Brasil mantém competitividade e lidera exportações globais de soja

Publicado em 19/05/2016 12:42 e atualizado em 19/05/2016 13:14
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Os números recordes nas exportações brasileiras de soja não param de aparecer. Somente nas duas primeiras semanas de maio, o Brasil já embarcou 5,2 milhões de toneladas da oleaginosa. Em abril, foram 10,1 milhões, ou seja, 20% a mais do que em março e 50% a mais do que no mesmo mês de 2014. Dessa forma, o país se consolida, nesta temporada 2015/16, como o maior exportador mundial da commodity. 

Especialistas atribuem essa explosão nas vendas externas de soja a uma conjunto de fatores, porém, o mais forte deles foi, sem dúvida, a alta do dólar, principalmente durante o período em que ocorreu a comercialização antecipada do produto do atual ano safra, onde a moeda norte-americana chegou a superar os R$ 4,00, catalisando a competitividade da oleaginosa nacional. E o aumento das exportações brasileiras acabaram, inclusive, tomando boa parte do mercado norte-americano neste período diante de uma demanda global extremamente aquecida. 

Em seu último reporte mensal de oferta e demanda, o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) revisou, inclusive, os números das importações mundiais para 131,08 milhões de toneladas, contra as 123,39 milhões do ano safra 2014/15. Dessa forma, os estoques finais mundiais da atual temporada - 74,25 milhões de toneladas são estimados para ficarem abaixo do registrado na anterior - 78,08 milhões. O departamento projeta ainda que as exportações mundiais deverão alcançar neste ano 2015/16 132,58 milhões de toneladas, contra as 126,15 milhões de 2014/15. 

A soja brasileira poderia, ainda, ocupar o espaço que deverá ser causado pelas quebras da safra da Argentina por conta do excesso de chuvas. O país, de acordo o diretor executivo da consultoria Globaltecnos, Sebastián Gavalda, em entrevista à agência Reuters, poderia exportar 25% menos em função dessas perdas, somando um volume modesto de apenas 8,5 milhões de toneladas. A perda de qualidade dos grãos argentinos também pesou para essa contabilidade. 

Demanda 

A China, no quadro mundial de demanda pela oleaginosa, se mantém como destaque e suas importações deverão alcançar as 83 milhões de toneladas, ainda de acordo com os últimos números do USDA. Projeções de consultorias privadas, porém, acreditam em volumes ainda acima disso. A nação asiática, em 2016, foi responsável pela compra de 79% do volume de 20,89 milhões de toneladas já exportado pelo Brasil de janeiro a abril. 

"O mercado asiático de alimentos está em crescimento e aumentou a demanda tanto pelo grão quanto pelo farelo. Acredito que essa tendência deve se manter nos próximos meses", disse, em entrevista ao portal InfoMoney, o gerente de economia da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), Daniel Furlan. 

O consumo mundial geral, no entanto, também dá sinais de expressivo incremento. E boa parte desse avanço tem se dado pela maior demanda por farelo de soja frente a uma demanda maior por proteína animal em todo o globo, principalmente em países emergentes. "A demanda global por oleaginosas deverá aumentar mais do que no ano anterior. E o esmagamento de soja está projetado para crescer cerca de 4%", informou o USDA em seu último reporte. 

Ao mesmo tempo, ainda de acordo com informações do departamento, o consumo mundial de proteína animal também indica elevadas perspectivas de crescimento com um movimento que deverá ser liderado pela China e alguns outros mercados importantes, como mostra o gráfico a seguir. 

Consumo mundial de proteína animal - Fonte: USDA

Consumo mundial de farelos proteicos - Fonte: USDA

Dessa forma, a projeção para o consumo de farelos é de uma alta de 3% e o líder das exportações globais deverá ser, mais uma vez, o farelo de soja. "A crescente demanda por farelo de soja, que responde por mais de 70% do consumo mundial, é o principal direcionador da expansão deste mercado", informou o USDA. 

No caso dos óleos vegetais, que também deverão registrar um aumento de 3% no consumo global como alimento, a liderança fica por conta dos óleos de palma e então, de soja. O uso industrial desses derivados também deve crescer na temporada 2016/17. E o USDA aponta ainda que os estoques finais globais de óleo indicam uma queda de 5% no próximo ano comercial. 

Preços x Competitividade

A concorrência entre Brasil e Estados Unidos na exportação de soja deverá aumentar nos próximos meses, acreditam analistas. As diferenças de preços, a oferta ajustada e um particular impulso tomado pela demanda internacional poderiam direcionar esse movimento nos próximos meses. 

