Com perda de eficiência das carboxamidas, como produtores de soja podem se proteger da ferrugem asiática

Publicado em 04/04/2017 17:13 e atualizado em 11/04/2017 09:41
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Principais pesquisadores do país se reúnem em Campinas-SP para discutir a resistência da ferrugem asiática na soja

Os principais fitopatologistas do país estiveram reunidos em Campinas-SP, nestes dias 3 e 4 de abril, para discutir a resistência da ferrugem asiática. Esses pesquisadores fazem parte do Eagle Team, grupo que analisa as consequências do aumento da resistência e que busca conscientizar os produtores sobre a prevenção de doenças no campo. No dia 8 de março passado, o FRAC (Comitê de Ação à Resistência de Fungicidas) noticiou que o mais novo grupo químico utilizado para o controle da ferrugem asiática – as carboxamidas ou SDHIs – foi vencido pela ferrugem. Portanto, hoje, os patógenos já estão resistentes aos principais produtos sistêmicos.

A ferrugem asiática da soja é a doença que mais impacta a cultura atualmente, devido ao grande potencial de perdas de produtividade.

João Batista Olivi participou deste evento em Campinas e entrevistou alguns desses pesquisadores, além de ouvir empresários do setor de defensivos. Na primeira entrevista da série, a pesquisadora da Embrapa Soja, engenheira agrônoma, doutora em Fitopatologia pela Universidade de São Paulo, Cláudia Godoy faz um relato sobre os impactos da perda de eficiência das carboxamidas e como o produtor deve se adequar ao novo manejo para aprimorar o controle do fungo.

Nesta quarta -feira (05) é a vez do professor Erlei Reis , engenheiro agrônomo , Mestre em Fitopatologia , Ph.D. em Fitopatologia (Washington State University) e professor da UPF explicar como anda a eficiência dos produtos disponíveis atualmente no mercado e como o produtor pode evitar gastos com fungicidas que não terão efeito efetivo sobre a doença.

E na quinta-feira (06) , Carlos Pellicer , presidente da UPL Brasil conversa com João Batista Olivi sobre o mercado de fungicidas e faz uma crítica às empresas que insistem em manter produtos que já não funcionam mais.

 Confira a seguir a primeira entrevista com Cláudia Godoy da Embrapa :

A pesquisadora Cláudia Vieira Godoy, da Embrapa Soja, aponta que o rompimento da resistência das carboxamidas para a ferrugem asiática na soja, o que ocorreu em algumas áreas já na última safra, é bastante preocupante. Segundo Godoy, não era esperado que isso acontecesse tão rapidamente.

Essa resistência ocorreu em algumas regiões no Brasil e ainda não foi generalizado - a Região Sul contou com a maior incidência. Por isso, a pesquisadora lembra que o país continua tendo carboxamidas que estão "funcionando muito bem".

Para a safra seguinte, há uma grande dúvida. A frequência dessas mutações pode aumentar e, como o fungo se espalha fácil, isso poderá subir para a Região Central.

Ela lembra, portanto, que nem todas as carboxamidas vão ter a mesma resposta. Isso depende também do manejo realizado por cada produtor. Para isso, ela recomenda que o plantio de soja safrinha seja evitado, além do excesso de aplicações. Somado a isso, é preciso ainda a adoção de fungicidas multissítios e de rotação de fungicidas.

A informação, portanto, será um insumo fundamental para a próxima safra. Os produtores devem se informar e evitar comprar produtos com baixa eficiência e conhecer sua situação para realizar o melhor manejo. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) não pode evitar a safrinha, mas as Secretarias de Agricultura locais poderão entrar com uma conscientização para com os produtores.

Veja também a entrevista com o engenheiro agrônomo e pesquisador Erlei Reis,  e com o CEO da UPL, Carlos Pellicer, nos links abaixo:

Produtos com eficiência abaixo de 80% no controle da ferrugem na soja expõe lavouras ao risco

Sem uso de multissítios, próxima safra de soja está desprotegida da ferrugem

Por: João Batista Olivi e Izadora Pimenta
Fonte: Notícias Agrícolas

3 comentários

  • João Luiz Campana de Moraes Marcelândia - MT

    É necessário fazer o acompanhamento dos órgãos de pesquisa e a análise dos produtos frequentemente, não sei se fazem isto a Embrapa e as Universidades, se não, precisamos urgentemente criar ferramentas e meios para isso.

