Cultura: A arte pós-moderna não tem limites: “surra de bunda” é a nova etapa!

Publicado em 16/04/2014 15:22 e atualizado em 05/03/2020 21:31 1206 exibições
por Rodrigo Constantino (de veja.com.br)

Cultura

A arte pós-moderna não tem limites: “surra de bunda” é a nova etapa!

Fonte: G1

Os leitores já perceberam que, volta e meia, gosto de falar das tendências da arte pós-moderna por aqui. O motivo é simples: encaro o relativismo estético exacerbado da atualidade como retrato do relativismo ético exacerbado, ambos farinha do mesmo saco podre e politicamente correto. É proibido julgar, vale tudo, criticar algo é ser preconceituoso, o que vem da periferia só pode ser bom, todos são especiais à sua maneira, tudo é arte. Ou seja, nada é arte.

Pois bem: quando você pensa que a palhaçada subversiva chegou ao limite, talvez com um tubarão no formol vendido por US$ 12 milhões, talvez com uma “performance” de algum sujeito medíocre que confunde excentricidade com autenticidade e esta com inovação artística, vem o mundo real e lhe mostra que não, simplesmente não há limites para o que pode ser considerado “arte” hoje em dia.

A abertura de uma exposição do Museu de Arte do Rio (MAR) vai contar com a banda paulista de funk Tequileiras, conhecida (?) pela dança “surra de bunda” (!). A festa é pela inauguração da exposição ”Josephine Baker e Le Corbusier no Rio – Um Caso Transatlântico”. Um dos curadores explicou a estranha escolha:

“Em sua época, Josephine subverteu questões ao lidar com o jeito que percebemos gêneros, orientação sexual, classe e especificamente raça. O convite às Tequileiras para o evento de abertura ocorreu porque, no contexto brasileiro atual, vemos um espírito similar na manifestação delas”.

Perguntada se ela considera que a “surra de bunda” também é arte, Débora Fantine, uma das funkeiras da banda, não hesita: “Lógico que é!”, diz. Ela concorda com a opinião do curador, que compara o seu trabalho à postura pioneira de Josephine. “As mulheres têm que ser livres. Um homem vai na balada e ‘cata’ 10 mulheres, e a mulher que faz o mesmo é uma biscate. Tem que ter direitos iguais para todo mundo”, diz.

Viram só? Arte pós-moderna é isso aí: enaltecer a dama que “cata” dez numa só noite. Talvez faça sentido. Se Le Corbusier foi apelidado como “inimigo das cidades” por muitos críticos, então quem melhor do que uma banda “inimiga da (boa) música” para fazer o show de abertura da exposição? Tudo é arte…

Rodrigo Constantino

Tags: funkJosephine BakerLe CorbusierTequileiras

 

DemocraciaPolítica

Um governo voltado apenas para a propaganda

Fonte: Folha

Aquilo que todos já sabem – que o governo Dilma só pensa na imagem, de olho nas eleições – agora está comprovado por números oficiais. Nunca antes na história deste país se gastou tanto em publicidade estatal. O valor total gasto em 2013 foi de R$ 2,3 bilhões, uma alta de 7,4% em relação ao ano anterior e o maior da série desde 2000, quando começou a ser divulgado esse tipo de dado.

Os valores incluem toda a administração pública direta e indireta. Ou seja, as grandes estatais estão nesse bolo de R$ 2,3 bilhões. Quando são considerados só os órgãos e entidades da administração direta (ministérios e Palácio do Planalto, por exemplo), o total de 2013 foi de R$ 761,4 milhões, também um recorde na última década e meia.

O governo também justifica o aumento com o fato de que “um terço do crescimento do volume publicitário de 2013 foi puxado pelas ações dos Correios, [empresa] que completou 350 anos em 2013″.

Essa empresa pública foi a que esteve envolvida diretamente no caso do mensalão, escândalo de 2005 e que envolvia o uso de agências publicitárias com contas na administração federal.

Por que os Correios precisam gastar tanto em publicidade? Opera em cenário de quase monopólio, ora bolas. Não soa estranho? Uma pessoa mais desconfiada poderia suspeitar de que se trata de financiamento indireto da imprensa chapa-branca, ou uma tentativa de comprar apoio da imprensa independente.

