Graça Foster, há dois anos: “Compre mais ações da Petrobras”...

Publicado em 10/12/2014 09:55 e atualizado em 13/12/2014 06:37 1339 exibições
Rodrigo Constantino: "Sabemos que o PT vem aparelhando toda a máquina estatal, inclusive o STF, pois tem consciência de que é preciso dominar a Corte Suprema para instaurar de vez o bolivarianismo no Brasil".

Graça Foster, há dois anos: “Compre mais ações da Petrobras”

Dois anos depois, tudo piorou

Dois anos depois, tudo piorou

Há pouco mais de dois anos, mais precisamente no dia 11 de setembro de 2012, Graça Fosterdeclarou, durante uma audiência pública nas comissões de Assuntos Econômicos e de Serviços de Infraestrutura do Senado, que o valor das ações da empresa “era constrangedor”. Beleza.

Só que naquele dia, a ação ordinária da Petrobras valia 22,48 reais. Hoje, vale 10,42, menos da metade.

 

Que adjetivo Graça balbuciaria hoje para descrever a situação? Vergonhoso, vexaminoso… Sinônimos não faltam. Falta comando.

 

Na mesmo dia e diante dos mesmos senadores, Graça ainda teve tempo para dar um péssimo conselho aos brasileiros:

- O que posso dizer para os acionistas é: compre mais ações da Petrobras. Trabalhamos muito para atender as metas.

 

E ousar fazer previsões:

 

- Estamos construindo, nos próximos quatro anos, uma outra Petrobras.

 

Talvez estivesse se referindo ao Petrolão…

Por Lauro Jardim

 

Petrobras atinge menor valor relativo aos pares desde o começo da era petista

As ações da Petrobras continuam derretendo em bolsa, e valem pouco mais de R$ 10 agora, o que representa um valor de mercado de aproximadamente R$ 135 bilhões. Enquanto isso, a dívida da empresa segue como o único item que realmente cresce na estatal, e já chega a quase R$ 250 bilhões. O PT está literalmente destruindo a maior empresa do país.

Alguns podem argumentar que se trata de fenômeno exógeno, que tem ligação com a queda do preço do petróleo. Não é verdade. A destruição da Petrobras começou muito antes, e a estatal já vinha perdendo bilhões de valor mesmo com o preço da commodity estável. A recente queda acentuada do barril do petróleo veio adicionar lenha na fogueira, mas esta já vinha queimando há anos, por incompetência da gestão, interferência política e escândalos de corrupção.

A melhor forma de verificar isso é comparar a ação da Petrobras com a de seus pares, para tentar isolar o fator petróleo. O XLE é justamente o índice que reúne as empresas americanas de petróleo, uma cesta que conta com a presença de gigantes como Exxon Mobil, Chevron e ConocoPhillips. Se a Petrobras perde valor em relação ao XLE, então é porque algo a mais explica seu mau desempenho além do petróleo. Eis o resultado desde o começo da era PT:

Petrobras (PBR) x XLE. Fonte: Bloomberg

Petrobras (PBR) x XLE. Fonte: Bloomberg

Como podemos observar, o gráfico mais parece a Torre Eiffel, especialmente entre 2007 e 2012. Esse gráfico ilustra bem o que foi a “bolha Brasil”, que culminou exatamente com o começo da gestão do ex-presidente Lula. O ciclo de alta das commodities, puxado pelo crescimento chinês e os estímulos monetários do Federal Reserve, coincidiu com o mandato de Lula com incrível sincronia.

Houve um rápido momento de “crash” em 2008, mas a reação dos bancos centrais dos países desenvolvidos, com novas rodadas agressivas de estímulo, e também do governo chinês, fez com que a bolha dos emergentes tivesse sobrevida. O ano de 2010 marcou o ápice desse oba-oba, como podemos ver no gráfico.

Dali em diante foi ladeira abaixo. A Petrobras só fez perder valor em relação ao XLE. Do pico ao valor atual, que é também o mínimo, a estatal brasileira perdeu incríveis 88% em termos relativos! Foi dizimada, pulverizada, completamente destruída. O gráfico somente a partir de 2010 deixa essa trajetória mais clara:

Petrobras (PBR) x XLE. Fonte: Bloomberg

Petrobras (PBR) x XLE. Fonte: Bloomberg

Qual será o fundo do poço? Será que ainda é possível reverter o quadro? Alguns especialistas recomendam que os investidores não vendam suas ações na baixa, mas quem seguiu esse conselho até então só perdeu. Afinal, a baixa só vem aumentando.

