Do clima à logística, produtores iniciam plantio com alto grau de incerteza

Publicado em 11/09/2018 16:38 e atualizado em 11/09/2018 19:20
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Foi dada a largada para a safra 2018/19 de soja no Brasil. As principais regiões produtoras já estão com seus trabalhos de campo em curso e no Paraná o vazio sanitário já terminou. Os próximos estados a terem o período finalizado agora são Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo, no dia 15, e Minas Gerais e Goiás no dia 30. As atenções dos produtores, portanto, estão todas voltadas para as previsões climáticas. 

Vazio sanitário soja

Calendário do vazio sanitário da soja - Fonte: Aprosoja Brasil

Ainda no radar dos sojicultores, estão os custos de produção, a influência da intensa volatilidade cambial - ocasionada, principalmente, pela cena da corrida presidencial -  nos custos de produção e na comercialização e na demanda forte pela soja brasileira diante de uma disputa comercial entre China e Estados Unidos que ainda não se resolveu e segue atraindo os compradores chineses para o mercado nacional. 

A questão dos fretes e do tabelamento dos valores é outra preocupação do produtor de soja nesta nova temporada. Os negócios com o produto 2018/19 estão atrasados, além de outros fatores, pela incerteza sobre os custos logísticos que essa situação gerou. Há elos em toda a cadeia produtiva evitando grandes negócios antecipados por não terem conhecidos os gastos com o transporte dessa produção. 

E no final da última semana, a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) trouxe ainda a definição de uma indenização pelo não cumprimento dos valores da tabela. 

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Segundo uma avaliação da ANEC (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais), a nova tabela de fretes rodoviários poderia impactar o setor de grãos em R$ 3,4 bilhões. 
"É um passivo que as empresas nem sabem como fazer. Dentre os compromissos que tem, principalmente com soja, com o comércio internacional. Tem a China, que está comprando mais do Brasil por causa da disputa com os Estados Unidos. O Brasil não tem como deixar de fornecer", afirmou Sérgio Mendes, diretor geral da instituição á Reuters. "Se antes a tabela já era super pesada, impossível de se imaginar, agora fica pior ainda... A tabela anterior, ou qualquer tabela, para o setor, onde as margens são extremamente estreitas, qualquer coisa que você insere aí não tem como repassar. Você tem de deglutir esse custo adicional", completou. 
 

Clima

Segundo especialistas e agências climáticas,a tendência é de que, nas próximas duas semanas, as chuvas voltem a ser registradas, porém, de forma ainda isolada e de baixo volume. E os sojicultores aguardam essas precipitações com ansiedade, uma vez que o mapa de água disponível no solo mostra níveis mais preocupantes na região Centro-Oeste. As chuvas dos últimos 90 dias, afinal, foram pouco expressivas. 

Mapa das áreas com precipitação acumulada nos últimos 90 dias - Fonte: Inmet

Mapa das áreas com precipitação acumulada nos últimos 90 dias - Fonte: Inmet

Mapa de água disponível no solo em todo o Brasil - Fonte: Climatempo

Mapa de água disponível no solo em todo o Brasil - Fonte: Climatempo / Legenda

Mapa de água disponível no solo em todo o Brasil - Fonte: Climatempo

Veja mais na entrevista de Morgana Almeida, Chefe do Centro de Análise e Previsão do Tempo do Inmet:

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Em Mato Grosso, por exemplo, a última ocorrência de chuvas significativas foi em maio. Goiás e Mato Grosso do Sul também têm situação bastante preocupante até este momento. A esperança é de que as chuvas previstas para os próximos 15 dias, mesmo que ainda irregulares, comecem a se confirmar. 

"A boa notícia é que a chuva pode retornar para as regiões produtoras do Sudeste e Centro-Oeste já no meio de setembro, mas ainda de forma muito irregular. Há sinais de que algumas pancadas de chuva isolada e de fraca a moderada intensidade irão ocorrer em boa parte das regiões produtoras do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. Isso permitirá que os produtores consigam iniciar o plantio da nova safra de soja", informa a Climatempo. 