Os R$ 2,3 bilhões gastos colocam o governo federal na quarta colocação do ranking dos maiores anunciantes brasileiros em 2013. O primeiro lugar ficou com a Unilever (R$ 4,6 bilhões), seguida por Casas Bahia (R$ 3,4 bilhões) e o laboratório Genomma (R$ 2,5 bilhões).

Além de todo o poder político que o governo central já possui no Brasil, país com modelo altamente centralizado, há ainda o poder econômico. O peso da propaganda é evidente, e isso pode prejudicar a independência dos veículos de comunicação.

Uma coisa é gastar com a divulgação de campanhas realmente importantes; outra, bem diferente, é torrar os nossos impostos para fazer proselitismo do governo, ou publicidade de estatais que gozam de praticamente uma situação monopolista em seus setores.

A presidente Dilma, como podemos ver, usou e abusou desta prerrogativa. É a que mais gasta em publicidade. Quantifica o que já era sabido qualitativamente: esse é um governo controlado pelo marketing, que só pensa naquilo…

Rodrigo Constantino

 

EconomiaIntervencionismoInvestimentosPrivatização

Barbeiragens energéticas: a solução é o mercado

Em artigo publicado hoje no GLOBO, Adriano Pires fala sobre as barbeiragens energéticas que o governo vem fazendo, impondo elevado custo a todos nós. A principal causa desses equívocos está na falta de confiança nos mecanismos de mercado. Diz ele:

A condução da política energética brasileira nos últimos quatro anos tem sido caracterizada por uma série de barbeiragens governamentais. A causa principal é que o governo insiste em desafiar as leis de mercado, através de resoluções das agências reguladoras, de decretos presidenciais e de leis aprovadas no Congresso. No fundo, o governo acha que tem o poder de revogar a lei da oferta e da procura e não entende que essa lei representa para a economia o mesmo que a lei da gravidade para a física. Ou seja, ambas são irrevogáveis. Como os acidentes têm sido graves a maioria das vitimas está no CTI, mas, dependendo do tratamento e da medicação, todas têm chance de sobreviver.

A principal vitima das barbeiragens é a Petrobras. A estatal não está conseguindo resistir à política do governo de utilizá-la como instrumento de política econômica e de política industrial. Para conter a inflação, o governo não reajusta os preços da gasolina e do diesel, isso reduz drasticamente o caixa da empresa, que é obrigada a se endividar de uma forma assustadora. Hoje, a dívida da Petrobras, de R$ 230 bilhões, é a maior do mundo quando comparada a qualquer outra empresa não só do setor de petróleo, como de outros setores da economia.

Parabéns! A diretoria da Petrobras e o governo Dilma merecem efusivos aplausos por terem levado a empresa estatal a bater, finalmente, um recorde mundial: o tamanho da dívida. É a única rubrica no balanço da empresa que sobe sem parar. Produção? Caiu. Lucro por ação? Despencou. Valor de mercado? Desabou. Dívida? Cresce exponencialmente…

Para não acusarem Adriano Pires de só criticar, sem apontar as soluções (pensei que quando se apontava o problema isso já fosse uma proposta de solução), ele oferece o plano de medidas necessárias:

Qual o tratamento? Deixar de utilizar as empresas estatais como instrumento de politica econômica e industrial e como meio de ganhar as eleições através de um deliberado populismo. Acabar com a política de desoneração da gasolina e do diesel e de subsídios do Tesouro à energia elétrica. Recompor a gestão das estatais através de um plano estratégico de redução de custos e venda de ativos. O remédio existe e é fácil de encontrar no mercado.

Eu resumiria da seguinte forma: a medida urgente de curto prazo é tirar o PT do governo; e a solução de longo prazo é mesmo privatizar, justamente para evitar esse risco de captura das estatais por um governo populista e incompetente. Os mecanismos de mercado funcionam…

Rodrigo Constantino

 

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As veias abertas da América Latina

Fonte: EBC

O livro de cabeceira de muito esquerdista latino-americano é o mais importante livro de Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina. Foi de profunda influência no “pensamento” da esquerda na região, com grandes efeitos em vários países. Qual não deve ter sido a surpresa de tantos seguidores, então, ao ver que o próprio autor não quer mais saber do que consta ali?

