O lápis: uma “milagrosa” conquista da humanidade...

Publicado em 23/12/2014 13:19 e atualizado em 10/03/2020 13:56 1031 exibições
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O lápis: uma “milagrosa” conquista da humanidade

“Se o indivíduo busca satisfazer seu próprio interesse num contexto de respeito à propriedade privada e às trocas efetuadas no mercado, estará fazendo o que a sociedade espera que ele faça.” (Mises)

Uma das obras mais famosas do criador da Foundation for Economic Education (1946),Lenonard Read, é “I, Pencil”. Um trabalho curto, de linguagem simples, mas com uma mensagem brilhante. A obra ganhou maior visibilidade através da divulgação pelo Nobel em economia, Milton Friedman. Tentarei passar pelos principais pontos da obra, de forma simplificada.

Peguem um lápis simples, aquele ordinário pedaço de madeira, com uma grafite em uma ponta e uma borracha presa a um metal na outra extremidade. Utensílio comum, familiar a todos aqueles que sabem escrever e ler. Esse simples objeto, que ninguém parou para refletir sobre suas nuanças, contém mais informação do que se imagina. Sua estória é interessante, e ele contém mais mistério que muitos acontecimentos naturais, apesar de todos o tomarem como algo dado e pronto. O lápis simboliza uma “milagrosa” conquista da humanidade, justamente por ser tão complexo e simples ao mesmo tempo, sem falar da incrível utilidade.

Em primeiro lugar, será que o lápis é tão simples mesmo? Talvez seja espantoso, mas nenhum indivíduo da Terra sabe como fazer um lápis! Da mesma maneira que ninguém consegue avançar muito em sua árvore genealógica, seria impossível nomear e explicar todos os antecedentes do lápis. Sua família começa de fato numa árvore. Mas daí em diante, imagine todas as pessoas envolvidas nas infinitas habilidades de fabricação do aço e as máquinas necessárias para fazê-lo, nas minas de minério necessário para a grafite, em todos os mecanismos de extração, logística, residência para os trabalhadores etc. A lista seria infindável, pois estamos falando de todo o processo evolutivo da humanidade. O lápis é somente o produto final após um longo processo produtivo, envolvendo milhões de pessoas e séculos de progresso.

Agora ficou mais claro que ser humano algum é capaz de produzir sozinho um simples lápis. Na verdade, milhões de indivíduos tiveram participação em sua criação, sendo que ninguém sabia muito mais que outros no processo. Trata-se de um acúmulo de informações infinitas, onde ninguém sozinho foi capaz de influenciar muito mais em know-how que qualquer outro, se contemplado a totalidade do processo desde os primórdios.

E agora vem o mais importante: esses milhões de indivíduos envolvidos indiretamente e inconscientemente nesse processo não sabiam ex ante da criação final do lápis. Estavam apenas lutando para trocar seu pequeno conhecimento específico pelos bens e serviços que demandavam. A criação do lápis não havia sido planejada, ela simplesmente ocorreu! E por trás dessa bela criação estava nada mais que os desejos individuais de cada pessoa, mesmo que o produto final seja de uma utilidade incrível para a humanidade.

Há na criação do lápis uma total ausência de um master mind, um idealizador ou criador único que teria concebido sua idéia. Na verdade, o que “fabricou” o lápis foi uma “mão invisível”, e isso o torna tão misterioso. Da mesma forma que ninguém pode fazer uma árvore, ninguém poderia fazer um lápis sem esta “milagrosa mão invisível”. E o lápis não passa de uma combinação de milagres, sendo que a árvore, zinco, cobre, grafite e outras coisas naturais não são mais extraordinários que a configuração da criativa energia humana. Os esforços individualistas de cada agente acabam sendo uma grande criação coletiva da humanidade, que não precisou ser imposta por uma cúpula de sábios.

Uma vez cientes desse “milagre” que é a criação de um simples lápis, fica mais claro porque é tão importante salvarmos a liberdade individual. Precisamos deixar essa “mão invisível” atuar, sem grosseiras intervenções de um centro de poder, leia-se governo. Através dos interesses individuais de cada ser humano, que utilizará seu conhecimento limitado naturalmente, teremos automaticamente arrumado a humanidade num criativo e produtivo padrão em resposta às necessidades e demandas de cada um. Para isso é condição sine qua non a existência da fé em pessoas livres, não em um “messias” clarividente. O capitalismo liberal é a organização espontânea da sociedade, diferente da tentativa imposta de cima para baixo, do socialismo.

