Queda do açúcar nas bolsas pressiona usinas e reforça tendência de safra mais voltada ao etanol
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O mercado internacional de açúcar segue pressionado por sucessivas quedas nas bolsas, com cotações próximas dos menores níveis recentes, o que acende um sinal de alerta entre agentes do setor sucroenergético. Em Nova Iorque, o contrato do açúcar bruto chegou a ser negociado a 13,82 cents por libra-peso, patamar que preocupa especialmente as usinas em um momento estratégico da safra.
De acordo com o consultor da StoneX, Marcelo Di Bonifácio Filho, mesmo com uma safra 2026/27 mais direcionada ao etanol, a perspectiva de aumento na oferta de cana-de-açúcar contribui para a pressão sobre os preços. A consultoria projeta uma moagem em torno de 620 milhões de toneladas no Centro-Sul do Brasil, impulsionada pelas boas condições climáticas registradas no primeiro trimestre.
“É uma safra que deve contar com bastante produto. As usinas acabam entrando com uma pressão vendedora, mesmo diante de um mix mais etanoleiro”, afirmou o especialista em entrevista ao Notícias Agrícolas.
Pressão vendedora
No mercado futuro, os dados da ICE de Nova Iorque indicam cerca de 324 mil contratos em aberto para julho, com volume negociado de 47.586 contratos. Segundo o consultor, o comportamento dos fundos de investimento também influenciou a dinâmica recente de preços.
No início do ano, os fundos mantinham uma posição vendida superior a 240 mil contratos. No entanto, diante das incertezas geopolíticas, especialmente relacionadas aos conflitos no Oriente Médio, houve uma redução significativa dessas posições, hoje próximas de 100 mil contratos vendidos.
Essa liquidação limitou movimentos de alta mais expressivos, que historicamente poderiam ocorrer em cenários semelhantes. Ao mesmo tempo, a atuação vendedora de grandes produtores, como Brasil e Tailândia, ajudou a amortecer os preços no mercado internacional.
“Vamos entender os impactos dessa guerra a médio prazo. Há ataques em usinas e refinarias e pontos produtores no Oriente Médio, interrupção de fluxos também. O fato é que temos observado um descolamento entre diversos fatores e lados no mercado. No geral as notícias não são muito positivas para a oferta energética, seja para o petróleo ou gás natural. Para o açúcar vai afetar o custo de produção pelo mundo inteiro que sobe com o crescimento do Brent”, completou
Safra mais alcooleira e volatilidade energética
A tendência de uma safra mais voltada ao etanol ganha força em meio à volatilidade do mercado de energia. O preço do petróleo e as tensões geopolíticas, especialmente no Oriente Médio, seguem como fatores-chave para o setor.
Segundo o consultor, episódios recentes têm provocado um “descolamento” entre variáveis tradicionalmente correlacionadas, como açúcar e petróleo. Apesar de, em março, os preços terem caminhado de forma semelhante, essa relação perdeu força nas últimas semanas.
Além disso, os desdobramentos do conflito na região incluindo riscos à infraestrutura energética e interrupções logísticas trazem incertezas para o médio prazo. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, é um dos fatores que elevam a preocupação com a oferta global de energia.
Nesse contexto, o aumento dos custos energéticos tende a impactar diretamente a produção de açúcar ao redor do mundo.
Dólar mais baixo reduz receitas
Outro ponto de atenção para o setor é o comportamento do câmbio. O dólar comercial voltou a operar abaixo de R$ 5, menor nível em cerca de dois anos, o que reduz a competitividade das exportações brasileiras e pressiona as margens das usinas.
“Para o açúcar, que já enfrenta preços em queda, um dólar mais baixo diminui ainda mais a receita das usinas. Isso tem impacto direto nas decisões estratégicas e comerciais”, explicou Di Bonifácio Filho.
Diante desse cenário, a tendência é de maior cautela nas negociações, com usinas adotando uma postura mais flexível. A fixação de preços pode avançar de forma mais lenta, com produtores optando por postergar vendas à espera de melhores oportunidades ao longo do ano.
Fatores climáticos também seguem no radar, como a possibilidade de influência do El Niño no segundo semestre, o que pode alterar o equilíbrio entre oferta e demanda e trazer novos movimentos para o mercado.
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