Com o enorme programa de investimentos da Petrobras, o patamar já assustador de dívida, e os riscos crescentes com os escândalos de corrupção e as investigações, inclusive nos Estados Unidos, nada indica que esse curso será interrompido logo, tampouco revertido.

Graça Foster, que espantosamente ainda não caiu do comando da empresa (só no Brasil do PT mesmo), disse em setembro, durante uma audiência pública nas comissões de Assuntos Econômicos e de Serviços de Infraestrutura do Senado, que o valor das ações da empresa “era constrangedor”. Como lembra Lauro Jardim, naquele dia, a ação ordinária da Petrobras valia R$ 22,48. Hoje, vale R$ 10,42, menos da metade.

Constrangedor ao quadrado, portanto? O que realmente é constrangedor é observar a destruição da maior empresa brasileira, outrora orgulho nacional, por um bando de incompetentes e ladrões. Para realmente impedir o trágico desfecho disso e resgatar o valor da empresa, só resta mesmo uma saída: sua privatização. As empresas que compõem o XLE, aliás, são todas privadas…

Rodrigo Constantino

 

Ministro da Justiça age como militante partidário de olho no STF

Cardozo: ministro da Justiça ou advogado do PT?

Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, sugeriu nesta terça-feira a demissão coletiva da diretoria da Petrobras, além de alertar que “a resposta àqueles que assaltaram a Petrobras será firme, na Justiça brasileira e fora do país”. Faz todo sentido. Afinal, o escândalo da estatal foi por ele chamado de “incêndio de grandes proporções”. Qualquer caso de corrupção semelhante a este em um país mais sério teria levado a uma troca imediata do comando da empresa, mas no Brasil, Graça Foster continua blindada pelo governo.

Na segunda-feira foi a vez de o ministro chefe da Controladoria-Geral da União (CGU) Jorge Hage se despedir do cargo lamentando que as estatais brasileiras estejam protegidas dos controles governamentais, fora do sistema de acompanhamento de gastos das contas oficiais. Novamente, criou embaraço para o governo Dilma.

Mas eis que seu ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, resolveu atuar como defensor do governo e do PT, ignorando uma vez mais sua função republicana. Como resume Merval Pereira em sua coluna de hoje, foi um “vexame”. Cardozo só viu motivos para contestar a declaração de Janot após falar com a presidente Dilma, convocando uma coletiva de imprensa para defender Graça Foster. Merval vai direto ao ponto:

Mais uma vez o ministro da Justiça foi obrigado a sair de seu papel institucional para atuar em um campo que não diz respeito a seu cargo, defendendo diretores de uma estatal ou, como fez outro dia, defendendo o próprio Partido dos Trabalhadores das acusações de ter recebido doações com dinheiro desviado da Petrobras.

Nos dois casos, Cardozo atuou como partidário, e não como uma autoridade da República. O perigo dessa conduta é levantar a suspeição de que esteja agindo assim para se colocar como candidato a uma indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF), o que transformará sua indicação pela presidente Dilma em um aparelhamento partidário semelhante ao que já aconteceu com a indicação de Dias Toffoli pelo presidente Lula.

Até as pedras sabem que Cardozo é cotado para o STF. Esse tipo de conduta, em qualquer país sério ou em um governo diferente, seria visto não como lealdade a ser recompensada, mas como indício claro de que não serve para o cargo cobiçado. Um ministro do STF deve ser alguém que preza, acima de tudo, a República, a Constituição, os interesses do Estado, não de um partido.

Cardozo tem uma longa trajetória de afinidades ideológicas com a esquerda radical. Foi figura carimbada em encontros do Foro de São Paulo, representando o PT nas reuniões com defensores das Farc e bajuladores da ditadura cubana. Aqui dá para ter uma breve ideia do que rola nesses encontros, com a presença de Cardozo:

Sabemos que o PT vem aparelhando toda a máquina estatal, inclusive o STF, pois tem consciência de que é preciso dominar a Corte Suprema para instaurar de vez o bolivarianismo no Brasil. Já conseguiu colocar alguns petistas disfarçados de ministros lá, pois o Congresso dormia na sabatina ou fora comprado.

Espera-se que desta vez seja diferente. O cargo de ministro do STF é sério demais para ficar nas mãos de um petista típico, desses que confunde partido com governo e governo com estado. Cardozo não se mostra à altura do cargo, pois tenta mostrar lealdade ao governo, até mesmo defendendo a gestão incompetente da Petrobras, no mínimo negligente, em vez de mostrar respeito às funções republicanas de seu cargo. Que fique longe do STF, para o bem do Brasil!

