No ESTADÃO: Déficit em conta corrente evidencia piora do balanço de pagamentos

Publicado em 25/05/2014 19:07 661 exibições
Sinal de aumento da vulnerabilidade externa do País.

Em abril, o balanço de pagamentos registrou um déficit na conta corrente - a medida mais importante de avaliação - de quase US$ 8,3 bilhões, ligeiramente superior ao de abril de 2013. Acumulou um desequilíbrio de US$ 33,4 bilhões no primeiro quadrimestre, maior em US$ 537 milhões que o de igual período de 2013. Seria uma alta insignificante, não fosse o fato de que a conta corrente já teve déficit de 3,65% do PIB ou US$ 81 bilhões, em 2013, e que esse déficit em 12 meses chegou agora a US$ 81,6 bilhões, num sinal de aumento da vulnerabilidade externa do País.

Para que o resultado global do balanço de pagamentos continuasse positivo em US$ 6,5 bilhões, entre janeiro e abril, ante quase US$ 7 bilhões, no mesmo período de 2013, o País dependeu mais do investimento direto externo (IDE), que passou de US$ 16,3 bilhões para US$ 18,6 bilhões, e dos investimentos em carteira, que cresceram US$ 7,1 bilhões. Em abril, US$ 3,7 bilhões ingressaram em títulos de renda fixa, ante apenas US$ 0,8 bilhão, em abril do ano passado.

Entre os itens deficitários está o das viagens internacionais, com saldo negativo de quase US$ 1,8 bilhão, em abril, e de US$ 5,9 bilhões, no quadrimestre, superiores aos de 2013. A desaceleração econômica pouco afetou, até agora, o turismo internacional, seja pelo interesse dos brasileiros na compra de bens de consumo a preços competitivos, seja porque arrefeceu a alta do dólar. Falta saber se a Copa do Mundo ajudará as contas em junho e julho, com os gastos de turistas estrangeiros. Mas será um fato episódico.

Outro fato episódico é o ingresso de US$ 6,7 bilhões para investimento em ações, em abril, que em parte "representa registro contábil referente à reorganização societária de uma empresa do setor de telecomunicações", notou o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel. A empresa é a Oi. Maciel admitiu que haverá em contrapartida aumento do investimento brasileiro no exterior.

O IDE atingiu US$ 5,2 bilhões, em abril, e US$ 64,5 bilhões, em 12 meses. Desde 2013 o IDE não compensa o déficit corrente. Uma abertura maior ao capital externo ajudaria a recuperar a infraestrutura, que exige investimentos de 4% a 4,5% do PIB anualmente, por 20 anos, para ser recuperada, estima o consultor Cláudio Frischtak. Investir em infraestrutura tornaria a exportação brasileira mais competitiva, dando alento à balança comercial - o ponto mais fraco das contas externas.

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Taxa de investimento pode ficar abaixo de 18% do PIB

por MÁRCIA DE CHIARA - O Estado de S.Paulo

O pouco ânimo dos empresários da indústria para fazer investimentos destinados à ampliação da capacidade de produção deve provocar neste ano um recuo no indicador que mede a relação entre investimento total da economia em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Em 2013, o investimento representou 18,4% do PIB e foi ligeiramente maior do que no ano anterior (18,2%).

Levando em conta pesquisa sobre os planos das empresas, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) projeta que o investimento em relação ao PIB encerre o ano em 17,9%. "Essa estimativa aponta que o investimento neste ano será menor do que em 2013 e muito abaixo da projeção do Plano Brasil Maior, que esperava que o investimento chegaria a 22,4% do PIB em 2014", afirma José Ricardo Roriz Coelho, diretor de Fiesp e responsável pela pesquisa sobre intenção de investimentos. Lançado pelo governo federal no segundo semestre de 2011, o Plano Brasil Maior é um conjunto de medidas para estimular a produção da indústria brasileira.

A projeção da Fiesp é, de certa forma, compartilhada pela economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. "Antes eu projetava que a relação entre investimento e PIB seria mantida em 18,4% este ano. Agora, certamente ficará abaixo disso."