Na Bienal de Brasília, Galeano afirmou que aquela prosa é pesadíssima, e confessou que não voltaria a ler seu próprio livro. Ele brincou: “Eu não seria capaz de ler o livro de novo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é pesadíssima. Meu físico não aguentaria. Eu cairia desmaiado”.

Para adicionar insulto à injúria, o autor admitiu que não sabia muito bem o que estava fazendo, pois era jovem e sem a devida formação. Galeano explicou que foi o resultado da tentativa de um jovem de 18 anos de escrever um livro sobre economia política sem conhecer devidamente o tema: “Eu não tinha a formação necessária. Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas foi uma etapa que, para mim, está superada”.

Não está arrependido talvez porque o livro o deixou rico (ah, a doce hipocrisia dos socialistas milionários). Mas deveria ter um profundo sentimento de culpa pelo mal que causou. Claro, Galeano ainda é de esquerda, e ainda é utópico. Ele acha que houve boas experiências de esquerda, sem citá-las (adoraria saber quais são). Mas reconhece que mudou muito, que é outra pessoa, que a realidade é muito mais complexa, que a condição humana é mais diversa.

Quando pensamos que Hugo Chávez, ícone dessa mentalidade presente na obra, deu o livro de presente para Obama, só podemos achar graça quando o próprio autor vem à público falar que nem ele leria aquilo. Desconfio, porém, que Obama até gostaria… o que mostra como os Estados Unidos não são mais os mesmos, e se parecem mais com a América Latina atualmente (e não por avanços nossos, infelizmente). Comentei en passant sobre a obra de Galeano em meu Esquerda Caviar:

A “bíblia” da esquerda caviar latino-americana é o livro As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. O autor alimenta justamente esse sentimento de vitimização, culpando os ricos pela pobreza dos pobres. Se os países da região não conseguiram prosperar enquanto o vizinho do norte ficou cada vez mais rico, então claro que uma coisa só pode ser resultado da outra!

Galeano vendeu nada mais do que autoajuda para perdedores, que poderiam agora olhar para cima sem humilhação, com o dedo em riste acusando o sucesso americano como responsável por nossos fracassos. E o terceiro-mundismo vende bem lá fora também, para alimentar a elite culpada.

Um exemplo? O sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de O ócio criativo (uma espécie de autoajuda para preguiçosos), veio ao Brasil para repetir que nosso modelo é o melhor que há, que o Brasil é o melhor dos mundos existentes! O melhor dos mundos possíveis, pois ainda podemos distribuir a riqueza de forma mais igualitária (cheiro de socialismo no ar?). Segundo o sociólogo, entretanto, teria chegado a hora de o Brasil propor um modelo para o mundo!

Quando leio isso e penso na miséria do Piauí e do Maranhão, nas favelas cariocas, nos hospitais públicos, em Brasília e na presidente Dilma, em Renan Calheiros e na inflação alta com crescimento econômico medíocre, só consigo chegar a uma única conclusão lógica: o ócio “criativo” do próprio Domenico não fez nada bem à sua cabeça. Talvez tivesse sido melhor ele abandoná-lo para mergulhar mais em pesquisas sérias…

PS: Influenciado pelo livro de Galeano, o comunista Oscar Niemeyer, que era fã de Stalin, chegou a criar uma escultura que simboliza justamente as tais “veias abertas” da América Latina, supostamente sangrando por conta da exploração “imperialista” dos “estadunidenses”. Na verdade, o sangue jorra por responsabilidade de nós mesmos, latino-americanos, principalmente dos esquerdistas da região, os mesmos seguidores de Galeano, que agora admite não ter muita ideia do que fazia quando escreveu sua obra-prima. Assim é a nossa esquerda…

Rodrigo Constantino

 

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As lições de Cingapura. Ou: Lee Kuan Yew: um “déspota esclarecido”

Cingapura era um local agrário, sem recursos naturais e muito pobre à época de sua independência, em 1965. Hoje, é uma cidade-estado modelo para o mundo, uma das economias mais dinâmicas e modernas da Ásia, com uma renda per capita acima de US$ 60 mil. Por trás dessa reviravolta impressionante está a figura controvertida de seu “pai fundador”, Lee Kuan Yew.