Rodrigo Constantino

 

 

 “playboyzinho” contra o “cafajeste”: a oposição despertou

Gilberto Carvalho

O PT é mestre em nos apresentar figuras pitorescas, daquelas que precisam ser digeridas com o auxílio de um bom remédio estomacal. Mas mesmo em ambiente tão competitivo, é inegável que o ministro Gilberto Carvalho se destaca. Representante dos “movimentos sociais” dentro do governo, homem da confiança de Lula, Carvalho é uma das presenças mais lamentáveis em Brasília. Quando ataca alguém, isso conta como pontos positivos no currículo do alvo.

Foi o caso agora, quando Carvalho disse que “morria de medo” de uma eventual vitória do “playboyzinho”, referindo-se ao senador Aécio Neves, líder da oposição, presidente do PSDB, e alguém que recebeu o voto de 51 milhões de brasileiros. Carvalho é (ainda) ministro de Estado, e fez essa declaração chula, repetindo seu mentor, o ex-presidente Lula, que chamou o tucano da mesma coisa durante a campanha.

Os petistas insistem nessa tentativa de pintar os tucanos como elitistas, usando o termo pejorativo “playboy”, para que possam preservar a velha imagem de “homens do povo”. Só tem um detalhe: todos os petistas da alta cúpula estão podres de rico, são milionários, possuem coberturas triplex para veraneio, acumularam milhões com “consultorias”. São os “magnatas do capital alheio”, bebem os melhores vinhos, vivem a vida como nababos. Tudo isso à custa do povo.

Não há nada mais patético do que “acusar” o adversário de ser um “playboy”, tentando, assim, fugir de qualquer debate sério calcado em argumentos. É a antiga tentativa de monopolizar as virtudes, os fins nobres. Só o PT se preocupa com os mais pobres, é o que pretendem dizer. E Carvalho “morria de medo” da vitória de Aécio pois iria romper essa simbiose entre sociedade (povo) e governo. O ministro ignora que a simbiose atual é entre empreiteiras e corruptos!

Mas dessa vez os petistas têm pela frente um tucano diferente, que não passa recibo e não leva desaforo para casa. Aécio rebateu o ataque de Carvalho, inclusive trazendo à tona o caso Celso Daniel, a eterna sombra que paira sobre o petista:

Os termos que o ministro se referiu a um senador da República e presidente de um partido só confirma sua baixa estatura política. Mesmo depois de 12 anos como ministro, a principal marca da biografia do senhor Gilberto Carvalho será sempre seu envolvimento com as graves denúncias de corrupção em Santo André, que culminaram com o assassinato do prefeito Celso Daniel, ainda não esclarecido.

E ainda aproveitou para alfinetar:

O ministro Gilberto Carvalho tem mesmo razões para ter medo. Temia que seu eu fosse eleito, eu iria acabar com a corrupção, colocar ordem no País e acabar com as boquinhas do seu partido, em especial a dele próprio.

Já o senador Aloysio Nunes, que foi candidato a vice na chapa de Aécio e é o líder do PSDB, subiu mais ainda o tom, irritado:

Trata-se de um cafajeste! O fato de um ministro de estado se referir nesses termos a um senador e presidente de partido reflete bem o baixo nível do governo Dilma. Eu não sei de que ele tinha medo, se Aécio ganhasse. Mas ele sabe onde o rabo dele está preso. Especula-se muito sobre isso.

Outros opositores mais aguerridos também não deixaram barato: “O medo do ministro Gilberto Carvalho é que a presidente Dilma Rousseff faça uma delação premiada”, disse o líder do PSDB na Câmara, Antônio Imbassahy; “É melhor ser chamado de playboyzinho do que de homem do carro preto que fazia a coleta da propina em Santo André”, disse Ronaldo Caiado. 

Como fica claro, o “cafajeste” agora precisa enfrentar a reação dos amigos do “playboyzinho”. As pessoas perderam o medo do PT. Nem mesmo a sombra do caso Celso Daniel é capaz de intimidar a oposição que, ao que tudo indica, finalmente despertou de sua sonolência.

Rodrigo Constantino

 

 

A verdadeira raiz da corrupção

Esse tema retorna o tempo todo, pois há uma clara campanha pela “reforma política”, que inclui principalmente o financiamento público das campanhas eleitorais. Vários “especialistas” têm repetido que a principal causa da corrupção é o financiamento privado das empresas, que demandariam uma contrapartida depois. Pronto: nasce a corrupção!

