Skaf levou o tesão para a política. Ou: Por favor, senhores políticos! Tenham menos tesão por nós!

Publicado em 20/08/2014 09:04 e atualizado em 21/08/2014 14:47 1744 exibições
nos blogs de veja.com

Skaf levou o tesão para a política. Ou: Por favor, senhores políticos! Tenham menos tesão por nós!

Paulo Skaf, candidato do PMDB ao governo de São Paulo, decidiu levar — ai, ai, ai — o tesão para a política. No horário eleitoral gratuito, com cabelos cuidadosamente implantados e mais negros do que as asas da graúna — como disse José de Alencar de Iracema, a virgem dos lábios de mel —, Skaf decidiu não avançar na jugular de Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, porque certamente se lembrou de que o tucano tem, hoje, 55% das intenções de voto.

Obedecendo certamente a uma orientação da marquetagem, mandou bala: “Não tenho nada contra o governador Geraldo Alckmin. Ao contrário: acho educado, simpático, mas, sinceramente, não entendo seu estilo de governar. Meio frio, meio distante, que acha sempre que está tudo muito bom”. E acrescentou, referindo-se ao tucano: “Não enfrenta os problemas de São Paulo como se fosse um desafio pessoal. Com garra, com tesão, como se fosse a coisa mais importante”.

Hein? “Tesão”? Skaf parece disposto mesmo a ser o candidato da “moçada”, né? Cuidado com os marqueteiros, candidato! Se alguém sugerir ao senhor que use uma calça de cintura bem baixa, deixando à mostra o elástico da cueca, resista. Não iria pegar bem. Por que digo isso? Dia desses, nós o vimos repetir o lema do “Cumpâdi” Washington: “Não sabe de nada, inocente”. Passado mais algum tempo, foi ao ar um filminho parodiando aquela, digamos, “música” do lepo-lepo, óbvia metáfora do órgão genital masculino — também conhecido como “pênis”, numa expressão mais curtinha.

Ah, sim, claro! Podemos entrar numa pendenga linguístico-semântica — e terei muito prazer em fazê-lo se a tanto for convocado. “Tesão” também pode ser “ímpeto”, “intensidade”, “intrepidez”, “vontade”… Ora, quem não quer ser ambíguo escolheria, obviamente uma dessas palavras. Por que “tesão”? Acusei certa feita o machismo descabido de um colunista “progressista” que, sob o pretexto de atacar o dito reacionarismo de Sarah Palin, então candidata a vice na chapa do republicano John McCain à Presidência dos Estados Unidos, acusou-a de ser a “Boceta de Pandora”. Sim, “boceta” quer dizer “caixa”. E quer dizer também o que quer dizer, embora a palavra seja empregada, popularmente, com “u”. Como a evidente agressão era dirigida a uma mulher de direita, parecia tudo bem…

Mas retomo o fio. Recorre à palavra “tesão” quem está interessado no amplo espectro de seu sentido. E, aí, meus caros, sou obrigado a lembrar que quem governava com tesão — infelizmente para ele e quase que para os EUA — era Bill Clinton, né? Deixo claro! Prefiro que os governantes, homens e mulheres, tenham tesão, mas por seus respectivos parceiros, não pelo povo. Com alguma ironia, digo que, dada a frequência com que os políticos ferram o povo, o melhor seria que tivessem menos tesão por nós.

Mais decoro, senhor Skaf! Eu nunca o vi falar em “tesão” quando estrelava as propagandas institucionais do Sistema S. Ou o senhor diria que cuidava das escolinhas da instituição com “tesão”? Não ficaria bem! Se a palavra era descabida quando o senhor presidia a Fiesp, por que seria adequada quando se candidata a um cargo público?

Definitivamente, não é por aí.

