A morte do cinegrafista Santiago Andrade: o país marcou um encontro com a tragédia

Publicado em 10/02/2014 18:24 e atualizado em 04/03/2020 02:23 1730 exibições
por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

A morte de Santiago Andrade: o país marcou um encontro com a tragédia

Santiago Andrade, o cinegrafista da Band, teve morte cerebral. Desde junho, o Brasil tinha um encontro marcado com a tragédia. Era uma questão de tempo. E outras acontecerão desde que se repitam os mesmos procedimentos. Quem são os culpados? Obviamente, devem responder por essa morte aqueles que acenderam o morteiro. Mas, se querem saber, é preciso ampliar o leque de culpas. Também nesse caso, mais do que o alarido dos maus, o que constrange é o silêncio dos bons — ou suas palavras e gestos irresponsáveis.

Todos aqueles que assistiram de boca fechada à progressiva violência das manifestações; todos aqueles que passaram a considerar a depredação, o quebra-quebra e o confronto como liberdade de manifestação; todos aqueles que se negaram a reconhecer o caráter congenitamente autoritário desses ditos “protestos”, todos esses têm sua parcela de culpa.

As elites políticas e intelectuais brasileiras, ignorando os fundamentos da uma sociedade democrática, passaram a flertar com a desordem — especialmente setores importantes da imprensa, que se conformaram em trabalhar de maneira clandestina, tendo de se esconder desses vagabundos. Saibam, leitores: os jornalistas têm de esconder suas respectivas identidades. Ou são linchados.

Ainda assim, por temor da patrulha nas redes sociais, ocupadas por esses milicianos, sempre fizeram uma cobertura favorável aos protestos e hostil à polícia — que, na esmagadora maioria das vezes, apenas reagiu à violência, não a promoveu.

Durante todo esse tempo, onde esteve José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça? Onde esteve Maria do Rosário, ministra dos Direitos Humanos? Onde esteve Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência e homem responsável pelo diálogo com os chamados movimentos sociais?

Por incrível que pareça, toda essa gente, cada um à sua maneira, estava dando a sua dose pessoal de contribuição à barbárie, pondo mais lenha na fogueira. Não custa lembrar que Cardozo é um dos primeiros incitadores, ainda que não tivesse sido essa a pretensão, dos confrontos de rua, que os feiticeiros do Planalto imaginavam que ficariam restritos a São Paulo.

Ainda voltarei a esse tema muitas vezes. Não dá mais! É intolerável! Há homicidas nas ruas disfarçados de manifestantes. É preciso que a gente comece a chamar esses caras pelo nome que eles têm.

Por Reinaldo Azevedo

 

O editorial do Jornal Nacional, o que está certo e o que está muito, mas muito errado

Enquanto o pau voltava a comer no Centro do Rio — E NÃO POR CULPA DA PM, QUE SE SAIBA —, o Jornal Nacional levou ao ar um editorial, com o qual, em parte, concordo. Mas também há passagens das quais discordo radicalmente. Segue o texto na íntegra. Os destaque em vermelho ficam por minha conta. Volto depois.
*
Não é só a imprensa que está de luto com a morte do nosso colega da TV Bandeirantes Santiago Andrade. É a sociedade.

Jornalistas não são pessoas especiais, não são melhores nem piores do que os outros profissionais. Mas é essencial, numa democracia, um jornalismo profissional, que busque sempre a isenção e a correção para informar o cidadão sobre o que está acontecendo. E o cidadão, informado de maneira ampla e plural, escolha o caminho que quer seguir. Sem cidadãos informados não existe democracia.

Desde as primeiras grandes manifestações de junho, que reuniram milhões de cidadãos pacificamente no Brasil todo, grupos minoritários acrescentaram a elas o ingrediente desastroso da violência. E a cada nova manifestação, passaram a hostilizar jornalistas profissionais.

Foi uma atitude autoritária, porque atacou a liberdade de expressão; e foi uma atitude suicida, porque sem os jornalistas profissionais, a nação não tem como tomar conhecimento amplo das manifestações que promove.

Também a polícia errou — e muitas vezes. Em algumas, se excedeu de uma forma inaceitável contra os manifestantes; em outras, simplesmente decidiu se omitir. E, em todos esses casos, a imprensa denunciou. Ou o excesso ou a omissão.

A violência é condenável sempre, venha de onde vier. Ela pode atingir um manifestante, um policial, um cidadão que está na rua e que não tem nada tem a ver com a manifestação. E pode atingir os jornalistas, que são os olhos e os ouvidos da sociedade. Toda vez que isso acontece, a sociedade perde, porque a violência resulta num cerceamento à liberdade de imprensa.

Como um jornalista pode colher e divulgar as informações quando se vê entre paus e pedras e rojões de um lado, e bombas de efeito moral e bala de borracha de outro?

Os brasileiros têm o direito de se manifestar, sem violência, quando quiserem, contra isso ou a favor daquilo. E o jornalismo profissional vai estar lá – sem tomar posição a favor de lado nenhum.

Exatamente como o nosso colega Santiago Andrade estava fazendo na quinta-feira passada. Ele não estava ali protestando, nem combatendo o protesto. Ele estava trabalhando, para que os brasileiros fossem informados da manifestação contra o aumento das passagens de ônibus e pudessem formar, com suas próprias cabeças, uma opinião sobre o assunto.

Mas a violência o feriu de morte aos 49 anos, no auge da experiência, cumprindo o dever profissional.

O que se espera, agora, é que essa morte absurda leve racionalidade aos que contaminam as manifestações com a violência. A violência tira a vida de pessoas, machuca pessoas inocentes e impede o trabalho jornalístico, que é essencial – nós repetimos – essencial numa democracia.

A Rede Globo se solidariza com a família de Santiago, lamenta a sua morte, e se junta a todos que exigem que os culpados sejam identificados, exemplarmente punidos. E que a polícia investigue se, por trás da violência, existe algo mais do que a pura irracionalidade.

