Liberdade de Imprensa: O rosto do caudilhismo e o papel da imprensa

Publicado em 07/07/2014 15:18 e atualizado em 23/07/2014 15:29 912 exibições
por Rodrigo Constantino, de veja.com.br (+ Guilherme Fiúza, de O Globo)

Liberdade de Imprensa

O rosto do caudilhismo e o papel da imprensa

Carlos Alberto Di Franco tem sido um incansável defensor da liberdade de imprensa, sob constante ataque do governo desde os primeiros anos da gestão do PT. Em sua coluna de hoje no GLOBO, Di Franco eleva o tom e soa o alerta, deixando claro o risco que essa liberdade corre, ao mesmo tempo em que pede à própria imprensa que reaja da melhor forma possível: fazendo seu trabalho com seriedade. Diz ele:

Lula manifesta crescente irritação com o trabalho da imprensa independente. Seus sucessivos e reiterados ataques à mídia, balanceados com declarações formais de adesão à democracia, não conseguem mais esconder a verdadeira face dos que, mesmo legitimados pela força do processo eleitoral, querem tudo, menos democracia. Para Lula, um político que deve muito à liberdade de imprensa e de expressão, imprensa boa é a que fala bem. Jornalismo que apura e opina com isenção incomoda e deve ser extirpado. Preocupa, e muito, o entusiasmo de Lula, da presidente Dilma e de seu partido com modelos políticos capitaneados por caudilhos. Cuba e Venezuela, ditaduras cruéis e antediluvianas, são o modelo concreto da utopia petista.

A fórmula Lulinha e Dilminha paz e amor acabou. Agora, com o Estado aparelhado, o Congresso ameaçado pelo decreto de Dilma que inaugura a governança via conselhos, obviamente controlados pelo governo, e a imprensa fustigada, o lulismo mostra sua verdadeira cara: o rosto do caudilhismo.

O jornalismo não deve cair na armadilha da radicalização, mas fomentar a discussão das políticas públicas. Vamos romper a embalagem do marketing político e da propaganda avassaladora. Vamos contrastar o discurso oficial com a realidade concreta. Os protestos crescentes, alguns francamente impróprios e deselegantes, enviam recados muito claros: o povo flagra a mentira no emagrecimento do seu poder de compra, nas filas do SUS, na frustração de uma educação que não forma gente preparada para a vida. A sociedade está perfilando a verdadeira e correta agenda eleitoral.

A tentação de cair no jogo do PT e baixar o nível do “debate” é grande. As redes sociais causam esse efeito de radicalização, inclusive com mentiras e exageros de todo lado. Uma reportagemdo mesmo jornal mostra hoje como os candidatos se preparam para a trincheira digital, esperando uma chuva de ataques e ofensas, incluindo perfis falsos feitos para destruir reputações. Diz o jornal:

A desinformação, explicou um oficial do Exército especialista em inteligência, é considerada uma arma de guerra. Uma mentira bem contada, garante, pode levar a vítima a tomar outra atitude. Em eleições passadas, os candidatos sentiram a força do terrorismo digital. Geraldo Alckmin (PSDB) foi acusado, nas eleições presidenciais de 2006, de pretender a privatização da Petrobras. Nas eleições seguintes, foi a vez da candidata Dilma Rousseff se ver envolvida em boatos de que defendia o aborto. Ao migrar este ano da caixa de e-mails para as redes sociais, que vivem um boom, a desinformação terá agora um potencial de estrago bem maior.

“Uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade”. Esse era o mantra de Goebbels, responsável pela estratégia de marketing do nazismo. Nos exemplos acima, há um detalhe: Alckmin não ia privatizar a Petrobras, e isso era terrorismo eleitoral do PT. Já o PT de Dilma realmente tem uma grande ala defensora do aborto.

O impacto das redes sociais na sociedade foi o tema da coluna de Luiz Felipe Pondé na Folha hoje também, e ele reconhece o perigo de seu radicalismo. Com base na polêmica pesquisa realizada com os usuários do Facebook (sem sua autorização ou conhecimento), o filósofo conclui:

O resultado foi que as emoções se espalharam “na velocidade da luz” provando que nas redes sociais emoções positivas e negativas se espalham indiscriminadamente, levando os usuários a repetirem (postarem) as emoções que receberam via Facebook.

