CARLOS BRICKMANN: O Brasil sob velha direção

Publicado em 06/01/2015 17:31
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CARLOS BRICKMANN: O Brasil sob velha direção

Algumas das notas da coluna que o jornalista Carlos Brickmannpublica hoje em diversos jornais:

Carlos BrickmannCríticas ao Ministério de Dilma, vaias a alguns ministros na hora da posse, piadinhas sobre a convivência de acirrados adversários na mesma mesa.

Injustiça!

Dilma, a competenta, elaborou com rara habilidade seu projeto de reconciliação nacional.

Juntou na mesma área Patrus Ananias, para quem Stalin provavelmente não passava de um reformista burguês, com Kátia Abreu, para quem Gengis Khan ou era comunista ou no mínimo complacente com os comunistas.Juntou políticos desconhecidos, como George Hilton, com políticos fartamente conhecidos, como Eliseu Padilha, que vem com o selo de qualidade do Governo Fernando Henrique.

Juntou candidatos derrotados com políticos que vencem até (e principalmente) quando o país perde. A cereja do bolo, talvez como símbolo do prometido combate à corrupção, é Helder Barbalho, derrotado nas urnas, filho querido de Jader (cuja carreira política envolveu renúncia, para escapar à cassação, e um período de prisão), um dos herdeiros daquele famoso ranário em que sobravam investimentos com dinheiro público e faltavam rãs.

E, no esforço de conciliação, Valdemar Costa Neto, então hóspede da Penitenciária da Papuda, foi quem negociou com o governo a nomeação do ministro dos Transportes. É bonito, ainda mais no 1º de Janeiro, Dia da Confraternização Universal, em que todos tomaram posse, ver que Dilma faz conviver herbívoros e carnívoros.

O sagaz Getúlio Vargas certa vez definiu um ministério com a seguinte frase: alguns ministros não são capazes de nada, e os outros são capazes de tudo.

Cena de um dia festivo 1

O velho ministro da Fazenda, Guido Mantega, não compareceu à nova posse da presidente. Mas não houve fofocas: por sorte, ninguém percebeu.

Cena de um dia festivo 2

O novo ministro dos Esportes, George Hilton, foi barrado na portaria do Congresso. Ninguém o conhecia. Hilton é deputado federal há oito anos, desde 2006, ocupando o gabinete 843 do Anexo 4. Os seguranças devem ser muito distraídos.

Cena de um dia festivo 3

George Hilton foi um dos ministros vaiados durante a cerimônia de posse. Mas não deve ter ficado triste: isso demonstra que ao menos ali o reconheceram.

Cena triste de um dia festivo

O colunista James Akel, atento, notou que Marco Aurélio Garcia, Edison Lobão, Gilberto Carvalho e Alexandre Padilha passeavam sozinhos pelo salão, durante a posse, sem ninguém sequer os cumprimentasse. O então secretário de Estado americano Henry Kissinger disse certa vez que o poder é afrodisíaco. É possível imaginar, então, que a perda do poder tenha o efeito exatamente contrário.

 

REYNALDO-BH: Após decadas de dedicação ao PT — usando até o ridículo como instrumento de fazer política –, Suplicy leva uma facada nas costas do partido

Suplicy usando cueca vermelha sobre a roupa, atendendo a um programa humorístico: (Foto: O Globo)

Suplicy usando cueca vermelha sobre a roupa, atendendo a um programa humorístico: (Foto: O Globo)

Post do LeitorPost do amigo do blog Reynaldo-BH

Sei que foi – por escolha própria – uma figura patética. Abusou do amadorismo político e da visão de mundo distorcida. Aliada a uma fidelidade canina, mas aos donos errados.

Depois de 24 anos de Senado federal, Eduardo Suplicy (PT-SP) deixa como legado uma série imensa de equívocos e vexames. Embora seja honesto – o que é obrigação na vida e exceção na política – não mereceu do povo de São Paulo mais um mandato para continuar a ser um bobo da corte de cuecas sobre as calças ou cantando Bob Dylan da tribuna do Congresso.