Comento
Endosso o que não está em destaque. Mas vamos ao que não vai bem:
1: Infelizmente, desde o início, as manifestações já foram notavelmente violentas, e não é verdade que se tratasse de grupos minoritários. Os três primeiros protestos contra o reajuste de passagens em São Paulo, nos dias 6, 7 e 11 de junho, já foram brutais, com depredação, coquetéis molotov e tentativa de linchamento de policiais. ESSA NÃO É A MINHA OPINIÃO. São os fatos. Está tudo devidamente documentado. De resto, nessas manifestações, nem se podia falar em minoria violenta porque eram protestos por si minoritários.

2: Por que a polícia está apanhando num editorial que lamenta a morte de um cinegrafista, quando todos sabem quem são os assassinos? O que ela tem com isso? Parece-me que o expediente ajuda a diluir as responsabilidades. O jornalismo tem de ser isento, claro!, mas não em relação ao estado de direito. Se e quando a polícia cometer seus exageros, falhas, omissões crimes, que seja criticada por isso.

3: Parece-me que há aí uma tentativa de justificar um erro lamentável de apuração cometido por um jornalista da GloboNews. Um jornalista, em circunstâncias assim, terá de colher a verdade justamente em circunstâncias adversas. Há jornalismo de guerra, mas não de monastérios. Incomoda-me que “paus, pedras e rojões de um lado” sejam igualados a “bombas de efeito moral e balas de borracha de outro”. Essa formulação é falsa. O uso de instrumentos de contenção e de repressão da desordem são disciplinados por lei; estão previstos no estado democrático e de direito — o de paus, pedras e rojões não! Sim, a polícia já errou. Que tivesse merecido o seu editorial. Mais: quando é que se deu a omissão? Quando tardou a recorrer aos instrumentos que estão sendo equiparados às armas de delinquentes? Enquanto prevalecer a ideia de que policiais e bandidos disfarçados de manifestantes são forças beligerantes equivalentes, cidadãos estarão correndo riscos desnecessários — inclusive jornalistas.

4: Eu não acho que a manifestação fosse contra o reajuste da passagem, não. Mas aí a divergência é mais funda e vou deixá-la de lado. Eu temo é pelo risco embutido na formulação “para que os brasileiros fossem informados da manifestação contra o aumento das passagens de ônibus e pudessem formar, com suas próprias cabeças, uma opinião sobre o assunto”. Numa leitura imediata, parece apenas sensato. Com um pouco mais de rigor, é preciso deixar claro que a imprensa não pode ser nem isenta nem neutra quando protestos desrespeitam de forma manifesta os fundamentos da democracia, ainda que seja convocada por monges budistas. Como costumo dizer, se tocadores de oboé decidirem promover a desordem no centro da cidade e impedir o direito de ir e vir, os tocadores de oboé têm de ser reprimidos. Se pegarem paus e pedras para atacar a polícia — ou mesmo seus oboés —, terão de ser contidos. Se preciso com bomba de gás, que não é pau. Se preciso com bomba de efeito moral, que não é morteiro. Se preciso, com bala de borracha, que não é pedra. Temos é de exigir que a polícia use com sabedoria, parcimônia e rigor técnico os instrumentos de que dispõe para manter a ordem pública. Ou vamos ignorar que estes que se dizem “black blocs”, em suas páginas das redes sociais, pregam o ataque aos policiais?

Se a policia apanha da imprensa quando erra e apanha da imprensa também quando aqueles que ela reprime cometem um homicídio, então se tem que bater na polícia, por definição, é um princípio civilizador. E eu não acho que seja.

Encerro
Enquanto o editorial era lido, vândalos mascarados, mais uma vez, procuravam provocar a barbárie no Centro do Rio. É uma gente tão asquerosa que nem mesmo teve o bom senso de suspender o protesto no dia em que foi anunciada a morte de Santiago Andrade. Cadáveres fazem parte de sua lógica.

Por Reinaldo Azevedo

 

À sua maneira, a morte de Santiago foi cuidadosamente planejada. Ou: Um vídeo com estrelas globais e um juiz que exalta a tática black bloc, que matou o cinegrafista

Como eu sou contra a censura; como eu me oponho ao cerceamento da imprensa; como eu acho que estamos lidando com fascistas asquerosos, que odeiam a liberdade, eu vou lembrar todos aqueles que ajudaram a criar o clima que resultou na morte de Santiago Andrade.

No dia 28 de outubro, escrevi um post sobre a convocação que descoletesglobais e outros faziam para novos protestos no Rio. Vejam no arquivo quantas vezes este cão danado aqui apontou que, em Banânia, artista é tratado como pensador — e, infelizmente, muitas vezes, pensadores anseiam a fama de artistas. Os que deveriam buscar aplausos querem ser reconhecidos como filósofos, e alguns “filósofos”, por sua vez, só querem ser aplaudidos…

Abaixo, há um vídeo em que alguns rostos muito conhecidos, outros menos, convocam a população para um protesto. Assistam. Volto em seguida.

Voltei
1: Como vocês viram, um dos alvos da insatisfação é a tal “mídia”. Vocês sabem a quem pertence a agenda que, no fim das contas, criminaliza mesmo é a imprensa. Aliás, o maior “grupo de mídia” do país são as Organizações Globo, que detêm concessões de TV aberta, por assinatura e de rádio, jornal, revista etc. Assina a carteira de trabalho de boa parte dos bacanas. Isso não quer dizer que não possam e não devam dizer o que pensam e discordar. Mas, então, que deem nome aos bois. Qual “mídia” trata de modo inadequado os “manifestantes”? Como sabe toda gente, ao contrário do que se anuncia acima, A IMPRENSA TEM SE NEGADO A CRIMINALIZAR ATÉ MESMO OS CRIMINOSOS.

