Com renda menor, brasileiro paga preços próximos aos europeus

Publicado em 03/08/2014 14:46 541 exibições
Do táxi ao restaurante,quem chega do exterior se assusta com os valores cobrados por produtos e serviços no País, por JAMIL CHADE - O ESTADO DE S. PAULO

GENEBRA - Como milhares de pessoas que desembarcaram no Brasil para a Copa, eu também tive um susto ao chegar: do preço "europeu" de tudo, do táxi ao restaurante, de uma Coca-Cola ao material de trabalho como jornalista. Há mais de uma década eu não passava um mês inteiro no Brasil e, entre as várias redescobertas, o custo de vida chamou a atenção.

Ao voltar para a Europa, decidi confrontar os preços para descobrir até que ponto o Brasil estava mesmo caro ou se eu havia tido uma impressão equivocada.

Com a ajuda da reportagem em São Paulo, vimos que o brasileiro, apesar de ter uma renda bem inferior ao que se registra na União Europeia, paga preços não tão distantes da vida de um cidadão médio em um país europeu.

Segundo o Fundo Monetário Internacional, o brasileiro tem uma renda média de US$ 12,2 mil por ano, inferior à da Romênia, de Botsuana e do Suriname. A renda está muito distante dos US$ 54 mil na Noruega, US$ 53 mil nos EUA e US$ 46 mil na Suíça. A renda brasileira é um terço da média francesa e menos da metade dos US$ 29 mil na Espanha.

Mas, mesmo com a disparidade de renda, muitos preços não são tão diferentes. Para tentar fazer a comparação, visitei supermercados na França, Espanha e Genebra, uma das três cidades mais caras do planeta. Não se trata de uma pesquisa com rigor científico; é apenas a tentativa de comparar os preços de produtos das mesmas marcas e nas mesmas redes.

Algumas comparações: 12 ovos no Carrefour do Bairro do Limão em São Paulo, por exemplo, custam R$ 4,59. No Carrefour de Barcelona, a dúzia sai por R$ 3,64. Nos Estados Unidos, o preço é de R$ 4,51. Um litro de água custa em média R$ 1,40 em São Paulo. Em Barcelona, ele sai por R$ 0,79. No Dia, na França, o custo é de menos de R$ 0,50.

O preço do macarrão é mais barato na Europa que em São Paulo. Na capital paulista, um pacote de 500 gramas sai por R$ 1,79. Na Suíça, custa o equivalente a R$ 1,10, praticamente o mesmo preço da França e da Espanha.

Vários outros itens, porém, mostraram que o Brasil é ainda mais barato, como no caso das carnes, frutas e açúcar, todos produtos que o País exporta.

No que se refere ao preço de automóveis, o Novo Golf 2014, motor 1.2 a gasolina sai no preço de tabela por 22,1 mil francos suíços em Genebra, cerca de R$ 55 mil. Na França, a Volkswagen aponta que o preço seria de 18 mil, ou R$ 54,5 mil, contra 17,8 mil na Espanha, cerca de R$ 53,9 mil. Já no Brasil, o valor chega a R$ 70 mil.

Um aluguel em São Paulo também não fica longe dos preços na Europa. Em média, o metro quadrado é de R$ 25 no centro de São Paulo. Segundo a entidade Observatoire Des Loyers, o valor médio das seis principais cidades francesas - excluindo Paris - é de 9,7 (R$ 29,3) por metro quadrado. Em Barcelona, uma das cidades mais baladas da Europa, a média do preço do aluguel é de 12 por metro quadrado.

Outro serviço que revela os preços elevados do Brasil é a telefonia. Segundo a União Internacional de Telecomunicações, no início de 2013, o Brasil tinha a tarifa de celular mais cara do mundo em termos absolutos. Em média, um minuto no celular em horário de pico custaria US$ 0,71 entre chamadas pelo mesmo operador. Para fazer a comparação, a UIT usou a taxa praticada em São Paulo. O custo naquele ano era três vezes o que um americano pagava para falar ao celular. Na Espanha, sede da Telefônica, um cidadão paga pelo celular um quinto do que se paga no Brasil.

Para que uma conclusão mais definitiva fosse feita sobre os custos de vida, dezenas de outros aspectos teriam de ser incluídos: da saúde à educação, de aparelhos eletrônicos a custos de lazer, como cinema ou até futebol. Mas o levantamento parcial revela que, ainda que a Europa continue tendo um custo de vida superior ao do Brasil, os dois se aproximam em uma grande velocidade.

Inflação corrói desvalorização do real

ANNA CAROLINA PAPP , LUIZ GUILHERME GERBELLI , SÃO PAULO , JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA - O ESTADO DE S.PAULO

03 Agosto 2014 | 02h 05

Desde 2010, desvalorização da moeda em relação ao dólar chegou a 26%, mas quando se desconta a inflação, variação foi de apenas 8%

Fábio Motta/Estadão

Em parte, a leve desvalorização da moeda brasileira ao longo dos últimos anos ajuda a explicar por que a economia brasileira tem se mantido cara

A desvalorização do real nos últimos anos foi insuficiente para tornar o Brasil mais barato e competitivo. O ganho esperado por setores como indústria e comércio exterior com a depreciação da moeda brasileira foi corroído pela inflação elevada, que desde 2011 se mantém no patamar de 6% ao ano no País.