Foi o caso de Marcus Vinicius Furtado Coêlho, presidente nacional da OAB (oficialmente Ordem dos Advogados do Brasil, e para alguns Ordem dos Advogados Bolivarianos), em artigo publicado hoje no GLOBO. Coêlho culpa as empresas pelos escândalos de desvio de recursos públicos. Diz ele:

Além da profunda investigação dos fatos ilícitos, temos que enfrentar a tarefa de pôr fim aos estímulos sistêmicos à prática da corrupção, e o financiamento empresarial de campanhas eleitorais é o incentivo principal.

O Brasil necessita de uma urgente reforma política democrática e republicana. O atual sistema eleitoral torna as eleições brasileiras caríssimas. O financiamento de campanhas por empresas privadas cria uma sobreposição venenosa entre política e interesses empresariais, e precisa ser urgentemente extirpado das eleições.

Trata-se de visão equivocada, a meu ver. Em primeiro lugar, alivia para o lado dos corruptos, dos diretores e gerentes de estatais que aparecem com US$ 100 milhões na Suíça, ou tesoureiros que financiam seus partidos com recursos que deveriam ser usados para investimentos no país.

Culpar o financiamento privado é atacar o sintoma e ignorar a verdadeira causa. Afinal, essas empresas já financiam o caixa dois dos partidos, ou seja, boa parte das verbas que destinam para os políticos já sai “por fora”.

No mais, já temos financiamento público por meio de “horário gratuito” e “fundo partidário”, obrigando cada trabalhador brasileiro a sustentar campanhas enganosas, marqueteiros maquiavélicos, difamação, terrorismo eleitoral, tudo, menos debates sérios sobre propostas.

Proibir o financiamento de empresas, portanto, em nada vai resolver nosso problema epidêmico de corrupção, câncer de nossa República. E qual é a verdadeira raiz da corrupção então? Como fazer para reduzi-la, uma vez que acabar totalmente com ela é tarefa impossível?

Vejo basicamente duas causas principais para a corrupção desenfreada: 1) impunidade; 2) excesso de governo. A impunidade cria um clima permissivo propício para os corruptos, pois o benefício do roubo compensa os baixos riscos de punição. Se mais corruptos pagassem com a prisão por seus “malfeitos”, haveria clara redução no incentivo para desviar recursos públicos.

Já o excesso de governo oferece um prêmio tentador demais para os políticos e burocratas. Mexem com muitos bilhões, desfrutam de orçamentos enormes, de estatais usadas como vacas leiteiras para seus partidos e suas contas pessoais no exterior. Se a Petrobras não fosse estatal, seria menos uma oportunidade para desvios.

Agrava o problema a concentração de poder e recursos no governo federal, que absorve quase 70% da absurda carga tributária. Ou seja, o governo leva cerca de 40% de tudo que é produzido pela iniciativa privada, e o governo federal mete a mão em quase 70% disso: quase 30% de toda riqueza gerada no Brasil vai para o governo federal.

Com um PIB de quase R$ 5 trilhões por ano, estamos falando de algo como R$ 1,4 trilhão para o governo federal em impostos. Claro que boa parte disso vai para uso definido pela Constituição, e não há tanta margem de manobra no orçamento. Ainda assim, o que sobra para uso arbitrário é uma montanha de recursos.

Observando por essa ótica, os pouco mais de R$ 300 milhões gastos (por dentro) na campanha de Dilma à reeleição parecem fazer mais sentido. É muito dinheiro, sem dúvida, e o PT é o mais rico dos partidos, apesar de posar de representante dos pobres. Recebe mais das empreiteiras e bancos do que todos os outros.

Mas é o prêmio que justifica tanto “investimento”. Querer atacar o “investimento” em si, como fez o presidente nacional da OAB, é colocar a carroça na frente dos bois, trocar causa e efeito. Em ambiente de impunidade e com um bilhete de loteria tão atraente assim, claro que os corruptos farão de tudo para vencer. Se o financiamento virá por fora ou por dentro é o de menos aqui.

Por fim, e para concluir, nada disso isenta o próprio PT de responsabilidade e culpa. Esse discurso todo que aponta para as “falhas do sistema” é útil, mas pode servir para inocentar os corruptos. O fato inegável é que o PT montou um verdadeiro sistema de corrupção na máquina estatal, nunca antes visto na história deste país. Para piorar, banalizou a prática, justamente ao tratá-la como algo normal, que todos fazem.

Quer reduzir bastante a corrupção? Então, além de reduzir a impunidade e o prêmio com a vitória, é necessário tirar o PT do poder.

