Como o colapso do Banco Master abalou o sistema financeiro e desencadeou uma crise em Brasília
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Por Lisandra Paraguassu e Ricardo Brito
BRASÍLIA, 13 Mar (Reuters) - Por anos, Daniel Vorcaro foi conhecido no mundo financeiro brasileiro como o dono do Banco Master, uma instituição cuja expansão vertiginosa deixava analistas e parte do mercado financeiro intrigados.
Enquanto seu banco crescia, aumentava também, ainda que mais discretamente, a agenda de contatos no mundo político, que incluía ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados e altos funcionários do Banco Central.
Depois da prisão de Vorcaro na semana passada, pela segunda vez, o vazamento do conteúdo de seu celular por parlamentares que obtiveram arquivos de uma investigação da Polícia Federal trouxe à luz uma teia de influências capaz de abalar alguns dos mais poderosos do país em ano eleitoral.
"É uma bomba-relógio", disse o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que pressiona por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a relação de Vorcaro com ministros do STF. "Há figuras muito poderosas da República com envolvimento claro."
Há pelo menos outros dois pedidos de CPIs sobre o caso Master protocolados no Congresso, mas nenhuma delas avançou, já que enfrentam a resistência da cúpula das duas Casas e, especialmente, de parlamentares do centrão.
Apesar de nomes graúdos da política no Congresso terem aparecido nas mensagens de Vorcaro, nenhum deles ainda foi oficialmente envolvido nas investigações. O escândalo, no entanto, já fez vítimas em Brasília.
Dois servidores do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, que chegou a ser diretor de Fiscalização, e o ex-chefe de supervisão bancária Belline Santana foram afastados de seus cargos quando as investigações constataram que assessoravam Vorcaro em ações no próprio BC.
O ministro do STF Dias Toffoli se afastou da relatoria do caso no Supremo após a imprensa brasileira revelar que a empresa da família do magistrado tinha vínculos financeiros com o banqueiro. Toffoli afirmou em nota, à época, que jamais recebeu qualquer pagamento do Master ou de Vorcaro.
Em julho, enquanto Vorcaro trabalhava para salvar seu banco da liquidação, ele desabafou com a namorada em uma mensagem de texto que "esse negócio do banco... é igualzinho à máfia - ninguém sai bem disso" -- em uma das várias ocasiões em que sugeriu que os grandes bancos do país estavam tentando destruir o Master.
Investigadores da Polícia Federal encontraram mensagens de texto que sugerem que Vorcaro planejou intimidar pessoas que considerava inimigos, incluindo um jornalista, com a ajuda de um associado a quem chamava de "Sicário" -- como são conhecidos os assassinos a serviço dos cartéis de drogas mexicanos --, de acordo com os arquivos vazados.
Os advogados de Vorcaro não responderam imediatamente a um pedido de comentário. Mas, em nota divulgada na semana passada, negaram que Vorcaro tivesse cometido qualquer irregularidade ou fraude, intimidado jornalistas, cooptado agentes públicos ou tomado qualquer medida para interferir nos trabalhos das autoridades policiais.
MODELO DE NEGÓCIOS INSUSTENTÁVEL
Vorcaro, de 42 anos, começou sua carreira empresarial no negócio imobiliário da família, em Belo Horizonte. Sua ascensão meteórica nas finanças teve início quando comprou um banco em dificuldades, o Máxima, rebatizado como Banco Master em 2021. Inicialmente usado para financiar os empreendimentos imobiliários da família, se transformou no caminho para novos negócios.
Sua falta de histórico no setor bancário, a preferência por ternos justos e camisas sem gravata o diferenciavam do mundo formal do sistema financeiro brasileiro, mas não o suficiente para afastá-lo das rodas da Faria Lima. Apesar do estranhamento, os CDBs do Master, com rendimentos muito acima dos pagos por outros bancos, passaram a ser distribuídos por algumas das principais instituições financeiras do país.
O que o Master vendia atraiu atenção dos investidores, mas também do Banco Central. Enquanto os títulos do banco ofereciam rendimentos acima da média, a instituição investia em ativos de risco extremamente elevado, como precatórios judiciais contra o governo, que podem levar anos para serem pagos.
O maior atrativo do Master era que seus depósitos eram cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), financiado com contribuições obrigatórias dos bancos -- o que era vendido nas próprias propagandas do banco como uma vantagem.
Mas quando os reguladores endureceram as regras em 2023 sobre o capital necessário para lastrear títulos garantidos por precatórios, o banco enfrentou uma crise de liquidez. Vorcaro prometeu aos reguladores que captaria US$3 bilhões no ano seguinte para resolver o problema.
"Recorremos a outros canais de captação de recursos e, então, começa uma contracampanha, uma campanha contra a reputação do banco", disse Vorcaro à polícia em um depoimento no ano passado.
