Como as eleições presidenciais nos EUA podem interferir na guerra comercial com a China

Publicado em 07/05/2019 16:12 e atualizado em 08/05/2019 08:37
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A extensão da guerra comercial entre China e Estados Unidos voltou a ser uma grande incógnita para o mercado global depois dos últimos tweets de Donald Trump. O presidente americano provocou uma reviravolta nas negociações entre os dois países ao anunciar que poderá aumentar para 25% as taxas sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses que hoje são de 10%. 

As declarações chegam poucos dias antes do anúncio de um acordo, depois de semanas das delegações de ambos os países visitando Washigton e Pequim para incontáveis rodadas e conversas. O conflito entre as duas maiores economias do mundo já dura mais de um ano. 

Donald Trump e Xi Jinping

Donald Trump e Xi Jinping - Encontro acontecerá somente para selar o acordo - Foto: Getty Images

As análises são as mais diversas neste momento e há ainda rumores de que a China poderia até mesmo esperar até as eleições presidenciais norte-americanas de 2020 para concluir suas decisões. As eleições no ano que vem nos EUA acontecerão no dia 3 de novembro e caso a nação asiática decida por isso, o período de pressão sobre os preços da soja - entre outras centenas de mercado - poderia ser ainda mais extenso. 

Poderia ser muito arriscado? "Sim, seria muito arriscado. Mas estamos falando de estratégias políticas e econômicas de duas grandes potências. Quando começou essa guerra comercial eu fui um que acreditou que uma solução seria encontrada logo. Mas já havia uma parte do mercado que achavam que essa história pode demorar entre três e cinco anos", explica o diretor da Cerealpar, Steve Cachia, direto de Malta em entrevista ao Notícias Agrícolas. 

Assim, o executivo acredita que haja sim esse risco de uma demora ainda maior para que uma solução seja apresentada, por mais que haja uma pressão internacional que vai além das duas partes envolvidas no impasse. "Isso acontece porque não só as duas economias que sentem, mas também a economia mundial de uma forma geral. Então, ainda é complicado afirmar quando o acordo sairá e não temos essas informações de dentro dos dois governos e, por enquanto, é pura especulação", diz. 

Essa corrente de pensamento que acredita nos chineses esperando pelas eleições presidencias americanas, porém, confronta com a notícia desta terça-feira, 7, de que apesar das últimas ações de Trump a nação asiática ainda irá mandar seu vice-premier, Liu He, nesta semana, como estava planejado antes dos tweets para dar sequência às negociações. A visita de He acontece entre quinta e sexta-feira aos EUA, segundo informa o Ministério do Comércio da China, mas sem dar mais detalhes.

Liu He Vice premier da China

Vice premier Liu He se tornou um dos principais personagens da disputa - Foto: Bloomberg

"Não há um indicativo hoje de que realmente os chineses não querem um acordo, se não quisessem eles não mandariam o vice-premier para os EUA nesta semana. Eles têm interesse, mas não irão se dobrar a algumas pressões exageradas que os americanos estão fazendo", explica o diretor da ARC Mercosul, Tarso Veloso.

Leia mais:

>> Vice-premiê da China irá aos EUA para negociações comerciais apesar de ameaças de Trump

Como explica o analista, direto de Chicago, já está marcado para que as tarifas americanas sobre os produtos chineses subam ao meio-dia desta sexta, enquanto ambas as partes seguem mostrando que, sob pressão, não irão ceder. "Já ventilamos essa hipótese desde fevereiro - que temos eleições no ano que vem e portanto, em tese, um novo presidente pode mudar os rumos dessa guerra, mas que se os chineses não tivesse interesse (em um acordo) não mandariam seu vice-premier". 

Ainda segundo Veloso, as negociações agropecuárias estariam fechadas e acordadas já entre os dois países e no centro da mesa estão agora os desafios maiores, aqueles que ainda emperram um avanço mais profundo das conversas, como as questões ligadas à propriedade intelectual, tecnologia, empresas estrangeiras atuando na China, e derivados de tópicos como estes. 

Além disso, lembra ainda que o déficit dos americanos com a China é maior e "em tese, se os EUA colocam 25% de tarifa sobre todos os produtos eles ferem muito mais as exportações da China. O problema é que as tarifas não são 100% pagas pelos exportadores, mas muito pagas pelos consumidores. Então, os consumidores americanos - quando o iPhone ficar 25% mais caro - as empresas vão agasalhar um pouco do prejuízo, mas o consumidor paga a maioria", diz.

Em suma, complementa dizendo que essa não é uma guerra em que os EUA vão recuperar muito dinheiro, mas "estão colocando pressão nos chineses porque o déficit deles é muito maior para os chineses aceitarem o seu acordo, mas os chineses estão fazendo suas contas", explica.

Para analistas internacionais, os tweets de Trump no último domingo (5) não passaram de uma estratégia para alavancar as negociações nesta que seriam as fases finais de conversas. Por outro lado, há ainda especialistas internacionais que acreditam que a atitude do presidente americano foi um golpe que tirou dos trilhos um acordo que estava quase fechado. 

O cenário "guerra comercial hoje, acordo comercial amanhã" ainda tem grandes chances de se manter, segundo os executivos do Citi Group, "com potencial para acelerar a inflação nos EUA e estender o período de negociações China x EUA até 2020, que é ano eleitoral", informa o grupo à rede americana CNBC.