Rodrigo Constantino

 

No EL PAÍS: Venezuela era um país pacífico e democrático. Chávez a transformou numa distopia militar

(por Ibsen Martínez, articulista do El País

 

O que há, de verdade, de Hugo Chávez no Podemos? É possível pensar em Pablo Iglesias como um infiltrado, comandado do além-túmulo por Hugo Chávez, por meio de Nicolás Maduro, seu a cada dia mais patético e empobrecido vicário na terra? Dessa confusão doutrinária feita de teologia bolivariana, máximas redistributivas, de um marxismo que Eric Hobsbawm chamaria de “vulgar”, de diatribes contra seus adversários, de louvores a Fidel Castro e exortações à unidade latino-americana que Chávez defendeu por mais de 15 anos enquanto levava deliberadamente à ruína um país produtor de petróleo e violava todas as suas liberdades, o que o Podemos proclama como algo a ser tomado de empréstimo — ou legado— que se torne viável na Espanha de hoje?

Não tenho como saber. Por isso este artigo vai discorrer sobre a parte do passado que o Podemos invoca como inspiração: o passado recente da Venezuela. E isso com a autoridade relativa que me outorga o fato de ser venezuelano, um entre os milhões que padecem de uma cruenta e tirânica disfuncionalidade chamada socialismo do século XXI. Inquieto, também, pela assertividade com que na Espanha ouço com frequência dizerem: “Isto é a Europa, idiota; não somos Costaguana [país fictício de Joseph Conrad]”, “temos instituições”, “existe Bruxelas”, et cetera; tudo exposto, com certeza, com uma condescendência europeia em relação a nossas violentas excentricidades latino-americanas.

Há quase 20 anos, imaginar uma Venezuela sem o bipartidarismo inaugurado pela Acción Democrática (AD, social-democrata) e pela Copei (democracia cristã), que se altenaram no poder durante quatro décadas depois da queda do ditador Marcos Pérez Jiménez em 1958, seria simplesmente impossível para a maioria dos venezuelanos. No início de 1998, mal iniciada a corrida pela eleição de dezembro daquele ano, em que Hugo Chávez já abria muitos corpos de distância em relação aos partidos da casta “criolla”, publiquei no jornal El Universal de Caracas um artigo intitulado Por que Chávez não me assusta?, menos para aplacar os alarmes e apreensões dos leitores mais conservadores desse matutino que por valorizar a ingênua ideia que então tinha da imutabilidade do sistema político venezuelano que nos regera por 40 anos.

Achava essa ideia, na verdade, muito tranquilizadora, e por isso a usei para sossegar as boas pessoas que consideravam abissalmente aterradora a perspectiva apenas de uma Venezuela em que não governasse a AD nem a Copei. Minha ideia se formulava, em espírito, assim:

“Tranquilizem-se. Não importa quão extemporâneas e retrógradas pareçam agora as posturas de Chávez, nem quão fundamentadas suas críticas ao sistema político nem quão radicais suas palavras de ordem em temas sociais, nem muito menos quão esmagadora seja a simpatia ao comandante mostrada nas pesquisas. Levem em conta que tourear as maciças e imponentes realidades de um país tão complexo como o nosso, mas, no fim, uma país habituado aos usos democráticos e, é preciso dizer, afeito também às artimanhas moderadoras do generoso petroestado, haverá de apaziguar o ex-golpista tornado governante.

Não há nisso mesmo, no fato de que, derrotado Chávez como conspirador-chefe de uma loja militar golpista, não ter tido outro remédio que entrar no jogo democrático, a ponto de sair candidato à presidência, uma demonstração da saúde e da supremacia moral de nossa democracia? Creiam em mim: Chávez não será mais que o pitoresco e mordaz mandatário de país caribenho populista, clientelista e corrupto. Chávez vencerá as eleições, ninguém duvida, e o chavismo, seja lá o que for, terá chegado para ficar e muito provavelmente se transformará em endemia, como o peronismo. Será algo traumático e talvez embaraçoso de ver, mas nunca tão catastrófico como se pensa. Fracassará, amigos; naturalmente fracassará. Então voltará o desencanto, como a cegonha volta ao campanário: num par de quinquênios o eleitorado dará uma segunda chance aos partidos de antanho, que, com certeza, terão aprendido a lição.

Parem o alvoroço, senhores, e sirvam-se outro uísque. Alternância é o nome do jogo. Temos petróleo no subsolo. As chuvas suaves voltarão. Comportem-se! Isso não é nenhuma tragédia”.