Tenho uma tendência quase doentia em perdoar – até admirar – os quixotes e os gauches na vida. Pois sou um deles.
Nunca chegaria ao ridículo. Este limite, nem Quixote ou Sancho Pança ultrapassaram. Suplicy fez do ridículo a marca pessoal. E merecidamente, foi afastado pelo voto, da representação do Estado.

O que estará sentindo Eduardo Suplicy ao ver VETADO por Dilma, na íntegra, o projeto de lei da Renda Mínima pelo qual lutou por 15 anos?

Quantas vezes foi ridicularizado pela obsessão com o tema? Quantas vezes foi-lhe prometido apoios que nunca vieram? Quantas vezes foi traído?

Eduardo Suplicy perdeu legitimamente as eleições. Mas perdeu indignamente a luta pela qual se empenhou por tantos anos.

A facada que o dilacera – certamente – veio pelas costas. Em uma homenagem ao senador que se despede, após 15 anos o Senado aprovou na semana passada o projeto de lei da vida de Suplicy.

E como retribuição ao petismo que abraçou e defendeu – mesmo sendo um contrassenso em um Quixote –, o petismo ignorou sua luta. Jogou no lixo uma batalha de muitos anos. E alegou que já existe o Bolsa Família e o País sem Pobreza – sem esclarecer, naturalmente, que um serve como alavanca de dominação populista e o outro é apenas uma das imagens criadas por marqueteiros desonestos.

Este é o PT, senador Suplicy. O PT que o senhor se recusou a ver e entender.

O mesmo que elogia Sarney e Maluf. Que leva ao poder George Hilton e Barbalho Filho. Que transforma em ministro um obscuro vereador de SP, envolvido em denúncias de crimes das mais diversas naturezas. Que escolhe para a Educação (que, nos governos petistas, já teve um Cristovam Buarque) um desequilibrado que quer até mesmo comandar o fluxo de transito –pessoalmente – em Fortaleza.

Suplicy em maio passado, em uma das centenas de palestras que fez sobre sua proposta de Renda Mínima da Cidadania, desta vez na Câmara Municipal de Socorro (SP) (Foto: www.ptsocorro.org)

Suplicy em maio passado, em uma das centenas de palestras que fez sobre sua proposta de Renda Mínima da Cidadania, desta vez na Câmara Municipal de Socorro (SP) (Foto: www.ptsocorro.org)

E que jogou no lixo o sonho de um homem, apesar das eternas promessas de apoio do PT.

Senador, o senhor não é mais necessário. Ao PT e ao projeto de poder do PT. Foi descartado. E com seu descarte, o seu sonho foi junto.

Eu não votaria no senhor. Não representa – nem tangencia a isto – o que penso, luto e acredito.

Mas tenha minha solidariedade. Sincera.

Pode-se tirar tudo de um homem. Menos os seus sonhos. Sem estes, a vida se apequena.

Que o senhor saiba superar este veto. À sua vida e biografia. Por parte de quem o senhor sempre apoiou.

O senhor é um homem digno. Acreditou em sua utopia e por ela lutou. Sua subserviência ao poder mancha sua biografia. Muito menos, porém, do que a folha corrida dos novos aliados do PT escolhidos por Dilma.
A mesma que vetou sua batalha enfim votada por seus pares.

Perdeu, senador.

Não as eleições. Perdeu a luta em que sempre acreditou. Sendo traído por quem sempre defendeu.
Deve doer. Mais que a perda do mandato de senador.

Seja feliz.

Dúvidas – artigo de hoje no GLOBO

Começo o ano novo repleto de dúvidas, as quais gostaria de compartilhar com os leitores em busca de uma reflexão conjunta que possa lançar luz sobre tantas questões sem respostas. Parto da premissa de que a presidente Dilma está com boas intenções e realmente deseja o melhor para o país. Não é, portanto, implicância pessoal ou algo do tipo. É só que palavras e atos parecem não bater direito.