Quando o governo assume o monopólio de diversas atividades, as pessoas passam a assumir, sem questionamento, que essa tarefa seria impossível de ser realizada de forma livre pelos indivíduos. A razão é evidente: cada um reconhece que não seria capaz de realizar aquela tarefa sozinho. Mas nós já sabemos disso, e o que torna um processo factível não é seu conhecimento individual, mas sim o somatório de milhões de pequenos conhecimentos. Basta confiar nos indivíduos, e dar liberdade para eles. O resultado será muito mais eficiente.

Compare-se isso com o que aconteceu na antiga União Soviética. A Gosplan, um dos infinitos aparatos estatais do Partido Comunista, tinha a árdua tarefa de administrar o preço “justo” de milhares de itens, incluindo diversas commodities. Eram inúmeros modelos econométricos super complicados, tentando prever a oferta e demanda ao mesmo tempo que fixando o preço. Isso é simplesmente impossível. Conseguiram fixar o preço artificialmente e limitar a oferta devido a falta de incentivo à produção, mas não terminaram com a demanda, natural do homem. O resultado foi uma escassez generalizada, levando a população ao desespero. Tudo isso por tentarem controlar um processo que deveria ser natural.

Todo tipo de planejamento rígido focando no futuro distante estará fadado ao insucesso, por basicamente dois motivos: 1) a natureza não é constante, mas está em pleno avanço e mutação; 2) nem mesmo se fosse possível juntar todo o conhecimento disponível hoje em um único indivíduo, ele seria capaz de antecipar tais mutações. Agora imaginem juntar apenas o conhecimento de umas dezenas de burocratas para definir o futuro de toda uma nação! O caminho correto para o progresso da humanidade pode ser encontrado na criação de um simples lápis: deixar que a “mão invisível” faça seu milagroso trabalho. *

* Em How the West Grew Rich, Nathan Rosenberg e L. E. Birdzell mostram que a principal causa da riqueza ocidental reside na difusão de poder, na sua descentralização, permitindo que houvesse autonomia, diversidade e experimentação dos novos produtos. Os incentivos que recompensam os acertos e punem os erros foram fundamentais, assim como esta liberdade de experimentar o novo. O processo eficiente de organização exige adaptações, através das tentativas e erros. O planejamento central é justamente o oposto disso, tornando o processo rígido. Seu apelo deriva, além do fator corrupção, de sua simplicidade, persuadindo os políticos que acreditam ter descoberto uma fórmula mágica para o crescimento. Um motivo xenófobo se faz presente também, com a idéia de que os estrangeiros não poderão lucrar com o desenvolvimento nacional. No entanto, o fracasso do planejamento central é inevitável, pois o sistema econômico passa a ser como uma máquina sem vida, sem a capacidade interna de mudar, se adaptar, crescer e moldar seu próprio futuro. O crescimento depende dessas características, possíveis num organismo vivo que reage a incentivos e conta com a flexibilidade adequada para se adaptar.

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

Fim do embargo cubano: talvez seja cedo para comemorar

Por Flavio Morgenstern, publicado no Instituto Liberal

 

A própria ideia de um país impor um embargo comercial a outro e pensar nisso como uma punição tem em seu bojo um princípio elementar: livre comércio é algo excelente, e ainda mais excelente para o lado mais “fraco” (com menos dinheiro) da transação.

Se a Coca-Cola quiser me punir, ela boicota a possibilidade de que eu consuma seus produtos, embargando minha garganta, que ficará seca sem Coca-Cola – se eu tentar “punir” a Coca-Cola não comprando seus produtos, apenas eu saio perdendo, mal podendo causar-lhe dano. É tão simples quanto parece.

A educação brasileira, hegemônica e ponta de lança de um culto de homogeneização de toda a sociedade, talvez não seja tão totalitária quanto a cubana, mas curiosamente repente pari passu todo o cabedal de clichês e bordões que o regime totalitário cubano usa para se manter no poder – e repete como se fossem fatos científicos, e não propaganda política genocida.

