A crise mundial ainda não passou

Publicado em 28/04/2011 16:26 e atualizado em 28/04/2011 18:00 382 exibições
A euforia econômica vai acabar se as reformas não forem realizadas.
O Brasil passou relativamente bem pela crise mundial, mas os problemas crônicos não foram solucionados e permanecem latentes. A euforia econômica será passageira. O governo desperdiçou a chance de fazer profundas mudanças no início da nova administração.

Essas posições foram manifestadas por um dos mais prestigiados intelectuais da atualidade, o economista e cientista social Eduardo Gianetti da Fonseca, ao palestrar sobre o tema: “Crise mundial: qual sua real dimensão?”, nesta semana, no Centro de Cultura e Eventos Plínio de Nes, em Chapecó, em comemoração do 64º aniversário da Associação Comercial e Industrial de Chapecó – ACIC.

Cerca de 900 pessoas participaram do evento. O presidente da ACIC, João Stakonski, destacou o papel da entidade na defesa dos interesses da coletividade regional e enfatizou que a palestra – que teve acesso gratuito a todos os interessados – era um presente para a comunidade local.

Em ampla abordagem divida em dois enfoques, Eduardo Gianetti focalizou as perspectivas da economia brasileira e o cenário econômico atual, tendências, negócios e oportunidades para empresas em um ambiente cada vez mais globalizado.

Depois de uma longa introdução histórica e conceitual, observou que há falta de coordenação entre a área da Fazenda e o Banco Central (BC). “O aumento do gasto público vai na contramão da necessidade de conter o superaquecimento da economia, tarefa hoje exclusiva do BC. Ou seja, um lado pisa no freio e o outro no acelerador.”

- “O papel do BC é terrível: tirar o barril de chope da sala quando a festa está esquentando. Há sinais evidentes de anomalias econômicas: pressão inflacionária e desequilíbrio nas contas externas. Isso aumenta o custo para a sociedade. Os juros vão ter que subir mais do que precisariam para reduzir a inflação”.

Analisou que o risco de superaquecimento ocorre também pela muito agressiva expansão do crédito via bancos oficiais: Caixa, Banco do Brasil e especialmente o BNDES, que está sendo financiado agora com o endividamento do Tesouro. Criou-se um cordão umbilical perigoso entre o BNDES e o Tesouro, política chamada tecnicamente de parafiscal, porque não aparece no orçamento, não foi votada, envolve subsídios enormes para o setor privado e aumenta a demanda, porque libera dinheiro para gastos e investimentos de curto prazo.

Gianetti destacou que o país está tentando, ao mesmo tempo, aumentar o consumo das famílias, o investimento privado, o investimento público e os gastos do governo, mas “não dá para fazer tudo isso junto”.

Em relação aos programas sociais do governo, disse que não é contra os programas de transferência de renda e entende que famílias realmente necessitadas precisam dessas transferências. Porém, “essa tem que ser uma situação transitória. Não entendo quando o governo comemora o crescimento no número de famílias que vivem de bolsa. Isso deveria ser motivo de preocupação, porque o ideal é tirar as famílias da situação de dependência”.

TAMANHO DO ESTADO

Para o economista, a qualidade da política econômica no primeiro mandato do presidente Lula foi muito superior ao do segundo, especialmente pela agenda de reformas microeconômicas. De 2008 a 2010, são R$180 bilhões de crédito novo, financiado por meio de dívida que não aparece no total da dívida líquida do setor público. O Tesouro emite e compensa com o empréstimo que faz ao BNDES.

Enfatizou que isso aparece na dívida bruta do governo, que está crescendo acentuadamente, hoje em 64% do PIB. Este caminho é muito perigoso. Embora não salte aos olhos pelo volume, a dívida impressiona por sua extravagância em termos de custo. O governo se endivida em prazos curtos pagando no mínimo a taxa básica de juros e depois empresta para os parceiros do rei, cobrando taxas bem menores que os juros básicos. É um subsídio maior do que o Bolsa-Família para grupos escolhidos a dedo.

O tamanho do Estado é outra preocupação. O palestrante mostrou que o déficit previdenciário do funcionalismo público, que se refere a três milhões de pessoas, supera todo o gasto com 37 milhões de crianças que cursam o ensino fundamental hoje. Isso é imprevidência.

Eduardo Gianetti da Fonseca demonstrou que o Estado brasileiro emite mensalmente 40 milhões de contracheques para pagar salários, aposentadorias, bolsa-família e outros benefícios. Consideradas três pessoas por família, isso significa que 120 milhões de brasileiros vivem do dinheiro público. “Dessa maneira, o Governo controla a sociedade de uma forma preocupante para a saúde da democracia”.

Fonte:
MB Comunicação

0 comentário