Cresce o temor de uma recessão na economia global diante da disputa China x EUA

Publicado em 07/08/2019 15:35 e atualizado em 08/08/2019 02:36
7103 exibições

LOGO nalogo

O mundo entrou em compasso de espera e em alerta geral sobre a escalada das tensões entre China e Estados Unidos na guerra comercial, temendo quais serão os próximos movimentos de ambos os países dentro do conflito. Os últimos passos tanto de Pequim, quanto de Washington provocoram um rebuliço no mercado financeiro internacional e intensificaram, segundo especialistas, a possibilidade de a economia mundial entrar em uma recessão. 

Confirmada, esta seria a primeira recessão em mais de dez anos e os investidores já vêm exigindo de políticos e bancos centrais em todo o globo que tomem ações e medidas que possam mudar esse curso. Afinal, os efeitos do conflito - que passou de comercial para a possibilidade de se tornar cambial, depois do último movimento da China de permitir a desvalorização do iuan frente ao dólar, e se confirmando como uma verdadeira briga por hegemonia - já tem efeitos em economias mundo a fora. 

"A minha leitura é inexorável de que a China vai ser  a maior economia do mundo na segunda metade desse século. Durante 13 séculos a China foi a maior economia do mundo e agora está retomando sua posição. Claro que haverá uma resistência dos EUA e de outras economias para tentar se preservar", explica o analista de mercado Fernando Pimentel, da Agrosecurity, em entrevista ao Notícias Agrícolas. 

As economias emergentes são, talvez, as mais atingidas e já trazem sinais de atenção e alerta. Na Europa, a produção da Alemanha preocupa, ao registrar seu maior declínio em quase dez anos, segundo informa a agência de notícias Bloomberg. Já na região da Ásia-Pacífico, países como a Nova Zelândia, Tailândia e Índia cortaram suas taxas de juros em uma tentativa de trazer alguma proteção à suas economias. 

Em entrevista à Bloomberg Television, o ex-secretário do Tesouro Americano e assessor da Casa Branca durante a última crise, Lawrence Summers afirmou que embora acredite em uma possibilidade de menos de 50% de uma recessão nos EUA nos próximos 12 meses, afirma ainda que os investidores estão bastante pessimistas em relação ao futuro. 

"Nos EUA, temos agora um risco maior do que o necessário de uma recessão, e maior também do que há dois meses. Quando se mexe com fogo é possível que você não tenha grandes surpresas, mas na maioria das vezes pode se queimar", disse. 

Enquanto China e Estados Unidos brigam e promovem uma escalda no conflito, bolsas caem ao redor do mundo, moedas se desvalorizam, índices acionários perdem referência e há uma enorme cortina de fumaça sobre o caminho que os investimentos devem seguir. A incerteza é generalizada e provoca temores que só foram tão graves quando a economia mundial passou por sua crise de 2008. 

Ainda segundo Summers, "o mundo pode estar em seu momento financeiro mais perigoso em uma década com este conflito entre China e Estados Unidos. Mais do que isso, Yu Yongding, um conselheiro sênior do governo chinês afirma, em entrevista ao portal local South China Morning Post, que o risco de uma recessão já vinha sido ventilado, porém, só tomou mais força diante da instalação e intensificação da guerra comercial. 

>> BC da China nega rumores sobre cortes de juros

>> Índices da China recuam pelo 6º dia seguida por temores sobre guerra comercial

O gráfico a seguir mstra o spread entre os títulos de curto e longo prazo no período dos últimos 10 anos, mais um sinal de que a recessão pode, de fato, acometer a economia global. 

Gráfico spread

"Quando as taxas de longo prazo se aproximam das de curto prazo, em termos de títulos de dívida, significa que o Governo está enfrentando dificuldades muito sérias de rolagem com vencimentos alongados. Do ponto de vista do investidor, que proporciona liquidez para o custeio do governo, ele irá preferir sempre um papel curto do que um longo, nesse caso, porque os rendimentos estão muito próximos", explica o diretor da LucrodoAgro, Eduardo Lima Porto.

Na sequência, a imagem mostra a diferença de spread entre o título americano e o chinês, também no período de 10 anos. "O que significa que o risco China está quase igual ao dos EUA, só um pouco mais afastado pelo corte de juros promovido pelo Federal Reserve - o banco central norte-americano - nos últimos dias", esclarece Lima Porto. 

Títulos EUA x China


"A volatilidade está concentrada do lado americano a partir da aproximação dos juros nos títulos de curto prazo e os de longo prazo. Hoje a remuneração de um título de 2 anos e um de 10 anos possui uma diferença de 0,14% apenas, indicando enorme dificuldade de estimular o alongamento dos vencimentos da dívida", conclui o diretor da LucrodoAgro. 