Por Reinaldo Azevedo

Duda testou antes o “tesão” de Skaf

Skaf: já tem a resposta

Skaf: Alckmin é simpático, mas…

Paulo Skaf estreou oficialmente hoje a palavra “tesão” numa campanha eleitoral. Olhando para a câmera em seu programa eleitoral, Skaf mandou ver:

- Não tenho nada contra o governador Geraldo Alckmin. Ao contrário, acho educado, simpático, mas sinceramente não entendo seu estilo de governar. Meio frio, meio distante (…), não enfrenta os problemas de São Paulo como se fosse um desafio pessoal, com garra, com tesão…

Parece um gesto ousado, destinado a espantar os conservadores. Mas o texto de Duda Mendonça foi testado em várias pesquisas qualitativas para grupos a quem o comercial foi mostrado – e aprovado.

Por Lauro Jardim

 

O PT esquece o futuro e recicla até as imagens da campanha de 2010. Ou: Dilma Coração Valente suja o avental de ovo… Estamos fritos!

no blog de Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

Começou nesta segunda o horário eleitoral gratuito, como todos sabemos. O PSB fez o óbvio e apresentou Eduardo Campos como o profeta que já não está entre nós, mas que deixou uma mensagem. Ao fundo, a música “Anunciação”, do pernambucano — talentoso! — Alceu Valença: “O teu cavalo/ Peito nu, cabelo ao vento/ E o sol quarando/ Nossas roupas no varal (…) Tu vens, tu vens/ Eu já escuto os teus sinais”. O erotismo meio místico da canção, com a imagem de Campos ao fundo, assumiu um novo conteúdo, agora com tinturas messiânicas… Logo, Marina Silva é que será a cavaleira. E vai anunciar o quê? Só Deus sabe, se é que sabe.

O tucano Aécio Neves preferiu dedicar seus quatro minutos a um diagnóstico sobre o país, chamando a atenção para a piora, que é real, da economia. Sua voz chegava a telespectadores e a ouvintes inicialmente distraídos. Aos poucos, na propaganda do PSDB, começavam a prestar atenção ao que dizia o candidato. Ainda desconhecido de parcela significativa da população, a ideia é deixar claro que há alguém dizendo uma novidade. Vamos ver.

O PT dispõe de tanto tempo na televisão que parece ter alguma dificuldade para preenchê-lo. Em maio, o partido levou ao ar a sua propaganda no horário político gratuito. Era um troço ameaçador. Comparava o Brasil de hoje, em que tudo seria uma maravilha, o que é falso, com aquele governado por FHC, quando tudo teria sido uma tragédia, o que também é falso. Escrevi, então, uma coluna na Folha em que observei o seguinte: “Depois de quase 12 anos no poder, o PT não tem futuro a oferecer. Por mais que o filminho de João Santana tenha as suas espertezas técnicas, a verdade é que a peça terrorista revela o esgotamento de uma mitologia”.

E foi, em parte, o que se viu nesta terça, na estreia do horário eleitoral. O maior partido do país não vai além de repetir velhas promessas. Na prática, admite que o governo vai mal, mas jura que vai melhorar se reeleito. Por que Dilma faria depois o que não faz agora? A campanha publicitária não diz. Quem se encarregou de sintetizar a mensagem foi Lula, afirmando que o seu segundo mandato foi melhor do que o primeiro.

Atenção! Não é verdade, sob qualquer aspecto, que os quatro anos finais da gestão Lula tenham sido melhores do que os quatro iniciais. Muito pelo contrário. O desajuste da economia que está em curso é uma herança do segundo governo Lula, piorada pela gestão Dilma. Sem um horizonte a oferecer, restou à campanha da presidente Dilma reciclar até as imagens do passado.

Abaixo, há dois vídeos. O primeiro tem 10min39s e traz a propaganda eleitoral levada ao ar no dia 17 de agosto de 2010. O outro tem 2min10s e é um clip com o jingle “Dilma, Coração Valente”, da campanha deste ano. Vejam. Volto em seguida.

Campanha de 2010

Campanha de 2014

A peça publicitária de 2014 traz um fundo musical novo para imagens da campanha de 2010. Quem chamou a minha atenção para a repetição foi o jornalista Clayton Ubinha, que integra a equipe do programa “Os Pingos nos Is”, que vai ao ar todos os dias na rádio Jovem Pan, entre 18h e 19h. Vejam estes pares de imagens (a primeira é sempre da campanha passada; a segunda, da deste ano).