Por exemplo: a economia está ou não desajustada? Perco noites de sono martelando essa pergunta em minha cabeça. Lembro-me muito bem de quando criticava a gestão econômica do primeiro mandato, apontando a insustentabilidade das medidas do governo, seu foco de curto prazo, o claro risco de fomentarem a inflação mesmo sem crescimento econômico.

Mas era acusado de pessimista pelos defensores de Dilma. A própria presidente disse com todas as letras que nenhum ajuste era necessário, que estava tudo em ordem, que havia apenas um pequeno problema conjuntural causado pela crise internacional (do qual os demais emergentes parecem não ter tomado conhecimento). Agora a presidente promete ajustes indolores, um oximoro, uma nova ilusão. Mas então a economia está mesmo desajustada? Não era, afinal, pessimismo apontar para o declínio da atividade e a ascensão do índice de inflação?

Outra dúvida que me angustia é o grau de compromisso da presidente com tais ajustes “indolores”. É para cortar na carne? Por isso um “fiscalista” ortodoxo como Joaquim Levy assumiu a pasta da Fazenda? Mas essa mensagem é transmitida aos investidores simultaneamente ao maior Ministério de que se tem notícia no mundo, com tanta gente que a presidente seria incapaz de elencar um a um todos os nomes? A presidente virou “neoliberal” do lado direito, mas continua desenvolvimentista do lado esquerdo? Qual lado falará mais alto? Quanto tempo Levy aguenta no cargo?

Leia mais aqui.

Rodrigo Constantino

 

 

Menores “infratores” seriam como 007: com licença para matar

Youssef Abou Chahin, novo delegado-geral de São Paulo. Fonte: Folha

“Com a nossa capacidade de fazer maluquices em nome de boas intenções, criamos uma legislação de menores que é um tremendo estímulo à perversão e ao crime, ao fazê-los inimputáveis até os 18 anos.” (Roberto Campos)

O novo chefe da Polícia Civil do governo Geraldo Alckmin (PSDB), Youssef Abou Chahin, 51, tomou posse nesta segunda (5) defendendo um endurecimento da punição de jovens infratores para ajudar a conter a escalada de roubos em São Paulo.

“Os menores [de idade] hoje são 007: têm licença para matar. Por quê? Porque ele não vai preso. Fica na Fundação Casa por um período e [depois] sai”, afirmou Chahin, em uma menção ao personagem James Bond.

O ataque, um dos mais duros já feitos pela cúpula da segurança ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), foi criticado por entidades de proteção de direitos humanos.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, Martim de Almeida Sampaio, classificou as declarações de “lamentáveis”, um “chamado à violência”.

Eu poderia jurar que o verdadeiro “chamado à violência” era tornar inimputável um galalau de 17 anos, completamente ciente do que é certo ou errado. Apostaria pesado que é a impunidade que fomenta o crime, não o pedido de punições mais severas.

O novo chefe da Polícia do governo  Alckmin está não apenas certo, como totalmente alinhado aos anseios da imensa maioria da população paulista, cansada de ser vítima dos marginais jovens que depois são soltos, pois nossas leis os tratam como crianças indefesas e incapazes de compreender os limites legais. Curiosamente, os mesmos jovens são considerados aptos para votar.

As ONGs de “direitos humanos” se mostram uma vez mais desconectadas da realidade do país, confundindo a defesa dos marginais com a dos direitos humanos. Claro que esses bandidos menores de idade devem ter todo o direito ao devido processo legal e a um tratamento decente e humano nas prisões. Mas não podem gozar de um salvo-conduto para o crime só porque não fizeram 18 anos ainda. Isso é um absurdo, e não tem nada a ver com defender os direitos humanos.

Quem defende os direitos humanos das vítimas inocentes desses criminosos? Chega de focar basicamente no lado errado da equação, e ignorar de forma insensível as milhares de vítimas desses marginais. É preciso endurecer as penas sim, e garantir a punição, pois nada pior do que a impunidade para estimular o crime. O cidadão trabalhador e ordeiro deve ser protegido, e o criminoso, mesmo o jovem, deve pagar um alto preço por sua escolha.