Apresso-me a dizer que não era o único a pensar que, ao chegar Chávez à presidência, a agreste realidade completaria a educação necessária a um inquieto oficial de paraquedistas, pobre, provinciano, ignorante, bem-intencionado, mas de canhestra formação política, para converter o seguidor venezuelano de Fidel Castro em um medíocre mandatário vestindo guayabera. Pouca gente, quem sabe, mas em número suficiente, pensava como eu.

Os ricos de Caracas também pensavam assim. Os barões da imprensa e o arrogante mundo dos altos executivos da petroleira estatal, convencidos esses últimos de sua imprescindibilidade, viam em Chávez apenas um acidente de fim de século, uma insignificância retrógrada, mas enfim um acidente.

Somente alguns dos proverbiais poderes fáticos gesticulavam alarmados, mas, chegada a hora, nenhuma das Venezuelas sauditas parou de oferecer cafés da manhã na sala de redação, nem de pagar viagens, de buscar companhia feminina e oportunidades para bons negócios, tratando de despertar Chávez de seu sonho extático de mudar o rumo da história planetária a partir de um pequeno país sul-americano e apaziguar assim sua fogosidade antissistema.

A pachorra com que o paquidérmico funcionalismo de um dos petroestados mais antigos e burocráticos do planeta cumpria suas ordens, assentindo com uma risadinha, arrastando os pés e acatando sem obedecer, acabaria por amansar os arroubos revolucionários de Hugo Chávez. Não custava nada ser equânimes: o bipartidarismo corrupto e cleptomaníaco tinha chamado a anunciada derrota eleitoral com seu ultrajante desplante e sua criminosa falta de solidariedade com os pobres. Merecia uma revigorante derrota eleitoral, materializada quando 56% do universo de eleitores votou em Chávez em 1998.

Como que para o que viria depois, meu artigo declarava fé num engano opiáceo que volto a ouvir em Madri este dias. Difundida com energia por cientistas políticos e historiadores influentes na Venezuela, a superstição intelectual que menciono adorava uma suposta singularidade venezuelana.

“Somos únicos —rezava a versão mais legível—; não somos violentos como os colombianos nem adoradores eternos de Eva Perón; nosso tão somente imperfeito bipartidarismo é, sem dúvida, alternativo e não se parece nada com a ditadura perfeita do PRI; somos a democracia mais antiga e sólida da região”. A última batalha de nossa guerra civil foi em 1903; o país era pacífico, democrático, antimilitarista, plural e solidário. Laico até o profano, brincalhão,aficionado em beisebol e em concursos de beleza. Ah!, e o petróleo, como esquecê-lo!, agia como grande amortecedor das desigualdades.

O corolário daquele tranquilizador ardil sobre a singularidade venezuelana era este: o que vinha para cima de nós não era mais que uma troca de elenco —assim o chamávamos—, ruidoso, é certo; rude e grosseiro, como negar. Mas fatalmente destinado a se fundir à elite social até então dominante. Ninguém podia nem queria sequer contemplar a possibilidade de deixarmos de ser um petroestado sem solidariedade —a origem de todos os males— para nos tornarmos a anômica e sangrenta distopia militarizada, satélite de Cuba, que hoje é a Venezuela.

Tranquilizava pensar que, de tempos em tempos, acontecem esses fatos de relevo, cabalisticamente em anos terminados em 8: a guerra federal em 1858, o fim do chamado liberalismo amarelo em 1898, a geração de 28, a derrocada de Rómulo Gallegos em 1948, a queda do ditador Pérez Jiménez em 1958. Outro elenco, o de Chávez, estava destinado a se fazer presente em 1998, o sangue não chegaria ao rio porque éramos, como já foi dito, democráticos, pacíficos, antimilitaristas, igualitários viajantes frequentes a Miami.

Nossa religião laica era o populismo redistributivo e a democracia representativa; nossa palavra de ordem: a mobilidade social permitida pelo petróleo. Outra troca de elenco? Bem-vinda! As elites se encarregariam de cooptá-lo. Uma ditadura narcomilitar de extrema esquerda? Difícil de acreditar. Na Venezuela de 15 anos atrás caía como uma luva o título de um romance de Sinclair Lewis: Isto não pode acontecer aqui.

Ibsen Martínez é escritor.

 

 

As sete lições

“É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe.” (Epíteto)

Em fins de 1958, Ludwig von Mises, um dos maiores expoentes do Liberalismo, proferiu uma série de conferências na Argentina. Felizmente, sua esposa decidiu transformar as transcrições das palestras em livro, e assim nasceu As Seis Lições. Trata-se de um pequeno livro em tamanho, mas profundo na mensagem. O mundo teria muito a ganhar se as idéias bastante embasadas de Mises fossem mais conhecidas. Tentarei aqui, muito resumidamente, abordar as lições.