Nascido em 1923 e descendente de imigrantes da província chinesa de Guangdong, Lee estudou em Cambridge, na Inglaterra, e formou em 1954 o People’s Action Party, que foi eleito cinco anos depois. Lee se tornou primeiro-ministro em 1959, com apenas 35 anos. O nome do partido era adequado, pois ação era o que Lee representava. Mas não qualquer ação; e sim uma esclarecida, aberta ao reconhecimento de erros, pragmática e focada nos resultados. Lee dizia que faria o que fosse correto, não “politicamente correto”.

Tenho em minha prateleira, na enorme fila de espera, sua biografia From Third World to First, um tijolo com 700 páginas que ainda não tive a oportunidade de ler. Enquanto isso, devorei em apenas dois dias o livro bem menor Lee Kuan Yew: The Grand Master’s Insights on China, the United States, and the World, de Graham Allison e prefácio de Henry Kissinger, com vários trechos de entrevistas organizadas por tópicos. A seguir, vou resumir sua visão econômica sobre o sucesso de Cingapura, deixando outros temas igualmente interessantes para uma outra ocasião.

Sendo Cingapura um local sem recursos naturais, era preciso se destacar em inteligência superior e disciplina para prosperar num mundo competitivo. Ciente disso, Lee colocou enorme ênfase no capital humano, na qualidade dos funcionários do governo, atraindo gente capacitada e pagando altos salários em troca, de acordo com seu custo de oportunidade na iniciativa privada. Ninguém deveria ir para o governo por sacrifício pessoal, e sim por merecimento, e o ganho deveria estar à altura.

A palavra de ordem em sua gestão seria meritocracia. Lee é obcecado pelo conceito, acredita piamente que sem ele não há progresso. Ele é totalmente contrário a uma sociedade feudal, em que o nascimento define o futuro do indivíduo, ou a uma sociedade de castas como a indiana, ou ainda a um estado de bem-estar social exagerado que tenta proteger todos do risco de fracasso e alimenta um foco igualitário nos resultados.

Quem produz riqueza é o empreendedor que assume riscos. A única forma de melhorar a vida dos mais pobres é estimulando o crescimento do bolo, o que ocorre quando esses empreendedores trazem inovações para o mercado que melhoram a produtividade da economia. Tolerar ganhos bastante desiguais e combater a inveja social deles decorrentes é crucial no processo. É do interesse coletivo que cada um possa e queira dar o melhor de si para prosperar.

Com uma população de apenas 5,5 milhões de pessoas (hoje), Cingapura precisa atrair os melhores do mundo todo para competir em pé de igualdade com gigantes como Estados Unidos e China. Lee sempre defendeu uma abertura para a imigração, especialmente dos mais qualificados, e abraçou como poucos a globalização. Cingapura é um dos locais mais abertos do mundo, com um comércio exterior (importação + exportação) que ultrapassa 350% do PIB.

Mas para atrair capital humano e físico de qualidade, era preciso desenvolver um ambiente extremamente amigável aos investimentos, e com regras do jogo muito claras e confiáveis. O império das leis seria outra grande obsessão de Lee, assim como a drástica redução da burocracia. A facilidade em abrir ou fechar empresas seria enorme. Cingapura precisa de talentos, e atraí-los é questão de sobrevivência.

Outro pilar seria a língua. Lee percebeu cedo que se dependesse do mandarim não teria a mesma condição de se tornar um hub do comércio mundial e um centro de inovação tecnológica global. O inglês, mais fácil e objetivo, língua dos negócios, da ciência, da diplomacia e da academia, falada pelo mundo todo, tornaria-se não a segunda, mas a primeira língua oficial de Cingapura.

A imagem de “déspota esclarecido” faz algum sentido quando pensamos que muitas dessas decisões foram tomadas ou lideradas por um homem só, muito influente nos rumos do país. Mas Lee era o oposto do governante que impõe um dirigismo econômico de cima para baixo. Ao contrário: sua crença no livre mercado era tanta que ele focou justamente naquilo que o governo podia fazer para garantir seu funcionamento de maneira mais eficiente.

