Temer: ‘Se detenção de Lula vier após condenação, não haverá o que objetar’ (exclusivo a Josias de Souza)

Publicado em 16/11/2016 11:15
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Blog do Josias + coluna de Augusto Nunes, em veja.com

Em conversa com o blog, Michel Temer esclareceu o que pensa sobre uma eventual ordem de prisão de Sergio Moro contra Lula. “Se a prisão vier depois de uma condenação, não haverá o que objetar”, declarou. Em entrevista veiculada pela TV Cultura na noite de segunda-feira, Temer dissera que a detenção de Lula causaria instabilidade ao governo e ao país. Foi criticado em artigo veiculado aqui. E achou conveniente explicar que se referia à provável reação de movimentos sociais a uma prisão temporária ou preventiva de Lula, sem sentença condenatória. “Evidentemente, se lá para a frente houver uma condenação judicial e Lula for detido em função dessa condenação, acabou”, disse.

Eis o que declarou Temer ao blog: “O que se fala muito hoje é que o Lula pode ser preso pelo Moro de forma temporária ou preventiva. Na entrevista, entendi que a pergunta era sobre isso. Respondi: se ele for processado, isso deve seguir com muita naturalidade. Agora, se ele for preso —eu quis dizer neste momento—, isso cria problema para o governo, porque alguns movimentos sociais que fazem objeção ao meu governo vão sair às ruas. Hoje, depois de seis meses, está passando um pouco aquela onda do ‘Fora, Temer’. Só agora está começando a passar. Se prender o Lula, o que vai acontecer? Essa foi a minha resposta, com muia franqueza: vai criar problema, instabilidade. Mas, evidentemente, se lá para a frente houver uma condenação judicial e Lula for detido em função dessa condenação, acabou.”

O repórter perguntou ao presidente se ele receberia com naturalidade a prisão de Lula como resultado de uma sentença condenatória do juiz Sergio Moro, ratificada pela segunda instância do Judiciário. E Temer: “Claro que sim. Convenhamos, sendo da área jurídica eu jamais me atreveria a dizer que alguém condenado não pode ser preso. Se a prisão vier depois de uma condenação, não haverá o que objetar. Nem poderia.”

Temer esclareceu também por que evitou responder, na entrevista exibida na segunda-feira, se concorda ou não com a ideia de anistiar o crime de caixa dois. “Eu não falava como Michel Temer naquela entrevista, mas como presidente da República”, disse. “Tenho como tese não influenciar nas questões do Parlamento, a não ser quando há interesse do governo. Faço muita distinção entre teses do governo e teses da sociedade. As teses da sociedade são versáveis pelo Congresso. Nas teses do governo, como a PEC do teto e a reforma da Previdência, nós entramos para valer.”

Temer prosseguiu: “Quando me perguntaram sobre o caixa dois, eu disse: não interfiro. Por quê? Se eu dou uma opinião desde já, quando surgir a hipótese de sanção ou veto, já estou comprometido com a opinião que eu dei, sem ter uma discussão final do Congresso Nacional. Tenho uma cautela extraordinária, até um pouco exagerada em relação a isso. Quero evitar qualquer espécie de autoritarismo do tipo: ‘eu estou decidindo assim ou assado’. Então, na entrevista, quando me perguntaram sobre esse tema, eu disse: Isso é uma questão do Congresso. Evidentemente, se isso for por lei, virá para mim, para sanção ou veto. Num momento posterior, vou fazer minha avaliação.”

Pode-se concluir, então, que não há uma decisão de sua parte sobre vetar ou não uma eventual anistia para o caixa dois?, indagou o repórter. “Sim, é isso”, respondeu Temer. “Não posso falar agora, para não influenciar. Vão dizer no Congresso que estou me metendo. Quando for o caso, e se for o caso, examinarei o que vou fazer.”

O presidente avalia que ainda não há clareza quanto ao que será aprovado pelo Congresso. Reconhece que “uma anistia ampla geral e irrestrita poderia ser mal recebida.” Mas pondera: “Percebo pelos advogados, meus colegas criminalistas, que a interpretação que mais está correndo, é a ideia de que o direito penal não retroage. Então, se hoje você tipifica como crime o caixa dois, significa que no passado ele não se aplicava. Essa é uma hipótese. Uma segunda hipótese é fazer a distinção entre aqueles que receberam efetivamente caixa dois, para a campanha, e os que receberam caixa dois como propina. Isso é uma coisa diferente. Acho que a tendência poderá ser essa da irretroatividade da legislação penal.”