TRUMP X DADOS DA ECONOMIA AMERICANA

  • Para o economista e professor do Insper, Roberto Dumas Damas, especialista em China, de fato, estender todo esse impasse por mais um ano e meio - que é o tempo que ainda leva para as eleições 2020 dos EUA - é um risco grande e que pode ter consequências sérias. Mas Trump poderia levar o conflito por mais este tempo? Poderia. Afinal, como explica Damas, o presidente americano não está sabendo intepretar dados importantes sobre sua economia que mostram que o segundo trimestre não será tão bom quanto ele espera. 

"Ao aumentar os impostos sobre produtos chineses, Trump aumenta aumenta o preço para os americanos e isso vai reduzir o consumo", diz. 

No primeiro trimestre, dados mostram que os gastos dos consumidores - o que representam 68% do total - cresceram apenas 1,2%, o mais baixo dos últimos 12 meses. Além disso, ainda neste período, os investimentos cresceram, porém, quando se trata de acúmulo de estoque. "Se houve acúmulo de estoque é porque o americano consumiu menos, estão produzindo mais do que se tem demanda, e isso quer dizer que no segundo trimestre vai produzir menos", alerta o economista. 

E estes, entre outros dados, sinalizam que a economia norte-americana está sentindo o golpe da guerra comercial, mesmo com o discurso ainda inflamado do "America First" de Donald Trump. Enquanto a Casa Branca estima um crescimento economômico norte-americano acima de 3%, o FMI reduziu, em abril último, sua projeção para 2,3%.

NA SOJA

A extensão dos efeitos e da duração dessa guerra comercial entre China e Estados Unidos colocou o mercado da soja na Bolsa de Chicago sob um pressão severa e que já dura mais de um ano. Desde que o conflito foi iniciado, os demais fatores fundamentais deste mercado foram deixado de lado e perderam espaço na formação das cotações internacionais. 

"Os mais pessimistas - que acreditam nessa hipótese (da guerra se estender até o pós eleições nos EUA) acreditam nos preços da soja em US$ 7,00 o bushel. Os mais pessimistas ainda acreditam que possa ficar abaixo de US$ 7,00. Eu acho que pessimista demais, mas de todo lado mostra que o mercado de soja está ainda totalmente perdido, dependente desta solução comercial ou não entre China e EUA", diz Steve Cachia. "O foco total está sendo sobre isso", completa. 

Dessa forma, para o diretor da Cerealpar, esse fator aliado a estoques recordes nos Estados Unidos e uma oferta mais confortável no cenário global este ano cria um quadro onde somente um acordo entre os dois países seria esperança para os preços da soja na Bolsa de Chicago. 

Para o Brasil, os efeitos já são conhecidos e têm sido sentidos pelos produtores desde o começo do conflito. A demanda maior da nação asiática está focada no mercado brasileiro e continuará dando boas oportunidades em 2019. O ponto de atenção, no entanto, tem de ser a Argentina, que este ano conta com uma safra cheia e, consequentemente, uma maior e mais eficiente concorrência nas compras chinesas. 

Ainda assim, com a continuidade do impasse, a tendência é de valorização dos prêmios pagos sobre a soja brasileira, confirmando essa maior procura pelo produto nacional. 

Veja ainda:

>> Soja: Oportunidades para o BR geradas pela guerra comercial são limitadas em 2019 pela maior concorrência com a Argentina

>> Marcos Araújo diz que prêmios precisam subir bem mais para produtor do BR vender

Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

2 comentários

  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    Qual é a situação atual dos sojicultores brasileiros?
    Essa é a pergunta que mais dói nos ouvidos da classe dos produtores rurais. Existem respostas de toda ordem. Mas o que realmente importa?
    O que é necessário para se obter renda na atividade?
    Há duas saídas.
    I- Aumento de preço
    II- Redução de custo
    No caso do setor produtivo de commodities agrícolas, as leis de mercado são da concorrência perfeita. O produtor é tomador de preços dos insumos e, tomador de preço do seu bem produzido. Ou seja, diante dessa realidade a primeira "saída" está fora de questão. Resta a segunda opção.
    Mas, como ele, também, é tomador de preços dos insumos. Qual é alternativa que lhe resta?
    Vivemos tempos de grandes mudanças: Globalização, Mudanças de costumes, de valores sociais. Mas, àquela semente que vai germinar, crescer, florir e, frutificar. Ainda é colocada no mesmo "chão" formado há milhares de anos e, que ainda pouco o conhecemos.
    Ah! Outro item que deve ser focado é o "peso" tributário a que somos submetidos. Tanto como produtores de riquezas e, como consumidores de bens e serviços; dentro desse território que chamamos de "meu" país. Será mesmo que somos mesmo donos dele, ou são aqueles que dizem nos governar.
    O povo tem o poder de eleger. Mas não tem o poder de "demitir" o eleito ! É esse o objetivo que deve ser buscado e alcançado, para que nossas vidas tenham rumo. Nós somos os donos delas!!!

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    • CASSIANO AOZANEVILA NOVA DO SUL - RS

      Buenas, pelo jeito nós, agropecuaristas, é que vamos pagar o pato da conta, sr Rensi, já que também na produtividade dependemos do clima e temos que aceitar o que vier..., quando tudo favorece, é uma beleza, mas quando a coisa atravessa...

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  • JAC.SEMENTES Bom Jesus - SC

    Noticias agricolas ? Estao do lado quem pagam mais o trampeira... vá tentar achar a fonte da juventude...

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