Capitalismo: A origem desse sistema foi voltada para a produção em massa, visando a atender o excesso populacional proveniente do campo. Desde o seu começo, portanto, as empresas têm como alvo a satisfação das demandas das massas, e seu sucesso é totalmente dependente da preferência dos consumidores. Há mobilidade social, pois ganha quem melhor satisfaz as demandas. Assim, o desenvolvimento do capitalismo consiste em que cada homem tem o direito de servir melhor ou mais barato o seu cliente. O salto na qualidade de vida e na sua própria duração foi espetacular após o advento do capitalismo, e a população inglesa dobrou entre 1760 e 1830. No capitalismo, através do livre mercado, quem manda é o consumidor.

Socialismo: O mercado não é um lugar, mas um processo, onde os indivíduos exercem livremente suas escolhas. Num sistema desprovido de mercado, em que o governo determina tudo, qualquer liberdade é ilusória na prática. Se o governo for o dono das máquinas impressoras, não pode haver liberdade de imprensa (vide Cuba). A visão do governo como uma autoridade paternal, um guardião de todos, é típica do socialismo. Se couber ao governo o direito de determinar o que o corpo humano deve consumir, o próximo passo seria naturalmente o controle das idéias. A partir do momento em que se admite o poder de controle estatal sobre o consumo de álcool do cidadão, como negá-lo o controle sobre os livros ou idéias, já que a mente não é menos importante que o corpo? O planejamento central é o caminho para o socialismo, onde até uma liberdade fundamental como a escolha da carreira é solapada. O homem vive como num exército, acatando ordens. Marx chegou a falar em “exércitos industriais”, e Lênin usou a metáfora do exército para a organização de tudo. A centralização socialista ignora que o conhecimento acumulado pela humanidade não pode ser detido por um homem só, nem mesmo por um “sábio” grupo. Isso sem falar do fato de que os homens são diferentes. No socialismo, quem manda não é mais o consumidor, mas o Comitê Central. Cabe ao povo obedecer-lhe.

Intervencionismo: Todas as medidas de intervencionismo governamental têm por objetivo restringir a supremacia do consumidor. O governo tenta arrogar a si mesmo um poder que pertence aos consumidores. Um caso claro é a tentativa de controle de preços, que gera longas filas com prateleiras vazias, por contrariar as leis de mercado. Um passo seguinte costuma ser o racionamento, com decisões arbitrárias que geram privilégios aos bem conectados. Com o tempo, o governo vai ampliando mais e mais seus tentáculos intervencionistas. Na Alemanha de Hitler, por exemplo, não havia iniciativa privada de facto, pois tudo era rigorosamente controlado pelo governo. Os salários eram decretados, todo o sistema econômico era regulado nos mínimos detalhes. O próprio intervencionismo na economia possibilita a formação de cartéis, e paradoxalmente, o governo se oferece depois como o único capaz de reverter a situação, através de mais intervenção. A intervenção na economia costuma ser o caminho da servidão.

Inflação: O fenômeno inflacionário é basicamente monetário, dependente da quantidade de dinheiro existente. Como qualquer produto, quanto maior a oferta, menor seu preço. O modo como os recursos são obtidos pelo governo é que dá lugar ao que chamamos de inflação. A emissão de moeda é, de longe, a principal causa da inflação. Há uma falsa dicotomia entre inflação e crescimento ou desemprego, e o “remédio” da inflação para conter o desemprego sempre se mostra, no mínimo, inócuo no longo prazo. Em última instância, a inflação se encerra com o colapso do meio circulante, como na Alemanha em 1923. O único método que permite a situação de “pleno emprego” é a preservação de um mercado de trabalho livre de empecilhos. A inflação é uma política, e sua melhor cura é a limitação dos gastos públicos.

Investimento Externo: Para que países menos desenvolvidos iniciassem um processo de desenvolvimento, o investimento estrangeiro sempre constituiu-se num fator preponderante. As estradas de ferro de inúmeros países, assim como companhias de gás, foram construídas com o capital britânico. Esses investimentos representam um auxílio ao baixo nível de poupança doméstica. A hostilidade com os investimentos estrangeiros cria uma barreira ao desenvolvimento.

Política e Idéias: Todos os países acabam dominados por grupos de interesses, disputando pela via política mais e mais privilégios, em detrimento do restante. Poucos são os que se dedicam realmente na defesa de um modelo benéfico no âmbito geral. Para isso ser alterado, o campo das idéias é crucial. Mises lembra que as idéias intervencionistas, socialistas e inflacionistas, foram paridas por escritores e professores. Marx e Engels eram “burgueses”, no sentido que os próprios socialistas utilizam o termo. Portanto, suas idéias devem ser combatidas com idéias. Como o próprio Mises diz, “idéias, e somente idéias, podem iluminar a escuridão”.