Lee abomina o socialismo, o protecionismo comercial disfarçado de regionalismo, as políticas econômicas intervencionistas, que produzem apenas má-alocação de capital e corrupção. Para ele, cabe ao governo garantir uma ordem social (ele coloca bastante peso no papel da família ao ensinar a diferença entre certo e errado para as crianças, e Cingapura não brinca em serviço quando se trata de atos ilegais ou “malfeitos”), uma boa infraestrutura, serviços públicos de boa qualidade e o império das leis.

Como resultado disso, Cingapura está em segundo lugar noranking de liberdade econômica do Heritage Foundation, em trajetória ascendente. Trata-se de uma das economias mais livres do planeta. Não vou dizer em que posição está o Brasil, cujos males a esquerda diz que é culpa do “neoliberalismo”, para poupar o leitor do choque e do constrangimento (ok, eu digo: estamos em 114, e caindo, mas ao menos estamos à frente da Índia e da Rússia – uau!).

A qualidade da elite faz toda a diferença. Sua criatividade, sua disposição em aprender com as lições de outros lugares, seu desejo de implementar boas ideias de maneira rápida e decisiva, e sua capacidade de convencer a maioria do povo de que tais reformas compensam, eis o segredo do sucesso. O espírito da inovação deve estar presente, disseminado nas diferentes esferas da sociedade, caso contrário não há avanço.

Meritocracia, disciplina, foco nos talentos individuais, império das leis, credibilidade e previsibilidade na gestão do governo, ampla abertura comercial e liberdade econômica, investimento em infraestrutura de ponta, burocracia reduzida, valorização do inglês, ordem social: essa é a receita do enorme sucesso de Cingapura, sob a forte liderança de Lee Kuan Yew.

Agora que já sabemos o que deve ser feito, resta apenas descobrir quem e como, em nossa democracia sujeita aos riscos populistas e em nossa cultura afeita ao coletivismo igualitário. A parte mais difícil já está resolvida…

Rodrigo Constantino

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Filosofia políticaSocialismo

Só resta ao desonesto Francisco Bosco me rotular de desonesto e monopolizar as boas intenções…

Francisco Bosco é daqueles que representam a esquerda jurássica, uma pessoa que prega o socialismo em pleno século 21, que defende os “black blocs”, que acha que piadas podem ser ofensivas apenas aos homens, brancos, heterossexuais e cristãos, enfim, um ícone da esquerda caviar que condeno. Costumo expor, com argumentos, suas falácias aqui no blog.

Incapaz de rebater minhas críticas com argumentos, Bosco usou sua coluna hoje no GLOBO (aquela imprensa “golpista” da elite capitalista, não custa lembrar) para me rotular de desonesto e tentar monopolizar as boas intenções. É o que lhe resta, na falta de bons argumentos: fingir-se de moderado enquanto prega o radicalismo de esquerda. Vamos lá, ao ping-pong (ele em vermelho e eu em azul, claro):

O mundo já é muito complexo e turvo para os que se propõem a compreendê-lo honestamente. Por compreensão honesta designo fundamentalmente a atitude intelectual que tem como princípio examinar quaisquer argumentos sem o preconceito ideológico que costuma obscurecer a construção coletiva do diagnóstico da realidade.

Percebam que Bosco já assume ser alguém totalmente desprovido de preconceitos ideológicos, como se apenas o seu oponente, de quem discorda, os tivesse. No mais, “construção coletiva” é daqueles termos bonitos, mas que não dizem nada. O raciocínio é sempre individual, assim como o pensamento. 

Todos têm, de modo consciente ou não, posições ideológicas prévias, mas essas devem ser sempre submetidas ao teste da realidade; são pontos de partida, não pontos de chegada. Infelizmente, a atitude intelectual de Rodrigo Constantino — como demonstrou Jean Wyllys, com a clareza devida, em artigo recente — é desonesta, procedendo por reduções, simplificações grosseiras, maniqueísmos sistemáticos, diversos procedimentos que agem no sentido de obscurecer o trabalho público e coletivo da compreensão da realidade (sem falar no abuso da dimensão imaginária das polêmicas — recorrendo sempre a argumentos ad hominem e ridicularizando pessoas famosas, a fim de produzir uma espécie de sensacionalismo intelectual).