Tal educação simplesmente inverte o sentido do princípio matematicamente óbvio acima. Critica o livre comércio, o “programa social” que mais enriqueceu os pobres em toda a história mundial, associando-o ao “imperialismo” (sem notar que inverte também o sentido deste segundo termo), a um só tempo em que atribui a miséria da economia planejada de Cuba ao embargo americano à ilha dos senhores Castro, imposto por John Kennedy para punir o regime comunista por suas inumeráveis infrações aos direitos humanos.

Esta educação, que ainda encontra eco no jornalismo, na academia e no imaginário coletivo do povo, não percebe que, ao culpar o embargo americano pela miséria do socialismo cubano, defende o que todo liberal sabe: que o livre comércio enriquece os pobres. Mais: que não é possível tentar explicar a miséria do mundo dizendo que países miseráveis, sobretudo africanos, são “capitalistas” (mesmo sem nenhuma empresa, bolsa de valores ou resquício de economia livre por estes países), a um só tempo em que se desesperam pela falta de capitalismo em Cuba.

Ora, capitalistas sabem mais do que socialistas. Por isso livros, inclusive defendendo o socialismo, são livres para serem lidos nos países capitalistas – já nenhum livro explicandode fato o que é capitalismo será lido em um país socialista. Por isso, quando punem socialistas, punem impedindo o livre comércio – enquanto os socialistas, que vociferam contra o livre comércio, apenas o defendem como um bordão (“fim do embargo!”), sem perceber o conteúdo do que dizem – a saber, que socialismo é punição, que comércio capitalista é liberdade e riqueza, sobretudo para os para os pobres.

Contudo, é exatamente o funcionamento deste clichê oco em significado que determina os rumos do entendimento do mundo – e da geopolítica como um todo. O refrão do embargo é repetido por automatismo por professores e alunos, agitadores e agitados – sem que ninguém entre eles perceba a defesa de uma economia livre, contra o dirigismo central de uma economia planificada em nome da “igualdade”. Mas quais serão as consequências do fim do embargo?

Ora, Cuba pôde fazer comércio com o mundo inteiro desde a imposição do embargo. Mesmo com a América: a restrição é que empresas americanas não poderiam se instalar em Cuba, financiando projetos que acabariam nas mãos da ditadura sanguinária e desumana dos irmãos Castro. A América, afinal, é um dos maiores parceiros comerciais de Cuba, e recebemuito dinheiro da ilha – não podendo é investir nela.

Este é o famoso modelo de comércio sul-sul, ou seja, entre países “pobres”. Modelo que a diplomacia brasileira, sob gesticulação atabalhoada petista, quer seguir.

O problema é: isto não trouxe grandes benefícios para Cuba, que faliu fazendo comércio com países como a União Soviética (o comércio, no caso, é entre os dirigentes dos países de economia planejada, não entre os indivíduos de cada país, tratados como peões ou gado por seus líderes).

Faltou comércio com a grande potência, aquela que enriqueceu em um século e, devido à suaConstituição liberal e seu amor pela liberdade de comércio, poderia enriquecer Cuba.

O regime castrista, assim, poderia continuar sendo uma ditadura brutal, com pequenas concessões em sua liberdade econômica (lastreáveis e reprimíveis conforme os ventos da conveniência), para pavonear-se perante o mundo de que não é miserável graças ao seu modelo totalitário socialista, e não às pequenas concessões que faria ao comércio.

A um só tempo poderia fazer propaganda anticapitalista e sobreviver graças a pequenos surtos de liberdade capitalista ocasionais, volta e meia reprimidos por cartelas de racionamento e fuzilamentos. Os intelectuais e a “gente falante” da sociedade repetiria bovinamente a propaganda oficial, jurando tratar-se dos mais bem acabados tratados científicos sobre dignidade humana.

Desde a Revolução Russa, capitaneada pelo tirano Lenin, os socialistas sabem que o comércio, sobretudo comércio internacional (entre dirigentes, não livre), é fundamental para não matar ninguém de fome. Mesmo os maiores tiranos do mundo, socialistas e nacional-socialistas do quilate de Stalin, Hitler, Mao Zedong, ou Pol-Pot sabem da necessidade de comércio. Vide a Nova Política Econômica de Lenin, ou as concessões aos kulaks(pequenos proprietários) após o genocídio por fome de Holodomor, que vitimou cerca de 4 milhões de ucranianos em dois anos nas mãos dos socialistas. E vide os dois únicos tiranos socialistas que recusaram o comércio, Kim Il-sung e sua família, eternamente dependentes da China, e Nicolave Ceaucescu, morto pelo povo.

