”, diz.
 

Volatilidade

Em Minas Gerais, por exemplo, dados do levantamento não conseguiram prever a virada do candidato Romeu Zema, do partido Novo, que alcançou 42,73% dos votos válidos, deixando para trás o atual governador Fernando Pimentel (PT) e abrindo boa vantagem contra Antonio Anastasia (PSDB). “Muita coisa é possível nessas 48 horas porque o eleitor está muito volátil. As mudanças podem acontecer principalmente com a força das redes sociais. E, para que isso se concretize, é preciso reforçar propostas e associar o nome dos candidatos a lideranças importantes, que atraiam votos”, explica o professor Leonardo Avritzer, da UFMG.

Emoções inesperadas, por MERVAL PEREIRA, em O GLOBO

A redução da diferença entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad na reta final da campanha adiciona mais emoção a um resultado que parecia já estar dado. O PT tem a fama de mobilizar seus militantes em o que chamavam de “onda vermelha”, mas não se sabe exatamente se essa capacidade continua ativa.

Jair Bolsonaro, que continua liderando a pesquisa Datafolha em todas as regiões do país, menos no Nordeste, onde Fernando Haddad vence por 56% a 30%, tem também uma capacidade de convocação de seus adeptos que já se mostrou eficiente nas manifestações organizadas pelos novos meios de comunicação, e não se sabe se essa força se mostrará na ida às urnas, e no proselitismo de última hora para impedir que a boca do jacaré se feche em favor do petista.

Os pesquisadores usam essa gíria para indicar que a diferença entre dois candidatos está diminuindo. Há uma tendência histórica de que a boca do jacaré não se fecha totalmente nas disputas presidenciais, mas como essa eleição é atípica e muito polarizada, nada é impossível.

A diferença que era de 18 pontos caiu para 12, mas na prática ela era de 9 pontos percentuais e caiu para 6, pois cada ponto que um candidato ganha, o outro perde em disputas polarizadas. Isso ainda significa cerca de 5 milhões de votos por dia para serem revertidos, e pela pesquisa Datafolha esse feito não foi conseguido nos últimos dias.

Da última pesquisa Datafolha para esta, a queda de Bolsonaro, que já havia sido detectada pelo Ibope, foi fora da margem de erro, e o pior para Bolsonaro é que o petista também cresceu fora da margem de erro, conseguindo reduzir a diferença. Haddad ganhou sete pontos na região Norte e quatro na Sul, suas maiores subidas. No Sudeste, o presidenciável do PSL mantém vantagem considerável (53% a 31%); no Sul e no Centro-Oeste, Bolsonaro tem quase 60% dos votos totais.

Não se sabe se essa mudança de humor do eleitorado é uma tendência ou se pode ser uma questão circunstancial devido às últimas acusações contra Bolsonaro, e também aos próprios erros do candidato e seu entorno. Os últimos dias foram bastante conturbados, e a pesquisa pode ter apanhado as conseqüências de fake news que não se confirmaram contra Bolsonaro, como a acusação a seu vice General Mourão de que teria sido um torturador.  

O petista cresceu oito pontos entre os que ganham acima de dez salários mínimos, o que pode ter sido influenciado pela retórica agressiva de Bolsonaro, que radicalizou nos últimos dias. Mas, nesse segmento, continua perdendo para Bolsonaro, que tem mais de 61%. Haddad continua vencendo entre os mais pobres (até dois salários mínimos), por 47% a 37%.

No eleitorado masculino, Bolsonaro bate Haddad por 20 pontos: 55% a 35%. Entre as mulheres, há empate técnico: 42% a 41%. Da mesma maneira que a pesquisa do Ibope, que mostrou um crescimento da rejeição de Bolsonaro e uma redução na do petista, também o DataFolha mostra a rejeição de Haddad caindo dentro da margem de erro, enquanto a de Bolsonaro subiu três ponto.

A redução de seis pontos aconteceu porque Bolsonaro perdeu três pontos percentuais, enquanto Haddad subiu três pontos. Como o número de indecisos permaneceu estável, há indicações de que o petista roubou votos de Bolsonaro, condição necessária para que vire o jogo nos últimos dois dias de campanha, que se encerrou ontem no rádio e televisão.

A disputa agora será nas ruas até o próximo domingo, e tudo indica que a violência das posições do líder das pesquisas afetou sua preferência entre os jovens, por exemplo, em que liderava e agora já está empatado com Haddad. Tudo leva a crer que teremos emoções não previstas nos últimos dias de campanha.

Escrevi aqui que a pesquisa do Ibope do início da semana era um sinal de alerta para a campanha de Bolsonaro, embora a mudança tivesse sido dentro da margem de erro. Se a tendência continua de queda,  ou se foi uma variação circunstancial, vai ser demonstrado, ou não, pelas pesquisas do Ibope e do DataFolha da véspera da eleição. (MERVAL PEREIRA, em O GLOBO)

Eleição nas mãos do centro?

“O movimento de ponteiros na reta final do segundo turno indica um ajuste sutil na posição do eleitorado de centro. Os números do Datafolha mostram que Fernando Haddad ganhou terreno em redutos típicos do PT, mas também tirou pontos de Jair Bolsonaro (PSL) entre os eleitores mais ricos e escolarizados”, escreveu Bruno Boghossian na Folha.

O colunista avalia os resultados da última pesquisa Datafolha para afirmar que a dois dias das eleições, o quadro desenhado até aqui só deve mudar se a fatia de eleitores de centro pender para o mesmo lado.

Clima de já ganhou atrapalha Bolsonaro

A vitória sólida no primeiro turno provocou alguns efeitos colaterais na campanha de Jair Bolsonaro: um clima de “já ganhou” por conta da vantagem sempre confortável contra Fernando Haddad e uma certa desmobilização de seus aliados. Em alguns casos, como em São Paulo, aliados de Bolsonaro passaram até mesmo a priorizar a disputa local, acertando acordos políticos a favor de João Doria ou de Márcio França.

A redução da vantagem sobre Haddad, apontada ontem pelo Datafolha, ainda não representa risco para o favoritismo de Bolsonaro, mas fez o candidato colocar as barbas de molho. Ele reuniu seus principais aliados, cobrou mobilização nos Estados, pediu que seu QG no Rio voltasse a se transformar num comitê de campanha em vez da equipe de transição em que tinha se transformado. Bolsonaro reuniu suas tropas para evitar qualquer susto que o afaste do caminho da rampa do Planalto. / Marcelo de Moraes

Bolsonaro freia as escavadeiras

Numa ação para interromper o oba oba que atacou sua campanha, Jair Bolsonaro decidiu por um freio nas “escavadeiras” que cavam espaço no seu governo, caso sejam eleitos. Bolsonaro avisou que só tem três ministro escolhidos: Paulo Guedes, Onyx Lorenzoni e o general Augusto Heleno.

“As eleições só serão definidas no domingo. Além dos três nomes mencionados (Onix,Heleno e Guedes), outros serão anunciados. Com intuito de se promover ou nos desgastar, oportunistas se anunciam ministros. Estes, de antemão, já podem se considerar fora de qualquer possível governo”, postou hoje Bolsonaro na sua conta do Twitter. /M.M.

Fonte: Correio/Estadão

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