Por fim, alterei o título do artigo para sete, e não seis lições. A última delas eu me arrogo a pretensão de dar. É bastante simples: ler o livro de Mises!

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

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Blogs de veja.com

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2 comentários

  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    No mundo natural há uma certeza: “Todas as águas correm para o mar”! Partindo-se desta premissa, vemos que no judiciário o “natural” torna-se excêntrico.

    Na Ação Penal 470, vulgo “mensalão”, não existia “mar”, bastou uma frase de Poseidon, deus dos mares na mitologia grega, para que “tudo” se transformasse em “nada” e, qual era a frase?

    Está escrito no Portal do Panteão: “EU NÃO SABIA”!

    Metaforicamente estamos vivenciando o mundo de Atlândita, cidade que na partilha dos deuses helênicos tornou-se parte do reino de Poseidon e, afundou no oceano.

    Agora entendo a fissura “Dele” em prospectar o pré-sal, pois é seu habitat, as “profundezas”, ambiente obscuro, onde tudo parece ser, mas seus limites são nuances e, DEU NO QUE DEU !!

    Na abertura do 5º Congresso do PT, em Brasília, Ele conclamou para o partido sair em defesa da presidenta, no seu discurso usou este bordão: ”DEIXEM A MULHER TRABALHAR, GENTE”!

    Acho que já ouvi este som apocalíptico...

    SERÁ QUE SEUS MARQUETEIROS ESTÃO DE FÉRIAS ???

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  • wilfredo belmonte fialho porto alegre - RS

    Infelizmente a classe política é formada de "covardes", de pessoas de segundas intenções, que visam um cargo eletivo como forma de ascenção social, por isto que na maioria das vezes se perde

    um bom lider comunitário e se ganha um mal político e, isto todos em algum momento da vida já vislumbrou na sua cidade ao eleger um vereador. Isto pode-se verificar em Brasília, a falta de homens públicos, que o que menos lhe importaria seria o cargo de deputado mas, a sua ferrenha obsessão em defender os interesses nacionais e os do nosso povo. A questão da "destruição" da Petrobrás é emblemática pois dependendo do alcance do processo destrutivo se chegará a um ponto que quase nada restará, a não ser ruínas pois, este processo se realimentará automáticamente até chegar a um ponto de ser irreversível. Agora esta semana, um escritório de advogados nos EUA, estão entrando com um processo coletivo de indenização contra a Petrobrás e

    pelo que parece este será um dos inúmeros processos internacionais que a nossa estatal terá de enfrentar mundo afora. Só a multa que poderá lhe ser aplicada pela "Bolsa de Valores" poderá ser de alguns bilhões de reais. E, onde está o nosso Congresso Nacional, o que o senado federal está

    fazendo e, a câmara de deputados? Mas, o governo tem a maioria e, esta é a maioria de covardes.

    Estão vendo os desmandos, o aparelhamento, a politicagem e de concreto não fazem nada. E, quando a população vai as ruas e pedir que os militares tomem conta do país, não é para implantar uma ditadura mas, é para deter esta cambada de covardes que deixaram "arrebentar com uma das

    maiores empresas do mundo" e "orgulho nacional" que hoje nada mais é do que uma piada nos quatro cantos do mundo. E, acredito até que em muitas Universidades mundo afora o exemplo da

    Petrobrás deva ser usado de como um governo pode "aparelhar políticamente" uma empresa estratégica e importante que por ideologismo partidário tem a sua administração cooptada, donde

    pode-se vislumbrar os maiores casos de corrupção permitidos por um governo eleito democrático e, o seu Congresso Nacional quase nada faz para salvar a empresa da ruína total. E, ao povo só resta desejar que as "forças armadas" cuidem das nossas coisas porque o governo democráticamente eleito trata-se de um coluio de interesses pessoais e empresariais em um legítimo "crime de lesa pátria". Que diabo de democracia vivemos em que o Congresso Nacional dá as costas aos reais interesses da nação e do seu povo e, serve de capacho e pau mandado de um governo partidário, que se mostrou incapaz, que por negligência, imprudência, imperícia, não soube, não viu e não ouviu, está arrebentando com a economia do país e os interesses nacionais, isto é uma questão de segurança nacional. Se a Petrobrás afunda o país afunda junto. Só os militares para salvar a pátria amada.

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