Só posso presumir que Bosco não leu meu livro, tampouco acompanha meus artigos no GLOBO, na VEJA e no blog. Eu uso os famosos como ícones do fenômeno para ilustrar meus pontos, todos eles devidamente embasados em teoria e argumentos. Jean Wyllys não provou nada além da própria desonestidade e incapacidade de argumentar, como faz Bosco agora. Caiu em contradição o tempo todo, como mostrei aqui e aqui. Eu não ridicularizo essas pessoas; basta expor suas contradições e hipocrisias que elas fazem isso muito bem sozinhas…

Ao contrário, vou propor aqui uma leitura honesta do que considero, até onde li, seus argumentos principais na defesa da pertinência da expressão “esquerda caviar”, com tudo o que ela carrega de desqualificação. Vou fazê-lo porque julgo que por meio dessa expressão pode-se compreender melhor quais os sentidos e as possibilidades efetivas da esquerda no mundo atual.

Como eu disse, acho que leu pouco, e o que leu, não entendeu. Devem ser aqueles preconceitos citados acima, que Bosco tem apesar de acreditar que não.

O argumento principal de Constantino é o que a expressão sugere de cara: haveria uma contradição entre ser de esquerda e usufruir das benesses propiciadas pelo capitalismo às classes sociais mais altas. Admitida essa contradição, segue-se logicamente que os ricos autodeclarados de esquerda são hipócritas, apenas adotando o semblant de uma retórica socialmente valorizada — e que a sua diferença para os ricos de direita está tão somente em que esses últimos não capitulam a coerção social da hipocrisia.

É muito mais do que isso! A esquerda caviar age de forma diametralmente oposta ao que prega. Condena a ganância alheia e se mostra a mais gananciosa de todas. Cospe no capitalismo e no lucro, mas só quer viver sob o capitalismo, acumulando muito capital, e focando bastante no próprio lucro. Seus ícones são capazes de pregar a mudança radical no estilo de vida – dos outros – para “salvar o planeta”, enquanto circulam por aí em jatinhos particulares. E por aí vai… 

Comecemos então por nos perguntar: o que é ser de esquerda? Sem dúvida, ser de esquerda significa primordialmente considerar a redução das desigualdades econômicas e sociais um objetivo fundamental.

Pausa para mostrar a falácia mais importante do discurso de Bosco: a esquerda, sem argumentos, tenta sempre monopolizar as virtudes. Quem foi que disse que esquerda é desejar reduzir desigualdades sociais? Pergunto ao Bosco: onde há menos desigualdade social: na Austrália ou em Cuba? Na Suíça ou na Venezuela? Nos países mais esquerdistas, ainda mais na linha jurássica que Bosco prega, há enorme desigualdade, pois muitos continuam pobres e uma elite segue detentora de todo o poder e recursos. 

Isso, entretanto, não implica necessariamente adotar uma perspectiva anticapitalista utópica, seja nos moldes da experiência efetiva da esquerda no século XX ou de algum modelo a se inventar. Concordo com T. J. Clark, para quem, em vez disso, é preciso que a esquerda contemporânea faça profundamente a experiência da sua derrota, das catástrofes intoleráveis por ela produzidas, e se esvazie de sua dimensão utópica, engajando-se antes numa política moderada, operando no interior do capitalismo, “por pequenos passos”, “propostas concretas” agindo no sentido de produzir igualdade em diversos âmbitos.

Onde foi que tais experiências deram certo? Qual modelo Bosco defende? Por que elogia o PSOL e Marcelo Freixo? A Venezuela, adorada por essa esquerda caviar, seria um bom exemplo? E Cuba, até hoje elogiada por essa turma, é um bom exemplo desse modelo? Discursos vazios…

Provavelmente a experiência de esquerda mais bem-sucedida no mundo hoje é a dos países nórdicos, capazes de dirigir o capitalismo por meio de um Estado pequeno, porém eficaz no sentido de promover equilíbrio social, conciliando assim os princípios do mercado e da seguridade social, da individualidade e do coletivo, em suma, da liberdade e da igualdade (como mostrou ampla matéria da revista “The Economist”, recentemente).