2010 cena 1

2014 cena 1

2010 cena 2

2014 cena 2

2010 cena 3

2014 cena 3

2010 cena 4

2014 cena 4

2014 cena 5

2010 cena 5

2010 cena 6

2014 cena 6

2010 cena 7

2014 cena 7

Há quatro anos, como se pode constatar, Dilma era oferecida ao eleitorado como a mãe do povo, a quem o pai, Lula, entregaria o país. Agora, em tempos em que a economia está mais para a madrasta da Gata Borralheira, a imagem da mãe já não cola. Então que se recupere a guerreira — “a Dilma Coração Valente” — lutando contra os dragões da maldade. Mas, vocês sabem, é preciso endurecer sem perder a ternura, como diria Che Guevara, o tarado por sangue. Então João Santana houve por bem mostrar a presidente na cozinha, fazendo um macarrãozinho…

Mensagem: a Coração Valente também pode ser “a mamãe com o avental todo sujo de ovo”, como na música Herivelto Martins, David Nasser e Washington Harline.

Ovo? Tomara não estejamos todos fritos.

Texto publicado originalmente às 5h11

Por Reinaldo Azevedo

Televisão

Com o início do horário eleitoral, canais pagos encostam na Globo em audiência

Dilma com a mão na massa

Dilma com a mão na massa

horário eleitoral gratuito não é só um tormento para os telespectadores. As TVs abertas também arrancam os cabelos. Além do fiasco dos programas eleitorais em termos de audiência, ontem à tarde (leia mais aqui), o que aconteceu ontem à noite antecipa o comportamento do brasileiro nos próximos dois meses.

Aos números; de acordo com o Ibope, na Grande São Paulo os canais pagos pularam de 8,2 pontos na segunda-feira para 16,4 pontos – dobraram sua audiência, portanto. Encostaram na Globo, que caiu muito durante a exibição dos programas eleitorais, e registrou 17,3 pontos. (À tarde, os canais pagos somados subiram dos 6,4 pontos na segunda-feira para 8,9 pontos ontem).

Ou seja, no horário de maior concentração de audiência – e faturamento das emissoras – os eleitores que puderam mudaram de canal.

Ninguém dentro das redes abertas duvida que seus números ainda têm fôlego para piorar ainda mais.

Por Lauro Jardim

 

TSE cassa liminar que punia consultoria por fazer uma avaliação crítica a Dilma. O estado de direito ainda respira!

Salve! Admar Gonzaga, ministro do TSE, havia decidido restaurar a censura no país, mas o ministro Gilmar Mendes, que também integra a corte eleitoral, pôs os devidos pingos nos is e nos devolveu ao ambiente democrático, no que foi seguido por quatro outros membros do tribunal. Explico.

Circulavam como propaganda paga na Internet dois textos da consultoria Empiricus com os seguintes destaques: “Que ações devem subir se o Aécio ganhar a eleição? Descubra aqui, já” e “Saiba como proteger seu patrimônio em caso de reeleição da Dilma”. Muito bem. A coligação “Com a Força do Povo”, que tem a petista Dilma Rousseff como candidata à reeleição à Presidência, recorreu ao TSE, acusando suposta propaganda veiculada na internet com conteúdo negativo contra a petista e positivo para Aécio.

O ministro Admar Gonzaga concedeu uma liminar em favor dos reclamantes porque considerou que houve, sim, excesso nas expressões utilizadas nos anúncios, determinando que o conteúdo fosse retirado do ar e aplicando ainda uma multa de R$ 5 mil à Empiricus. A empresa recorreu ao TSE e venceu por um placar muito eloquente.

Gonzaga reafirmou o conteúdo de sua liminar na votação desta terça e voltou a defender as punições. Para ele, a publicidade não só menciona o pleito futuro, por meio de propaganda paga na internet, como também faz juízos positivo e negativo sobre dois candidatos à Presidência. Viu ainda uma “clara estratégia de propaganda subliminar”. Felizmente, só a ministra Laurita Vaz endossou o seu ponto de vista.