Os socialistas cubanófilos, portanto, querem o embargo na prática, por serem contra o comércio (mormente com países “ricos”, os de capitalismo mais desenvolvido), a um só tempo em que não querem o embargo como discurso, da boca para fora, apenas parajustificar a miséria que é a economia dirigida.

É o mesmo gênero de abismo entre discurso e prática, de indignação seletiva, de moral malemolente que permite à esquerda criticar a ditadura militar brasileira (434 mortos em 21 anos), e tratar os ditadores cubanos (78 mil mortes em mais de 60 anos) como vítimas. Que os faça clamar por “direitos humanos” para defender assassinos e estupradores, e não assassinados e estupradas, a um só tempo em que chama justamente os punidores de estupradores de… estupradores, e nunca enxergam falhas de direitos humanos em regimes como o cubano. Dentre tantas outras.

Este tipo de contradição óbvia não apenas faz qualquer alma que pensa corretamente ser contra “o socialismo de Cuba”, mas ser o maior defensor ferrenho do capitalismo mais “selvagem”, porque é quando se nota como as economias mais abertas são mais vantajosas para os menos favorecidos.

Mas Fidel e Raúl Castro não são almas com um surto de bondade repentino. Como qualquer dirigente socialista, sabem que o discurso deve defender X e criticar X no momento seguinte, pois todo o socialismo é construído por um projeto de poder, e não por frios cálculos econômicos. Toda a miséria que o projeto de poder causa deve ser “suportada” pelo povo, dizem os mandantes, em nome da glória final do poder de planificação.

O que querem com o fim do embargo é tentar atingir uma posição geopolítica de relevância de volta, visto que a União Soviética deixou Cuba passando ainda mais fome em 1991, e o pacto com a Venezuela petrolífera já dá sinais de cansaço. Afinal, querem comércio – mas não apontaram uma única concessão que farão em troca do fim do embargo na direção de uma Cuba mais livre.

O mesmo aconteceu com a China de Mao Zedong em 1972, quando foi visitada por um dos piores presidentes republicanos da história americana, Richard Nixon. De ideologia nula e envolto em um lamaçal de corrupção, até então ainda não descoberto, Nixon tentou uma aproximação com o totalitarismo que mais matou no mundo, cobrindo Mao de presentes sem exigência nenhuma em troca.

Como resultado, Mao conseguiu uma publicidade enorme no Ocidente, com “maoístas” espalhados pelo mundo todo (como Luiz Gushiken, Secretário de Comunicação de Lula). A revelação dos seus crimes, que incluíam de estupros coletivos, obrigar mulheres dando à luz a marcharem, “julgamentos” públicos com açoitamentos e mais de 70 milhões de mortes, a maioria por fome, com camponeses comendo cascas de árvore após terem seus grãos confiscados pelo poder central, não veio na mesma velocidade. Nixon logo seria o único presidente americano a renunciar.

Caso Nixon tivesse a inteligência e antevisão de Ronald Reagan, saberia negociar com Mao para evitar alguns outros milhões de mortes, concedendo pequenas vantagens (qualquer osso para um socialista é comida) em troca de abertura. Não foi o que aconteceu – e Barack Obama, um presidente cuja política externa é tão ruim que não consegue encontrar apoio nem em sua base Democrata, está fadado a repetir o erro de Nixon, permitindo uma subsistência da ditadura castrista sem nada em troca.

O liberalismo deve ser entendido como um sistema de leis efetivas. Quando se tem leis que protegem a liberdade de alguém trabalhar e manter os frutos do trabalho para si, de prosperar se trabalhar mais, de não precisar ser igual a uma forma geral, temos países de dignidade como os países de primeiro mundo. Quando as leis são falhas, quando há corrupção, quando há um planejamento central de burocratas, o resultado não pode ser melhor do que burocracia – e vira e mexe recai em genocídio.

Isto significa que as regras liberais e suas consequências (riqueza e liberdade) podem servir como lobby quando se lida com tiranos e opositores da liberdade. Até os maiores odiadores do capitalismo, sejam os maoístas de 68, os castristas de 2000, os degoladores do Estado Islâmico, os formadores de opinião brasileiros do gabarito de Chico Buarque ou Gregório Duvivier ou o próprio Kim Jong-un, adoram as benesses do capitalismo.

