Custos de produção da cana-de-açúcar disparam com fertilizantes em preços historicamente elevados

Publicado em 29/04/2026 07:18
Escalada de preços com tensões no Oriente Médio pode levar produtores a reduzir adubação e afetar rendimento das lavouras

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A escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio continuam pesando no bolso do produtor brasileiro e reacende preocupações no setor sucroenergético. A alta nos preços dos fertilizantes importados, insumos essenciais para culturas como a cana-de-açúcar, eleva os custos de produção e pode comprometer a produtividade das lavouras, caso haja redução no uso desses produtos.

O Brasil depende fortemente das importações para suprir a demanda por fertilizantes, especialmente nitrogenados e potássicos, o que torna o mercado interno sensível a choques externos. Em uma cultura intensiva em insumos como a cana, essa volatilidade tem impacto direto no planejamento das safras e nas margens do produtor.

De acordo com a StoneX, em um cenário de forte dependência de importações, o Brasil sente de maneira direta os impactos desse choque externo, com valorização expressiva dos insumos no mercado doméstico.

Entre os fertilizantes nitrogenados, o movimento de alta é ainda mais intenso. Desde o início do conflito, os preços CFR da ureia avançaram cerca de 63% no país. No mesmo período, o sulfato de amônio (SAM) acumula valorização próxima de 30%, enquanto o nitrato de amônio (NAM) registra alta de aproximadamente 60%.

A elevação expressiva e a volatilidade do nitrato de amônio acendem um sinal de alerta no setor sucroenergético, uma vez que o insumo é amplamente utilizado na adubação de cobertura da cana-de-açúcar. Nesse contexto, o aumento dos custos pressiona diretamente as margens dos produtores e reforça a preocupação com o equilíbrio econômico das lavouras na próxima safra.

Segundo Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, qualquer interrupção no fluxo global rapidamente chega ao Brasil. “Para um país altamente dependente das importações, qualquer choque internacional que eleve preços tende a impactar diretamente o mercado interno, tanto em valores quanto em disponibilidade”, afirma.

Ele destaca que o atual cenário apresenta agravantes em relação a crises anteriores. Um dos pontos é a piora nas relações de troca, especialmente entre milho e ureia, em níveis mais desfavoráveis até do que os registrados durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022. Outro fator crítico é o risco logístico envolvendo o Estreito de Hormuz, rota estratégica para exportações do Oriente Médio.

“Enquanto houver risco ou restrições nessa rota, a oferta global de fertilizantes nitrogenados e fosfatados tende a permanecer limitada, o que mantém os preços pressionados e amplia os riscos para países importadores como o Brasil”, explica Pernías.

Preço elevado já impacta decisões no campo

Na ponta produtiva, o principal desafio já é claro: o custo. De acordo com Jeferson Souza, analista da Agrinvest Commodities, o produtor enfrenta dificuldade crescente para fechar a conta.

“Hoje, o principal problema é o preço. A disponibilidade ainda não é o maior entrave, mas pode se tornar se o cenário persistir”, afirma. Segundo ele, há preocupação com o abastecimento, especialmente considerando que uma parcela relevante dos fertilizantes consumidos no Brasil vem do Oriente Médio.

Diante desse cenário, produtores já começam a rever estratégias. “A alternativa mais imediata tem sido reduzir a dose de adubação”, diz Souza. A decisão, no entanto, envolve riscos. “Qualquer redução precisa ser muito bem planejada, porque pode impactar diretamente a produtividade, principalmente em áreas mais novas”, pondera.

Além disso, o analista destaca que o contexto atual é mais desafiador do que o observado em 2022. “Naquela época, apesar dos fertilizantes caros, o produtor tinha mais margem e acesso a crédito. Hoje, os preços das commodities não acompanham esse aumento de custo, o que torna a situação mais apertada”, explica.

Oferta global incerta e volatilidade devem persistir

O mercado internacional também segue instável. A volatilidade nos preços, especialmente da ureia, tem sido intensificada pelo fluxo constante de notícias sobre o conflito e pelas incertezas em torno da logística global. O Oriente Médio concentra uma fatia relevante das exportações desses insumos, o que amplia a sensibilidade do mercado a qualquer interrupção.

Outro ponto de atenção é o nitrato de amônio, insumo amplamente utilizado na cana-de-açúcar, que teve recentemente restrições nas exportações, com destaque para a Rússia, um dos principais fornecedores do Brasil.

Para os próximos meses, a trajetória dos preços dependerá de fatores-chave. “O primeiro ponto é a normalização das rotas logísticas, especialmente no Oriente Médio. Depois, é preciso acompanhar o retorno de grandes exportadores ao mercado e entender o quanto a demanda global vai recuar”, afirma Souza.

Enquanto isso, o setor sucroenergético adota uma postura de cautela, diante da pressão crescente nos custos de produção. No campo, os produtores se veem diante de uma decisão difícil: absorver os preços mais elevados dos fertilizantes, com impacto direto nas margens, ou reduzir a aplicação de insumos, assumindo riscos para o potencial produtivo das lavouras.

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Por:
Andréia Marques I @andreia.marques
Fonte:
Notícias Agrícolas

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