Petróleo: Preços devem seguir recuando e testar patamares abaixo dos US$ 10 por barril no mercado futuro

Publicado em 20/04/2020 18:33 e atualizado em 21/04/2020 08:04 4151 exibições
Flávio Gualter Inácio Inocêncio - Prof. de Direito de Petróleo e Gás da Universidade Nova de Lisboa
Desastre nos preços do petróleo vai mudar a vida de todos. JB Olivi entrevista especialista direto de Portugal, que mostra tendência de queda ainda no curto e médio prazos, com preços futuros podendo chegar aos US$ 10/barril.

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Desastre nos preços do petróleo vai mudar a vida de todos

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Pela primeira vez na história os preços do petróleo na Bolsa de Nova York foram abaixo de US$ 0,00 por barril e atingiram valores negativos no vencimento maio/20 do WTI. Em patamares negativos, o barril chegou a -US$ 37,63. "Em outras palavras, vendedores PAGARÃO para compradores receberem o petróleo com entrega em maio", explicam os analistas da ARC Mercosul. 

O colapso do mercado veio dando sinais de sua chegada desde o início do dia, perto de 15h (Brasília) marcou queda de mais de 90% e, na sequência, foi a zero e depois a níveis negativos. 

Petróleo abaixo de zero

Como explica a Agrinvest Commodities, o contrato maio cedeu 110% frente ao seu fechamento da última sext-feira (17), "desafiando  teoria dos preços onde uma mercadoria não pode ser negociada à preços negativos". Dessa forma, esse cenário só ocorre diante do encarecimento dos custos de armazenagem do petróleo e de falta de perspectiva da volta da demanda. 

E assim, como o contrato maio expira nesta terça-feira, 21, e por isso o mercado busca se desfazer dessas posições para não receber a entrega física do produto, motivando este movimento. 

"É um fenômeno com o contrato que está por vencer. O contrato de julho é o que realmente ‘reflete’ o preço. Falta espaço pra armazenar petróleo, por isso estão ‘pagando’ pra não receber o petróleo de vencimento maio", explica Aaron Edwards, consultor de mercado da Roach Ag Marketing, direto dos EUA. 

Assim, o contrato junho/20 fechou com baixa de mais de 15% e sendo cotado a US$ 21,21 por barril em Nova York. 

"Isso é inédito e está relacionado com fatores fundamentais de oferta e demanda", diz o professor de Direito de Petróleo e Gás da Universidade Nova de Lisboa, de Portugal, Flávio Gualter Inocêncio, em entrevista ao Notícias Agrícolas. "Tivemos um choque de oferta relacionado à guerra de preços entre Rússia e Arábia Saudita e depois tivemos a crise do Covid-19 e que fez com que a demanda mundial caísse um terço", completa. 

Segundo o professor, houve um acordo para se promover um corte na produção, porém, insuficiente. E assim, a tendência para as cotações continua de baixa, com os valores do barril - tanto em Nova York, para o WTI, quanto para o Brent, em Londres, podendo chegar aos US$ 10,00 por barril e depois marcar patamares abaixo disso, de um dígito, como explica o professor. 

Ainda segundo ele, no curto prazo, pode haver um novo entendimento entre os países produtores para uma redução na oferta, todavia, sem forças para mudar o atual cenário baixista para os preços. Em contrapartida, Inocêncio acredita ainda que em função do atual momento muitas perfuradoras e refinarias podem parar, mesmo que temporariamente, suas atividades, uma vez que os atuais custos da atividade estão muito distantes dos preços praticados agora. 

O movimento observado neste início de semana derrubou todas as referências do mercado desde a década de 1940 e é resultado de um excesso de oferta, uma demanda drasticamente reduzida - e com a redução sendo intensificada pela pandemia do coronavírus - e de problemas com o armazenamento da commodity, que está mais caro e tem sido insuficiente. 

"Poucas pessoas ainda vivas podem dizer que já viram algo assim. A primeira crise do petróleo foi em 1963, depois a segunda na Revolução Iraniana (no final da década de 1970), mas nunca os preços vieram a níveis tão baixos", disse. 

O professor explica que, assim, é necessário que os países produtores continuem a fazer cortes na oferta e esperar que a atividade econômica se recupere no segundo semestre. Ainda assim, caso haja tal recuperação, a volta no consumo de petróleo será lenta e gradual. 

Assim, com a volta a este "novo normal" que vem sendo esperado, os preços devem voltar a patamares de US$ 40,00 por barril, e com dificuldade diante da recessão econômica global que está por vir. "O FMI já nos sinalizou com uma retração de mais de 3% na economia mundial", lembrou o professor. 

Inocêncio reafirma ainda o peso da baixa dos preços do petróleo atinge duramente o setor de etanol - seja de milho ou de cana - e que os efeitos dessa pressão ainda deverão persistir sobre a atividade por mais um tempo. E será necessário subsídios dos governos às usinas para que possam passar pelo momento de crise.

Preços do petróleo colapsam nos EUA e fecham em nível negativo pela 1ª vez na história

NOVA YORK (Reuters) - Os contratos futuros do petróleo nos Estados Unidos foram negociados em valores negativos pela primeira vez na história nesta segunda-feira, com o primeiro vencimento terminando o dia a impressionantes 37,63 dólares negativos por barril, após operadores liquidarem posições de forma massiva em meio ao rápido preenchimento das reservas no centro de distribuição de Cushing, em Oklahoma.

O petróleo Brent, valor de referência internacional, também recuou, mas a fraqueza não foi nem de longe tão grande quanto à do WTI, uma vez que globalmente há mais espaço disponível para armazenamento.

O contrato maio do petróleo dos EUA fechou em queda de 55,90 dólares, ou 306%, a -37,63 dólares por barril, depois de tocar uma mínima histórica de -40,32 dólares. O Brent cedeu 2,51 dólares, ou 9%, para 25,57 dólares o barril.

"O armazenamento está cheio demais para que especuladores comprem esse contrato, e as refinarias estão operando a níveis baixos porque não flexibilizamos as ordens de isolamento na maior parte dos Estados", disse Phil Flynn, analista do Price Futures Group em Chicago. "Não há muita esperança de que as coisas possam mudar em 24 horas."

A demanda física por petróleo secou, criando um excesso de oferta global em um momento em que bilhões de pessoas ficam em casa para frear a disseminação do novo coronavírus.

As refinarias estão processando muito menos petróleo que o normal, o que faz com que milhões de barris fiquem "presos" em instalações de armazenamento em todo o mundo. Tradings contrataram navios apenas para ancorá-los e enchê-los de petróleo. Um recorde de 160 milhões de barris está estocado em navios-tanque no mundo.

Já os estoques em Cushing avançaram em 9% na semana até 17 de abril, totalizando cerca de 61 milhões de barris, disseram operadores, citando um relatório da Genscape.

O contrato junho do WTI, mais ativo, terminou a sessão em nível muito superior ao maio, cotado a 20,43 dólares o barril. O spread entre os dois vencimentos chegou a bater 60,76 dólares, o maior da história para dois contratos próximos.

Os preços negativos do petróleo nos EUA significam que, pela primeira vez na história, vendedores têm de pagar aos compradores para que estes recebam os contratos futuros. Não está claro, porém, se isso chegará aos consumidores, que geralmente observam os preços mais baixos sendo traduzidos em valores mais baixos da gasolina nas bombas.

Por:
João Batista Olivi e Carla Mendes| [email protected]
Fonte:
Notícias Agrícolas

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