Para a região Sul do país, as condições são mais favoráveis. No Paraná, inclusive, o plantio já caminha de forma bastante satisfatória, mas os produtores seguem muito atentos às previsões e, diante disso, estão escalonando as atividades de forma que possam aproveitar bem as precipitações. 

De acordo com números do Deral (Departamento de Economia Rural da Secretaria de Agricultura do Paraná), já há 1% da área plantada no estado. A estimativa é de que o estado cultive 5,4 milhões de hectares com a oleaginosa.  

"As boas chuvas registradas na segunda quinzena de agosto e no início de setembro e o aumento nas temperaturas essa semana nos deram segurança para o início dos trabalhos nos campos", relata Valdir Fries, produtor rural de Itambém, no estado paranaense. 

E com o tempo um pouco mais firme esperado para os próximos dias, antes das chuvas previstas para as duas semanas seguintes, a atenção dos produtores fica redobrada. "Até mesmo por isso nós paralisamos a semeadura, que deverá ser retomada após as chuvas. O escalonamento do plantio nos dá mais segurança, uma vez que diminui os riscos", diz Fries. 

Plantio da soja no Paraná - Valdir FriesPlantio da soja no Paraná - Valdir FriesPlantio da soja no Paraná - Valdir Fries

Plantio da soja no Paraná - Valdir FriesPlantio da soja no Paraná - Valdir FriesPlantio da soja no Paraná - Valdir Fries

Plantio 2018/19 em Itambé/PR - Fotos: Valdir Fries

Na região de Guaíra, a situação é semelhante. O plantio também já foi iniciado com níveis de umidade no solo, até este momento, adequados. 

"As primeiras áreas cultivadas na nossa região costumam ser mais favorecidas. Nós temos muito umidade no solo e há condições ideais para o plantio”, diz o presidente do Sindicato Rural local, Silvanir Rosset.

Plantio da soja no ParanáPlantio da soja no ParanáPlantio da soja no Paraná

Plantio 2018/19 em Guaíra/PR - Fotos: Silvanir Rosset

Em Ipiranga do Norte, em Mato Grosso, os produtores esperam pela chegada das chuvas nos próximos 15 dias para um bom início e evolução da semeadura 2018/19, como explica o presidente do sindicato rural, Valcir Gheno. 

"Nós tivemos chuvas isoladas em pequenas quantidades e isoladas que é insuficiente para qualquer umidade no solo, mas a expectativa  as chuvas venham na próxima semana", afirma o produtor em entrevista ao Notícias Agrícolas. 

Já em Chapadão do Sul, no Mato Grosso do Sul, as expectativas são de que o plantio da soja comecem efetivamente a partir de 25 de setembro, período após as chuvas previstas se confirmarem, segundo Lauri DalBosco, presidente do sindicato rural. 

Estimativas Nacionais

Para Vlamir Brandalizze, consultor da Brandalizze Consulting, a área destinada ao plantio da soja no Brasil deverá trazer um aumento na casa de 4,03%, passando de 34,740 para 36,410 milhões de hectares na temporada 2018/19. "Isso deve resultar em uma safra de cerca de 121,75 milhões de toneladas", diz. 

Para o executivo, mesmo com as chuvas ainda trazendo algumas incertezas e dos outros fatores que trazem alguma insegurança aos produtores, esse aumento da área deverá ser efetivado. E até este momento, no quadro de clima, nenhum problema sério foi registrado. 

Ainda segundo Vlamir, esse aumento na produção brasileira será facilmente absorvido, dada a demanda forte da China pelo produto brasileiro diante da falta de acordo que ainda ronda o mercado global da oleaginosa entre chineses e americanos. 

E não a Brandalizze Consulting que estima um aumento de área, mas outras consultorias privadas também já esperam por números maiores. Para a Céleres Consultoria, a área plantada com soja no Brasil deverá crescer 3%, passando a 36,17 milhões de hectares, com uma produção que pode chegar a 119,63 milhões de toneladas. Já para a INTL FCStone, a superfície dedicada á oleaginosa deverá ficar em 35,86 milhões de hectares e a colheita em 119,18 milhões. 

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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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