Rodrigo Constantino

 

 

Os narcisistas “bem resolvidos”, a dissolução da família e o “genocídio” dos negros

Ainda em minhas “quase férias”, e fora do país, sobra menos tempo para escrever no blog. O que me leva a tentar ser o mais sucinto possível (tempo é dinheiro, e quando medido em dólares, especialmente agora que a moeda americana só sobe em relação ao real, tempo é muitodinheiro). Por isso esse texto aparentemente sem pé nem cabeça, reunindo vários temas em um só lugar. Nele, tentarei aglutinar duas colunas de hoje em jornais diferentes e mais uma reportagem, que falam de assuntos aparentemente desconexos, mas que, na realidade, possuem um elo comum, em minha opinião.

Começo pelo excelente texto, para não variar, de Luiz Felipe Pondé na Folha. O filósofo ataca o narcisismo da nova geração, aquela desapegada, “bem resolvida”, sem carência afetiva alguma, que não sente ciúmes e sequer sofre com uma separação conjugal. São leves, sempre felizes, postando fotos sorridentes nas redes sociais e sem as angústias milenares que atormentam os seres mais fracos, os reles mortais que alimentam inveja dos outros, que apostam no amor e sofrem com suas inevitáveis decepções. Diz Pondé:

Esta cultura, baseada no fracasso do investimento na prole e em vínculos duradouros, cai bem num mundo de gente bem resolvida. Existem até psicoterapeutas e psicanalistas que começam a abraçar a causa da cultura do narcisismo afirmando que narcisistas são melhor adaptados ao mundo contemporâneo porque não sofrem dos sofrimentos imaginários dos neuróticos que idealizam o amor.

Isso mesmo, um desses dias a psicanálise, que tanto resistiu às baboseiras do século 20, tombará sob o peso do mercado do narcisismo.

O mercado do narcisismo, além de investir em apartamentos singles com um parque de diversão na área social, vende, basicamente, estilos de vida e modas de comportamentos. Essas modas se concentram no cotidiano. Alimentação, lazer, trabalhos sem muito vínculo, relacionamentos solúveis na busca de autoestima.

Ah, tudo pela autoestima! Desde cedo esse “novo jovem” escuta que é especial, que basta repetir que é o máximo que assim será, tudo de acordo com os manuais de autoajuda e protegido do bullying. Ele não pode sofrer, pois a era do hedonismo não tolera isso. É a geração “mimimi”, acostumada a confundir seus desejos com direitos, e a levar a vida de forma superficial, sem muitos laços profundos, com “pouca bagagem”, como o personagem de George Clooney em “Amor sem escalas”.

Sem afetos externos que possam produzir sofrimento, apenas com afetos autorreferenciais. “Todo mundo muito bonitinho na fita, se roendo por dentro, mas vendendo a pose de que é uma geração de evoluídos”, segundo Pondé. Se você muda a comida, a forma de se vestir e o transporte utilizado, ou seja, se você é um descolado que come comida orgânica “consciente” e vai de “bike” para o trabalho, então você não precisa passar pelos sofrimentos desnecessários que produziram as tragédias teatrais do passado.

E com tal postura os “novos jovens” querem menos filhos, pois filho demanda investimento de longo prazo, muita dedicação e esforço, envolvimento emocional forte, tudo aquilo que assusta a turma “bem resolvida” que leva a vida de forma mais light. Caso tenham filhos, eles não precisam mais se apegar tanto ao relacionamento como antes, não devem valorizar o núcleo familiar, pois gente moderna e “bem resolvida” sabe que tanto faz a configuração familiar, pois o que importa é cada um ser educado dessa forma “liberal” e desapegada, individualista ao extremo e hedonista. O que vale é o prazer do “aqui e agora”, pois no longo prazo estaremos todos mortos, e afinal, vivemos para o curto prazo. Carpe diem!