Alessandra não fechou a nova projeção para o indicador, mas mudou radicalmente a sua análise, depois de conhecer os números da economia do primeiro trimestre. Antes, ela esperava crescimento do investimento de 2% para este ano. Agora aposta numa queda entre 1,5% e 2%. "As notícias não são muito boas nessa seara", diz. O que mais pesa no resultado do indicador é o desempenho da indústria, que responde por 55% do investimento total.

O resultado dos fabricantes de máquinas é um indicador da tendência dos investimentos. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas, o consumo aparente de máquinas - produção nacional somada à importação e descontada a exportação - caiu 14% no primeiro trimestre em comparação a igual período de 2013. "A queda do consumo, tanto nacional quanto de importados, confirma a redução de investimentos produtivos no Brasil", ressalta o relatório da entidade.

Na avaliação de Alessandra, o segundo ponto que indica o recuo do investimento é o desempenho mais fraco do setor imobiliário neste começo de ano. A construção civil, residencial e de obras públicas, pesa 45% no investimento. A economista lembra que o enfraquecimento do mercado de trabalho, a queda da confiança do consumidor e o menor crescimento da renda do trabalhador esfriaram a construção civil residencial. "Além disso, estávamos esperando um impulso maior das obras por conta da Copa, o que não se concretizou."

Outro ponto lembrado por Alessandra que indica a baixa disposição do empresário para investir é que as consultas das companhias para tomar crédito no BNDES têm recuado nos últimos meses. "Tomar crédito para quê, num ambiente no qual a atividade cresce pouquíssimo?", pergunta a economista.

Confiança. Para o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), Aloisio Campelo, os índices de confiança dos empresários da indústria, do comércio e do setor de serviços e da construção civil são um bom termômetro de como a iniciativa privada avalia o momento e faz planos para o seu negócio.

Segundo o economista, em abril houve um baque na confiança dos empresários. De 72 segmentos pesquisados, a confiança dos empresários recuou sobre março em 77% dos segmentos. Esse é o maior grau de difusão de queda da confiança desde abril de 2010. "A queda na confiança está bem espalhada e essa expectativa negativa não combina com investimento", alerta Campelo.

Para este ano, Campelo diz que o País ficará estagnado em termos de investimento. "A piora vem sendo sinalizada desde o fim de 2013, com a deterioração das expectativas."

A classe C, do paraíso ao inferno

por *Gaudêncio Torquato - O Estado de S.Paulo

Mais uma pista a indicar o andar da carruagem. Parcela da população brasileira é arrastada para cima e para baixo da pirâmide social pelas ondas de marés enchentes e marés vazantes. A primeira carrega as pessoas da classe C, a chamada nova classe média, para um passeio pelos territórios do grupo B, às vezes com direito a uma escapulida (rápida) ao topo, onde habita a categoria A. Quem propicia a subida é grana extra. A segunda empurra o contingente para as águas do fundo. Isso se dá quando a renda das famílias fica apenas no parco rendimento de aposentadoria, pensão ou bolsas, sem os ganhos com bicos e atividades paralelas. No sufoco do bolso apertado, quem foi induzido a consumir e se vê sem condição de ressarcir despesas passa a usar de maneira indiscriminada cartões de crédito e a resvalar pela inadimplência.

Tal radiografia, flagrada por pesquisa encomendada pelo Consultative Group to Assist the Poor, organismo ligado ao Banco Mundial, e exposta neste jornal (18/5), pode explicar fenômenos que estão a ocorrer no País a partir de manifestações de movimentos organizados e categorias profissionais.

Ponderável parcela da classe média que muda de condição, muitas vezes de um mês para outro, acaba ingressando no perigoso meio-fio da instabilidade, tornando-se ela própria um dos eixos a mover a engrenagem da insatisfação social. A expressão desolada de um microempreendedor sobre seus ganhos mensais arremata a situação que abriga milhões de brasileiros: "Ganho algo entre nada e R$ 5 mil; não dá para adivinhar quando e quanto vai entrar".

A insegurança que grassa por classes, espaços, setores e profissões tem-se avolumado nos últimos meses, apesar de a taxa de desemprego se manter estável (em torno de 5% em março nas cinco maiores regiões metropolitanas). A questão é a baixa qualidade do emprego, que leva muitos a buscar outros meios de sobrevivência. Ademais, o cobertor social tem sido curto para cobrir novas demandas. A precária estrutura de serviços não tem recebido do Estado alavancagem para oferecer bom atendimento ao povo. Portanto, por causa do estranho fenômeno que aqui se forma - uma classe C mutante que tateia na escuridão entre as portas do céu e do inferno, passando pelo limbo - as pessoas decidiram abrir a locução sob propícia temperatura ambiental.