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    • EDMILSON JOSE ZABOTT PALOTINA - PR

      Sr.Joao Luiz , está Questão dos Instituições de pesquisa a muito tempo falam a língua das Grandes Corporações . Hoje no Canal Rural o Ministro Blairo fiz que é preciso rever a forma de Junção das Grandes da Pesquisa e Indústrias (sementes , Agroquímicos. Etc) estamos ficando nas mãos de poucos .Aqui no Paraná ( Palotina ) exemplo típico desta Máfia das Grandes . Tínhamos um Belo e Lindo Centro de Pesquisa e produção de Sementes ( Coodetec) que pertence a um grupo de Cooperativas sendo que a área de terras foi doada pelos agricultores o que ocorreu foi vendida para uma Gigante Multi a DAW . Acabaram com o centro de pesquisa que era Brasileira , Paranaense

      É assim que estão acabando com a independência e ficando dependente destas Grandes que são Estrangeiras . Quanto a Embrapa está vem sendo Pressionada pelo Governo Federal este em troca de Apoio Financeiro para campanhas . Estão acabando com sua estrutura de pesquisa , econômica e de profissionais . E para acabar proíbem este é aquele Químico sem a consulta junto ao Produtor .

      Quanto a CNA é preciso fortalecer os Sindicatos , estes mudarem as Federações e estes mudarem a Corja dá CNA , nós precisamos de uma entidade forte e seria .

      Quem vai mudar isso somos nós com nosso voto inteligente sem barganha por favores pessoais.

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    • Carlos William Nascimento Campo Mourão - PR

      Vejam só que coisa. As cooperativas, mesmo sendo sócias na Fundação Meridional que desenvolve sementes de soja, não vendem semente de soja da Embrapa. Façam o teste. Procurem nas listas de sementes á venda das cooperativas se lá tem semente BRS. Hipócritas.

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    • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

      Sr. Carlos, seus comentários têm lógica. Diante disso, faço uma analogia com referência ao FUNRURAL. Os números que o governo nos apresenta diz que há uma grande culpa no déficit da previdência por causa dos aposentados do setor agrícola. ... Tudo bem que o número de aposentados aumentou muito, mas se fizer uma análise do aumento da produção da década de 80 até os dias atuais, vai-se achar números expressivos no aumento da produção. ... A alíquota do FUNRURAL é fixa sobre a produção total, não é?... Aonde estão colocando esse dinheiro? ... Nós, os produtores rurais comuns, quando fazemos qualquer venda nas cooperativas ou cerealista, a primeira coisa que escutamos é que será descontado o FUNRURAL do total da venda. ... Se somos o Celeiro do Mundo, porque não somos capazes de gerar e gerir os recursos para os aposentados do meio rural?

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  • André campos Luis Eduardo Magalhães - BA

    Chega ser um insulto à classe agronômica ler que fungicidas são "sistêmicos". Há quantos anos observamos resistência da ferrugem (Phakopsora sp.) aos triazóis e, mesmo assim, usamos produtos com o mesmo em sua formulação? Claro, não estamos usando em misturas isoladas..., realizamos um manejo integrado para controle de doenças, rotacionamos ingredientes ativos, realizamos-se mistura dos mesmos, utilizamos multissítios..., tudo isso está dentro de um manejo. Em meu ponto de vista percebo que as carboxamidas ainda são as ferramentas mais eficientes no manejo (preventivo) da ferrugem.

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    • André campos Luis Eduardo Magalhães - BA

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    • Rodrigo Augusto Queiroz Guarapuava - PR

      Concordo com o Sr André nas carboxamidas. Ainda é a melhor alternativa, mas discordo dos ditos multissitios, nunca agregou nada.

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  • Carlos William Nascimento Campo Mourão - PR

    Um amigo visitou o Paraguai semana passada. Disse que a quantidade de soja safrinha é absurda. E que estão amarelando igual gema de ovo. Coisa linda de se ver. Tenho muita curiosidade em saber qual fungicida eles usam. Existe um trabalho da Embrapa, de uns 5 ou 6 anos atrás, que dizia que segundo estudos, a possibilidade de resistência da ferrugem da soja á mistura de fungicidas triazóis e estrubirulinas era quase nula. Hoje não podemos usar mais estes produtos. Temos que usar as carboxamidas, que são muito caras. Agora, além destas porcarias, teremos que usar os mancozebs da vida, do tempo da polvilhadeira de BHC. Mas agora eles são multi ação, e vão custar outra fortuna. Se tiver algum produtor do Paraguai lendo esta mensagem, por favor nos diga o que vocês usam para controlar ferrugem. Desconfio muito que a mistura triazol-estrubirulina da China ainda funcionam. Notaram também como condenam a soja safrinha? Quem é que paga este Eagle Team? Um monte de phd e colocam este nome?