E eu sabia que chegaríamos aqui, claro. A Escandinávia se tornou o refúgio dos socialistas. Será que Bosco sabe que a região ficou rica antes, com mais liberalismo, e só depois conseguiu bancar esse estado de bem-estar social enorme? Será que ele sabe que isso tem custado caro demais, e levado a vários problemas? Será que sabe que, mesmo assim, tais países ainda são bem mais liberais e capitalistas do que o Brasil (vide o Índice de Liberdade Econômica do Heritage). A Suécia e a Dinamarca sequer possuem salário mínimo! A abertura comercial é muito maior nesses países. O império das leis também. Enfim, tais países seriam vistos, por nossa esquerda caviar que ainda defende Cuba e Venezuela, como “neoliberais” ao extremo! Bosco não sabe disso ou finge não saber?

Ser de esquerda não implica portanto um anticapitalismo sistêmico e revolucionário — concordo ainda com T. J. Clark quando escreve que, nas condições atuais, a esquerda moderada é que é revolucionária —, cuja prova pessoal de coerência seria uma espécie de franciscanismo, de resto inútil. Mas sim engajar-se, seja por qual via for, na luta pela promoção da igualdade de direitos (conforme fazem, cada um a seu modo, as pessoas desqualificadas por Constantino como símbolos da “esquerda caviar”: Wagner Moura, Regina Casé e Gregorio Duvivier, entre outros).

E Bosco pretende se vender como esquerda moderada? Defensor do PSOL e dos black blocs? Que piada foi essa? Wagner Moura, defensor do terrorista comunista Marighella, é um moderado? Letícia Spiller, fã de Fidel Castro, virou defensora da Suécia agora? Igualdade de direitos? Isso é uma bandeira liberal, Bosco! Igualdade de direitos é colocar todos iguais sob as mesmas leis, o oposto do que vocês querem, com todas essas bandeiras de privilégios para as “minorias” (que, como você mesmo já disse, não precisam ser minoria numérica de fato). 

É oportuno desconstruir outra suposta contradição. Segundo Constantino, os membros da “esquerda caviar” costumam criticar instituições, notadamente a polícia, mas recorrer a elas quando necessário. Deveria ser escusado lembrar que a crítica é um princípio democrático de aperfeiçoamento, e não um instrumento de negação absoluta. Quando pessoas de esquerda criticam a polícia, não estão a defender sua extinção, ingênua ou irresponsavelmente; antes repudiam a sua ação hierarquizante, logo antidemocrática.

Aperfeiçoamento? Essa gente chama a polícia de “fascista”! Bosco, você consome muito óleo de peroba? Mais do que Lula e Dilma? A quem você quer enganar? Aperfeiçoar a polícia queremos todos nós, liberais e conservadores. Vocês querem jogar pedras e coquetéis Molotov nela, acusá-la de “fascista”, desarmar os policiais e enaltecer os bandidos, como se fossem “vítimas da sociedade”. Não querem sua extinção, “ingênua e irresponsavelmente”? Ou seja, querem, mas de forma gradual? Ação hierarquizante, logo antidemocrática? Que diabos é isso? A polícia precisa aplicar as leis, punir os crimes, essa é sua função. Antidemocrático é defender vândalos mascarados que não foram eleitos por ninguém e que atacam os representantes da lei. Como você é cara de pau, Bosco! Não tem vergonha? Papai não lhe deu educação, não disse que é feio mentir? 

O que nos leva a um último aspecto da expressão. Ao negar a possibilidade de cidadãos de classe média e alta serem de esquerda, é nada menos que a mediação social da solidariedade o que se está anulando. Parece ser impossível para Constantino assimilar a ideia de que há pessoas dispostas a defender causas igualitárias mesmo em detrimento de suas vantagens pessoais. Mas, pasme, é precisamente isso o que, como princípio, define a esquerda.

Novamente o monopólio dos fins nobres, o que lhe resta. Solidariedade não tem nada a ver com ser de esquerda! Aliás, as pessoas mais solidárias que conheci não eram de esquerda, mas liberais e conservadores. Os esquerdistas que conheci, muitos deles, eram insensíveis e egoístas, apesar do discurso contrário. Hipocrisia. No mais, se quer mesmo defender as “causas igualitárias”, igualdade aqui como resultado, por que não começar, então, reduzindo essa desigualdade doando a própria fortuna? Quer dizer que vai ficar apenas na retórica contra a desigualdade, enquanto o sujeito acumula mais e mais capital e lucro de forma bem desigual? E Bosco não vê hipocrisia e contradição nisso? Sério mesmo? O que define a esquerda, ou boa parte dela, é esse abismo intransponível entre discurso e prática.

