Dívida Rural: O banco está matando a vaquinha leiteira

Publicado em 13/02/2026 17:54
Juliano Quelho. Advogado do Agro. Especialista em Direito Político e Econômico do agronegócio. Autor de livros e artigos sobre o tema. Fundador do escritório Juliano Quelho Advogados e da marca Advogado do Agro

Vivemos uma confusão que não faz sentido. De um lado, a as noticiais mostram colheitas recordes e o Agro salvando o país. Do outro, vemos produtores desesperados, perdendo o sono com dívidas e pedidos de recuperação judicial. Como pode o setor que mais produz estar tão quebrado?

A resposta conveniente das instituições financeiras é a de que o "risco aumentou", o que justificaria o endurecimento das garantias, a elevação dos juros e um rigor quase punitivo na concessão de novos créditos. No entanto, de acordo com o economista Hyman Minsky, a realidade é inversa: o custo elevado e a fragilidade do produtor não são a causa do rigor bancário, mas o efeito de uma estratégia predatória dos próprios bancos. É o que podemos chamar de um "tiro no pé" institucionalizado.

Muita gente ainda acredita que o banco só empresta o dinheiro dele ou que alguém guardou no cofre. Será? Minsky provava que os bancos criam dinheiro do nada. Quando você assina um contrato, o banco não retira cédulas de dinheiro papel de uma reserva; ele apenas digita os números na sua conta. Ele cria a moeda através de um lançamento contábil no estalo de um dedo - e depois a destrói quando o empréstimo é pago com juros.

Pior: o banco opera sob uma "hipoteca social". O dinheiro que ele movimenta vem da confiança da sociedade e dos depósitos dos cidadãos (clientes). Ele tem permissão do Estado para lucrar sobre dinheiro alheio. Ele tem o dever ético de fazer esse recurso circular para o bem da produção, mas prefere transformar o crédito em uma armadilha de dívida infinita – o que Minsky chamava de "Modo Ponzi", onde o produtor trabalha apenas para pagar os juros da dívida anterior, sem nunca conseguir quitar o que deve até chegar num colapso onde não consegue mais pagar o capital e nem os juros.

Plantar é uma "fábrica sem teto". Quando a safra quebra, a lei é clara: o produtor tem direito ao alongamento da dívida, mantendo os juros baixos e o prazo adequado. Mas o banco ignora a lei. Em vez de ajudar, ele força o produtor a fazer uma "rolagem", matando a dívida velha e criando uma nova, muito mais cara e mais pesada.

Nesse rolo, eles ainda entubam seguros inúteis e taxas escondidas (as famosas vendas casadas). O banco não põe a mão no bolso para comprar a semente, não corre o risco do sol e da chuva, mas quer ser o dono da colheita e da terra. Ao sufocar o produtor para bater metas de lucro, o sistema financeiro destrói seu próprio cliente.

Os bancos precisam assumir a responsabilidade. Eles lidam com um recurso que tem função social. Como se celebra na missa, o pão e o vinho são "frutos da terra e do trabalho humano". O dinheiro deveria ser apenas a ferramenta para que esse milagre aconteça - mesmo com juros justos.

O crédito rural deve ser irrigação, não uma corda no pescoço. Já passou da hora de parar de usar o dinheiro da sociedade para destruir quem realmente produz a riqueza do Brasil.

No campo, todo mundo conhece uma lei sagrada: quem planta, colhe. Não há como fugir dessa conta. Por anos, o sistema bancário plantou juros abusivos e semeou uma dívida que o produtor não consegue mais carregar. Agora, ao verem o aumento das Recuperações Judiciais, os banqueiros tentam culpar a "natureza", o Estado, o produtor. Menos eles mesmos.

Mas a verdade é que os bancos estão colhendo a tempestade que eles mesmos ajudaram a formar. Ao trocar a parceria pela exploração, o banco envenenou sua própria terra. Agora, não adianta reclamar da safra de prejuízos: no balanço final da vida e da economia, quem planta armadilhas financeiras, colhe inadimplência. O agro é perseverante, mas até a terra mais fértil morre se for sufocada.

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Fonte:
Juliano Quelho Advogados

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