O repórter insistiu: Não dá para dizer que, se vier a anistia, haverá um veto? Temer preferiu manter o suspense: “Não posso dizer. Tenho adotado um comportamento que tem dado muito certo. Nosso governo é quase um governo parlamentar. Na democracia, você tem que usar o Parlamento. A minha grande vantagem, penso eu, é ter uma boa relação com o Parlamento. Veja o caso da votação da PEC do teto na Câmara. Pela primeria vez, aprovou-se uma emenda à Constituiçao sem nenhuma modificação. Foi aprovada com 366 votos, quando os votos necessários são 308. Agora, está no Senado. Já foi aprovado na Comissão de Consttuição Justiça, com muita tranquilidade. Vai para a votação no plenário. De modo que estou sempre, nessa matéria de anistia, pisando em ovos. Tem que estudar. Não posso nem quero dizer nada que possa agredir o Congresso.”

É correto dizer que não há decisão de sua parte quanto ao veto? Sim. Até evito esse assunto. Quando alguém vem falar comigo, eu evito. Precisamente para que ninguém saia da minha sala dizendo: ‘olha, o Temer disse isso ou aquilo. É diferente ser presidente da República e deputado. Tenho de prestar muita atenção para o que eu falo.”

“Nos engana que a gente gosta” e outras cinco notas de Carlos Brickmann

Publicado na coluna de Carlos BrickmannErrar é humano, mas acreditar sempre é insano. Nos Estados Unidos, há cada vez mais gente séria dizendo que a torcida dos jornais e jornalistas por Hillary, associada à incredulidade sobre Trump, fez com que o público ficasse mal informado e se surpreendesse com a vitória republicana. “Como todos, erramos”, disse Tony Romando, da Topix Media, que produziu uma edição especial de Newsweek com Hillary na capa, Madam President” – e soltou a edição antes da hora, tendo de sair correndo para recolher milhares de revistas já entregues a assinantes e jornaleiros.

Há outro exemplo americano clássico; em 1948, todos previam a vitória do republicano Thomas Dewey sobre o presidente Harry S. Truman. Truman ganhou; e, na foto de sua entrevista como presidente reeleito, exibiu o Chicago Daily Tribune com a manchete Dewey Derrota Truman.

Acontece; como aconteceu em São Paulo, onde Fernando Henrique até posou para fotos sentado na cadeira de prefeito. A promessa era de que as fotos só sairiam após a apuração. Fernando Henrique acreditou. As fotos, claro, vazaram, e fizeram a delícia dos adversários (Jânio desinfetou a cadeira, na frente dos fotógrafos, “porque nádegas indevidas a usaram”). Houve — e não houve — a festa da vitória que não houve, no ótimo bufê Baiúca – o belo salão vazio, com impecáveis garçons e maitres esperando, com boa bebida e ótimos salgadinhos, os fernandohenriquistas que não mais viriam.

Pois é, falaram tanto

À medida que as urnas eram apuradas e a vantagem de Jânio se mantinha, políticos e repórteres explicavam que aquelas urnas eram só de áreas janistas. Eram; e bastaram. Este colunista era editor-chefe da Folha da Tarde e só um ótimo repórter, João Russo, aliás tucano, interpretou bem o que acontecia: “Jânio está ganhando em todas as urnas. Perdemos”.

Ninguém me ama

E o consumidor de informação? Ou acompanha vários noticiosos ou fica preso à opinião de um – nem desonesto nem mal informado, mas que pode ser influenciado por suas próprias opiniões. Às vezes, nem assim o leitor, ouvinte, espectador escapa: certas certezas são tão certas que, se os fatos forem contrários, danem-se os fatos. Agora, Delcídio do Amaral, em entrevista explosiva ao repórter Cláudio Tognolli no Yahoo!, seguida de outra na Rádio Jovem Pan, diz que Lula e Dilma sabiam perfeitamente o que ocorria nos bastidores. Importante: Delcídio fez delação premiada. Caso se comprove alguma mentira, perde os benefícios e vai para a cadeia.