Quem abriu a divergência e deu o primeiro voto contra a liminar que impunha a censura foi o sempre excelente ministro Gilmar Mendes. Com absoluta propriedade, afirmou: “Não vamos querer que a Justiça Eleitoral, agora, se transforme em editor de consultoria”. O ministro disse ainda temer que “esse tipo de intervenção da Justiça Eleitoral em um tema de opinião venha a, realmente, qualificar uma negativa intervenção em matéria de livre expressão”. E concluiu de maneira irrespondível: “Tentar tutelar o mercado de ideias não é o papel da Justiça Eleitoral”. Seguiram o seu voto os ministro Luiz Fux, João Otávio de Noronha, Luciana Lóssio e Dias Toffoli, presidente do tribunal.

Que bom que o estado de direito ainda respira, não é mesmo? O PT havia apelado ao TSE com base na Lei Eleitoral, a 9.504. A depender da interpretação que se queira dar a esse texto, o país fica praticamente impedido de debater publicamente questões que digam respeito à política justamente quando isso se faz mais necessário: durante as eleições. É uma sandice e uma piada.

Mendes e os outros quatro ministros puseram as coisas no seu devido lugar.

Por Reinaldo Azevedo

Política & Cia

Irritação de petistas contra consultoria que classificou de “medíocre” o governo Dilma é ridícula — e altamente medíocre

Ilustração: desmotivar.com

Ilustração: desmotivar.com

Não resisto e preciso comentar o impacto que teve na cúpula do PT um relatório enviado pela consultoria econômica Rosenberg Associados a clientes — repito, a CLIENTES — em que, mirando o cenário da eleição presidencial antes da morte de Eduardo Campos, a empresa chegava à conclusão que, “visto de hoje”, o cenário mais provável seria a reeleição de Dilma.

E a eventual reeleição foi classificada como “a continuidade da mediocridade, do descompromisso com a Lógica, do mau humor prepotente do poste que se transformou em porrete contra o senso comum”.

Grotescamente, figuras do PT “acusaram” a Rosenberg Associados de se “alinhar à oposição”. O vice-presidente do partido, deputado José Guimarães (CE) — aquele do assessor dos dólares na cueca — chegou a proferir a estupidez segundo a qual a empresa, dirigida pelo economista Luís Paulo Rosenberg, ex-assessor econômico da Presidência durante o governo Sarney (1985-1990) e ex-vice-presidente de marketing do Corinthians, “é mais uma das empresas de consultoria que estão a serviço das teses neoliberais encabeçadas pelo PSDB”.

O que é que gente do PT tem a ver com que uma consultoria escreve para seus clientes — bancos, grandes empresas do setor alimentício, empresas petroquímicas e outros gigantes?

Esse espernear é patético, ridículo e… medíocre.

A economista-chefe da Rosenberg Associados, Thaís Zara, responsável pela análise, compartilhada por três outros colegas, respondeu com simplicidade à Folha de S. Paulo, dizendo o óbvio: o texto foi feito para clientes, que “pagam pela nossa independência”.

Ou seja, a linguagem eventualmente desabrida que possa ser utilizada pela consultoria, embora baseada em dados concretos (como as pesquisas de intenção de voto e os números do desempenho econômico do governo) é um exercício da plena liberdade de opinião assegurado pela Constituição — e pelo jeito agrada aos clientes. Caso contrário, já teria sido alterada.

E não custa lembrar que quem criou o termo “poste” para candidatos que ele jura que elege foi o próprio Lula.

Os petistas certamente implicaram com outro trecho do documento em que, analisando o quadro eleitoral em São Paulo — onde o candidato do partido, Alexandre Padilha, está atolado em 5% dos votos e mendiga à Rede Globo mais cobertura de suas andanças à cata de eleitores –, diz, a certa altura, que o Estado “tem tudo para continuar sendo o bastião da resistência ao bolivarianismo, com uma provável vitória convincente do tucano [Geraldo] Alckmin”.

A respeito do titular do Palácio dos Bandeirantes, o texto diz ser “muito profunda a admiração do povo pelo seu governador discreto”.