O exemplo dessa conduta livre, leve e solta dado por Pondé foi o da separação da atriz Gwyneth Paltrow e seu ex-marido do Coldplay, que deram declarações nas redes sociais de que “agora” a família deles estava melhor e que eles não sofreram com o fim do casamento. Quando a dissolução familiar é vista com tanta naturalidade pela elite, o estrago é limitado. Mas quando a ideia em si começa a se disseminar em ambientes mais populares, como nas favelas e comunidades da periferia, o estrago pode ser bem maior, como mostra Charles Murray em Coming Apart.

Murray compara estatísticas da classe alta e de uma comunidade pobre nos Estados Unidos, mostrando como se criou uma verdadeira bolha que separa ambos os estilos de vida. O que num ambiente pode ser “bonitinho”, “moderno”, pode representar a catástrofe no outro. O psiquiatra britânico Theodore Dalrymple também costuma mostrar em seus livros os efeitos perversos das teorias das elites na vida prática dos mais pobres. São esses que acabam pagando um preço mais alto pelo “progressismo” dos “bem resolvidos” e seu narcisismo hedonista.

O que me remete ao segundo texto, de Carlos Alberto Di Franco, justamente sobre a importância do núcleo familiar na vida dos mais jovens. Os lares destruídos costumam produzir probabilidades maiores de desvios nos mais jovens, e apesar de todo o discurso moderno contrário, ainda não se inventou uma instituição tão sólida como a família para mitigar tais riscos. Diz o jornalista:

Para a jurista Leah W. Sears, ex-presidente da Suprema Corte do estado da Geórgia, “um direito de família que não incentiva o casamento ignora o fato de que ele é associado a um amplo leque de resultados positivos — tanto para crianças como para adultos”. A seu ver, “os índices elevados de fragmentação da família estão prejudicando as crianças”. E conclui a juíza: “Claro, muitos pais solteiros fazem um excelente trabalho e precisam do nosso apoio. Mas acredito que construir uma cultura do casamento saudável é uma preocupação legítima para o direito da família.” 

Concordo com a opinião de Leah W. Sears. A balança do bom senso pende para o lado da família. E a experiência confirma a percepção. Estudos mostram que crianças criadas fora do casamento estão mais propensas a abandonar a escola, usar drogas e envolver-se em violência. O Child Trends, um instituto de pesquisa americano, resumiu: “Filhos em famílias com um só dos pais, filhos nascidos de mães solteiras e filhos criados na nova família de um dos pais ou em relações de coabitação enfrentam riscos maiores de ficarem pobres.” Contra fatos não há argumentos.

Os estragos dessa ausência do núcleo familiar tendem a ser maiores entre os mais pobres. Mas atinge a todos: “Falta de limites e tolerância mal-entendida produziram muitos estragos”, escreve Di Franco. E isso tem tudo a ver com a postura mimada dos narcisistas modernos. Os adolescentes não podem se sentir envergonhados ou culpados de nada, precisam estar “bem” sempre.

O resultado é uma geração “desorientada e vazia”. Outro efeito é o relativismo ético, já que a culpa deve ser combatida, despersonalizada. Somado à impunidade, temos a receita certa para o caos da coisa pública, submetida a infindáveis escândalos de corrupção. A virada ética começaria, portanto, na família, segundo Di Franco. 

Juntando os dois textos, chego agora à reportagem da Folha para fechar a linha de raciocínio. Falo do que os movimentos raciais têm chamado de “genocídio dos negros”, pois as estatísticas mostram que as chances de um negro morrer vítima de homicídio são bem maiores do que as de um branco, até cinco vezes maiores no nordeste.  Diz o jornal:

Dos quase 30 mil jovens assassinados em 2012, 76,5% eram negros ou pardos. Ou seja: morreram 225% mais jovens negros do que brancos.

De 2007 a 2012, enquanto o total de homicídios de jovens brancos caiu 5,5%, o de jovens negros subiu 21,3%.