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    • Fernando Engler Palotina - PR

      Concordo em número e grau, Sr. Carlos... Mas os produtos do Paraguai são os mesmos antigos nossos (triazóis + estrobilurinas), a diferença é a utilização quando eles atingem a ferrugem, que acontece somente quando se planta a soja em setembro e janeiro/fevereiro (no caso do PY)... A soja cresce pouco e a calda de pulverização atinge toda a planta, ao contrário das áreas onde a doença parece não ter controle, mas o problema não está nos produtos mas no porte elevado das plantas que impede a calda de pulverização de atingir a totalidade das folhas, provocando falha de controle por deficiência de aplicação e não do produto em si...

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    • Fernando Engler Palotina - PR

      E digo mais... Vamos supor que os pesquisadores estejam certos, que a ferrugem está ficando incontrolável... Aí eles estão cometendo um erro primário de querer impor medidas de erradicação à doença... Vamos fazer uma analogia ao milho BT, não precisamos deixar as áreas de refúgio para multiplicar as lagartas suscetíveis??? Então... No caso da ferrugem deveríamos partir para as mesmas recomendações: 1) Deixar os fungicidas ineficientes no mercado (área de refúgio para os esporos suscetíveis) 2) Liberar o plantio em qualquer época (a ferrugem ficaria incontrolável e os agricultes plantariam apenas nas épocas boas, mais produtivas e de menor incidência da doença); 3) Liberar a soja tiguera (área de refúgio para aumentar a quantidade de esporos suscetíveis); 4) O mais importante, quebra da patente dos produtos mais eficientes (protioconazol, picoxystrobin e benzivindiflupir) para montar misturas não disponíveis atualmente com produtos multissítio (afinal, a recomendação de mistura de tanque com produto multissítio é ilegal perante a lei de agrotóxicos)...

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    • Carlos William Nascimento Campo Mourão - PR

      Fernando, o principio ativo usado no Paraguai é o mesmo, mas o fabricante não é o mesmo do Brasil. Nosso vizinhos trazem produtos da China. Será que os produtos vendidos no Brasil tem o que prometem? Não é curioso como temos que aumentar as doses ao longo dos anos? A dose que funcionava dois anos atrás não funciona mais. Será que fazem fiscalização? Alguém já ouviu falar em lote de defensivo recolhido por irregularidade? Neste país tudo é possível. Os defensivos daqui são os mais caros do mundo.

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    • Luiz Antonio Lorenzoni Campo Novo do Parecis - MT

      Logo, um iluminado da "academia" deverá propor a solução definitiva... estender o período de vigência do vazio sanitário até 31/12...

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    • Paulo Roberto Vielmo Nova Esperança do Sul - RS

      Fernando

      Concordo com sua resposta ao Carlos, porque de fato, a eficiência dos fungicidas está diretamente ligada à qualidade da sua aplicação e no caso de soja com porte baixo, como é o caso da soja safrinha do Paraguai, isto se verifica.

      Nesta safra usei as duas primeiras aplicações com Fox, a terceira com Aproach mais Previnil e a quarta com Aproach mais Cypress e tive um bom controle da ferrugem, melhor até dos que usaram as carboxamidas.

      Já quanto a sua analogia entre lagartas e fungos, não posso concordar, uma vez que são organismos completamente diferentes e não obedecem aos mesmos princípios.

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    • Oscar Heriberto Carballo Morinigo Colonia Panambi - Raul A. Oviedo - 00

      Bom dia Carlos

      Apesar da regiao agrícolas do Paraguai é pequeno, há variações no clima e solo, especificamente a pressão de falar ferrugem é mais intenso no sul. Existem duas razões: 1) elevada percentagem de soja safrinha 2) maior humedade e elevedad gama de temperatura (quente - frio). Devemos dizer que a pressão ferrugen é alta em todo o país.

      Medidas de gestão culturais para alcançar maturacao fisiológica satisfatório: 1) o uso de variedades precoces do ciclo 2) baixa altura da planta, a densidade correcta 3) inicio cedo de semeadura 4) Medidas de prevenção de doenças com fungicidas.

      O controle químico:

      Semeaduras en epocas inicias é de 3 aplicações.

      Semeaduras en epocas finais 4 a 5 aplicações.

      Em relação à utilização de fungicidas, un bom programa de controle de doencas inclui apliación preventiva (R1) de um produto à base de carboxamida ou protioconazole em combinação com estrobilurinas. O uso de mancozeb está a aumentar. As seguintes aplicações depende da eficiência do primeiro e é baseado no monitoramento. Há uma percentagem que é repetido nos primeiros produtos ou rotar entre eles, e outras usam misturas traizol + estrobilurinas e ??podem aumentar a dose pelo baixo custo de ambos, tanto original como genérico.