O impacto é claro: as redes sociais são um veículo poderoso de reprodução de comportamentos que podem facilmente se tornar violentos. Vide o que aconteceu com a infeliz falsa “bruxa” do Guarujá.

Resistir a essa tentação é o grande desafio da imprensa séria e independente. Ao mesmo tempo, ela não pode cair na tentação de um pseudo-neutralismo, incapaz de apontar com coragem fatos incômodos tanto para a maioria como para o governo.

Não é seu papel instigar a polarização das redes sociais, em boa parte fomentada pelo próprio PT. Mas é sua função expor a face do caudilhismo de Lula, sem paixão, com objetividade. Se, por medo do governo ou das redes sociais, a imprensa tentar “dourar a pílula” ou ocultar essa face, ela estará não só traindo seus leitores, como dando um tiro no próprio pé.

Rodrigo Constantino

 

EconomiaIntervencionismoProtecionismo

“Governo espantou as montadoras”, diz presidente da JAC

Neste domingo foi publicada uma interessante entrevista com o presidente da JAC Motors, Sergio Habib, sobre as medidas do governo Dilma para o setor automotivo. Em resumo, deu tudo errado. A produção de automóveis tem caído de forma expressiva, “apesar” de todos os estímulos do governo.

O excesso de intervenção e o protecionismo acabaram afugentando investidores, como foi o caso da chinesa JAC, que pretendia instalar uma fábrica no país. Mas o aumento do IPI tornou sua estratégia proibitiva. Como disse Sergio Habib: “O governo quis que o empresário se casasse com o Brasil antes de namorá-lo. E ninguém mais quer correr esse risco”.

A China produz carros cada vez melhores e bem mais baratos, como já foi o caso com a Coreia do Sul no passado. O consumidor brasileiro poderia economizar milhares de reais e ainda assim obter seu sonhado meio de transporte independente, algo que tem bastante valor em um país cujo transporte público é caótico. Mas o governo não permite. Abaixo, alguns trechos da entrevista:

Para montar uma operação em qualquer país, primeiro é preciso ver a aceitação do produto e testar o mercado como importador. Depois de testar, ocorre o investimento. Foi assim na década de 1990 com Toyota, Citroen, Honda, Peugeot, Renault e Nissan. A Citroen importou carros durante 10 anos e só então fez a fábrica. A Peugeot, durante 9 anos. A Toyota começou a importar em 1991 e só em 1999 construiu a fábrica. Todas elas ficaram cerca de uma década importando antes de construir. Hoje, com o Inovar-Auto, você não pode importar sem ter um projeto de fábrica. Ou seja, ele exige que uma empresa se case com o Brasil antes de namorá-lo. E essa não é a lógica para nenhuma empresa. Ninguém topa. O Brasil exige do empresário um cheque de 500 milhões de reais para a construção de uma fábrica sem que ele esteja familiarizado com o mercado brasileiro. Isso não faz sentido para ninguém. 

[...]

As regras que regulam o conteúdo local usado na fabricação dos carros, para que se consiga um desconto no IPI, são muito retrógradas. Não é papel do governo controlar se o farol do carro que estamos usando foi fabricado no Brasil, na China ou na Alemanha. A empresa tem de comprar o farol onde lhe for mais conveniente. Mas o governo vai além: quer saber se o espelho retrovisor e até mesmo o motor responsável por movimentar o espelho são fabricados no Brasil. Por isso decidiu criar o Inovar-Peças, para estimular a cadeia de suprimentos. Mas, como controlar esse tipo de detalhe é algo dificílimo, o projeto ainda não saiu do papel.

[...]

A tendência, quando se é empresário num país fechado, é passar mais tempo em Brasília tentando defender seus interesses do que na fábrica tentando diminuir custo. E tem o custo Brasil, que piora o cenário. Levar um contêiner da fábrica da JAC de HengFeng para Shangai, na China, o que corresponde a uma distância de pouco mais de 500 quilômetros, custa cerca de 500 reais. No Brasil, transportar um contêiner de São Paulo ao Rio de Janeiro custa 1 900 reais. O nosso país está muito torto. Para compensar esse custo de logística, o dólar tinha que estar custando 8 reais. 

[...]

O espírito animal do empresário está na toca. Quem quer investir num país onde não se conhecem as regras do jogo, onde tudo é incerto? O pior é que esse sentimento é generalizado. Mudaram as regras no setor elétrico, automotivo, de infraestrutura. E depois reclamam que poucos se interessaram pelas privatizações. Numa escala mais ampla, isso trava o país.