O estudo deve orientar políticas públicas para a juventude e responde a campanhas e protestos dos movimentos negro e de direitos humanos que apontam para o fenômeno como um genocídio da juventude negra brasileira.

Entre suas recomendações, o IVJ 2014 indica que políticas públicas para a juventude negra podem acelerar não só a redução da desigualdade racial mas também a da violência no Brasil.

Mas é preciso levar em conta que a deterioração das estatísticas para os negros ocorreu concomitantemente às políticas raciais mais favoráveis das últimas décadas, e também em um período em que a economia foi bem, especialmente no nordeste. Será que a solução é mesmo intensificar ainda mais a política de cotas raciais? Será que a saída é só financeira? Será que tem a ver com racismo?

Na mesma página, o jornal mostra como os motoristas estão sendo assaltados na volta do litoral no feriado, e a foto estampa um dos bandidos: negro.

Fonte: Folha

 

Se esse bandido for morto pela polícia em tentativa de fuga, será que faz sentido falar em “genocídio dos negros”? O bandido é, então, a vítima? Não há volição em seu ato criminoso? A causa é mesmo falta de dinheiro ou oportunidade? Mas não estamos em pleno emprego, como garante o governo? Não temos o maior programa de benefícios aos mais pobres da história? O que se passa, então?

O jornal entrevista ainda uma ex-traficante que diz ter perdido a conta de quantos jovens enterrou, e que hoje tenta tirar seu filho de 16 anos do crime. O rapaz quase entrou para as estatísticas recentemente, ao ser baleado numa tentativa de fuga da polícia. Ela atribui a alta mortalidade de jovens negros ao racismo e à situação socioeconômica desse grupo. “A gente vive nessa vida porque tem que manter a família, e o desemprego é grande. Quando a pessoa vai presa ou já teve envolvimento, não arruma emprego de jeito nenhum”, diz.

Não pretendo negar a influência da situação econômica, o que já derrubaria, porém, o discurso oficial do governo e suas estatísticas. Mas será que não há mesmo algo mais por trás? Mesmo com taxas de desemprego em patamares mínimos históricos, Bolsa Família e cotas raciais, temos visto um aumento da criminalidade e, como mostra a Folha, em termos desproporcionais entre os negros. Mas seria a cor da pele o motivo?

Chego, então, ao término do longo texto oferendo uma alternativa diferente para nossa reflexão. Será que o esgarçamento ético não teria mais ligação com a escalada da criminalidade, tanto das periferias como dos grandes escândalos de corrupção em Brasília, do que a pobreza? E será que essa perda de valores éticos não teria algum elo com a dissolução familiar? E esta, por sua vez, não estaria conectada ao crescente hedonismo moderno, a busca desenfreada por prazeres “sem culpa”, pela fuga de laços mais duradouros e profundos? E isso, não seria o resultado do narcisismo dos que não aceitam o risco do sofrimento inerente à vida humana?

Rodrigo Constantino

 

 

Direto ao Ponto, por Augusto Nunes: 

Voltei, amigos

Depois de um recesso de dez dias, acabei de chegar à redação de VEJA. Vou passar o resto do dia lendo os comentários e conferindo com o jornalista Pedro Costa o que ocorreu de mais relevante durante a minha ausência. Mas já estou no meu lugar: ao lado de vocês.

Volto com disposição de sobra para juntar-me aos amigos no bom combate ─ sem tréguas, sem recuos, sem concessões, sobretudo sem medos ─aqui travado desde 22 de abril de 2009, quando a coluna nasceu. O alvo principal é a seita controlada por liberticidas larápios que, acumpliciados a especialistas em outras modalidades criminosas, tenta transformar o Brasil no maior (e mais lucrativo) clube dos cafajestes do planeta.

As batalhas empreendidas neste espaço contribuíram para que o bando que desgoverna o país perdesse o sono, o sossego e a sensação de impunidade. Não está longe a hora em que os chefões perderão o poder, a vida mansa o emprego e, se a Justiça cumprir o seu dever, também o direito de ir e vir.