2: Quem não faz a distinção entre manifestantes e bandidos são os atores globais e os outros dois ou três que se manifestam. Notem:
a) não há uma só palavra de censura às depredações;
b) a polícia é vista como a única responsável pelos confrontos;
c) pessoas detidas depredando a cidade são chamadas de “presos políticos”.

3: Uma jovem chamada Bianca Comparato — nunca vi, mas parece ser atriz —, aos 3min23s, defende, as palavras fazem sentido, o quebra-quebra. Transcrevo sua fala (em vermelho):
“[órgãos de imprensa] só reportam o que é que foi quebrado, o que foi destruído. E eu também acho que tem de parar para pensar o que é que está sendo destruído. São casas de pessoas, como (sic) a polícia joga uma bomba de gás dentro de um apartamento? Não! São lugares simbólicos”.

Nunca vi a PM jogando bombas de gás dentro de apartamentos, mas Bianca viu. Ok. Mas isso não é o mais importante. É evidente que ela está defendendo a ação de destruição dos black blocs, mas só a dos “lugares simbólicos”. Do quê? Que eu saiba, quebram bancos, lojas, prédios públicos, praças, estações de trem, de metrô… Lugares simbólicos da civilização?

4: Algumas estrelas do vídeo merecem breves considerações:
a) Wagner Moura, hoje, é o líder dos engajados no Brasil. Tornou-se uma espécie de garoto-propaganda do PSOL, em especial da linha freixista (de Marcelo Freixo);
b) Marcos Palmeira é genericamente a favor de coisas boas, belas e justas, especialmente as ligadas à natureza. Foi uma das estrelas daquele vídeo patético contra Belo Monte. Palmeira sabe como cuidar da questão energética brasileira e, como se vê, é um profundo pensador da democracia. Eduardo Campos o quer como candidato ao governo do Rio pelo PSB.
c) Camila Pitanga é militante petista e garota-propaganda da Caixa Econômica Federal, em especial do programa Minha Casa Minha Vida. Já está engajada na candidatura de Lindbergh Farias ao governo do Rio.

No dia 17 de junho, no Rio, aconteceu isto aqui, vejam:

Os “artistas”, evidentemente, não disseram uma só palavra de censura ao comportamento dos manifestantes. Linchar policias pode. Mas o silêncio não é o mais grave. No vídeo que convoca um novo protesto, a violência dos vândalos não só é negada como chega a ser bem-vista e estimulada por uma das participantes. Se quem editou as falas manteve a de Bianca Comparato e se todos concordam com o produto final, então é evidente que a endossam. Eu sou, claro!, um rottweiler feroz. Mansas são as pessoas que acham que “destruir lugares simbólicos”, num protesto, é coisa de gente que só quer um país melhor.

Um juiz na turma
Há algo ainda mais escandaloso no vídeo acima. Ali está também um juiz, conforme contei aqui no dia  30 de outubro:

Aqui está ele.

juiz manifestação

A personagem em questão é o juiz João Damasceno, da 1ª Vara de Órfãos e Sucessões, no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Tento de novo: temos um juiz, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que participa de um vídeo que convoca manifestações e que acolhe as ações dos black blocs, que, afinal de contas, só depredam o que tem de ser mesmo depredado, segundo se entende….

O juiz Damasceno pertence a tal entidade “Associação Juízes para a Democracia”, como se fosse possível haver uma outra, em que juízes fossem contra a democracia. Esse grupo, declaradamente de esquerda (e sabemos como países socialistas foram verdadeiros reinos de justiça) tem noções muito particulares de direito. Já entrei em alguns embates com eles aqui. Um de seus membros resolveu que, se me ofendesse bastante, elucidaria os absurdos escritos num documento da entidade.

Não pensem que Santiago Andrade morreu por acaso. À sua maneira, essa morte foi cuidadosamente planejada.

Por Reinaldo Azevedo

 

Vamos lá, jornalistas e veículos de comunicação, ao velório de Santiago Andrade jogar alguns punhados de terra na liberdade de imprensa

Quando o corpo físico se despedir de Santiago Andrade, como já se despediu a sua alma, vamos lá, coleguinhas jornalistas, a seu velório. Vamos homenageá-lo, mas vamos também jogar alguns punhados de terra na liberdade de imprensa.

A verdade é que, como categoria, com uma exceção ou outra, assistimos inermes à progressiva degradação da nossa profissão.

Nós, jornalistas, aceitamos nos esconder nas manifestações. E o nosso sindicato, esse aparelho asqueroso a serviço do PT, não disse nada.

Nós, jornalistas, aceitamos trabalhar clandestinamente para não apanhar de vândalos, de fascistoides, de vagabundos mascarados.

Nós, jornalistas, ficamos com medo das redes sociais e, num movimento de manada, elegemos como inimigo principal a polícia. Mais de uma vez escrevemos e falamos que o quebra-quebra era reação à ação policial, quando nós sabíamos que se tratava do contrário.

Nós, jornalistas, chamamos bandidos que não mostram a cara na democracia, de estetas.

Nós, jornalistas, vimos um repórter fotográfico que testemunhara a tragédia havida com Santiago conceder uma entrevista ao Jornal Nacional sem coragem de mostrar a cara, de dizer o seu nome. E não nos demos conta de que ali estava a volta da censura.

Nós, jornalistas, vimos a sequência de fotos que explicitava o que tinha acontecido ser assinada pela “Agência Globo” — não pelo autor da fotografia. Porque, nestes dias, os jornalistas têm medo.

Boa parte das empresas de comunicação também pode ir lá jogar o seu respectivo punhado de terra.

Desde junho, chamam de “pacíficas” pessoas que sapateiam sobre o teto do Congresso com tochas acesas nas mãos; que incendiam o Palácio do Itamaraty; que depredam o metrô de São Paulo; que saem quebrando tudo Avenida Paulista afora.