[...]

A maior frustração é a mudança de regra. O chinês é muito prudente, estuda o país profundamente e essas mudanças assustam. A JAC recebeu ordem do governo chinês para crescer seu negócio. Para onde eles iriam crescer? O Brasil é um destino óbvio. Agora, o governo pensa que o mercado interno é patrimônio do povo brasileiro e que tem de ser usado por empresas que estão fixadas no país. E isso faz com que a gente pague pelas ineficiências que a falta de concorrência traz.

Ou seja, é o desenvolvimentismo nacionalista de Dilma e sua equipe fazendo mais e mais vítimas, e punindo, acima de tudo, os próprios consumidores. Há um equívoco ideológico em questão, que não se modifica facilmente. Tanto que a presidente se recusa a admitir o fracasso de sua política econômica.

Para ela, os investidores estrangeiros que se recusam a investir são uns ingratos. Essa turma parece sempre ignorar que as pessoas reagem a incentivos, e que não é na marra ou no grito que se desperta o tal “espírito animal” dos investidores, mas com regras claras, instituições sólidas e livre mercado competitivo. Tudo aquilo que a hiperatividade estatal e o protecionismo impedem.

Rodrigo Constantino

 

EconomiaPrevidência Social

Fundos de pensão estatais no vermelho: mais um resultado da intervenção do governo

Buraco sem fundo?

reportagem de capa do caderno de economia do GLOBO de hoje mostra como os fundos de pensão estatais devem bateram apenas 17% das metas atuariais em 2013 e dificilmente irão se recuperar este ano, fechando pelo terceiro ano consecutivo com déficit. A rentabilidade média foi de apenas 2% no ano passado, enquanto a meta era de 11,6%. O problema tem ligação com a ingerência política:

Falhas na gestão e interferência política para viabilizar projetos de interesse do próprio governo são apontados por fontes da área econômica como causas dos problemas nesses fundos, combinadas com dificuldades relacionadas à crise econômica. Os déficits em cadeia têm como principais vítimas os aposentados, que veem seus rendimentos encolherem com a crise dos fundos.

[...]

Ronaldo Tedesco, representante dos trabalhadores da Petrobras na Petros, critica os investimentos na Invepar. Ele diz que a construtora OAS é beneficiada, pois participa de concorrências públicas ancorada nos fundos. Os trabalhadores também reclamam que a Petros aplicou cerca de R$ 300 milhões na Lupatech (prestadora de serviços no segmento de petróleo), que está em situação de falência:

— Esses investimentos são de interesse do governo, que se aproveita da influência sobre os fundos. A pergunta é, se os investimentos que os diversos governos têm indicado para a Petros derem errado, a União garantirá a meta atuarial dos planos? Ou vão nos deixar a ver navios afundando?

Ele também citou as aplicações da Petros em bancos com dificuldades, como BVA, Morada, Cruzeiro do Sul e no grupo Galileo (Universidade Gama Filho, que faliu). No próximo mês, a provisão de calote nessas aplicações deverá ficar entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão, segundo Tedesco.

Volta e meia vemos escândalos de corrupção envolvendo os fundos de pensão estatais. São gigantescas fontes de recursos, uma tentação enorme para qualquer governo. Os aposentados são os maiores prejudicados, sem tanta transparência e sem alternativa para escolher as aplicações de sua própria poupança.

Há claro conflito de interesses em jogo. O aposentado deveria ter flexibilidade muito maior para decidir sobre suas próprias economias, como acontece nos Estados Unidos ou no Chile. Aqui, ele acaba refém dos gestores desses fundos de pensão, que sofrem enorme pressão política.

O resultado é este: o aparelhamento do PT levou os fundos de pensão ao vermelho, e quem paga o pato, como de praxe, é o elo fraco da equação: o aposentado.