(Augusto Nunes)

 

A senha: ‘SG9W’, de José Casado

Publicado no Globo desta terça-feira

Parece formigueiro quando se observa da janela, no alto da torre desenhada como plataforma de petróleo. A massa serpenteia, quase atropelando vendedores de ilusões lotéricas, espertos do carteado e ambulantes de afrodisíacos à volta dos prédios. Na paisagem se destaca um paletó preto surrado. Bíblia na mão direita e “caixa-para-doações” na esquerda, ele bacoreja: “Irmãos, o apocalipse está chegando!”

Naquela quinta-feira, 7 de abril de 2011, seu palpite ecoava numa cidade perplexa com a carnificina de 12 estudantes em insano ataque numa escola de Realengo, na Zona Norte.

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José Nêumanne Pinto: ‘Compromisso com a mediocridade’

Publicado no Estadão
Quando a presidente reeleita Dilma Rousseff anunciou o executivo da área financeira Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, a direita reagiu com espanto e a esquerda, com raiva. No entanto, ela apenas seguiu o figurino de seu primeiro governo, inspirado em seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. No caso específico, ela foi buscar o profissional para decepar os nós da economia a serem enfrentados no segundo governo em dois lugares confiáveis: o segundo escalão da assessoria do adversário tucano, Aécio Neves, e a indicação do banqueiro amigo Lázaro de Mello Brandão, chefe do segundo maior banco privado do País e velho aliado.

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RICARDO NOBLAT: A velha Dilma de sempre — autoritária e tratando mal os subordinados

Dilma assina o termo de posse do ministro Nelson Barbosa: bronca pesada em tempo recorde (Foto: Folhapress)

Dilma assina o termo de posse do ministro Nelson Barbosa: bronca pesada em tempo recorde (Foto: Folhapress)

A VELHA DILMA DE SEMPRE

Por Ricardo Noblat, post publicado em seu blog

Ninguém em Brasília, por mais próximo que fosse de Dilma, acertaria um bolão que perguntasse assim: “No segundo governo, quanto tempo a presidenta levará para desautorizar publicamente um dos seus auxiliares?”

O mais esperto dos apostadores talvez cravasse “uma semana”. E logo seria apontado como desafeto de Dilma.

Resposta certa: menos de um dia. A vítima: Nelson Barbosa, ministro do Planejamento.

No meio da tarde da última sexta-feira, uma vez empossado, Barbosa se viu no centro de uma roda de jornalistas carentes de informações sobre o ajuste fiscal que vem por aí.

Quem circula com passe livre pelo Palácio do Planalto informa que o ajuste será mais duro do que o imaginado aqui fora. Crivado de perguntas, o ministro resolveu saciar a curiosidade dos jornalistas.

E disse que o governo irá propor ao Congresso uma nova regra para o reajuste do salário mínimo a partir de 2016. A regra atual, criada em 2008, cairá em desuso até dezembro.

Barbosa teve o cuidado de garantir que “continuará a haver aumento real do salário mínimo”, cláusula pétrea da Era PT. Segundo ele, “a política do reajuste do salário mínimo é correta, mas precisa ser reavaliada”.

Dilma não gostou quando soube da entrevista. E no sábado de manhã, na Base Naval de Aratu, na Bahia, onde descansa, subiu nas tamancas ao ler o que os jornais publicaram a respeito.

Um telefonema de Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil da presidência da República, deu conta a Dilma da reação negativa das centrais sindicais à entrevista de Barbosa.

Se não fosse a pessoa autoritária que é, acostumada a infundir medo e a humilhar subordinados, de uma simples secretária ao general que um dia saiu chorando do Palácio do Planalto depois de tratado aos gritos, Dilma poderia ter telefonado para Barbosa e tirado tudo por menos.

Afinal, o ministro nada disse que não tivesse sido antes negociado com ela. E aprovado por ela.