Se os jornalistas não querem “ficar mal” nas redes sociais, esses setores da imprensa a que me refiro não têm sido menos covardes. Abrem mão de pautar o debate, segundo os fundamentos da democracia e do estado de direito, e se deixam pautar por milicianos.

Alguns veículos ainda confundem o novo com o bom, esquecendo-se de que certas seguranças e garantia são boas justamente porque são antigas, porque constituem um fundamento da civilidade — e a liberdade de que dispõe um jornalista para trabalhar é uma dessas antiguidades que têm de ser preservadas.

Santiago Andrade foi assassinado por seus algozes, sim. Mas aqueles que silenciaram diante da violência crescente contra os jornalistas — que tiveram de se esconder — ajudaram a preparar esse velório.

Aí grita o cretino fundamental, cheio de má-fé disfarçada de inocência: “Não foi um ataque à imprensa; Santiago Andrade foi ferido por acidente”. Errado. O único acidente aí, se é que foi assim, foi ele ter sido morto por acidente. Jornalistas só não morreram antes, reitero, porque estavam escondidos em meio à multidão, obrigados a trabalhar sem se identificar.

Os jornalistas que silenciaram diante da progressiva perda de liberdade passarão a ter vergonha na cara depois dessa?

As empresas de comunicação que se calaram diante da barbárie passarão a ter vergonha na cara depois dessa?

De associações de classe que são meros esbirros de um partido político, como sindicatos e a Fenaj, não cobrarei vergonha na cara. Eu cobro as coisas possíveis.

A morte de Santiago Andrade é o maior atentado cometido contra a liberdade de imprensa desde a redemocratização do Brasil. Infelizmente, jornalistas e empresas de comunicação enfeitaram essa tragédia com o seu silêncio cúmplice. Infelizmente, uns e outros estão mais preocupados com “o que vão dizer de nós” do que com “o que nós temos a dizer a eles”.

Por Reinaldo Azevedo

 

Como é que é? Quem acende o pavio, então, não mata? Quem mata? Deus? Ou: As babás dos black blocs

O advogado de defesa tem de defender, tudo bem. A gente pode concordar ou não. Quem acende um morteiro como aquele — ou participa da ação que concorre para tanto — está ou não assumindo o risco de matar outra pessoa? Se um sujeito sai atirando a esmo e mata alguém, trata-se ou não de homicídio? Se vai para o alto de um edifício e de lá começa a jogar pedras nos transeuntes, havendo um cadáver, está ou não caracterizado um crime de homicídio doloso?

Ou será que Raposo e seu parceiro ignoravam os possíveis efeitos de um morteiro? Aliás, digam-me cá: o artefato foi lançado apenas como forma de protesto, assim como quem ergue uma bandeira, ou foi mesmo para machucar, para ferir, para matar? A resposta é evidente.

Qual é a tese do advogado? Foi só uma inconsequência? Quando um sujeito joga um coquetel molotov contra um grupo de pessoas, sejam policiais ou não, ele pretende o quê? Dizer o que pensa? Tenham paciência!

Então ficamos assim: quem puxa o gatilho não mata; quem mata é Deus. Quem acende um morteiro não mata; quem mata é Deus. E, como lembrou Monica Waldvogel no Twitter, quem põe fogo num índio também não mata. Aí, digo eu, é culpa de Tupã.

É incrível como há gente indecente nas redes sociais tentando dar uma de babá de black bloc, de babá de bandido.

Por Reinaldo Azevedo

 

Eles queriam matar Santiago? Não! Era pior: queriam matar qualquer um

À medida que o cerco dos fatos vai se fechando, a narrativa vai mudando, certo? Fábio Raposo, o rapaz que está preso, havia concedido uma entrevista à GlobNews em que afirmara que não tinha a menor ideia de quem era rapaz a quem ele passou o morteiro. Na sua versão, encontrou o troço no chão e passou para o outro. Mas nunca o tinha visto — até porque, ora vejam, ele estava mascarado.

Sei, sei… Já disse aqui o quanto vale essa versão: uma nota de R$ 3. Agora seu advogado afirmou que, numa conversa privada, seu cliente afirmara que teria condições de identificar o outro rapaz, em razão de um amigo comum. Entendi. Existe um amigo comum, embora ele não saiba quem é o outro. Rapidamente, chegou-se ao nome do rapaz, que já foi passado à polícia.

O advogado dá a entender que teria tentando convencer o sujeito que acendeu o artefato a se entregar, mas parece que ele não topa. Tentou? Mas houve ou não conversa? Não sei por quê, mas fico cá com uma pulga atrás da orelha a me dizer que estamos falando de um grupo de pessoas que se conhecem. E a tal “Sininho”, a jovem que se apresentou ao advogado oferecendo criminalistas para cuidar do caso? Segundo ele, a moça o fez em nome do deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ), a quem um dos assassinos seria ligado — o que o parlamentar nega, ameaçando com a “justiça burguesa” os que sugerirem o contrário. Cuido de Freixo já, já.

Não, não! A morte do cinegrafista Santiago Andrade não se deveu a uma inconsequência, a um acidente. Ela foi criminosamente planejada. “Para matar Santiago especificamente?” Não! De certo modo, é coisa pior: era para matar qualquer um.

Por Reinaldo Azevedo

 

E Freixo, hein? Ele ameaça os críticos com a “justiça burguesa”, mas tudo está mal explicado. Ou: O líder dos socialistas de Copacabana, Leblon e Ipanema

Caetano, Freixo e Chico: eles sabem o que é bom para o Brasil

Caetano, Freixo e Chico: eles sabem o que é bom para o Brasil

Já disse uma quinhentas vezes que o fato de o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ter combatido as milícias não faz dele, a meu juízo, um, como vou chamar?, esteio da democracia brasileira. De jeito nenhum! Seu partido, ao contrário, odeia certos rituais do regime democrático. Vejam como essa gente, por exemplo, tiraniza estudantes nas universidades públicas. Vejam o que a turma fez na reitoria da USP. Vejam como misturam dinheiro de sindicato com verba de campanha. O comportamento da legenda na greve dos professores foi asqueroso. Pois é… Conversa vai, conversa vem, e o nome de Freixo — o queridinho dos socialistas com vista para mar de Ipanema, Leblon e Copacabana — aparece nessa história sórdida, que resultou na morte de Santiago Andrade.

