Juros e preços podem subir em 2011 com quebra de safras

Publicado em 14/09/2010 08:14
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O mercado financeiro aposta que o próximo governo terá no início de seu mandato uma pressão inflacionária vinculada à quebra de safras mundiais e ao aumento nos preços das commodities. De acordo com o professor de economia da ESPM, Adriano Gomes, em 2011 o Banco Central será obrigado a elevar a taxa básica de juros a pelo menos 1 ponto percentual, logo nos três primeiros meses, atingindo 11,75% ao ano.

Esta projeção é igual ao do Boletim Focus, do BC. Segundo os economistas do governo, a taxa Selic para 2010 deverá apontar 10,75% enquanto para 2011 passou de 11,5% para 11,75% ao ano.

"A explicação mais lógica é o clima. Estamos numa fase na qual as safras estão sendo perdidas, seja por muita seca ou umidade. O item trigo e derivados deve ter variação de 5 a 7 p.p., o que remete a elevação de 2 a 3 p.p. no item alimentação que acrescentará entre 1 e 1,5 p.p. o IPCA [Índice de Preços ao Consumidor Amplo]", disse Gomes.

A projeção do Focus para o IPCA em 2011 é de 4,90% ante aos 4,85% da última leitura.

Ainda de acordo com Gomes, os índices de atacado devem sofrer elevações mais rapidamente, mas o repasse deve ser a médio prazo. Contudo, o repasse não se dará na totalidade. "Os índices no atacado já estão sofrendo pressões, por isso o BC elevou a projeção da Selic, hoje este é o único mecanismo que freia uma bolha inflacionária. Para o próximo governo deve haver uma política fiscal, de forma a conter o problema no longo prazo", frisou Gomes.

De fato o próprio governo admite, por meio do departamento de abastecimento do Ministério de Agricultura (Mapa) que o preço do trigo no mercado internacional subiu 50% e nos moinhos nacionais cresceu outros 20%, nos últimos dois meses.

"Há uma alta muito forte no preço do trigo e de seus derivados. Até o final do ano, o preço do pão francês, por exemplo, deve ficar entre R$ 6,50 e R$ 7,00 o quilo", admite o diretor do Deagro do Mapa, Silvio Farnese.

O diretor acrescentou ainda que medidas para que não falte o produto-base da dieta brasileira estão sendo tomadas, como a compra de trigo e seus compostos de outros países.

"Podemos importar entre 1,2 e 1,4 milhão de tonelada dos outros parceiros do Mercosul, uma vez que temos o benefício da isenção de alíquotas de importação por meio da parceria no bloco."

Segundo Farnese, o governo poderá ainda fazer leilões de venda do estoque nacional de 1,2 milhão de toneladas.

Com o principal parceiro do Mercosul, a Argentina, o problema encontra-se no setor de carne bovina. Analistas apontam que o principal produto exportado pelo país, que é a carne, está em falta pela seca climática que acabou com os pastos bovinos e devem reverter em uma pressão muito forte no Brasil, mas não necessariamente chegará para o consumidor, uma vez que a produção brasileira está em alta e suporta toda a demanda do País.

"Os preços da carne proveniente da Argentina devem subir bruscamente, uma vez que há falta do produto no mercado interno argentino e no mercado de exportação do país. No entanto, o repasse deste aumento não deve ocorrer a curto prazo, uma vez que os fornecedores devem segurar a perda de lucratividade para manter a competitividade e a posição no mercado. Se o problema persistir, sim, haverá uma pressão no setor aqui no Brasil", ressalta Gomes.

O Mapa tem uma visão semelhante, a produção brasileira de carne bovina será de 8,5 milhões de toneladas em 2010, tendo um excedente de 1,8 milhão de toneladas para exportação.

"Temos produtos suficiente para abastecer o mercado interno do Brasil e também suprir a defasagem argentina, principalmente agora que o consumo do mercado vizinho caiu bastante."

"Outro ponto que devemos observar são os legumes e hortaliças, que podem gerar um problema ainda mais grave para o mercado interno em decorrência da seca que estamos passando. No curto prazo, os preços devem crescer entre 20 e 30 p.p.. Certamente este valor irá subir em 2011, mas é impossível determinar quanto", diz Gomes.
Fonte: DCI

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