Rodrigo Constantino

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EconomiaInflação

Por um Banco Central independente

O modelo é consensual quando se trata de países desenvolvidos: um banco central com independência para perseguir uma meta de inflação definida pelo governo. Há variações aqui e acolá, mas eis a essência da gestão da moeda nos países mais ricos. No Brasil, infelizmente, ainda não chegamos lá, e o PT defende o atraso: a politização da gestão monetária.

editorial do GLOBO defende hoje, como agenda para 2015, essa maior independência do nosso Banco Central. Diante de um quadro de elevada inflação, apesar do pífio crescimento econômico e de vários preços represados pelo governo, o jornal clama pelo avanço institucional que colocaria o controle da inflação sob os cuidados estritamente técnicos de funcionários cujo único mandato seria este:

Para assegurar a estabilidade monetária, o Brasil precisa de alicerces institucionais, que protejam a economia dos interesses políticos momentâneos dos governantes. A Lei de Responsabilidade Fiscal, por exemplo, foi um passo estratégico para que o real não tivesse o mesmo destino das moedas que o antecederam. Ainda que a trajetória da inflação não tenha sido a desejável nos últimos anos, os brasileiros mantêm a sua confiança no real, e esse é um patrimônio social que precisa ser protegido.

Diante do desafio que o próximo governo terá pela frente, para quebrar as expectativas negativas que se formaram em relação ao comportamento futuro da inflação, seria extremamente importante que o país desse mais um passo no seu arcabouço institucional em prol da estabilidade monetária. E esse passo seria a formalização da independência do Banco Central. Ela é essencial para que o regime de metas de inflação adotado pelo Brasil volte a ter credibilidade.

Não há viva alma entre os investidores que ainda acredite na autonomia operacional do BC sob o governo Dilma. Mas os petistas não enxergam problema algum nisso. Ao contrário: vivem negando a realidade, e acham que a política monetária foi um sucesso até aqui. São incapazes de autocrítica, de reconhecer seus erros. É o que fica claro com a outra opinião publicada em contraste ao editorial e assinada por José Guimarães, do PT do Ceará:

O ambiente institucional que sustenta a política monetária é caracterizado pela estabilidade da direção do BC, e pela ampla transparência de dados, informações e decisões. Os fatos demonstram que não há lugar para questionamento da credibilidade da política monetária. É hora de reafirmar uma agenda de política pública voltada ao desenvolvimento econômico. Entre eles, o aperfeiçoamento permanente da capacidade de coordenação dos instrumentos de política econômica (fiscal, monetário e cambial), a diversificação dos mecanismos de financiamento do investimento de longo prazo, o aprimoramento dos modelos de parceira público-privada, e a ampliação da estrutura institucional associada à inovação e ao desenvolvimento científico e tecnológico. Esta é a agenda dos que constroem um modelo de desenvolvimento econômico orientado à expansão da competitividade e à promoção do emprego, mecanismo por excelência da inclusão social. Esta é a agenda do governo Dilma.

Em que país ele vive para afirmar que a política monetária teve êxito até aqui? No mesmo Brasil que tem praticamente um quadro de estagflação, com crescimento de 1% e inflação (real) perto de 8%? A insistência no erro é traço preocupante, e mostra como os petistas preferem ignorar a realidade a reconhecer seus equívocos.

O “desenvolvimentismo” é uma vez mais um retumbante fracasso. Dilma derrubou a taxa de juros na marra, fez uma celeuma com isso, posou de corajosa que enfrentava os banqueiros gananciosos, sob o alerta de vários economistas liberais, e agora colheu o fracasso. A taxa de juros voltou a subir, já está acima de quando ela assumiu, e mesmo assim a inflação continua em patamar extremamente elevado.

O poder da impressão de dinheiro artificial nas mãos do governo sempre foi um enorme risco para a liberdade e prosperidade dos povos. Esse poder foi utilizado de forma abusiva desde quando o imperador romano Diocleciano resolveu reduzir o teor metálico das moedas, fazendo com que perdessem valor real.

O governo perdulário usa a política inflacionária como um imposto disfarçado, já que propor aumento de impostos é sempre algo impopular. Não há transparência sobre os custos reais das medidas, e o governo se aproveita da ignorância das massas. O recurso inflacionário garante ao governo os fundos que ele não conseguiria captar por meio dos impostos diretos ou por emissão de dívida. Eis o verdadeiro motivo para uma política inflacionária. Seus defensores são inimigos do “dinheiro sólido” e, concomitantemente, da liberdade individual.

Um banco central independente é um primeiro passo para tentar blindar a gestão monetária desse risco e mitigar a tentação inflacionária do governo. O PT, defensor de um estado obeso, não tolera essa independência. Quer ter o controle da máquina de moedas, para se apropriar dos recursos alheios indiretamente. Os principais prejudicados são os mais pobres, que sentem a inflação no bolso e não têm como se defender.