O Fantástico levou ao ar neste domingo a reportagem. A tal da militante “Sininho” (Elisa Quadros; ela acha que a imprensa é composta de “carniceiros”…) procurou o advogado de Fábio Raposo para oferecer criminalistas — e disse que o fazia em nome de Marcelo Freixo, o queridinho de Caetano Veloso, de Wagner Moura, de Chico Buarque e de outros deslumbrados do miolo mole que deveriam se ater a seu ofício — ou, então, estudar um pouco. A moça também teria dito que o rapaz que acendeu o pavio é ligado ao deputado.

Freixo nega. Ameaça quem insistir na hipótese com os rigores da Justiça que seu partido considera “burguesa” — mas isso é compreensível: Lênin já recomendava que seu partidários se aproveitassem das brechas oferecidas pelo regime com o qual eles queriam acabar.

Pois é… Não vou incriminar ninguém sem os devidos elementos. Freixo poupe a “Justiça burguesa” de aborrecimentos. O que conheço é o discurso do partido ao longo desses meses. Jamais o vi a condenar a violência de maneira clara e inequívoca. Ao contrário: os psolistas e afins sempre viram nesses protestos uma espécie de forçada de mão à esquerda, um movimento progressista…

O PSOL, o partido de Freixo, promoveu manifestações em parceria com os black blocs por intermédio do sindicato dos professores, durante a greve. E todos, no Rio, conhecem essa parceria. O PSOL era um dos comandantes do protesto contra o reajuste na passagem. Antes do quebra-quebra, seus partidários marcharam ao lado dos black blocs.

Quem é que anda com bandidos mascarados em nome da paz? Quando se levantou a hipótese de o acendedor do estopim ser ligado a Freixo, o deputado veio a público com suas ameaças. Certo! Teve mais uma chance, em rede nacional, de condenar a violência. Não o fez. Aproveitou o espaço que lhe deram para, uma vez mais, atacar a polícia. Eis Marcelo Freixo.

Por Reinaldo Azevedo

 

E aquela foto, Caetano Black Bloc Veloso?

Outros não vão lembrar por delicadeza, afinidades eletivas, gosto estético, sei lá o quê. Eu vou. Vou porque os que se expõem publicamente sobre questões públicas têm de arcar com suas responsabilidades. E esta foto?

 Caetano black bloc

Sim, é Caetano Veloso fantasiado de black bloc, surfando, como é de seu feitio. Sim, é claro!, ele, a exemplo de tantos outros que ou se calaram ou estetizaram a violência, não tem nada com isso, certo? As coisas são assim: a violência e o mal vão se banalizando, alguns vão pegando carona, as tragédias acontecem, dão de ombros  e tudo bem…

Até agora, Caetano Veloso não se desculpou por aquela foto. Usou a sua coluna no Globo para tentar me desqualificar uma vez ou outra, mas nada de dizer o óbvio: “Fiz bobagem!”. Espero que peça perdão à família de Santiago.

Por Reinaldo Azevedo

 

A barbárie brasileira e a gritaria dos hipócritas. Ou: Não adote um bandido; adote as pessoas de bem. Ou ainda: O linchamento de Sheherazade

A VEJA fez muito bem em estampar na capa da edição desta semana um emblema da barbárie brasileira. Emblema é mais do que retrato, é mais do que fotografia; é um símbolo. A reportagem aborda os vários fatores que concorrem para o processo de “incivilização” do Brasil. Fazer justiça com as próprias mãos, obviamente, é uma das manifestações de uma sociedade doente. O procedimento tem de ser repudiado de maneira clara, inequívoca, sem ambiguidades. Não custa lembrar que as milícias no Rio e os matadores das periferias das grandes cidades brasileiras nascem do sentimento de autodefesa e logo se transformam em franjas do crime organizado.

O estado tem de conservar o monopólio do uso legítimo da força — até porque essa conversa tem um pressuposto: estamos falando do estado democrático. Exposto o princípio de maneira solar, vamos ver agora como algumas almas e penas farisaicas resolveram se apropriar do tema e sair gritando, como costumo ironizar, feito o coelho do filme Bambi: “Fogo na floresta! Fogo na floresta!”.

Em 2012, foram assassinadas no Brasil 50.108 pessoas. Em três anos, a guerra civil na Síria, estima-se, matou uns 100 mil. No período, 150 mil brasileiros foram assassinados. Boa parte dos que gritam agora contra os justiçamentos e linchamentos — e todos temos mesmo de fazê-lo — estavam onde? Fazendo o quê?