Porque a maior vantagem do capitalismo não é o Porsche, a Louis Vuitton, o iPhone ou o Rolex. A maior vantagem do capitalismo é ter comida. Além de coisas secundárias, como liberdade e livros.

Com o fim do embargo, não veremos um único crítico do capitalismo agradecendo pela possível capitalização de Cuba. Pelo contrário: a crítica aos liberais será ferrenha, enquanto encontraram um novo motivo para enaltecer a tirania cubana. É assim com o “pensamento” de esquerda, tão bem estudado em sua aversão brutal à realidade por George Orwell, por Lionel Trilling, por Jean-Pierre Faye e tantos outros. Ninguém perceberá a contradição – o projeto de poder fala mais alto do que a lógica fria.

Com uma Cuba com capital estrangeiro, o destino mais provável é apenas o socialismo com disfarce. Uma repaginação ou, quase literalmente, um banho de loja no totalitarismo genocida castrista.

A falsa “abertura” econômica da União Soviética durou menos de duas décadas para se tornar a autarquia poderosa de Vladimir Putin, considerado o homem mais poderoso do mundo – de colocar o presidente da América no bolso. A “abertura” econômica chinesa veio quando o genocídio já estava de volta em primeira marcha após Deng Xiaoping, não sendo, portanto, a única responsável pelo fim das mortes aos milhões por ano. Alguns países conseguiram conjugar uma abertura econômica verdadeira com uma ditadura sanguinária, como o Chile de Pinochet, o Bahrain ou Singapura.

A liberdade econômica ajuda, mas não derruba uma ditadura sozinha. O risco do socialismo cubano se repaginar e logo termos um Putin caribenho, financiando desgraças que vão do Irã atômico à Coréia do Norte ainda é o destino mais provável de Cuba sem o embargo.

Voltemos a pensar na liberdade econômica como um prêmio a ser conquistado por leis efetivas, e não como um financiamento fácil para qualquer tirano a troco de nada. Pergunte a qualquer chinês.

 

Os riquinhos contra o capitalismo e o tédio da abundância

Sugestão de presente: um iPhone novo com a capa do Che!

coluna de Luiz Felipe Pondé hoje está ácida do jeito que eu gosto. Se o filósofo já pega no pé dos “inteligentinhos”, aqueles que fazem jantares caros para demonstrar como se preocupam com os pobres africanos, a destruição do planeta e as baleias em extinção, agora ele ataca uma espécie similar, possivelmente a mesma: a dos riquinhos que adoram odiar o capitalismo.

Pega bem entre certos círculos meter o pau no capitalismo, na ganância, no próprio dinheiro, mesmo quando se vive pelo dinheiro, com muita ganância, desfrutando dos bens que só o capitalismo pode oferecer. É o que mais vemos por aí: riquinhos que viajam pelo mundo de classe executiva, tomam bons vinhos, compram bolsas ou roupas caríssimas, e depois destilam todo seu ódio contra o materialismo capitalista. Diz Pondé sobre a origem do fenômeno:

Muita gente já tentou entender de onde vem essa “pulsão” (ricos têm “pulsão”, pobres têm “instintos” –imagino o número de inteligentinhos brincando com seus livros de psicanálise, achando que essa ironia tem algum caráter de preconceito).

Por que alguns ricos se dedicam a combater as ferramentas do capitalismo, ou as ferramentas da livre competição, ou se dedicam à arte com crítica social?

A resposta está além e aquém do que pensa nossa vã inteligência viciada em construir um mundo melhor. A razão para alguns ricos (principalmente mais jovens) se dedicarem a atividades “santas” é apenas uma: eles já têm muito dinheiro e morrem de tédio por isso. Alguns dizem ser consciência culpada. Eu, que sou um cético, acho que o tédio vem antes.

No fundo, sou mais materialista histórico do que os marxistas de butique que assolam nossos centros culturais e revistas inteligentinhas pagas por bancos.

Ou seja, quem tem tudo fácil demais fica “bobo”, não aprende a dar valor às coisas, não sabe como é duro sobreviver contra a natureza hostil, conseguir o básico, como água, comida, abrigo. A riqueza herdada pode tornar o sujeito um mimado que crê em suas “boas intenções”.