Afinal, durante a maior parte da temporada comercial norte-americana, os preços de uma soja dos Estados Unidos para a China estiveram mais baratos do que, por exemplo, uma soja embarcada em Paranaguá, no Brasil, com destino à nação asiática. Entretanto, a partir de março, com as perdas da safra brasileira sendo conhecidas e uma vantagem menor trazida pelo câmbio, essa situação começou a se inverter, como mostra o gráfico da Reuters, indicando, no último dia 16, a tonelada da soja brasileira em US$ 428,43 e a norte-americana em US$ 426,95.

Preços da Soja - Golfo x Paranaguá - Fonte: Reuters

Soja para China - Brasil (Paranaguá) x EUA (Golfo) - Fonte: Reuters

A diferença entre os valores, entretanto, é pequena e por isso, insuficiente para estimular uma recuperação das exportações norte-americanas que pudesse tirar a liderança brasileira. A oleaginosa nacional, além de tudo, conta atualmente com melhor qualidade, de acordo com especialistas, o que pode, caso sejam mantidos esses padrões mais elevados, ajudar a garantir essa maior competitividade. 

Assim, os preços pagos pela soja brasileira, de acordo com o que explicam analistas, não só estão mais elevados, como estão também sustentados. Os últimos valores referenciados para a soja da safra 2015/16, nos principais portos do país, orbitavam próximos a R$ 87,00 por saca. Os preços melhores em Chicago - com mais de US$ 10,50 por bushel - e os altos prêmios pagos nos portos - os quais também são um termômetro da demanda forte -, além do câmbio ainda próximo dos R$ 3,50 - dão sustentação aos valores. 

"O ritmo de exportação brasileiro de soja em 2016 é muito forte e isso, provavelmente, vai antecipar o que chamamos de entressafra, onde enxergamos um descolamento maior das cotações internas em relação à Chicago. Neste momento, estamos bem alinhados  com as cotações que estão sendo pagas no interior, porém, com essa aceleração das exportações, é bem provável que já no início do segundo semestre comece a haver um descolamento com as esmagadoras que precisam de farelo e óleo para vender no mercado interno tendo que fazer alguma disputa de mercadoria com os exportadores", explica Carlos Cogo, consultor de mercado da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica. 

Status dos portos do Brasil

Outro fator considerado pelos analistas e especialistas de mercado é a movimentação dos embarques de soja nos portos brasileiros, a qual foi muito mais ágil nesta temporada. Ainda de acordo com um levantamento feito pela agência Reuters, o tempo de espera para o embarque em Santos e Paranaguá diminuiu e é o mais curto, em ambos os terminais, dos últimos quatro anos. E isso aconteceu mesmo com esse ritmo muito acelerado da oleaginosa em um ano em que, além dela, as vendas externas de milho do Brasil também foram recordes, além dos demais produtos. 

Tempo de espera para embarque de soja SAN e PNG - Fonte: Reuters

Redução do tempo de espera nos embarques de soja em Santos e Paranaguá - Fonte: Reuters

E a atuação dos demais portos também se destaca. Em 10 anos - de 2004 para 2014 -, o percentual de soja exportada por Rio Grande e São Francisco, juntos, passaram de 18% para 28%. Assim, estes quatro portos juntos, respondem por cerca de três quartos das exportações brasileiras de soja. 

Tempo de espera para embarque de soja RG e SF - Fonte: Reuters

Redução do tempo de espera nos embarques de soja em Rio Grande e São Francisco - Fonte: Reuters

Safra 2016/17

Em linhas gerais, o que se espera para a safra 2016/17 é que a produção mundial, em partes pelas boas oportunidades trazidas aos produtores, cresça para um recorde de 324 milhões de toneladas. Apesar disso, o USDA aponta ainda para um declínio de 8% nos estoques globais diante dessa forte demanda. "Muito dessa baixa vem de estoques menores nos Estados Unidos, que reúne 50% dos estoques dos exportadores, e da Argentina, onde os produtores buscam reduzir seus estoques estratégicos", afirmam os analistas do USDA. As importações mundiais, lideradas pela China, devem ter um aumento de 5 milhões de toneladas. 

Esse quadro aliado ao câmbio e também aos prêmios - além de Chicago - já têm estimulado boas vendas antecipadas da safra nova pelo produtor brasileiro. Para a soja a ser embarcada em março, os preços pagos nos portos operam na casa de R$ 90,00 por saca e chamam os sojicultores para os negócios, aproveitando as boas oportunidades de comercialização. 

"Isso é reflexo de basicamente três coisas: a sinalização de prêmios positivos nos portos para a entrega entre abril e maio do ano que vem; um cenário, em alguns casos, da fixação de um dólar futuro mais alto do que um dólar à vista; e os preços futuros em Chicago, mesmo com quedas pontuais, acima da linha dos US$ 10,50 por bushel. É uma combinação de fatores que leva o mercado a pagar, para entrega do primeiro quadrimestre de 2017, valores em reais de 6 a 10% acima do que se pagou antecipadamente para abril e maio deste ano. Este é um cenário muito favorável para frente", afirma Cogo. 

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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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