Não sou governo. Não tenho partido político. Não faço política. O único instrumento de que disponho para tratar do assunto é o teclado. Neste blog, sei lá quantas dezenas de textos, talvez centenas, escrevi a respeito! Na Rádio Jovem Pan, já comentei o assunto mais de uma vez. Na Folha, no dia 10 de janeiro, num texto intitulado “Mortos sem pedigree”, escrevi (em azul):

Em novembro, veio a público o Anuário Brasileiro de Segurança Pública com os dados referentes a 2012. Os “crimes violentos letais intencionais” (CVLI) somaram 50.108, contra 46.177 em 2011. A taxa saltou de 24 para 25,8 mortos por 100 mil habitantes. Na Alemanha, é de 0,8. No Chile, 3,2. Os “CVLI” incluem homicídio doloso, latrocínio e lesão corporal seguida de morte. Nota: esses são números oficiais. A verdade deve ser mais sangrenta.
Segundo a ONU, na América Latina e Caribe, com população estimada em 600 milhões, são assassinadas 100 mil pessoas por ano. Com pouco menos de um terço dos habitantes, o Brasil responde por mais da metade dos cadáveres. O governo federal, o PT, o PMDB, o PSDB e o PSB silenciaram. Esse é um país real demais para produtivistas, administrativistas e nefelibatas. A campanha eleitoral já está aí. Situação e oposição engrolarão irrelevâncias sobre o tema. Prometerão mais escolas e mais esmolas. Presídios não!
Algumas dezenas de black blocs mobilizaram o ministro da Justiça, os respectivos secretários de Segurança de São Paulo e Rio e representantes da OAB, do CNJ e do Ministério Público. Rodrigo Janot, procurador-geral da República, quer até um fórum de conciliação para juntar policiais e manifestantes. Sobre a carnificina de todos os dias, nada! Quem liga para cadáveres “pobres de tão pretos e pretos de tão pobres”, como cantavam aqueles? No país em que os aristocratas são, assim, “meio de esquerda”, segurança pública é assunto da “direita que rosna”, certo? Os 400 e poucos mortos da ditadura mobilizam a máquina do estado e a imprensa. É justo. Os 50 mil a cada ano só produzem silêncio. Dentro e fora dos presídios, são cadáveres sem pedigree.

Retomo
O Sindicato dos Jornalistas do Rio pediu a cabeça de Rachel Sheherazade, jornalista e apresentadora do SBT, em razão de um comentário que ela fez sobre aquele rapaz que foi atado pelo pescoço. Não endosso boa parte do que ela disse. É preciso, reitero, deixar claro com todas as letras que aquela não é uma solução — e, a rigor, ela não disse que é. Faz-se necessário evidenciar que se trata de outro crime. Mas parte de suas observações procede, sim, e vai ao ponto: dissemina-se, de maneira perigosa, preocupante, a sensação do homem comum de que lhe cabe fazer alguma coisa, já que, para expor a ideia genérica, “ninguém faz nada”.

Estamos começando a chegar a um limiar perigoso. É claro que a gritaria mais estridente contra Sheherazade — que parte de gente que nunca deu 10 tostões pelos mais de 50 mil cadáveres brasileiros a cada ano — tem muito pouco de humanidade, de piedade, de bondade congênita ou algo assim. É ideologia! Há muito tempo esperavam que ela cometesse um erro para maximizá-lo no limite do insuportável, declarando, então, que ela tem de ter a cabeça cortada. É um caso clássico de farisaísmo, de gente que apela a supostos “fundamentos” para eliminar aqueles que considera incômodos.

Leio, por exemplo, um texto contra Sheherazade assinado por um notório defensor de mensaleiros; que andou se esmerando, há coisa de 15 dias, em, ora vejam!, nos recomendar que ouvíssemos o que Henrique Pizzolato tinha a dizer. É isso mesmo! Imaginem quantas criancinhas poderiam ter sido tiradas da pobreza com aqueles mais de R$ 70 milhões do Fundo Visanet, né? Outro, uma espécie de intérprete permanente da alma de José Dirceu, também quer ver pendurada no poste a cabeça da jornalista. E fica evidente que não é só por causa do comentário que ela fez: é pelo conjunto da obra.

Hipócritas!

Farsantes!

Vigaristas!

Se perguntarem a esses delinquentes morais quem é Fabrício Proteus, eles dirão de primeira: “É a vítima da Polícia de São Paulo” — aquela “vítima”, vocês sabem, que avançou com estilete contra PMs. Mas perguntem quem é Alda Rafael. Nunca ouviram falar. É possível que nem vocês se lembrem porque o caso logo desapareceu. Trata-se da policial que levou um tiro pelas costas no Complexo da Penha, no Rio.

Direitos humanos
Não se trata de saber se direitos humanos devem existir também para bandidos. Os direitos humanos, vejam que coisa!, humanos são — e deles ninguém se exclui ou pode ser excluído. Ponto final. A questão é de outra natureza: cumpre tentar entender por que esses prosélitos mixurucas, esses propagandistas vulgares, jamais se ocupam da guerra civil que está em curso no Brasil há décadas. Então os mais de 50 mil que morrem por ano no país não merecem a sua atenção?

Sei que pode parecer estranho a esses oportunistas, mas Sheherazade não amarrou ninguém. A violência que a gente vê é só um pouco da violência que a gente não vê. Os linchamentos se espalham Brasil afora. Os mais de 50 mil homicídios a cada ano no país é que mereciam uma “Comissão da Verdade”. Por que os que agora pedem a cabeça de uma apresentadora de TV jamais se ocuparam das 137 pessoas (média) que são assassinadas todos os dias no Brasil? Por que não acenderam, como vela, ao menos um adjetivo piedoso por Alda Rafael?

Os imbecis tentarão ler no meu texto o que nele não está escrito. Dou uma banana para os tolos. Quanto mais eles recorrem à tática da desqualificação, mais leitores vão chegando — e, agora, mais ouvintes também. Não dou a mínima. Não me deixo patrulhar. Sim, eu acho que os que prenderam aquele rapaz pelo pescoço têm de ser punidos. Eu acho que os que recorrem a linchamentos também têm de arcar com as consequências.

Mas acho igualmente que essa gente que decide resolver por conta própria — que também é pobre de tão preta e preta de tão pobre — merece ter estado, merece ter segurança, merece ter proteção. Se sucessivos governos se mostram incapazes de dar uma resposta — por mais que eu deteste, por mais que eu ache que o caminho errado, por mais que eu tenha a certeza de que a situação só vai piorar —, as pessoas farão alguma coisa.