O tédio do dinheiro herdado deveria ser mais levado a sério quando se compara comportamentos entre os mais jovens. A certeza da grana ganha enfraquece a alma”, conclui Pondé. Concordo com ele, e tratei do tema em meu Esquerda Caviar, onde abordo vinte possíveis causas para o fenômeno aparentemente estranho de ricos pregando o socialismo. O tédio é uma das respostas, como a “elite culpada”. Segue um trecho:

Não podemos excluir ainda o puro tédio como imã para a esquerda caviar. Vivendo vidas seguras e confortáveis, fúteis e vazias, a fina flor da esquerda abraça ideias revolucionárias ou exóticas apenas para afastar de si a angústia de suas existências. A sociedade da abundância ajuda a parir os radicais chiques. São os “senhorzinhos satisfeitos” de que falava Ortega y Gasset.

Normalmente incapazes de se enquadrar ao sistema, por considerarem aquelas pessoas de classe média “felizes” com suas distrações burguesas, tais como novelas e futebol, um bando de alienados, esses membros da elite entediada partem para aventuras mais radicais. Eles precisam “cair fora” (drop out) da sociedade, buscar alternativas que ofereçam um novo sentido a suas vidas.

O esoterismo encanta essas pessoas, sempre em busca do último modismo antiocidental. Ioga,feng shui, florais de Bach, xamanismo, ervas milagrosas, dieta “detox”, tudo prato cheio para as madames entediadas. São as “socialites socialistas”, muitas vezes esposas ou filhas de ricaços, que compram seu passe no mundo intelectual por meio de filantropia às causas esquerdistas ou exóticas.

Um anúncio que vi em uma revista parece feito sob medida para essas senhoras. O título era “Para sua proteção” e divulgava joias a partir de R$ 480, de ouro ou prata, “benzidas” por uma estudiosa da cabala e banhadas em água salgada. Os colares e pulseiras eram, portanto, “espiritualizados”. O local da loja? Leblon, claro! 

[...]

Em A elegância do ouriço, Muriel Barbery usa uma das narradoras, uma menina muito inteligente de 13 anos, para descrever o desconforto com essa atitude de sua mãe. Elas moram em um endereço de luxo em Paris, repletas de conforto. Não obstante, sua mãe vive a pregar o socialismo, entre uma conversa e outra com suas plantas. E claro, mesmo depois de dez anos de terapia, ela ainda precisa tomar remédio para dormir…

O autor coloca na outra narradora da história, uma concierge humilde, porém extremamente culta, as palavras de desprezo em relação ao grupo de riquinhos mimados que tentam aparentar um estilo artificial de pobreza cool:

Se tem uma coisa que abomino, é essa perversão dos ricos que se vestem como pobres, com uns trapos que ficam caindo, uns bonés de lã cinza, sapatos de mendigo e camisas floridas debaixo de suéteres surrados. É não só feio mas insultante; nada é mais desprezível que o desprezo dos ricos pelo desejo dos pobres.

No entanto, basta frequentar uma faculdade privada para ver a quantidade de jovens que aderem a esse estilo “riponga”, com suas camisetas do Che Guevara, apenas para entrar depois em seus carros importados do ano. São os “revolucionários de Facebook”, que escrevem em seus perfis da rede social americana o quanto odeiam o sistema capitalista americano e o lucro que tornou o instrumento viável.

O Natal está chegando, e o que mais veremos por aí são os riquinhos gastando fortunas em presentes para os seus familiares e amigos, enquanto repetem como o dinheiro e a ganância são, ao lado do capitalismo, as raízes de todos os males do mundo…

Rodrigo Constantino

 

 

A bomba elétrica: o ‘outro’ ajuste fiscal

Governo novo, herança maldita.Joaquim Levy

O Governo Dilma II vai herdar o rombo pantagruélico no setor elétrico, causado em parte pela falta de chuvas e mais ainda pela mudança desastrosa na regulamentação do setor que o Governo Dilma I fez em janeiro de 2013.

A conta já está no correio.

Entre este ano e o próximo, o Governo vai repassar uma conta de 115 bilhões de reais para consumidores e contribuintes (essencialmente, a mesma pessoa). O número é da mesma ordem de grandeza do ajuste fiscal que a dupla Levy-Barbosa está preparando, e deve potencializar a sensação de grana curta no ano que vem.

