Medidas do Governo no mercado derivativo é "tiro de canhão para matar formiguinhas"

Publicado em 27/07/2011 16:52 315 exibições
por Thais Herédia, do G1

A primeira reação do mercado de câmbio, mesmo antes de ouvir o ministro da Fazenda Guido Mantega explicar as novidades, foi deixar o dólar subir. Era isso que o governo queria, ver a moeda americana trilhar o caminho de volta das quedas recentes. Mas, como aconteceu com as outras tentativas, o pacote anunciado agora parece que terá vida curta. Um especialista em mercado de cambio no Brasil ouvido pelo G1 resumiu a eficiência esperada para os novos impostos para quem opera com dólar no país: “O governo deu um tiro de canhão para acertar algumas formiguinhas. O elefante vai passar ao lado”.

Representantes da Federação Brasileira de Bancos, Febraban,  e da Bolsa de Mercadorias e Futuros, a BM&F, estão a caminho de Brasilia para uma reunião com o governo para entender melhor o objetivo das medidas mas, principalmente, dizer o que acharam delas: “Uma loucura!”, disse um interlocutor da BM&F.

A medida pode gerar mais ou menos problemas dependendo dos detalhes que ainda virão nas resoluções do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central. Mas do que se sabe até agora já se pode concluir que o governo vai criar uma enorme distorção no mercado de hedge, proteção para operações em moedas, e de derivativos, sem necessariamente atingir o fluxo cambial que vive seu momento mais intenso no país.

Um dos riscos das novas medidas, apontados por operadores do mercado, é a chamada “exportação” das operações de hedge para outros países que não cobrem altas taxas. Até aqui tudo bem, se essa reação não provocasse uma cegueira no governo. Se os investidores passarem a se proteger lá fora, o BC pode perder a noção do tamanho da alavangem do sistema financeiro no Brasil. Um risco perigoso num momento de tanta insegurança com o futuro próximo da economia internacional.

O economista Roberto Padovani, do banco WestLB, considera que as medidas vão aumentar o risco cambial no país, aumentando as incertezas e distorções e não mirando o câmbio diretamente. “O susto com as novidades atua na direção que o governo quer, aumenta a cautela dos investidores. Na outra ponta, a possibilidade que o governo tem de subir em até 25% o IOF cobrado nas operações pode aumentar demais o custo, é um bomba! De novo, estamos vendo o mercado de câmbio do país ficar mais complexo, mais ineficiente e com eficácia temporária. Os riscos assumidos agora vão suavizar a trajetória de apreciação do Real, mas não impedir o caminho do dólar no mercado mundial”, avalia.

A receita de Padovani é a mesma que a apresentada pelo G1 recentemente pelos economistas Luis Augusto Candiota, ex-diretor de Política Monetária do BC, e Gustavo Loyola, ex-presidente do BC. “No lugar de criar ainda mais distorções no mercado, o governo brasileiro deveria fazer um senhor ajuste fical, reduzindo o crescimento da economia para poder cortar os juros mais rápido e assim, gerar um movimento mais estável do câmbio”.

O especialista em câmbio ouvido pelo G1 considera que as medidas terão efeito de curto prazo e que o mercado, também como em outras encruzilhadas “vai encontrar outros caminhos para continuar investindo no Brasil”, avisa.

O tiro de canhão assustou bastante, mas não deve tirar o elefante do seu caminho.

Tags:
Fonte:
G1 (Globo)

0 comentário