COMBUSTÍVEL PARA A RECESSÃO

O comércio tem sido a maior e principal preocupação dos especialistas sobre o caminho para uma recessão. Segundo eles, sua fraqueza poderia ser o fator que abriria - ou daria mais peso - para esse novo momento de crise, já que estão em um conflito originalmente comercial as duas maiores potências econômicas do mundo,  interrompendo o fluxo e a dinâmica natural de compra e venda entre si. 

"A desaceleração (do crescimento da economia global) ela direciona para uma redução forte de ritmo de comércio. Se teremos uma recessão, ainda é cedo para dizer, mas as bolsas já dão sinais de que há um mal estar nesse momento", explica Fernando Pimentel. 

O presidente Donald Trump anunciou uma nova rodada de tarifações de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses que podem começar a valer já em 1º de setembro. Outros tantos bilhões já estão tarifados e os 10%, segundo especulações, podem chegar a 25% também. De outro lado, Pequim permitiu uma desvalorização de sua moeda e pode manter suas exportações mais competitivas. Na outra ponta, pode ter de importar matéria-prima mais cara e provocar uma desequilíbrio no fluxo. 

Em ambos os países, o consumo pode, portanto, ficar comprometido. 

Para economistas do Morgan Stanley ouvidos pela Bloomberg, ao todas tarifas dos EUA sobre a China alcançarem os 25% e a nação asiática seguir retaliando, a contração na economia mundial poderia acontecer dentro de três trimestres. 

Em uma entrevista recente ao Notícias Agrícolas, o economista e professor do Insper já havia sinalizado suas preocupações com situações paralelas à guerra comercial que, combinadas, poderiam provocar esta nova grande crise diante de um acordo entre os dois países cada vez mais distantes.

O mercado financeiro global e as commodities seguem sofrendo pressão do conflito ao lado da recessão na Argentina, crise na Turquia e do crescimento mais lento da União Europeia e agora a intensificação das manifestações em Hong Kong, onde está a quarta maior bolsa de valores do mundo. "Os mecanismos para estimular a economia mundial estão esgotados", diz Dumas Damas. 

Para Flávio França, chefe do setor de grãos da Datagro, a China, ao permitir a desvalorização de sua moeda como reposta aos EUA, elevou o nível da retaliação, o que pode causar danos ainda mais sérios e profundos na economia mundial. "E é assim que o Brasil pode perder, no macro, com toda a economia global sofrendo", diz. 

E os primeiros 'respingos' dessa intensificação do conflito pôde ser sentida também no mercado cambial brasileiro. Desde a última semana, quando Trump anunciou as novas tarifas e, na sequência foi retaliado por Xi Jinping, o dólar frente ao real elevou consideravelmente seu grau de volatilidade e subiu vertiginosamente na última segunda (5). 

Nesta quarta-feira (7), a moeda norte-americana sobe 0,58% para chegar a R$ 3,979 e, mais cedo, chegou a superar os R$ 3,99 em um momento mais tenso da sessão. 

>> Reservas cambiais de julho da China caem para US$3,104 tri em meio a tensões comerciais crescentes

Na imagem a seguir, as reservas cambias mais influentes ao redor do mundo. Em verde, o euro; em roxo, a libra; em rosa, o yen; em azul, o dólar norte-americano e em vermelho, o renminbi. 

Reservas cambiais

ACORDO? QUAL ACORDO?

E apesar de todo este cenário e da especulação crescente, os negociadores dos dois lados mantêm de pé o encontro pessoal que deverá acontecer em setembro em Washington para que as conversas sejam retomadas. Essa será a 13ª rodada de negociações. E algumas videoconferências estariam, de acordo com fontes familiarizadas com o assunto, confirmadas para este mês de agosto para alinhar a próxima reunião presencial. Mais detalhes, todavia, não foram conhecidos ainda. 

Ainda ao South China Morning Post, o ex-ministro do Comércio da China, Wei Jianguo, acredita que a reunião "vai acontecer como deve acontecer, com tudo dentro do planejado", apesar de reforçar que as perspectivas de um acordo são bastante baixas. Mas, afirma também que "é possível que a reunião alivie um pouco as tensões entre os dois países, pelo menos em alguns aspectos".

Para Larry Kudlow, um dos principais conselheiros de Donald Trump, o encontro também está de pé e, em suas últimas declarações, disse ainda que os EUA querem firmar um acordo com a nação asiática. "Estamos dispostos a negociar. O movimento em direção a um bom acordo seria muito positivo e poderia mudar a direção da atual situação tarifária. Mas, novamente pode não acontecer", disse, em entrevista á rede CNBC nesta terça-feira (6). 