“A necessidade de recompor os preços relativos (que foram distorcidos nos últimos anos) deve gerar uma redução muito forte da renda disponível para o consumo, uma pressão adicional ao ajuste fiscal,” diz o economista Felipe Salto. “Isso em última análise vai afetar o crescimento econômico.”

O primeiro contato do consumidor/contribuinte com a bomba elétrica virá em janeiro, quando entrará em vigor a chamada “bandeira tarifária” — o repasse ao consumidor do custo de despacho das térmicas. O sistema prevê três cores de bandeira, uma das quais virá na impressa na conta de luz: verde (geração de energia normal), amarela (geração menos favorável) e vermelha (nível mais custoso de geração). Se for amarela ou vermelha, “a bandeira é um sinal que diz: a energia que você está usando já está mais cara,” informa a asssessoria da Aneel.

A Aneel vai anunciar logo depois do Natal as bandeiras para cada um dos quatro submercados em que está dividido o Brasil.  Se a bandeira for vermelha para o submercado da AES Eletropaulo, por exemplo, a conta de luz do consumidor subirá cerca de 10%.  Na lata.  (Hoje, o kilowatt-hora da Eletropaulo é de 28,117 centavos. A bandeira vermelha adiciona 3 centavos por kilowatt-hora.)

É grande a probabilidade das térmicas ficarem ligadas o ano todo, ou seja, pode haver 12 meses seguidos de bandeira vermelha.

Em 2014, as bandeiras tarifárias foram aplicadas apenas como teste, e estiveram vermelhas praticamente o ano todo. O período das chuvas começou agora em novembro, mas com um volume insuficiente para a recuperação dos reservatórios. Os técnicos esperam que as coisas melhorem em 2015, mas os modelos meteorológicos não apontam para nenhum cenário Arca de Noé — sobretudo para o sistema Sudeste/Centro-Oeste, que concentra cerca de 70% da capacidade de geração hidrelétrica do país.

A conta de 115 bilhões é a soma dos subsídios e custos do setor elétrico entre 2013 e 2015. O número inclui os repasses do Tesouro aos distribuidores para manter a redução “estrutural” nas tarifas de energia elétrica que o binômio Dilma-FIESP queriam, o empréstimo obtido junto a um conjunto de bancos e ao BNDES para cobrir o acionamento das térmicas, e a descontratação involuntária dos distribuidores.

A conta também inclui cerca de 16 bilhões reais incorridos pelas geradoras (entre janeiro de setembro deste ano, apenas) para comprar energia das térmicas e garantir o volume de abastecimento que as hidroelétricas tinham se comprometido a entregar mas não conseguiram cumprir.

“Existe um debate hoje entre as geradoras se elas devem entrar com uma ação contra o Governo buscando ressarcimento, porque uma coisa é o risco hidrológico, que é previsto em contrato, e outra coisa é o risco político, que foi o que o Governo fez ao não adotar programas de eficiência energética ou mesmo um racionamento, por razões políticas,” disse uma fonte do setor.

Dilma RousseffNas distribuidoras de energia, apesar dos aumentos previstos pela adoção da bandeira tarifária, o clima não é de comemoração. As distribuidoras temem que aumentos consecutivos (e cavalares) na conta de luz empurrem muitos consumidores para a inadimplência, ou para os ‘gatos’. “Na maioria dos países, a energia tem elasticidade: se o preço sobe, você consome menos e se ajusta. No Brasil, muita gente deixa de pagar ou faz gatos,” disse uma fonte.

As distorções causadas pelo vai e vem do Governo no setor continuam — caso da decisão de reduzir o teto do preço da energia no mercado spot.

Imagine, por exemplo, um empresário que precisa de eletricidade para sua fábrica de panelas. Sabendo que os custos de energia continuarão a subir ano que vem, o seu Benjamin (vamos chamá-lo assim) foi ao mercado e comprou energia a 450 reais para travar seu custo, isto é, impedir que uma alta ainda maior no preço da energia afete sua margem. Seu Benjamin foi previdente, e lançou mão do óbvio: planejamento. (Parabéns, seu Benjamin!) Aí vem o Governo e baixa na marra o teto do preço, dos atuais R$ 822,83/MWh para R$ 388,48/MWh. Agora, seu Benjamin está no prejuízo, enquanto um concorrente que não se precaveu está no lucro. Em outras palavras: cavalos-de-pau regulatórios oneram quem planeja, e premiam quem não merece.