O governo do PT criou esse quadro de alta inflação. E, ao que tudo indica, não acusa o golpe nem admite seu erro, preferindo insistir na política inflacionária e rejeitar a autonomia de fato do Banco Central. Em outubro, o eleitor terá a chance de dar um basta a essa política nefasta.

Rodrigo Constantino

 

Humor

O futebol socialista: a Copa do Mundo em 2030

Convidado de honra acena para multidão de voluntários

Estamos em 2030, e a Copa do Mundo será realizada na União dos Estados Bolivarianos, que engloba Venezuela, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador e, sim, Brasil. A Fifa, após receber bilhões de “argumentos” da cúpula da Unasul, financiados pela PDVSA, aceitou mudar todas as regras do jogo, para organizar a primeira Copa totalmente socialista.

Para começo de conversa, o salário de todos os jogadores deve ser igual. Sem essa de craques goleadores receberem milhões a mais só porque fazem o espetáculo mais incrível, atraindo milhões de espectadores extras. O nome do jogo é igualdade, não meritocracia.

Haverá cotas raciais também. Cada time deve ter um percentual de 20% de indígenas e mais 40% de afrodescendentes, apesar de alguns neoliberais terem argumentado que, no caso do futebol, talvez fizesse mais sentido adotar cotas para brancos.

Os árbitros gozam de total autonomia para intervir a qualquer momento no jogo se acharem que há muita desigualdade em campo. Podem, por exemplo, atribuir que um gol do time mais fraco vale dois do time mais forte, para equilibrar a partida. Podem também estipular que qualquer falta, mesmo fora da área, é pênalti para o time que estiver perdendo. Os fracos precisam ser protegidos.

Os jogos serão realizados em nada menos do que 20 “arenas”, construídas do zero com dinheiro público. O transporte oficial será o jegue, em nome da simplicidade, pois é pura babaquice da elite branca demandar metrô com acesso aos estádios. Só a comitiva dos governantes terá limousines e tapetes vermelhos à disposição, pois todos são iguais, mas alguns mais iguais que os outros.

Todos os torcedores terão de ir aos estádios vestindo roupas vermelhas, em homenagem ao socialismo redentor. Os Estados Unidos foram devidamente barrados da Copa, pois o imperialismo não combina com confraternização tão linda. Coreia do Norte e Irã são os convidados de honra.

Aos latino-americanos foi facultado o direito de morder os adversários, como medida compensatória pela vergonhosa decisão da Fifa em 2014, de punir o pobre jogador uruguaio só por ser de país colonizado em vez de colonizador e estar com fome durante o jogo, por culpa do capitalismo e dos ianques.

Ao término das partidas, foi decidido que não haverá um vencedor, o que seria um estímulo à meritocracia burguesa. Para impedir tamanha injustiça e fomentar o coletivismo igualitário, a final terminará empatada, e todos os times entrarão no gramado para receber o troféu Fidel Castro, simbolizando a vitória coletiva. Competição é coisa de capitalista insensível, afinal de contas.

Alertados pela Fifa para a possibilidade de retumbante fracasso de público, os organizadores bolivarianos já se comprometeram a criar o Bolsa Copa, distribuindo ingressos gratuitos nas comunidades carentes. Caso nem assim haja grande adesão, “médicos” cubanos foram contratados para garantir, com táticas modernas de persuasão da era Lênin, a presença de todos nos estádios.

Ainda bem que a Copa não é mais um evento capitalista e competitivo!

Rodrigo Constantino

 

Economia

As lições da Copa para a nossa economia

O ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco tem uma rara habilidade para um economista: consegue mastigar conceitos complexos de forma que os leigos no assunto possam compreender perfeitamente a mensagem. Foi o que fez com maestria em sua coluna de hoje, em que comparou a Copa com a economia e extraiu quatro lições muito importantes que podemos aproveitar para nosso desenvolvimento.

A primeira delas é a vantagem da globalização. Ao contrário do que dizem as esquerdas, a globalização não é um monstro, mas sim um instrumento poderoso e encantador, ao aproximar diferentes culturas e permitir um enriquecedor intercâmbio. Aproxima países menores e mais pobres de países ricos ou grandes, com benefícios mútuos.

Ficar de fora desse processo é letal, representa abrir mão de algo fantástico que pode impulsionar nosso avanço. O que vale para o futebol vale também para a economia. No entanto, o Brasil ainda é um país de economia extremamente fechada e protegida pelo estado da livre concorrência global. A abertura comercial traria para a economia as vantagens que vemos com a globalização do evento futebolístico.

