Soja: Mercado assume novo patamar de preços e exige atenção

Publicado em 04/07/2014 11:51 7036 exibições

Os números que o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) trouxe na última segunda-feira (30) foram, para alguns analistas, um divisor de águas para o mercado global da soja. Depois do relatório, os preços da oleaginosa assumiram, na Bolsa de Chicago, um novo patamar, principalmente para os vencimentos referentes à safra 2014/15. 

O contrato novembro/14, referência para a safra americana fechou a semana valendo US$ 11,35 por bushel, o março/15 a US$ 11,50 e o maio/15, referência para a safra brasileira, a US$ 11,58. Esses valores estão bem abaixo dos que os analistas esperavam para essas posições, bem como são menores também diante das expectativas do produtor rural. 

Assim, segundo analistas, esse é momento, portanto, de o sojicultor observar o caminhar dos negócios, a evolução dos preços e evitar novas vendas. Patamares interessantes, de acordo com Liones Severo, consultor do SIMConsult, a orientação é de que novos negócios sejam efetivados a partir dos US$ 12,50 por bushel. 

"US$ 12,50 em Chicago com esse dólar atual (na casa dos US$ 2,20) poderia elevar a soja no porto acima dos R$ 70,00 (atualmente tem sido negociada a R$ 63,00) e isso é muito bom. Por isso, com esse patamar é importante que as vendas comecem a ser feitas, porque o dólar não vai mudar até as eleições", afirma Severo.

A projeção para o futuro da moeda norte-americana, no entanto, é positiva e pode trazer resultados ainda melhores, de acordo com o consultor. Para o fim de maio do ano que vem, espera-se que o dólar esteja cotado a algo próximo dos US$ 2,42 e, na venda antecipada, há uma correção do valor praticado hoje com a taxa Selic. "Teremos um dólar remunerado a futuro muito superior à expectativa de valor presente do dólar que se anuncia", diz Severo.  

Oferta X Demanda

Esse novo patamar de preços para o mercado da soja chegou, principalmente, depois que o USDA trouxe uma projeção de área de plantio da safra 2014/15 de 34,2 milhões de hectares, contra expectativas do mercado que variavam de 33 milhões a 33,5 milhões de hectares. Caso esses números sejam confirmados e as condições climáticas permaneçam bastante favoráveis no Meio-Oeste americano, o potencial produtivo da nova temporada poderia ser elevado a mais de 103 milhões de toneladas, segundo analistas. 

Entretanto, ao passo em que se espera uma safra recorde nos Estados Unidos e um aumento significativo também na colheita do Brasil, a demanda também apresenta um ritmo de crescimento e os sinais serão de que a força e a presença da mesma devem continuar. E preços menores deverão, portanto, ampliar o consumo global de soja. 

Somente a China, na temporada 2014/15, deverá importar mais de 70 milhões de toneladas de soja. Na última semana, o governo da China anunciou que em 2014 o aumento no consumo e produção de ração no país será de 15%, elevando o consumo da alimentação animal em cerca de 25 milhões de toneladas, segundo Vlamir Brandalizze, consultor da Brandalizze Consulting. 

A nação asiática aumentou também seu esmagamento de soja para a produção de farelo e óleo de soja e as expectativas são de que esses números continuem crescendo. Além disso, o preço dos suínos subiu 29% e o da carne de frango 5%. Além disso, há melhores perspectivas também para a demanda de ração para aquicultura, que em junho subiu mais de 30%. 

“A indústria está recuperando seu ritmo depois de um semestre desastroso”, disse Tommy Siao, analista da consultoria agrícola Shanghai JC Intelligence Co à agência internacional de notícias Bloomberg. 

Há ainda o sinal de um aumento do consumo de demais países importadores, principalmente em função de um incremento na avicultura e suinocultura em paíeses emergentes, que vem implementando melhorias em sua dieta, aumentando o consumo de proteína animal. Na Rússia, por exemplo, já há uma expressiva alta na produção de frangos e suínos,o que deverá exigir, portanto, uma necessidade maior de soja e milho para a fabricação de ração animal.

Prêmios x Demanda

A atual força da demanda e os sinais de que o consumo global seguirá crescente criam um cenário que já tem sido refletido no mercado brasileiro. As perdas expressivas que foram registradas em Chicago nos últimos dias têm sido compensadas pelos altos prêmios que vem sendo pagos nos portos brasileiros. Em Paranaguá, por exemplo, sobre o vencimento julho há US$ 1,20 positivo; para agosto, US$ 1,10; para setembro, US$ 1,60, e para março/15, US$ 0,40. 