“O governo resolve só o problema mais premente… não pensa nada a médio e muito menos a longo prazo,” diz Adriano Pires, da consultoria Centro Brasileiro de Infra Estrutura. “Se são duas da tarde, ele fala ‘tenho que resolver o jantar’. Ele só vai pensar no almoço do dia seguinte na hora do café da manhã.”

Para Pires, as medidas anunciadas pelo governo são apenas soluções paliativas para ganhar tempo até que uma melhora do quadro hidrológico recomponha o nível dos reservatórios das hidrelétricas. “Essa espera só amplia os impactos das fragilidades geradas pela falta de planejamento de longo prazo. O racionamento está quase encomendado lá para maio ou junho, e a principal razão pode ser de ordem financeira, e não por razões hidrológicas.”

Cada dia fica mais claro que uma agenda microeconômica e regulatória vai ser tão importante quanto o ajuste macro para colocar a economia de volta ao caminho do qual ela nunca deveria ter se desviado.

Por Geraldo Samor

 

 

Rumo à tempestade: se as previsões se concretizarem, 2015 será um enorme desafio para o Brasil

(Imagem: Business Review USA)

O ano que vem traz diversos obstáculos à economia brasileira, que depende da americana, da russa, da chinesa… (Imagem: Business Review USA)

NO RUMO DA TEMPESTADE

Editorial publicado no jornal O Estado de S. Paulo

Se os maus presságios se confirmarem, o Brasil terá de enfrentar em 2015 uma tempestade quase perfeita — aumento de juros nos Estados Unidos, financiamento mais caro, preços em queda no mercado de matérias-primas, crise na Rússia, crescimento menor na China e recuperação muito lenta na Europa.

Nem tudo será ruim: a economia americana continuará avançando e o ritmo da expansão chinesa, embora mais fraco, ainda será próximo de 7% e isso também contribuirá para algum dinamismo no comércio global. Mas o país estará pouco preparado para aproveitar as oportunidades. Depois de anos de mau governo e de baixo investimento, os fundamentos da economia nacional são frágeis e a indústria compete com muita dificuldade no mercado global.

Para o Brasil, as projeções mais otimistas apontam um crescimento econômico próximo de 1,5% no próximo ano. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) incorpora como referência a estimativa de 0,8%. No mercado financeiro a mediana das previsões está próxima de 0,7%.

O futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, promete um ajuste balanceado das contas públicas, mas, de toda forma, ele deverá trabalhar por um superávit primário — dinheiro para o pagamento de juros — equivalente a 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Para ser fiel a esse compromisso ele deverá dosar o aperto de acordo com as condições internas e externas — e estas poderão ser muito desfavoráveis.

Além disso, o Banco Central (BC) terá de cuidar de pressões inflacionárias ainda muito fortes e de responder, ao mesmo tempo, aos problemas causados por um cenário internacional potencialmente turbulento. O presidente do BC, Alexandre Tombini, já indicou a disposição de intervir no mercado cambial de acordo com o tamanho dos desafios.

Câmbio, custo de financiamentos no mercado internacional e pressões inflacionárias dependerão em boa parte de como o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) ajustar sua política de juros. A próxima elevação da taxa ocorrerá quase certamente em 2015, talvez no meio do ano, segundo as indicações do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), formado por dirigentes do Fed.

Depois de sua última reunião, na quarta-feira, o comitê divulgou as novas projeções formuladas por seus integrantes: crescimento econômico entre 2,6% e 3% em 2015, desemprego na faixa de 5% a 2,5% e preços ao consumidor com aumento entre 1% e 1,6%.

A inflação ainda bem abaixo da meta de longo prazo (2% ao ano) poderá retardar o aumento de juros, há vários anos mantidos entre zero e 0,25% ao ano. Mas todos os membros do comitê projetam juros mais altos em 2015. A mediana das estimativas indica taxas de 1,125% para o fim de 2015 e de 2,5% para 2016. O quadro ficará pior se a crise russa se prolongar e a aversão ao risco desviar capitais dos emergentes.

Se a política do Fed resultar em valorização do dólar, no Brasil e os dirigentes do BC terão de enfrentar um dilema. Um real depreciado facilitará as exportações e a melhora do saldo comercial, mas também poderá alimentar a inflação. Neste ano, preferiu-se limitar a desvalorização da moeda nacional e conter o risco inflacionário.

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veja.com

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