>> Trump ainda quer acordo comercial com a China, diz Kudlow

ELEIÇÕES 2020 E O ELEITORADO RURAL DE TRUMP

Para temperar ainda mais todo este cenário, Trump já se prepara para as eleições presidenciais de 2020 nos EUA e já acusou, inclusive, Jinping de querer esperar os resultados para talvez negociar com um democrata. Mas adiantou: "não há chance de eu perder, e reeleito, o acordo será ainda mais duro", disse o presidente americano pelo Twitter. 

No entanto, o eleitorado de Trump tem como uma de suas principais bases os produtores rurais norte-americanos. E o agronegócio dos EUA passa por uma das mais severas crises em décadas, a renda do agricultor já contabiliza uma preocupante curva decrescente e os preços dos grãos, principalmente soja e milho, pagos ao produtor nem ao menos cobrem seus custos de produção. 

Veja como fecharam os mercados no Brasil e em Chicago nesta quarta-feira:

>> Soja tem alta de até R$ 5/saca nos últimos dias nos portos do BR com foco na China

Com a China ausente nas compras de soja, um dos produtos que está no coração da guerra comercial, os estoques norte-americanos são historicamente altos e seguem pressionando os futuros da oleaginosa negociados na Bolsa de Chicago. Com isso, os EUA deverão iniciar o ano comercial 2019/20 com um dos menores volumes de vendas antecipadas da commodity dos últimos anos. 

Segundo explicou o analista de mercado Eduardo Vanin, da Agrinvest Commodities, os americanos têm apenas 3,3 milhões de toneladas comprometidas da nova safra, contra uma média de 20 milhões dos últimos anos para este mesmo período. 

>> China responde aos EUA e suspende compras de produtos agrícolas norte-americanos

>> China está focada no Brasil mas não há sobra de soja, diz Flávio França

>> Movimento da China de suspender compras nos EUA melhora condições de preço da soja do Brasil

Com informações adicionais da Bloomberg e do South China Morning Post

Trump diz que China estava 'nos matando com acordos comerciais injustos' (em O GLOBO)

WASHINGTON E PEQUIM - O presidente dos Estados Unidos,Donald Trump, disse que sua postura dura sobre ocomportamento da China nos mercados globais beneficiará a economia americana, mesmo quando a China sinalizou que poderá retaliar segurando asvendas de produtos químicos conhecidos como terras raras (dos quais a indústria americana precisa para diversos setores de ponta, como aparelhos eletrônicos e máquinas militares).

Os rendimentos dos Treasuries (títulos do Tesouro dos EUA) caíram nesta quarta-feira, com as notas de 30 anos se aproximando das mínimas recordes, diante de temores crescentes de uma desaceleração global e apostas de que o Federal Reserve terá que reduzir ainda mais os juros para conter os crescentes riscos de recessão.

Trump disse a repórteres na Casa Branca que a reação do mercado era esperada, mas permaneceu confiante na força da economia americana.

— Em última análise, vai subir muito mais do que nunca, porque a China era como uma âncora para nós. A China estava nos matando com acordo comerciais injustos — afirmou Trump.

Autoridades da Casa Branca dizem que ainda esperam que os negociadores chineses viajem a Washington em setembro para negociações, e que as tarifas anunciadas recentemente ainda possam ser evitadas se as duas maiores economias do mundo avançarem em um acordo comercial.

Mas as esperanças de um acordo estão diminuindo. O Goldman Sachs disse na terça-feira que não espera mais que os EUA e a China cheguem a um acordo antes da eleição presidencial de novembro de 2020, dada a "linha mais dura" que está sendo utilizada por ambos os lados.

Segundo artigo na CNN, Pequim poderia gerar um pânico no mercado de títulos ao se desfazer de alguns dos papéis de títulos do Tesouro americano (o valor total é de US$ 1,1 trilhão) que detém.

Isso faria o preço dos títulos despencar, aumentando as taxas de juros e consequentemente os custos dos empréstimos.

Mas a medida, segundo analistas, poderia sair pela culatra e afetar a própria economia chinesa, o que a torna desaconselhável. "Claramente não é a melhor ferramenta disponível", disse ao site Brad Setser, do Conselho de Relações Exteriores ex-economista do Tesouro dos EUA.

As moedas de mercados emergentes eliminaram os ganhos de 2019, e as ações podem ir pelo mesmo caminho em breve diante do menor apetite por risco de investidores em meio a uma nova escalada da guerra comercial. (Leia mais em O Globo).

Por: Carla Mendes | Instagram @jornalistadasoja
Fonte: Notícias Agrícolas

0 comentário