A segunda lição é a competitividade. O futebol é uma atividade democrática, em que os menores podem, por meio de esforço e aprendendo as táticas dos maiores, jogar quase de igual para igual. Não há mais jogo fácil. As “zebras” comprovam isso. Quem diria que Costa Rica daria tanto trabalho? Ou o Chile? Ou Colômbia?

Os times ficaram mais parecidos, apesar de diferenças nas vantagens comparativas. A concorrência leva ao contínuo esforço pela melhoria da competitividade. Isso é um corolário do primeiro ponto, a globalização. Se os países adotassem um esquema de “conteúdo nacional”, e os jogadores não rodassem o mundo em um futebol cada vez mais internacional, teríamos apenas mediocridade em campo.

A terceira lição é o foco no consumidor. A Fifa tem mil defeitos, mas uma qualidade é inegável: ela sabe organizar um evento voltado para o público. Não podemos dizer o mesmo de nossos campeonatos organizados por cartolas, cujo público é uma preocupação secundária na melhor das hipóteses.

A Copa do Mundo é um evento feito para agradar ao grande público, que vai em busca de jogos emocionantes, com regras claras e impostas, para ver um resultado meritocrático com base no “fair play”, sempre que possível (errar é humano). Como diz Gustavo Franco:

A primazia do cliente, como os telões colocados nos estádios, é novidade por aqui. As imagens do público e suas emoções se juntam aos dribles e aos gols, pois tudo é parte do mesmo espetáculo. O telão é o “selfie” da multidão, matéria de grande interesse de todos, pois equaliza os anônimos às estrelas e coloca o público no interior da festa e da foto. Vale tudo pelo aplauso, e um público satisfeito significa bilheteria gorda, patrocínio abundante, e espetáculos cada vez melhores. Assim é a lógica da economia de mercado.

A quarta lição é o gasto público sem qualidade. O brasileiro se mostrou irritado com o alto custo do evento, em boa parte bancado pelo governo. Ficou ainda mais irritado com os “elefantes brancos” que não terão uso depois. O brasileiro comum pode agora ter uma clara visão do que os economistas condenam nas finanças públicas em geral, a falta de escrutínio, pois lida com recursos da “viúva”, os desvios, a falta de senso de prioridade quando se trata de recursos escassos. Nas palavras do autor:

Tudo se passa como se houvesse uma fonte brotando do solo, uma riqueza real ou simbólica inesgotável, uma pródiga mina de ouro ou poço de petróleo, quem sabe uma gaveta mágica na mesa do ministro da Fazenda, ou algum artifício contábil de multiplicação de pães, ou ainda uma viúva milionária, tola e disposta a assinar qualquer cheque que lhe for solicitado.

Com a Copa, o brasileiro pode compreender melhor o risco de se gastar dinheiro “sem dono”, especialmente em um país como o nosso, sem as instituições adequadas para mitigar os abusos por parte das autoridades.

Eis as quatro lições apontadas por Gustavo Franco: as vantagens da globalização, a importância da competitividade em um mundo meritocrático, o foco no cliente possível com o livre mercado, e os enormes riscos dos gastos públicos. “Em resumo”, diz Franco, “o legado econômico da Copa poderá ser muito rico se tivermos o descortino de tirar o devido proveito dos erros e dos acertos, sem as fanfarronices”.

Rodrigo Constantino

 

A taça é deles (e a conta é nossa), por Guilerme Fiuza (em O Globo)

País gastou com os estádios da Copa mais do que Alemanha e África do Sul juntas. Com brasileiro não há quem possa


Os pessimistas e a elite branca deram com os burros n’água: a Copa do Mundo no Brasil é um sucesso. A bola está rolando redondinha, os gramados estão todos verdinhos e o país chegou até aí batendo mais um recorde: gastou com os estádios da Copa mais do que Alemanha e África do Sul juntas. Com brasileiro não há quem possa.

Aos espíritos de porco que ainda têm coragem de reclamar do derrame sem precedentes de dinheiro público promovido pelos faraós brazucas, eis a resposta definitiva e acachapante: a Copa no Brasil tem uma das maiores médias de gols da história. Fim de papo. De que adianta ficar economizando o dinheiro do povo, evitando os superfaturamentos e as negociatas na construção dos estádios, para depois assistir a um monte de zero a zero e outros placares magros? Fartura atrai fartura. Depois da chuva de verbas, a chuva de gols. É a Copa das Copas. Viva Messi, viva Neymar, viva Dilma.