As políticas sociais do governo, é oportuno lembrar, abriram buracos. A decisão de implantar gigantesco programa de distribuição de renda - elogiável, porquanto se vive, hoje, o menor nível de desigualdade de nossa História - não tem sido acompanhada de uma política educacional estruturante, capaz de elevar o grau civilizatório de milhões de pessoas que ascenderam na vida. Basta avaliar a estratégia de indução ao consumo, adotada pelo governo brasileiro para enfrentar a crise por que passaram as economias mundiais, a partir de 2008. Ouçam-se especialistas, dentre eles Celso Amâncio, ex-diretor da Casas Bahia (Estado, 18/5): "O governo incentivou o consumo, mas crédito é uma coisa e poder de compra é outro". Quer dizer, o banco até oferece crédito, mas os novos consumidores não dispõem de educação financeira. Acabam usando e abusando de cartões de crédito, um pagando o outro.

O governo forjou, de um lado, o populismo econômico para abrir as portas do consumo aos grupos emergentes, mas, por outro, deixou de lhes oferecer ferramentas (e valores) que balizam comportamentos da classe média tradicional. A cesta de compra dos emergentes inchou: TV por assinatura, internet, plano de saúde, escola privada para os filhos, moto ou carro novo. A ignorância em matéria financeira acabou estourando o bolso de tantos quantos achavam ter encontrado o Eldorado.

Sob essa engenharia se pode compreender o movimento das "placas tectônicas" que causam sismos nas camadas do centro da pirâmide. Como se recorda, o losango tem sido apresentado como o formato do novo Brasil: de topo mais espaçado, alargamento do meio e estreitamento da base. Acontece que o saracoteio da classe C - que ora dança na pista do meio, ora na de baixo - não permite apostar na substituição definitiva da pirâmide pelo losango. O que se vê na configuração é um redemoinho nas camadas centrais, a denotar insatisfação e impactos que afetam a vida de milhões, principalmente os habitantes de grandes cidades, cuja rotina sofre com congestionamentos, mobilizações, greves e paralisações de frentes de serviços públicos.

É verdade que parte considerável da tensão urbana se deve ao momento especial do País: vésperas de Copa do Mundo e de campanha eleitoral. A estratégia de sensibilização do poder e de atores políticos ganha fôlego. Mas é inegável que há uma força centrípeta em ação, aqui mais forte e organizada, ali mais tênue e dispersa, dando a impressão de que o gigante "deitado eternamente em berço esplêndido" faz parte da retórica do passado. A dissonância forma-se em nossa mente quando somos levados a cantar (sem interpretar os versos) nosso belo Hino Nacional.

Remanesce a questão: para onde as altas e baixas marés carregarão a classe C (que soma 64 milhões de pessoas) e, ainda, que consequências serão sentidas em outros conjuntos? A hipótese mais provável é que, a continuar o vaivém dos grupos emergentes, os sismos continuarão a balançar o losango e este voltará a dar lugar à velha pirâmide. As conquistas obtidas com os avanços dos programas de distribuição de renda estariam comprometidas. Reflexos (pressões, contrapressões, conflitos, demandas) aparecerão na malha de toda a classe média (cerca de 100 milhões de brasileiros). As marolas geradas por impactos no meio da lagoa acabarão chegando às margens.

Em suma, enquanto as famílias de classe média se mantiverem "enforcadas", o nó apertará o gogó de outros habitantes da pirâmide. O Brasil terá de voltar a crescer, de maneira forte e sadia, sem usar o esparadrapo de paliativos sociais.

* JORNALISTA, PROFESSOR TITULAR DA USP, É CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO [email protected]

NA FOLHA: 

Peso de dívidas das famílias cresce, e consumo deve cair

A combinação entre elevação da taxa de juros, expansão mais moderada dos prazos de empréstimos e aumentos menores dos salários fará com que a parcela da renda das famílias comprometida com encargos de dívidas suba para nível recorde.

