Mercado de Açúcar: Tom baixista e números altistas

Publicado em 30/03/2012 20:19 655 exibições
Comentário Semanal – de 26 a 30 de março de 2012. Por Arnaldo Luiz Corrêa
O mercado de açúcar fechou a semana com uma queda acumulada de 92 pontos no vencimento maio/2012, que encerrou o pregão de sexta-feira cotado a 24,71 centavos de dólar por libra-peso. Março foi um mês de queda com todos os meses listados fechando no vermelho. Na semana, os fundos supostamente liquidaram parte de suas posições compradas e foram para a casa lambendo suas feridas, já que o preço de entrada foi acima da liquidação. Isso acontece. No mês, das commodities agrícolas apenas a soja (farelo e grãos) e o algodão fecharam com sinal positivo.

Aumentou a pressão sobre o julho e outubro, vencimentos que o mercado entende serão mais afetados. Com o possível atraso no início da moagem no Centro-Sul, julho e outubro terão mais açúcar disponível e os hedges se concentrarão nesses dois meses, assim os spreads estão sinalizando essa tendência.

Mesmo com a perspectiva de safra bem menor do que o mercado previra, ainda assim muitos traders estão definitivamente baixistas. Mesmo que haja redução de disponibilidade de açúcar do Brasil, os mais negativos acham que essa falta de açúcar não será sentida pelo mercado, já que a Tailândia revisou sua safra para acima de 100 milhões de toneladas, que a Índia vai produzir 26.5 milhões de toneladas, que o Paquistão vai exportar 500.000 toneladas, que a Europa vai exportar 1,5 milhão de toneladas, etc. Estou começando a acreditar piamente nas profecias Maias que dizem que o mundo acaba em 21 de dezembro.

Aos 45 minutos do segundo tempo as distribuidoras fecharam contratos de fornecimento de anidro com as usinas (com base nos 90% do volume que cada uma negociou em 2011) a serem precificados com prêmio médio de 13% acima do valor do índice ESALQ para hidratado.

Demonstrando que vivem em outro planeta, o Banco Central do Brasil disse na terça-feira passada que “não há necessidade de aumento da gasolina porque hoje no Brasil ela já está 50% acima do mercado internacional”. O que o BC “esqueceu” de explicar à opinião pública é que o preço ao consumidor é bem acima do mercado internacional em função da enorme carga tributária que existe sobre os combustíveis. Considerando todos os impostos, frete e margens da distribuidora e da revenda, a gasolina mesmo é apenas 45% do valor que se paga na bomba. Gasolina devidamente subsidiada pelo produtor de cana de um lado ou gasolina importada muito mais cara que o etanol que está sendo substituído à custa do dinheiro do contribuinte, do outro. Em tempo: na terça-feira passada comemorou-se o Dia do Palhaço.

Marcos Jank pediu demissão da presidência da UNICA. É indubitável o quanto a cara do setor mudou desde que ele assumiu o posto há cinco anos, ganhando visibilidade e imprimindo uma abordagem moderna e dinâmica, resultando em avanços significativos nas áreas ambiental e regulatória, apenas para mencionar duas.

É surpreendentemente baixo o volume de fixações feito no mercado usando NDF de açúcar. NDF é a sigla de Non-Deliverable Forward, ou no popular, um contrato a termo de fixação de preço de açúcar na Bolsa de NY, liquidado financeiramente. Esse instrumento permite à usina fixar sua produção na bolsa de NY junto a um banco que ofereça esse produto e, no momento em que a usina efetivar a negociação física do açúcar, o banco transfere, a seu pedido, a posição hedgeada de futuros correspondente tomada pela usina para a trading ou o comprador do açúcar. A principal vantagem desse instrumento é que, em troca de alguns pontos cobrados pelos bancos sobre a fixação realizada, a usina não precisa se preocupar com as variações negativas de preços que resultam em chamadas de margem por parte da bolsa, nem com o pagamento de corretagem, devida em operações desse tipo. O custo é pequeno se aplicarmos o teste de estresse que assume variações de mercado seguidas de chamadas de margem, que machucam o fluxo de caixa já apertado das usinas. Segundo estimativas do mercado, apenas 3% do total de exportações brasileiras de açúcar se utilizam dessa modalidade. Por que será? Será que o trader acha mais glamoroso ele mesmo fazer as operações?

A terceira estimativa da Archer Consulting para a safra 2012/2013 do Centro-Sul aponta uma produção de 512 milhões de toneladas divididos em 32,47 milhões de toneladas de açúcar e 21,4 bilhões de litros de etanol. O número continua apertado para o açúcar. O consumo do Brasil é de 12,4 milhões de toneladas e as exportações podem chegar a 24,5 milhões de toneladas, praticamente a produção total do país.

O custo de produção do anidro e do hidratado, de acordo com o modelo desenvolvido pela Archer Consulting, é de R$ 1,1830 e 1,1357, por litro na usina, respectivamente. Comparando com o fechamento da BM&F Bovespa, o hidratado apresenta uma rentabilidade média de 0,84% comparada ao custo de produção para o segundo trimestre de vencimento de 2012.

Bons negócios e um excelente final de semana para todos.

Arnaldo Luiz Corrêa

 

Fonte:
Archer Consulting

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