Uma Dilma tolerante, disposta a criar um ambiente favorável ao trabalho em equipe, a ouvir antes de falar, e a compartilhar o poder, na verdade seria outra Dilma e não essa que temos.

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O regime de Dilma para perder excesso de peso e as dúvidas a respeito

A presidente lê nos telepromters seu discurso de posse, no Congresso: evidentes quilos a mais e o desafio de perdê-los (Foto: Folhapress)

A presidente lê nos telepromters seu discurso de posse, no Congresso: evidentes quilos a mais e o desafio de perdê-los (Foto: Folhapress)

O excesso de peso da presidente Dilma ficou bastante evidente devido à roupa escolhida para as cerimônias da posse no novo mandato, no dia 1º passado. Não se conseguem informações oficiais a respeito, mas o ganho de peso da presidente já era visível na campanha eleitoral, disfarçado pelos trajes normalmente vestidos por ela: calças compridas largas, sapatos de salto baixo e uma espécie de slack para a parte superior do corpo.

A campanha certamente contribuiu para a presidente sair da linha: alimentação irregular, alimentação inadequada, a obrigação política de provar incontáveis quitutes oferecidos por eleitores ou à disposição em visitas a feiras e mercados populares ou mesmo em passagens por botequins — e, sobretudo, o stress causado pela agitação inerente a uma disputa de dimensões da que foi travada no ano passado.

A presidente se preocupa com o problema. A seção “Painel” da Folha de S. Paulo publicou pouco antes da posse a informação de que ela estava satisfeita com o regime para perder peso, que já fizera ir embora 6 quilos, boa parte da meta de emagracer 13 quilos.

Segundo o jornal, a presidente seguiria a “dieta Ravenna”.

Na verdade, não existe “dieta Ravenna”. Existe, sim, um método de emagracimento engendrado pelo médico e psiquiatra argentino Máximo Ravenna, com consultórios em diferentes cidades no exterior e no Brasil, inclusive em Brasília, onde reside a presidente. Mas não se trata de uma mera dieta.

Como define a própria Clínica Ravenna, o método consiste em “uma terapia interdisciplinar de emagrecimento que trabalha o vínculo alimentar, modificando a maneira do paciente  relacionar-se com a comida”. Ou seja, o método inclui, sim, uma dieta, mas os pacientes são assistidos por uma equipe multidisciplinar, composta por médicos, psicólogos, nutricionistas, professores de educação física e outros especialistas.

Os pacientes passam por todos os membros da equipe, com periodicidade variada, e são submetidos periodicamente a exames, especialmente de sangue.

As clínicas são equipadas com instalações para psicoterapia de grupo, sala para atividades físicas ou dança, restaurante e outras. Os pacientes podem almoçar e jantar ali, se quiserem, ou levar para casa alimentos adequados a seu programa de redução de peso.

O núcleo central do que o médico denomina “terapia” não se cinge, portanto, a calorias, embora elas naturalmente importem. Trata-se, sobretudo, da abordagem psicológica do problema, feita em grupos e que o paciente deve frequentar pelo menos três vezes por semana. Isto porque “modificar a maneira do paciente relacionar-se coma comida” é entendido como tratar a compulsão — a qual estaria no âmago da questão de comer em demasia.

Ou seja, o ideal, o quase indispensável para o método funcionar — e o êxito tem sido comprovadamente muito grande, com pessoas perdendo até 70 0u 80 quilos, sem remédios, sem cirurgia e, melhor do que isso, mantendo-se no peso adequado — é a FREQUÊNCIA à clínica.

Algo que as tarefas da presidente tornam impossível. O que Dilma pode estar fazendo é obter algum tipo de acompanhamento por parte de especialistas da equipe de Ravenna em Brasília.

Por tratar-se de assunto pessoal da presidente, não se obtêm informações oficiais sobre se e como a presidente realmente está enfrentando o desafio de afinar a silhueta.

(Ricardo Setti)

 

 

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