"O produtor brasileiro se preparou nesses últimos anos, com uma condição um pouco melhor, para segurar um pouco suas vendas e comercializar em alguns momentos que lhe tragam margem e isso ele está aproveitando nesse ano que tem sido lucrativo para todo o setor. Com isso, os prêmios estão com os maiores níveis em dois ou três anos, já batendo na casa dos US$ 2,00 para o vencimento setembro, indicativos que vão para os US$ 0,50, e mesmo assim não está tendo pressão de venda", explica Vlamir Brandalizze.

Além disso, o mercado brasileiro conta ainda com uma demanda interna aquecida. A indústria nacional já compete com as exportações do país. As esmagadoras têm aumentado o volume de soja processada, o que resultou, no último mês em exportações maiores de farelo e óleo de soja, em detrimento das vendas externas do grão. 

Em junho, as exportações de soja do Brasil somaram, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), 6,89 milhões de toneladas, contra 7,609 milhões de maio, registrando uma baixa de 10%, aproximadamente. Porém, em uma correlação com o cenário industrial, as vendas externas de farelo e de óleo de soja aumentaram em 18 e 21%, respectivamente. 

"Isso significa dizer que o fator industrial está potencialmente aumentando o preço agregado ao produtor. As exportações estão menores no Brasil com as indústrias batendo cada vez mais na porta do produtor para garantir seu produto e o abastecimento no segundo semestre. Por isso, mercado industrial é o foco e o que vai demandar soja dos produtores", explica Mário Mariano, analista de mercado da Novo Rumo Corretora. 

Aumento nos custos de produção

As vendas no mercado de soja, tanto norte-americano quanto o brasileiro e o argentino, estão paradas, com os produtores esperando essa acomodação dos preços e o mercado assimilando essa nova realidade. Os sojicultores aguardam, portanto, um quadro em que apareçam novas e melhores oportunidades de comercialização. 

Outro fator que intensifica essa retração por parte dos produtores é o aumento dos custos de produção. Segundo o último boletim do Imea (Instituto de Economia Agropecuária), a cultura da soja deverá registrar uma elevação de 5,2% em relação à temporada anterior. O valor deverá ser de R$ 2.411,56 por hectare e esse número maior já vinha sendo aguardado pelo mercado e pelos produtores, com uma demanda maior por insumos e também em função de uma ligeira alta do dólar.

Com esses valores e os atuais patamares de preços em Chicago, a margem do produtor brasileiro de soja ficaria comprometida e mais apertada, ainda segundo aponta o Imea. "Assim, os tempos são de guardar dinheiro para as safras que virão, pois para a temporada 2014/15, utilizando como base o preço de paridade atual próximo a R$ 46,00/sc, torna a margem de lucro da próxima safra bastante arroxada", informou o boletim.

Preços x Fundamentos

Todo esse cenário, portanto, deverá dividir o mercado entre a movimentação do "mercado de papeis" e do mercado regido pelo lei da oferta e demanda, como explicou Brandalizze. Os preços em Chicago sentem o impacto psicológico e imediato dos últimos números, já que os investidores agem muito rapidamente. Porém, a realidade é outra, uma vez que, apesar das novas informações, o produtor "não sai vendendo imediatamente", diz o consultor.

"A demanda para essa nova soja existe. Supondo que não aconteça nada com a safra americana e que tenhamos uma grande safra brasileira também, há espaço para um crescimento dessa demanda e cria um potencial de valores que gira de US$ 12,00 a US$ 13,50 em Chicago, pelo menos US$ 1,50 acima do que está sendo visto hoje", diz. 

Paralelamente, Liones Severo afirma também que a real disponibilidade de produto, juntamente com o crescimento contínuo da demanda é a lei soberana que deve reger os preços e, por isso, exige uma atenção grande e bastante cautela do produtor, e não nervosismo ou movimentos precipitados. 

"A soja é a commodity agrícola mais importante descoberta no século passado e hoje ela é o motor mundial da humanidade. Temos um mercado muito bem demandado e não vai sobrar toda essa soja que os americanos afirmaram que possuem em estoque e também não vão produzir tudo aquilo que estão dizendo (...) O produto é soberano. Se o produtor brasileiro fizer uma boa gestão comercial da sua soja poderá ter excelentes resultados. Não precisa ser pessimista porque o mercado é muito maior do que se comenta e do que se diz", orienta o consultor do SimConsult. 

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Por:
Carla Mendes
Fonte:
Notícias Agrícolas

1 comentário

  • Ronaldo de Moura Sobreiro Cascavel - PR

    Com uma grande oferta de milho os americanas apostaram na soja, para repor estoques e atender o aumento no consumo principalmente pelos chineses.A demanda da soja continua.

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