(por Ricardo Setti)

Após 42 anos, Míriam Leitão revela as torturas assombrosas que sofreu durante a ditadura e questiona o ministro da Defesa sobre as ações do Exército

(Fotos: Reprodução/GloboNews)

Em entrevista feita em junho, Míriam Leitão confronta Celso Amorim, o homem agora responsável pelas Forças Armadas (Fotos: Reprodução/GloboNews)

A REPÓRTER PERGUNTA, O MINISTRO GAGUEJA

Por Luiz Cláudio Cunha

A mulher serena na frente do homem inquieto. A repórter experiente perante a autoridade calejada. A entrevistadora firme ante o ministro gelatinoso. A profissional de imprensa olho no olho com sua fonte.

Uma brasileira, presa e torturada na ditadura, frente a frente com o ministro da Defesa que hoje comanda o Exército que ontem, na ditadura, prendeu e torturou a mulher, a repórter, a jornalista, a brasileira que o questionava (leia abaixo o depoimento inédito de Míriam Leitão sobre as torturas que sofreu).

Esse dramático confronto de 22 minutos brilhou na tela da TV numa noite de quinta-feira, no final de junho passado, quando a jornalista Míriam Leitão, 61 anos, fez para a GloboNews uma notável entrevista com o ministro da Defesa, Celso Amorim, 72 anos.

Viu-se então uma aula prática do melhor jornalismo, confrontando a convicção com a dúvida, a energia com a tibieza, o categórico com o evasivo, a verdade com a mentira. A repórter se agigantando num diálogo em que o ministro se apequenava, acuado, hesitante, gaguejante.

Míriam fez o que o resto da grande imprensa, acomodada e preguiçosa, não fez. Foi a Brasília ouvir o chefe civil dos militares, apenas nove dias após a entrega à Comissão Nacional da Verdade (CNV) de uma insossa, imprestável sindicância de quatro meses realizada pelos três comandantes das Forças Armadas (FFAA).

Diante de questões objetivas com nomes, datas e locais de mortes e torturas apontadas pela CNV, os chefes da tropa responderam, num catatau de 455 páginas, que não registravam nenhum “desvio de finalidade” em sete centros militares do Exército, Marinha e Aeronáutica onde foram meticulosamente documentados casos de graves violações aos direitos humanos pelo regime militar de 1964-1985.

Os oficiais-generais das três Armas simplesmente negaram a ocorrência de abusos até mesmo nos sangrentos DOI-CODI da Rua Tutoia, em São Paulo, e da Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, onde a CNV já constatou pelo menos 81 mortes por tortura. Os comandantes esqueceram até dos 22 dias de suplício no DOI-CODI paulistano a que sobreviveu em 1970 uma guerrilheira chamada Dilma Rousseff, hoje casualmente presidente da República e, como tal, comandante-suprema dos generais que omitem a crua verdade sobre a ditadura das FFAA.

(PARA CONTINUAR LENDO, CLIQUEM AQUI)

LEIAM TAMBÉM:

COMISSÃO DA VERDADE: Afinal, quem mente? Dilma ou os generais?

It’s the economy, stupid!… Só falta explicar

O pai de família Israel Araújo, de 41 anos, trabalha como pedreiro numa cidade de 50 mil habitantes do interior de Minas — o Estado que Aécio Neves governou e de onde, costuma lembrar, saiu com 92% de aprovação.

Em outubro, seu Israel, como é conhecido, pretende votar em Dilma Rousseff.Israel Araujo

“Acho que ela está dando um bom seguimento ao governo do Lula,” disse ele à coluna em duas horas de conversa. “Não é tão bom quanto o do Lula, mas é bom.”

Apesar dos avanços dos outros dois candidatos e de seus próprios tropeços — como sua aparição de ontem no Jornal Nacional — a Presidente Dilma continua sendo a favorita para outubro, evidenciando a dificuldade da oposição em comunicar à maioria da sociedade, com eficácia, os problemas econômicos que se avolumam após 11 anos e meio de PT no poder.

A crítica à política econômica de Dilma é conhecida de quem lê os jornais e paga impostos: a economia crescequase nada, a inflação está assanhada há anos, o gasto público explodiu, e os empresários só investem se forem ‘loucos’ (segundo um dos mais governistas da classe). Por fim, o partido que está no poder inspira dúvidas sobre seu compromisso com as liberdades individuais, o que afeta o ambiente econômico no longo prazo.

