MERCADO DO AÇÚCAR: O rei está nu

Publicado em 31/10/2011 06:51 477 exibições
Comentário Semanal – de 24 a 28 de outubro de 2011. Por Arnaldo Luiz Corrêa.
Continuando a saga num-dia-somos-felizes-noutro-miseráveis, após acordo sobre a dívida da Grécia na Europa, as commodities se valorizaram e o dólar recuou. O mercado de açúcar em NY fechou a semana com pequena baixa nos primeiros dois vencimentos de 33 pontos e 18 pontos no março/2012 e maio/2012, respectivamente, a 26,15 e 25,49 centavos de dólar por libra-peso. Nos meses mais distantes as altas ficaram entre um e 12 dólares por tonelada. Ou seja, já não se está tão pessimista em relação aos preços lá na frente. Um executivo do setor disse que há muito tempo o Centro Sul não vai experimentar uma entressafra tão longa. Todo mundo sabe que todo mundo sabe o que acontece em commodities quando temos um longo período de entressafra, com muitas incertezas sobre a mesa. Cautela.

O Rabobank apresentou suas tão esperadas perspectivas para o setor em Seminário disputadíssimo no começo da semana. No estilo que todos apreciam, o banco foi curto e direto ao ponto para uma plateia que contava com as principais lideranças do setor. Como destaque, o banco acredita que em 2012/2013 o mercado de etanol continuará apertado e deverá dar suporte aos preços do açúcar, num intervalo de preços entre 22 e 28 centavos de dólar por libra-peso, não se esquecendo de considerar o câmbio.

O acumulado de exportação de açúcar pelo Brasil neste ano, até setembro, é de 18 milhões de toneladas de açúcar e 1,264 bilhão de litros de etanol. Em doze meses, o acumulado é de 26,6 milhões de toneladas e 1,836 bilhão de litros.

Conforme amplamente divulgado pela imprensa, a estatal brasileira do petróleo teme não ter dinheiro suficiente para seguir com os projetos do pré-sal e pede reforço de caixa ao governo, por meio da redução da CIDE, imposto pago sobre a comercialização de combustíveis. Evidentemente, com a valorização do dólar e o aumento do petróleo no mercado internacional vis-à-vis o preço da gasolina que está congelado no Brasil desde setembro de 2005, não existe empresa que consiga planejar um orçamento sob um ambiente com tamanho artificialismo e falta de transparência. Não bastassem, os burocratas do ministério da energia (com letra minúscula mesmo) inventaram de reduzir a mistura de etanol na quantidade de gasolina como represália velada ao setor pelo aumento do preço do anidro. Espécie de “presta atenção” combinado com “puxão de orelha” de gente que não sabe o que é a lei da oferta e procura. Resultado: a estatal se viu obrigada a diminuir da mistura um produto que custa menos do que a gasolina, tendo que vender o combustível resultante da mistura pelo mesmo preço. Para compensar a quantidade menor de anidro que misturava, tinha que comprar gasolina mais cara lá fora e vender mais barato aqui dentro. E o minoritário que reclame para o Bispo.

Esse imbróglio não tem solução de curto prazo. O preço da gasolina é um preço político e o pensamento do governo, com os anacronismos que lhes são peculiares, coloca em risco o setor sucroalcooleiro. Já dissemos aqui por diversas vezes, que do G-20 (grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia) apenas o Brasil, a Índia e a China controlam o preço da gasolina. Aqui é pior, porque aqui se congela para efeitos fiscais.

A desculpa que se dá é que no passado, quando o petróleo atingiu US$ 145 o barril em julho de 2008, no velho estilo de cumprimentar com o chapéu alheio, dilapidando o patrimônio dos acionistas, o governo manteve o preço interno da gasolina inalterado. Indiretamente, com o preço interno da gasolina artificialmente baixo, o governo abortou o crescimento do setor sucroalcooleiro naquele momento. Fossem livres os preços dos combustíveis, o setor ganharia imensa competitividade no etanol, transparência para o investidor que considerava sua entrada na indústria e crescimento sustentado com um mercado consumidor crescente. Isso sem mencionar que tirando o entrave de mercado controlado, o etanol poderia então surgir finalmente como commodity na acepção da palavra.

Perceba que toda essa situação caótica se dissiparia caso tivéssemos um mercado livre. Ninguém acredita que esse quadro possa se reverter, pelo menos não enquanto as cabeças que tomam decisões continuarem povoadas de vento. As consequências dessa política errada podem transformar o setor em simples fornecedor residual de etanol, fincando uma estaca no coração do mercado de hidratado. Como a mídia, de uma forma geral, desconhece as raízes do problema, vai ser mais fácil jogar a culpa nos usineiros.

O setor precisa mudar sua abordagem. Ser mais agressivo na defesa de seus interesses. Quem sabe colocando o produtor de cana à frente dessa indignação. “Você não faz ideia do que é sentar-se à mesa de reunião com esses burocratas do governo”, desabafa um líder do setor. A questão é que, como disse um executivo, “é difícil encontrar consenso entre nós mesmos”. Tomando emprestada a frase de um conto de Andersen, o fato é que o Rei (governo e sua estatal) está nu, mas ninguém tem coragem de dizer para ele.

Quando assumiu a presidência em 1989, George Bush Pai saiu-se com essa pérola: “Assim como a Polônia teve uma rebelião contra o totalitarismo, eu estou me rebelando agora contra os brócolis. Agora sou presidente dos Estados Unidos e nunca mais irei comer brócolis”. Isso gerou uma queda acentuada nas vendas do produto em todo o país gerando muitos protestos dos agricultores, que despejaram toneladas da verdura em frente à Casa Branca. Deveríamos seguir o exemplo e levar algumas dezenas de treminhões carregados de cana e despejá-la em frente ao Alvorada.

O Modelo desenvolvido pela Archer Consulting que estima as fixações de preço contra NY para a safra 2012/2013 aponta um volume entre 5,3 e 6,7 milhões de toneladas fixadas ao preço médio de 25,62 centavos de dólar por libra-peso. No ano passado, esse número estava entre 4,7 e 5,8 milhões de toneladas com preço médio de 21,85 centavos de dólar por libra-peso.

Fonte:
Archer Consulting

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