Com o aumento dos preços, o Brasil permaneceu caro na comparação com outras economias que também sofreram desvalorização cambial, mas tiveram uma inflação mais baixa. Em quatro anos, desde julho de 2010, a perda de valor nominal do real em relação ao dólar foi de 26%. Porém, se descontada a inflação do período, a desvalorização da moeda brasileira ante o dólar foi de apenas 8%.

"O Brasil ficou com uma inflação anual ao redor de 6% nos últimos anos, enquanto os nossos parceiros estão com uma inflação bem menor", afirma André Loes, economista-chefe do banco HSBC para a América Latina. A China, por exemplo, o maior parceiro comercial do Brasil, teve inflação de 2,6% em 2013 e, neste ano, deve ficar em 2,4%, segundo o banco. "Há diferencial de inflação sendo favorável para outros países", afirma Loes.

A atuação do Banco Central com o programa diário de controle do câmbio por meio de swaps também tem impedido uma desvalorização da moeda brasileira. O BC começou o programa em agosto do ano passado, mas em junho resolveu estendê-lo até o fim de 2014 para evitar um aumento da inflação. Resultado: os dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) mostraram que a moeda brasileira foi a que registrou a segunda maior valorização do mundo no primeiro semestre, atrás somente do bolívar, da Venezuela.

Em parte, a leve desvalorização da moeda brasileira ao longo dos últimos anos ajuda a explicar por que a economia brasileira tem se mantido cara. Recentemente, várias indicadores apontaram essa tendência. No mês passado, a revista The Economist fez a atualização semestral do Índice Big Mac - usado para comparar o valor das moedas. O resultado mostrou o preço do lanche no Brasil como o quinto mais caro do mundo (US$ 5,25), superando países com renda per capita maiores do que a brasileira.

Em abril, o Índice Zara, calculado pelo banco BTG Pactual, colocou o Brasil na liderança do indicador e mostrou que os preços da loja no País são 21,5% superiores aos das lojas americanas da marca, usadas como base da pesquisa. O levantamento foi realizado em 22 dos 87 países em que a Zara está presente.

O reflexo do Brasil caro é percebido mensalmente nas contas do Banco Central. No primeiro semestre, os brasileiros gastaram no exterior US$ 12,486 bilhões, acima dos US$ 12,209 bilhões gastos entre janeiro e junho do ano passado. "Se o câmbio tivesse se mantido estável desde o começo do ano, provavelmente a inflação estaria num patamar bem mais alto do que está hoje", afirma Bruno Lavieri, analista da consultoria Tendências. "E a valorização que ocorreu de janeiro até agora beneficia as viagens internacionais, pois aumenta o poder de compra em dólar."

O câmbio não é o único responsável pelo fato de a economia brasileira ser cara e pouco competitiva. O Brasil enfrenta uma série de problemas crônicos, como baixo crescimento da produtividade, elevada carga tributária para um país emergente e a infraestrutura precária, que colaboram para encarecer ainda mais os produtos brasileiros.

"Como todo problema, não existe uma única causa", afirma Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). "Sobre a questão de preços elevados, acho que o problema nem é de competitividade, mas de impostos altos", afirma Castelar.

'Não dá nem para comparar preços', diz consumidor

ANNA CAROLINA PAPP - O ESTADO DE S.PAULO

03 Agosto 2014 | 02h 05

Brasileiros fazem a festa em outlets no exterior

O casal Elizângela Silva e Rafael Luiz costuma viajar todos os anos. Na semana passada, voltaram do último destino e a sala repleta de pacotes e sacolas denuncia: foram aos Estados Unidos fazer compras.

"Trouxemos de tudo: roupas, calcados, perfumes, acessórios, eletrônicos...", diz a massoterapeuta. "Já tinha algumas coisas em mente que queria, como roupas, mas aí você vê os preços e leva coisas que nem tinha pensado, como roupa de cama. Estava muito barato!".

No total, o casal deixou nas lojas de Las Vegas US$ 6 mil. "Na verdade, eu gastei uns US$ 2 mil, o resto foi o namorado", brinca ela. Rafael, que é professor de educação física, trouxe, por exemplo, dez pares de tênis.

Para ela, se eles comprassem a mesma quantia de coisas aqui, teriam de desembolsar pelo menos o triplo do valor. "Não dá nem para comparar os preços. O Brasil é muito mais caro. Vale muito a pena se programar para comprar fora, principalmente nos Estados Unidos."

Enxoval. Já Camila Barbosa, grávida de primeira viagem, pegou dicas com as amigas e em maio foi a Orlando fazer o enxoval da filha que chega em setembro. A garota já está totalmente equipada até os dois anos. Camila comprou roupas, sapatos, carrinho, bebê conforto, kit berço, cadeirinha que vibra, máquina de tirar leite, termômetro de infravermelho, decoração do quarto - com o tema Disney - e por aí vai.

Ao todo, a psicóloga de 33 anos gastou cerca de R$ 15 mil. "Os preços não se comparam com os daqui. Não compraria nem metade no Brasil com o mesmo valor", diz. "Comprei um macacão da Carter's por US$ 2; tinha até kits de três por US$ 5. Aqui, já vi numa loja por R$ 120", diz. "Comprei também roupa de gestante, que é caro aqui. Uma calça aqui estava por R$ 150. Lá, paguei US$ 6."

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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