Seu Israel, no entanto, vê a coisa de forma diferente.

A coluna perguntou por que ele aprova o Governo Dilma. Em vez de apontar uma ou outra iniciativa do governo, Israel emitiu um veredito sobre os últimos 10 anos: “O brasileiro hoje come melhor do que uns 10 anos atrás. A alimentação melhorou muito. Antes o café da manhã era só um cafezinho mesmo, hoje já tem pão, leite, manteiga…”

Seu Israel, que mora no alto de um morro na periferia da cidade, tem uma renda mensal de 1.800 reais, além dos 60 reais que recebe do Bolsa Família para um de seus três filhos, a menina de oito anos. (O mais velho já saiu da idade elegível, e o do meio, de 16, foi cortado do programa por não ter ido à escola regularmente).

Dilma RousseffNas eleições majoritárias, a busca da vitória é uma cruzada pelo Santo Gral do Mínimo Denominador Comum e pelo convencimento do “homem médio”, aquele centro de gravidade onde se sedimentam os raros consensos sociais, que então se transformam em mandatos e legitimidade.

Na campanha que elegeu Bill Clinton em 1992, o marketeiro James Carville fez história ao cunhar a expressão: “It’s the economy, stupid!“. Tudo que Clinton tinha que fazer era explorar o PIBinho de George Bush.

Mas com o Brasil ainda próximo do pleno emprego, a inadimplência ainda em patamares razoáveis e os ganhos de consumo da nova classe média ainda criando uma sensação de bem estar, a tarefa da oposição é mais difícil:  falar dos problemas que ainda não estão à vista de muitos — mas que irão complicar a vida de todos a partir do ano que vem.

Seu Israel, o “homem médio” a ser convencido, entende de racionalidade econômica. Antes de se tornar pedreiro, ganhava a vida como pintor, mas resolveu mudar de profissão porque “todo mundo que perdia o emprego virava pintor, e aí não dava pra tirar a mesma coisa que antes”, disse ele. Além disso, a pintura de um apartamento dura apenas alguns dias, enquanto uma obra qualquer o mantem empregado por muitos meses.

Apesar de tomar decisões econômicas racionais, ele não consegue analisar a política econômica sob a mesma ótica.

A coluna perguntou a seu Israel se ele estava incomodado com a inflação e quem era responsável por isso. Sua resposta: “Acho que isso aí são os grandes empresários”.Aécio Neves

Um banqueiro que acredita que Dilma será reeleita diz: “O boomeconômico ainda não acabou, pelo menos na cabeça das pessoas. Ela foi eleita pelo boom e vai ser reeleita por isso. Você tem uma deterioração [da economia], e quem é mais sofisticado vê isso, mas essa piora ainda não é determinante para o povão.”

A cabeça do seu Israel é, assim, o campo de batalha onde as chances de vitória da oposição exigem o melhor do marketing político.

Como converter o voto deste brasileiro médio, mais decisivo para o resultado das urnas do que os partidários que fazem a guerrilha diária nos blogs, no Twitter e no Facebook?

Marina SilvaComo mostrar para seu Israel que o bem-estar que ele sente hoje foi comprado com uma hipoteca sobre o futuro — e, pior, que a conta está prestes a chegar?

Como falar para este trabalhador sobre os esqueletos dos juros subsidiados, a distorção de preços que existe hoje na economia, como explicar que a inflação já está fazendo o trabalho que as políticas fiscal e monetária não fizeram, e que, se o rumo atual for mantido, sua renda amanhã será menor que a de hoje?

Os economistas sempre disseram que a grande dúvida desta eleição é se a economia vai enfraquecer rápido o suficiente para expor as más escolhas econômicas do Governo Dilma, e com isso virar o jogo… ou se a Presidente vai escapar por pouco.

Com as últimas pesquisas e o ‘fenômeno Marina’, muita gente já acha que a Era Dilma está chegando ao fim, mas, por via das dúvidas, convém combinar com seu Israel.

Por Geraldo Samor

Tags:
Fonte:
Blogs de veja.com.br

0 comentário