Parece-me que foi esse o sentido que Sheherazade deu à palavra “compreensível” — o que não implica necessariamente um endosso. Os historiadores já se debruçaram sobre os fatores que tornaram “compreensível” a eclosão dos vários fascismos na Europa do século passado ou da revolução bolchevique na Rússia. Compreender um fenômeno não quer dizer condescender com ele. Eu, por exemplo, penso que é compreensível que o PT tenha chegado ao poder, entenderam?

Ainda que, reitero, avalie que o comentário foi, sim, desastrado. Mas tentar linchar Sheherazade moralmente, aí já é um pouco demais! Estranha essa gente: defende o direito de defesa para os bandidos mais asquerosos — e nem poderia ser diferente —, mas pede a execução sumária de alguém por ter emitido uma opinião infeliz.

E por quê?
E por que se silencia de maneira sistemática, contumaz, cínica, sobre a guerra civil brasileira? Naquele artigo da Folha, sintetizei a razão (em azul):

E por que esse silêncio? É que os fatos sepultaram as teses “progressistas” sobre a violência. A falácia de que a pobreza induz o crime é preconceito de classe fantasiado de generosidade humanista. A “intelligentsia” acha que pobre é incapaz de fazer escolhas morais sem o concurso de sua mística redentora. Diminuiu a desigualdade nos últimos anos, e a criminalidade explodiu. O crescimento econômico do Nordeste foi superior ao do Brasil, e a violência assumiu dimensões estupefacientes.
Os Estados da Região estão entre os que mais matam por 100 mil habitantes: Alagoas: 61,8; Ceará: 42,5; Bahia: 40,7, para citar alguns. Comparem: a taxa de “CVLI” de São Paulo, a segunda menor do país, é de 12,4 (descarta-se a primeira porque inconfiável). Se a nacional correspondesse à paulista, salvar-se-iam por ano 26.027 vidas.
Com 22% da população, São Paulo concentra 36% (195.695) dos presos do país (549.786), ou 633,1 por 100 mil. A taxa de “CVLI” do Rio é quase o dobro (24,5) da paulista, mas a de presos é inferior à metade (281,5). A Bahia tem a maior desproporção entre mortos por 100 mil e (40,7) e encarcerados: 134. Estudo quantitativo do Ipea (
aqui) evidencia que “prender mais bandidos e colocar mais policiais na rua são políticas públicas que funcionam na redução da taxa de homicídios”.
Isso afronta a estupidez politicamente correta e cruel. Em 2013, o governo federal investiu em presídios 34,2% menos do que no ano anterior — caiu de R$ 361,9 milhões para R$ 238 milhões. Para mais mortos, menos investimento. Os progressistas meio de esquerda são eles. Este colunista é só um reacionário da aritmética. Eles fazem Pedrinhas. Alguém tem de dar as pedradas.

Encerro
Boa parte dos que estão vociferando não está nem aí para os pobres, os humilhados etc. Estes coitados servem apenas de pretexto para aquela turma perseguir os de sempre. Não fosse assim, esses bacanas estariam mobilizados, cobrando uma ação do estado brasileiro para pôr fim ao Açougue Brasil, especializado em carne humana.

Por Reinaldo Azevedo

 

O napalm petista. Ou: A outra onda vermelha

Circula nas redes sociais, com o endosso do partido — e talvez seja ele a origem —, uma foto em que um avião despeja uma nuvem vermelha sobre a população, que, claro, logo se tinge. Trata-se, dizem os petistas, da “onda vermelha”, que estaria chegando. E há uma pergunta: “Preparado”. Vejam.

Onda vermelha

Há uma outra onda vermelha no país. É a dos maios de 50 mil homicídios que acontecem por ano no país. É a dos linchamentos, dos justiçamentos, da violência desmedida — tudo debaixo do nariz de um governo inerme — que, quando não está paralisado, está incentivando, por vias oblíquas, a violência. Segundo a petezada, “ela vem aí” — ou “ai”, em petês.

A foto lembra uma bombardeio com napalm. De certo modo, faz sentido: Essa onda vermelha não queima corpos; queima neurônios.

Por Reinaldo Azevedo

 

Azeredo quer saber por que ele virou réu, mas Lula não

O deputado Eduardo Azeredo (PSDB-SP), ex-governador de Minas, está dizendo que, no chamado “mensalão mineiro”, ele tem de ser tratado como Lula foi no mensalão petista. Alguns dirão que isso é confissão de culpa porque acham que o chefão do PT sempre soube de tudo. Azeredo, claro!, pensa na questão do ponto de vista político e jurídico. Vamos ver.

O mensalão petista foi um esquema de caixa dois e de desvio de dinheiro público? Foi também. E isso já é bastante grave. Mas foi mais do que isso: com aquela dinheirama, a quadrilha comprou parlamentares e partidos políticos. Além dos crimes cometidos — corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro —, houve uma tentativa de golpear a democracia. O esquema desviou recursos públicos? Sim! R$ 76 milhões do Fundo Visanet, que foi justamente que Henrique Pizzolato, aquele que foi preso na Itália, mandou transferir para o esquema.

Atenção! Quem era o principal beneficiário do mensalão petista? Resposta: Lula. Ele, no entanto, foi acusado de alguma coisa pela Procuradoria-Geral da República? Resposta: não! Por que não? Resposta: porque a Procuradoria diz não haver indícios de que ele tenha participado da tramoia. Em depoimento, Marcos Valério assegurou que o então presidente sempre soube de tudo. Mas a coisa, até agora, não prosperou.

E o chamado mensalão mineiro? Segundo o Ministério Público, em valores atualizados, R$ 9,3 milhões foram desviados de empresas públicas para financiar a campanha à reeleição de Eduardo Azeredo, do PSDB, em 1998. Os dois casos têm mais uma coisa em comum: em Minas, o dinheiro também passou por Marcos Valério. O que não se tem, nesse caso, é o mecanismo de compras de parlamentares e partidos. São arquiteturas distintas.