Rodrigo Constantino

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CulturaLegislação

Lei anti-homofobia empaca na Alerj: boa pausa para reflexão!

Deu no GLOBO: Lei anti-homofobia empaca no Rio e preocupa ativistas

Um dos primeiros estados do Brasil a estender aos companheiros gays e lésbicas de servidores estaduais os direitos sobre pensão e previdência reservados aos héteros, o Rio de Janeiro está no meio de um impasse que deixa desprotegidas as minorias sexuais. Tramita há sete meses na Assembleia Legislativa, sob forte oposição da bancada religiosa, um projeto de lei estadual para punir estabelecimentos públicos e privados que discriminarem pessoas em função de sua orientação sexual.

[...]

Os defensores da proposta atualmente em tramitação na Assembleia argumentam que a aprovação de uma lei estadual é fundamental para reforçar o combate à discriminação nos 92 municípios fluminenses. Entre as alegações está o fato de não existir ainda uma legislação de maior abrangência, em âmbito federal, que puna a discriminação contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros. O texto do projeto apresentado na Alerj prevê advertência e multas, que vão de 50 Ufirs (R$ 127) a 50 mil Ufirs (R$ 127 mil), a estabelecimentos que barrarem ou constrangerem em função de orientação sexual, além de cassação de alvará, em caso de reincidência.

O inferno está cheio de boas intenções. Expressões bonitas conquistam muitos adeptos. Quem pode ser contra uma lei “anti-homofobia”, à exceção de alguns reacionários machistas, não é mesmo? Há muitos problemas em jogo. No fundo, esse tipo de medida cria privilégios e arbitrariedades perigosas.

Um exemplo? Um casal começa a “se pegar” de forma escancarada em um restaurante, de forma claramente ofensiva aos demais presentes, que podem incluir crianças. O gerente se aproxima e pede para que parem, ou então que se retirem do estabelecimento. Tudo perfeitamente normal. A imensa maioria concordaria, sem falar do direito de propriedade do dono do estabelecimento.

Agora acrescente esse detalhe: o casal era homossexual. Não pode! É preconceito! Se o gerente fizer isso, pode ser enquadrado na lei anti-homofobia e ser punido. É o mesmo raciocínio para demissões. O gay pode sempre alegar que foi demitido porque é gay, e conhecendo nossa “justiça” trabalhista, teria ganho de causa facilmente.

Liberais defendem igualdade de todos perante as leis. Não importa cor, “raça”, credo, sexo, e sim a atitude. Liberais também enaltecem bastante o direito de propriedade privada, ou seja, respeitam que cada proprietário vai exercer uma ampla liberdade de escolha em seu estabelecimento, criando suas próprias normas.

O que o movimento gay deseja não é nada disso. É, nesse aspecto, profundamente anti-liberal, apesar de alguns acharem que não. É coletivista, deposita muito poder no estado, e um poder arbitrário, que gera insegurança jurídica. O deputado Flávio Bolsonaro (PP) resumiu bem a situação:

Não é uma bandeira social, é palanque político. Os militantes ficam querendo justificar seus salários bancados pelas ONGs que vivem disso. A pessoa que agride tem que ser responsabilizada independentemente da sexualidade de quem é agredido.

E eis que ele toca no óbvio, sempre ignorado pelos militantes: agressão é crime, ponto. Não importa se o agredido for gay, alto, magro, homem, mulher, ateu, mulato, índio. Não pode agredir ninguém, iniciar agressão alguma pelo motivo que for. Não é preciso uma lei específica para “agressão contra gays”. Isso é absurdo. E proteger os gays não é o que a militância realmente quer…

PS: Assim como qualquer crítica ao Islã, mesmo o mais radical, virou “islamofobia”, qualquer desvio da agenda politicamente correta pode ser visto hoje como “homofobia”. Se o sujeito simplesmente expressar sua preferência individual por filhos heterossexuais, é homofóbico. Se contar alguma piada de “bichinha”, é homofóbico. Cria-se um ambiente de censura e intolerância em nome da “tolerância”.

Rodrigo Constantino

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

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