Está todo mundo feliz, e o país mais uma vez se renderá a Lula. O oráculo afirmou que era uma babaquice esse negócio de querer chegar de metrô até dentro do estádio. Que o brasileiro vai a jogo até de jegue. O filho do Brasil mais uma vez tinha razão.

O país teve sete anos para usar a agenda da Copa e investir seriamente em infraestrutura de transportes. Sete anos para planejar e executar uma expansão decente do metrô nas capitais saturadas, por exemplo — obras caras que dependem do governo federal. Ainda bem que nada disso foi feito, e as capitais continuaram enfrentando sua bagunça a passo de jegue. Seria um desperdício, porque todo mundo sabe que essa mania de querer chegar aos lugares de metrô é uma babaquice da elite branca. Felizmente, o dinheiro que seria torrado nessa maluquice foi bem aplicado nos estádios mais caros do mundo, entre outros investimentos estratégicos.

Agora a Copa deu certo, o brasileiro está sorrindo e a popularidade de Dilma voltou a subir — provando de uma vez por todas que planejamento sério é uma babaquice. O que importa é bola na rede.

Nos anos que antecederam a Copa das Copas, os pessimistas encheram a paciência do governo popular com a questão dos aeroportos. Mas o PT resistiu mais uma vez à conspiração dessa burguesia ociosa que reclama de tudo. E deixou para privatizar (que ninguém nos ouça) os aeroportos às vésperas da Copa. Foi perfeito, porque sobrou mais tempo para o bando da companheira Rosemary Noronha parasitar o setor da aviação civil, proporcionando aos brasileiros o que eles mais gostam: ser maltratados nos aeroportos em ruínas, se possível derretendo com a falta de ar-condicionado (o que Dilma chamou carinhosamente de “Padrão Brasil”).

Os pessimistas perderam mais essa. Na última hora, com um show vertiginoso de remendos e puxadinhos (Brasil-sil-sil!), os aeroportos nacionais não obrigaram nem uma única delegação estrangeira a vir para a Copa de jegue. Todas as seleções entraram em campo — a televisão está de prova. E, no que a bola rolou, quem haveria de memorizar detalhes insignificantes, como metade dos elevadores da Favela Antonio Carlos Jobim enguiçados, além de algumas esteiras e escadas rolantes interditadas, entre outros desafios dessa gincana Padrão Brasil?

Ora, calem a boca, senhores pessimistas. A Copa deu certo. A Rosemary também.

Quem vai cronometrar o tempo dos otários nas filas monumentais? Os cronômetros só medem a posse de bola. E bem feito para quem ficou preso nos engarrafamentos a caminho do estádio, de casa ou de qualquer lugar. Lula avisou para ir de jegue. Você ficou engarrafado porque é um membro dessa elite branca que contribui para o aquecimento global. Além de tudo, é ignorante, porque ainda não entendeu que o combustível no Brasil foi privatizado pelos companheiros e seus doleiros de estimação. Como diria o petista André Vargas ao comparsa Alberto Youssef, o petróleo é nosso.

Além de jegue e jabuticaba, o Padrão Brasil tem feriado. Muito feriado. Quantos o freguês desejar. Pode haver melhor legado que esse para a mobilidade urbana? Se todo mundo andar de jegue e ninguém precisar ir trabalhar, acabaram-se os problemas viários. Poderemos ter Copa todo mês. E os brasileiros não precisarão mais correr riscos com obras perigosas como os viadutos — que, como se sabe, desabam.

A Copa no Brasil tem tido jogos realmente emocionantes. É o triunfo do único inocente nessa história — o futebol. Viva ele. Os zumbis que ficavam gemendo pelas ruas que “não vai ter Copa” sumiram na paisagem do congraçamento das torcidas. Mas é claro que isso será entendido pela geleia geral brasileira como... gol da Dilma! É a virada dos companheiros, a vitória dos oprimidos palacianos sobre as elites impatrióticas etc. A taça é deles. E a conta é nossa.

Se você não suporta mais essa alquimia macabra, que faz qualquer sucata populista virar ouro eleitoral, faça como os atletas do Felipão: chore.

Guilherme Fiuza é jornalista

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

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