Gleisi era a escolha de Dilma para Casa Civil antes de Palocci

Publicado em 09/06/2011 09:20 483 exibições
Gleisi: senadora é vista como representante da renovação de valores buscada no PT desde o mensalão
A escolha da senadora Gleisi Hoffmann para substituir Antonio Palocci na Casa Civil foi uma decisão solitária da presidente Dilma Rousseff. Ela consultou na segunda-feira o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que desde a transição de governo sabia que Gleisi era a opção de Dilma para o cargo.

Na transição, Dilma já falara em Gleisi para a Casa Civil, numa composição que teria Palocci na Secretaria Geral da Presidência. Lula sugeriu a Dilma que o melhor seria contar com Palocci, seu ex-ministro e uma espécie de guardião das conquistas econômicas do governo do PT, enquanto Gleisi ganharia experiência no Senado.

Embora em primeiro mandato, Gleisi não é propriamente uma novata: em sua primeira disputa eleitoral, em 2006, quase derrotou o veterano Álvaro Dias (PSDB), na disputa pelo Senado, em 2006. Em 2008 concorreu à Prefeitura de Curitiba e em 2010, ao disputar novamente o Senado, obteve a maior votação do Estado para o cargo.

Gleisi é respeitada no PT e deve compor com Dilma e com o ministro das Relações Institucionais o triunvirato palaciano que vai se ocupar mais da coordenação política do governo, a partir de agora.

Por enquanto, fica na coordenação política o deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), mas seu nome não é aposta de longo prazo. O ministro permanece porque nem Dilma nem Gleisi pretendem cobrar dele a fatura que é de Palocci - o estrangulamento da articulação política do governo.

A prioridade do Planalto, agora, é acabar com o clima de guerra aberta no PT da Câmara e reconciliar o vice Michel Temer com a presidente. A relação ficou abalada com a ameça de demissão dos ministros do PMDB na votação do Código Florestal.

Temer é considerado no Planalto o pemedebista mais acessível ao diálogo. Em seu discurso de posse, Gleisi mencionou pelo menos duas vezes o nome do pemedebista. Numa delas, disse que estaria sempre "à disposição para decidir com todos, de acordo com as prioridades" de Dilma e de Temer. A vaga de Gleisi no Senado será de um pemedebista.

No PT a maior preocupação é com a conflagração entre os deputados: o presidente da Câmara, Marco Maia (RS), o líder do governo, Cândido Vaccarezza (SP) e o líder da bancada, Paulo Teixeira (SP), disputam espaço. A situação é mais grave entre os líderes Teixeira e Vaccarezza.

No caso do PT, especificamente, a presidente deve acionar o presidente do partido, Rui Falcão, e ministros como Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) para tentar conter as divergências internas. Mas Dilma também prometeu estar mais presente na condução dos assuntos políticos, a partir de agora.

Quando foi escolhida por Lula para disputar a sucessão, muitos no PT duvidaram da capacidade e da habilidade da presidente para enfrentar uma campanha eleitoral. Agora ela promete participar da coordenação política com a mesma disciplina que conduziu sua campanha, em 2010.

Os ministros também devem ser acionados. Um exemplo é o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ex-secretário-geral do PT. Cardozo deve ser acionado quando PEC 300 (aumento dos policiais militares e bombeiros), por exemplo, voltar a ser tratada no Congresso.

A própria Dilma tratou de especificar a agenda de Gleisi no discurso de posse da ministra: inflação, rigidez fiscal, investimento em educação, geração de empregos, distribuição de renda. Todos assuntos que requerem articulação política, coisa que Dilma fazia na Casa Civil, e Palocci, quando estava na Fazenda.

Para o Ministério das Relações Institucionais, como de praxe, deve ficar o varejo da política congressual. Luiz Sérgio pode até permanecer no cargo, se demonstrar desenvoltura no cargo. De qualquer forma, a presidente não deve mexer na coordenação política antes de resolver a crise interna do PT na Câmara.

Nos 23 dias de crise, Dilma e Lula tiveram o cuidado de agir sem passar a impressão de interferência e tutela do ex-presidente sobre a afilhada que ajudou a eleger em 2010. Há pouco mais de uma semana, antes de viajar para Cuba, Lula disse a Dilma que na volta iria a Brasília para conversar com a presidente.

Dilma concordou, mas pediu que fosse evitada a situação ocorrida da última vez em que Lula esteve em Brasília, logo após a derrota do governo na votação do Código Florestal, quando se reuniu com líderes do e passou a impressão de tutelar o governo de sua ex-ministra.

Na volta, Lula preferiu não viajar a Brasília. Os dois conversaram por telefone depois da entrevista que Palocci concedeu explicando a evolução de seu patrimônio pessoal.

Para a presidente já ficara claro, então, que Palocci não reunia mais condições políticas para permanecer no cargo - pesquisas mostravam que a crise atingira o governo e Dilma tinha notícias segundo as quais a oposição conseguiria reunir o número necessário de assinaturas para instalar uma CPI. A presidente procurara dar sustentação a Palocci, mas já não havia como mantê-lo.

Na segunda-feira, Dilma disse a Gilberto Carvalho, atual secretário-geral da Presidência e ex-chefe de gabinete de Lula, que escolhera Gleisi para a Casa Civil e perguntou o que ele acha. "Ótimo", teria sido a resposta do ministro à presidente.

Lula não ficou surpreso. Com a escolha de Gleisi, a presidente demonstrou autonomia que fora posta em dúvida com o agravamento de uma crise que ainda é latente na coordenação política.

Gleisi, por seu turno, é vista como representante da renovação há muito buscada pelo PT, uma espécie de retomada dos valores mais caros ao partido, antes da crise o mensalão: integridade moral, ética e eficiência administrativa. Na reunião da bancada dos senadores do PT com Lula, Gleisi foi quem chamou a atenção de que o problema Palocci tratava-se era pessoal e não justificava o engajamento do partido em sua defesa.

Quem conhece a presidente e a nova ministra diz que engana-se quem diz ser Gleisi" a Dilma da Dilma". Se fosse para ser assim a escolhida seria Miriam Belchior, ministra do Planejamento: a senadora é um ser essencialmente político.

Fonte:
Valor Econômico

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