Caso se comprove que o esquema realmente existiu, o principal beneficiário seria, sim, Azeredo — afinal, era para a sua reeleição. Mas há provas de que ele soubesse ou tivesse participado? Eis a questão: também não! Igualzinho a Lula. Ai o leitor pensa: “Ah, mas esses políticos sempre sabem, tanto Lula como Azeredo”. Pode até ser. Mas a Justiça precisa trabalhar com provas. Nesse particular, portanto, o político mineiro tem motivo para perguntar: se Lula não virou réu, por que ele virou?

Anotem aí, que a coisa vai dar pano para manga. Azeredo virou réu por causa de uma assinatura numa espécie de recibo. Ocorre que tudo indica que essa assinatura é falsa, obra de um estelionatário.

E aproveito, meus caros, para registrar mais uma vez um estranhamento: Rodrigo Janot, procurador-geral da República, em petição enviada ao STF, aproveitou para pedir 22 anos de cadeia para Azeredo. Não estou entrando no mérito das culpas. Mas cumpre notar que a democracia tem rituais. O que o Ministério Público pode fazer é pedir a condenação de réus por tais e quais crimes, mas estabelecer a dosimetria das penas ainda é uma função dos tribunais, não do Ministério Público.

Por Reinaldo Azevedo

 

Mais um cubano deserta do programa “Mais Médicos”

Médico cubano deserta Ortélio Jaime Guerra

Na VEJA.com:
Outro médico cubano desertou do programa federal Mais Médicos: Ortelio Jaime Guerra (foto) abandonou a cidade de Pariquera-Açu, no interior paulista. A informação foi confirmada pela Secretaria de Saúde do município. Em mensagem publicada no Facebook, ele afirmou aos amigos que saiu da cidade por “questões de segurança” e que os últimos dias no local foram “muito intensos”. Guerra afirmou que está nos Estados Unidos.

O Ministério da Saúde confirmou que Guerra era integrante do Mais Médicos, mas não deu detalhes sobre o seu paradeiro. Na semana passada, o novo ministro da Saúde, Arthur Chioro, comentou a desistência de médicos cubanos, mas todos teriam retornado para Cuba. Guerra ingressou no programa em dezembro. Na postagem na rede social, ele agradeceu o apoio recebido pelos amigos de Pariquera-Açu e publicou uma imagem na qual aparece com duas pessoas na capital paulista, nos últimos dias em que esteve no Brasil.

“Meus amigos de Pariquera-Açu, eu preciso que vocês saibam que tive que ir embora de lá sem avisar ninguém por questões de minha segurança. Essa foto foi de uma das minhas últimas noites em São Paulo, mas agora já estou nos Estados Unidos. Estou grato por toda a bondade e amor. Prometo que vou voltar um dia para ver vocês”, disse o médico.

Esse é o segundo caso registrado de deserção de médicos cubanos do Mais Médicos. Na semana passada, Ramona Rodriguez fugiu da cidade paraense de Pacajá, onde prestava serviços, e se abrigou no gabinete do DEM na Câmara dos Deputados. Ela disse ter abandonado o programa depois de descobrir que o governo brasileiro repassava 10.000 reais para os outros médicos estrangeiros inscritos no programa, valor superior ao que ela afirmou que recebia – cerca de 400 dólares mensais.

Por Reinaldo Azevedo

 

Ministério Público do Trabalho diz que “Mais Médicos” é ilegal e sacrifica valores constitucionais

Por Marcela Mattos na VEJA.com. Comento daqui a pouco.
Após tomar o depoimento da médica cubana Ramona Rodriguez nesta segunda-feira, o procurador do Trabalho Sebastião Caixeta afirmou que o programa federal Mais Médicos “sacrifica” as relações de trabalho e foi “desvirtuado” para suprimir a falta de profissionais nos rincões do país.

A lei que criou o Mais Médicos, sancionada em outubro do ano passado, carrega a bandeira de profissionalização dos participantes, o que justificaria a ausência de direitos trabalhistas e a remuneração em formato de bolsa. Diz a lei: “O programa visa aprimorar a formação médica no país e proporcionar maior experiência no campo de prática médica durante o processo de formação”.

Para o procurador, apesar de tentar afastar as relações trabalhistas, o Mais Médicos tem todas as características de um emprego formal. “O que nós constatamos é que ao se suprimir a necessidade de médicos no país, há o desvirtuamento genuíno das condições de trabalho”, disse Caixeta. “Esse projeto está sendo implementado de maneira a sacrificar outros valores constitucionais que também são caros, como os da relação de trabalho.”

Ramona, que há uma semana abandonou o programa federal, afirmou ao procurador que, apesar de integrar o programa desde outubro, somente em meados de janeiro foi submetida a um curso de especialização – em duas sextas-feiras. Ramona disse ainda desconhecer o médico responsável pela “supervisão profissional”, conforme previsto em lei. Para Caixeta, o fato de ter passado por um curso não descaracteriza a relação trabalhista, já que a médica trabalhava oito horas por dia, com pausa de duas horas para almoço.

O depoimento de Ramona integrará inquérito civil público instaurado em agosto do ano passado pelo Ministério Público do Trabalho. O procurador vai pedir ao governo federal a correção das ilegalidades do programa, como a diferença salarial entre os cubanos e demais participantes e a falta de garantias trabalhistas – férias e 13º salário. Enquanto todos os participantes recebem 10.000 reais mensais, os cubanos ganham 400 dólares, cerca de 1 000 reais.

Caixeta afirma ter tentado acesso ao contrato entre cubanos e a Organização Panamericana de Saúde (Opas) – órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS) que, segundo o governo brasileiro, intermediou a vinda dos profissionais de Cuba –, mas que não conseguiu. A Opas alega que há uma “cláusula de confidencialidade exigida pelo governo de Cuba”.

Por Reinaldo Azevedo

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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

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