Enquanto lutava para sobreviver, Vorcaro passou a vender a imagem de que o crescente escrutínio sobre seu modelo de negócios como uma mera tentativa dos líderes do altamente concentrado sistema bancário brasileiro de proteger seu domínio.
Ao mesmo tempo, tentava consolidar sua influência política nos corredores de Brasília. Mesmo com o Master já em dificuldades, documentos obtidos na investigação policial, vistos pela Reuters, mostram que Vorcaro gastava milhões de dólares em viagens exorbitantes, que incluíam eventos que pareciam destinados a consolidar seu acesso à elite política do país.
Em abril de 2024, por exemplo, financiou um "fórum de ideias" de US$6 milhões em Londres que atraiu personalidades, incluindo ministros do STF e o diretor-geral da Polícia Federal. O evento encerrou com uma degustação de uísque Macallan de US$640 mil, mostram os documentos.
Separadamente, contratou a esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes como advogada do banco. Em nota, o escritório de Viviane Barci de Moraes detalhou vários serviços prestados ao banco, mas ressaltou que nunca o representou no STF.
Outro assessor, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, ajudou o banqueiro a articular uma reunião em dezembro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para discutir o que ele descreveu como sua luta contra os grandes bancos. Mantega não respondeu a um pedido de comentário.
Em entrevista ao portal de notícias UOL no mês passado, Lula disse ter comunicado a Vorcaro que não haveria interferência política no caso do banco, mas "uma investigação técnica conduzida pelo Banco Central."
A Reuters confirmou a versão do presidente com uma fonte que estava presente na reunião.
Enquanto tentava consolidar sua influência política, Vorcaro apostava também na narrativa de um azarão na briga contra os grandes. O discurso, no entanto, contrastava com os indícios de uma vida extravagante.
Documentos analisados pela Reuters mostram que Vorcaro gastou pelo menos US$120 milhões em viagens e festas luxuosas entre janeiro de 2024 e abril de 2025. A origem desses recursos permanece obscura. Em agosto de 2025, para a festa de aniversário da namorada, Martha Graeff, em Saint-Tropez, na França, levou mais de 30 convidados em jatos particulares, alugando vilas e hotéis para hospedagem e um iate por quase US$2 milhões.
"Foi ali que ele perdeu o mercado financeiro. Quando começaram a aparecer as postagens de festas, viagens, jatinhos, o discurso de coitadinho caiu", conta uma fonte que acompanhou de perto a trajetória do ex-banqueiro. Nos grupos de WhatsApp da Faria Lima, imagens dos iates alugados pelo banqueiro eram distribuídas com legendas como "FGC of the Seas", contou essa fonte.
"Começou a despertar o ódio das pessoas. E foi aí que ele perdeu o BC também. Antes tinha uma boa vontade para tentar achar uma solução", disse.
"CONSEGUIU BLOQUEAR?"
Para um banco de médio porte com R$80 bilhões em ativos, os reguladores esperariam que o Master tivesse liquidez de R$3 bilhões a R$4 bilhões em títulos sem ônus, disse Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do Banco Central, à polícia, em depoimento. Mas o exame dos livros contábeis do banco em 2024 constataram que o Master tinha apenas R$4 milhões em caixa, disse ele.
Vorcaro e seus aliados tentaram diversas saídas para manter o banco vivo após os reguladores sinalizarem os problemas de liquidez, incluindo a captação de centenas de milhões de dólares de fundos de pensão de servidores públicos, lobby por medidas legislativas de alívio e, por fim, a tentativa de vender o Master ao Banco de Brasília (BRB), que terminou sendo bloqueada pelo Banco Central porque traria prejuízo ao banco estatal.
Nada disso funcionou.
Em novembro, documentos da investigação sugerem que Vorcaro trocava mensagens com um número não identificado no que parecia ser um esforço final para evitar o desastre: "Conseguiu bloquear?", dizia uma das mensagens vistas pela Reuters.
Vorcaro foi preso naquela noite em um aeroporto em São Paulo porque a Polícia Federal considerou que ele pretendia fugir do país. O Banco Central liquidou o Master no dia seguinte. Um juiz o liberou duas semanas depois, mas o banqueiro voltou à cadeia sob alegações de que estava tentando interferir nas investigações.
Semanas depois, o jornal O Globo noticiou que as mensagens trocadas por Vorcaro no dia de sua prisão tinham sido enviadas ao ministro Alexandre de Moraes, o que o magistrado nega.
Ainda assim, o alcance político de Vorcaro preocupa muitos em Brasília quanto à possibilidade de outros serem implicados nas investigações, disse o senador Vieira.
"Os fatos influenciam a política", disse ele. E os fatos, acrescentou, "são muito alarmantes, é impossível escondê-los."
(Reportagem de Lisandra Paraguassu e Ricardo Brito; Reportagem adicional de Marcela Ayres)
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