Essa tendência deverá contribuir para frear ainda mais a expansão do consumo das famílias, que já vem perdendo ritmo. A projeção é do banco Credit Suisse.

"A taxa básica de juros está subindo e o aumento da renda disponível é o menor em muitos anos", diz Nilson Teixeira, economista-chefe do Credit Suisse.

A instituição espera que que a fatia dos rendimentos destinada a pagamento de juros e amortizações –que já vem subindo– salte de 21,9% em fevereiro para 23% no fim de 2014 e siga em trajetória ascendente até atingir 23,7% em dezembro de 2015.

Até agora, o percentual mais alto já registrado no país foi 23% em janeiro de 2012.

Apesar do ciclo de alta da Selic (taxa básica de juros) a partir de abril de 2013, a fatia da renda disponível das famílias atada a pagamento de encargos de dívidas recuou entre o fim de 2012 e de 2013.

Juros ao consumidor registram alta pelo 11º mês seguido, diz Anefac

As consecutivas altas no juro básico (Selic) têm se refletido em aumento nas taxas médias cobradas do consumidor, de acordo com pesquisa da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) divulgada nesta quinta-feira (15).

Os juros médios para pessoa física passaram de 5,86% ao mês em março para 5,96% mensais em abril, no que continua sendo o maior patamar registrado desde agosto de 2012.

Segundo Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor de pesquisas e estudos econômicos da Anefac, a nova alta é resultado da última elevação da Selic, no final de fevereiro, e também do aumento de risco de crédito devido ao cenário do país, marcado por inflação persistente e desaceleração econômica.

"Esses fatos têm levado as instituições financeiras a elevarem suas taxas de juros acima das elevações da Selic", afirma Oliveira.

Para ele, as pressões inflacionárias e o fato de o IPCA estar distante do centro da meta estabelecida pelo Banco Central –em abril, o acumulado em 12 meses do índice, a inflação oficial, somou 6,28%, enquanto o a meta é 4,5%, com dois pontos percentuais de margem– reforçam a perspectiva de uma nova alta da Selic na reunião dos dias 27 e 28 de maio.

Entre as seis linhas pesquisadas pela associação, o cartão de crédito foi a que obteve o maior avanço, após sua taxa mensal passar de 10,08% em março para 10,52% no mês passado. As cinco restantes –juros no comércio, cheque especial, financiamento de veículos, empréstimo pessoal em bancos e empréstimo pessoal em financeiras– também registraram alta.

TAXA DE JUROS PARA PESSOA FÍSICA EM ABRIL

Linha de crédito Taxa em março de 2014, ao mês Taxa em abril de 2014, ao mês
Juros no comércio 4,56% 4,58%
Cartão de crédito 10,08% 10,52%
Cheque especial 8,16% 8,18%
CDC -bancos- financiamento de automóveis 1,77% 1,78%
Empréstimo pessoal (bancos) 3,34% 3,40%
Empréstimo pessoal (financeiras) 7,24% 7,28%
Taxa média 5,86% 5,96%

EXEMPLOS DE IMPACTO EM EMPRÉSTIMOS

Empréstimo pessoal de R$ 5.000 em banco em 12 parcelas

Juro mensal, em % Valor da parcela, em R$ Total pago, em R$
3,40 514,38 6.172,56

Uso de R$ 3.000 no rotativo do cartão de crédito por 30 dias

Juro mensal, em % Valor dos juros pagos, em R$ Total pago, em R$
10,52 315,60 3.315,60

Uso de R$ 1.000 por 20 dias no cheque especial

Juro mensal, em % Valor dos juros pagos, em R$ Total pago, em R$
8,18 54,53 1.054,53

PESSOA JURÍDICA

Os juros para empresas também subiram em abril na comparação com março. A taxa média para pessoas jurídicas avançou de 3,35% ao mês para 3,39% mensais.

No capital de giro, os juros passaram de 1,77% ao mês em março para 1,80% em abril.

Já a taxa de desconto de duplicatas aumentou de 2,43% ao mês em março para 2,46% mensais em abril. A conta garantida registrou alta de 5,84% ao mês em março para 5,90% ao mês em abril. 

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Fonte:
O Estado de S. Paulo + Folha

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