      Cada vez mais observado que o controlo químico menos eficiente, e cada vez mais caros.

      Em algum tempo se tera que aumentar o período de vazio sanitário, observando que onde existem soja safrinha, há uma maior pressão.

      Essa é uma questão complexa, porque o produtor quer fazer soja safrnha, eo vendedor quer vender produtos químicos. Mas põe em risco o maior comoditie de renta, que é a soja safra.

      (desculpem o portugues, soy Paraguayo)

      Oscar Carballo - Engenheiro Agrônomo.

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    • Fernando Engler Palotina - PR

      Sr. Paulo... O princípio que propus entre ferrugem e lagartas é o mesmo... O uso excessivo de determinado produto seleciona os organismos resistentes e aumenta a porcentagem destes dentro da população, seja de lagartas ou de ferrugem; em algumas gerações (e são várias por ano agrícola) a participação dos resistentes aumenta consideravelmente dentro da população total... Desta forma, as medidas propostas em larga escala no Brasil estão aumentando a pressão de seleção de ferrugem resistente, o que é um erro estratégico, precisamos de áreas de refúgio para multiplicar a ferrugem suscetível...

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    • Adamastor Silverino Pinho Formosa do Oeste - PR

      Fernando e colegas. A preocupação de todos com esta questão é algo muito bom e uma pena que nem todos os produtores compactuem deste mesmo sentimento. Porém devo dizer que as práticas sugeridas aqui, como por exemplo refúgio de esporos, é uma barbárie agronômica. Não existe respaldo nenhum a não ser o achismo para tal argumento e, caso esta seja a postura a ser adotada para a nossa agricultura, sinto muito, mas a perda da eficiência das moléculas será o nosso menor problema. O princípio da mutação sugerido na ideia é correto, porém a forma de manejar o desenvolvimento da resistência não é o mesmo. Esporos não são insetos, a disseminação não é a mesma, o mecanismo e a taxa (esporos) de reprodução dos patógenos é extremamente altíssima e mais rápida quando comparada com as pragas. No que vejo a campo não há necessidade de novas moléculas, o que é necessário é o uso correto do que se tem disponível e convenhamos, quem faz uso de carboxamidas para controle de fungos necrotróficos não sabe para que serve cada molécula e essa postura precisa acabar.

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    • Fernando Engler Palotina - PR

      Sr. Adamastor, leia lá onde está escrito "vamos supor que os pesquisadores estejam certos..."... não acredito nesta balela de perda de eficiência dos fungicidas, até porque não uso os mais modernos e a ferrugem nunca apareceu!!! Mas a questão do refúgio que brinquei continua valendo caso os "pesquisadores estiverem corretos", e também naquilo que você descreveu, sobre a disseminação e a taxa de reprodução dos esporos de fungos, pois é, quanto maior a disseminação e a reprodução mais rápido é o surgimento dos resistentes e mais longe será a distribuição destes patógenos resistentes, o que exige muito mais área de refúgio para que a quantidade de esporos resistentes seja mínima na população final do fungo, o que garante a vida dos fungicidas (novamente se os pesquisadores estiverem certos e não estão)... Mas entendo a preocupação quanto ao refúgio, algumas regiões plantam em épocas bastante propícias ao desenvolvimento da doença, e quando temos áreas de refúgio elas serão constantemente abastecidas com novos esporos, porém, vamos lembrar, quando a cultura é manejada corretamente, com porte baixo e com proteção das camadas de folhas adequadamente, não será problema...

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    • Adamastor Silverino Pinho Formosa do Oeste - PR

      Fernando, obrigado por clarificar seu ponto de vista. Concordo em partes com seu ponto de vista. Fico na dúvida sobre muitos dados de perda de eficiência das moléculas, uma vez que a metodologia é três ou quatro aplicação do mesmo princípio, porém este é o método. Ainda mantenho a opinião de que o manejo com estas moléculas é mau feito em grande maioria, prova disso é sim o fato de termos fungicidas com performance muito baixa comprovada, como alguns benzimidazóis. Fato que podemos agravar pela pressão que algumas empresas fazem em usar seus produtos de maneira repetitiva no ciclo da cultura, sendo uma pressão comercial e não técnica.A questão do refúgio eu acabei por não entender se você defende ou não, mas acredito que no último recado você diz não. No mais, protegendo plantas com aplicações preventivas desde o fechamento da entre-linha já é um avanço e continuando com a rotação e uso adequado dos ativos disponíveis, não precisaremos de moléculas milagrosas novas para o controle.

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    • Carlos William Nascimento Campo Mourão - PR

      Obrigado pela sua resposta Oscar Heriberto.

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