Mas voltemos a 2004, época em que Waldomiro Diniz foi flagrado tomando algum de alguém e, sabe-se hoje, levando ao início do processo do Mensalão. Sabe-se hoje? Em 2004, o Bloco do Pacotão, formado por jornalistas, desfilou em Brasília cantando: “Ô Waldomiro, ô Waldomiro/ me responda por favor/ se nesse rolo, o bicho pega/ nosso Lulinha paz e amor!/ ô Waldomiro, ô Waldomiro/ diga o bicho que deu/ se o Zé Dirceu/ se o Zé Dirceu/ se o Zé Dirceu também comeu?/ Ô Zé Dirceu/ que bicho deu?/ ô Zé Dirceu, eu quero o meu”.

Tem mas não tem

E a festa continua. Amanhã, quinta-feira, deve ser votado, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o relatório sobre a proposta de emenda constitucional que extingue o foro privilegiado. Mas, para votar a proposta, é preciso reunir um terço da bancada de senadores: 27 Excelências. E sabe como é, o feriadão, a visita às bases, tudo cansa. Talvez não haja número.

Não tem mas tem

O que o Congresso quer mesmo aprovar, e logo, é um pacote de medidas contra a corrupção, baseado em propostas dos promotores da Lava Jato. No pacote, reluz o que tipifica a caixa 2 em campanhas eleitorais como crime – crime gravíssimo, hediondo, nefando, o nome mais forte possível. Qual o objetivo real? Alegar que, se o crime de caixa 2 foi tipificado agora, o que havia antes não era crime. É o truque de quem acha que será citado na delação da Odebrecht. Por isso o projeto anticorrupção tem de ser aprovado logo, para apagar a corrupção de até agora.

E a corrupção de agora em diante? É o problema seguinte. O de hoje é sobreviver ao tsunami Odebrecht. Depois se discute como roubar no futuro.

Que coisa feia!

Em relatório sobre o caso Bumlai – o pecuarista que se tornou bom amigo do presidente Lula – a Polícia Federal cita o ministro do Supremo Dias Toffoli, por ter o nome no caderno de endereços do investigado. É uma citação leve, lembrando que ter o nome no caderno de endereços de alguém não implica ligação. O juiz Sérgio Moro reagiu duramente, mandou retirar a citação a Toffoli, uma “afirmação leviana”.

Mas agora quem é que não sabe que Bumlai tinha o telefone de Toffoli?

Trump está certo: a China rouba empregos. Mas isso é ótimo para americanos ou brasileiros

O fato do comércio internacional roubar empregos não é uma má notícia: é a principal fonte da prosperidade humana

Por: Leandro Narloch 

Imagine que, depois de algum estranho fenômeno climático, começam a chover brinquedos e roupas pelo Brasil. Uma ou duas vezes por semana, nós acordamos e descobrimos que a chuva da madrugada distribuiu, entre todos os brasileiros, calças, camisas, bonecas que falam, carrinhos Hot Wheels e muitos outros produtos.

Um fenômeno como esses intrigaria climatologistas, mas as pessoas o comemorariam como um evento sagrado, uma benção divina. “Agora não precisamos trabalhar tanto, pois as coisas que precisamos simplesmente caem no céu!”, diríamos em festa. Melhor ainda, os pobres poderiam economizar uma parte maior do salário, pois não precisariam gastar com roupas e brinquedos.

Mas nem todos ficariam contentes. Confecções, lojas e fabricantes de brinquedos reclamariam que a chuva impôs sobre eles uma concorrência desleal. Como as coisas simplesmente chovem, ninguém mais compra o que eles produzem. Indústrias fechariam, centros industriais se tornariam cidades fantasmas como Detroit, nos Estados Unidos. “A chuva roubou nossos empregos”, diria a faixa de protesto dos trabalhadores desses ramos. “Contra a precipitação!”

Apesar dos protestos, haveria um consenso que o prejuízo concentrado naquele pequeno grupo é muito menor que o imenso benefício causado pela chuva de produtos. Não faria sentido que alguém continuasse gastando tempo e esforço produzindo coisas que caem do céu. O melhor a fazer seria ajudar empresários e trabalhadores desses ramos a se adaptarem e se especializarem em produzir coisas que a chuva não fornece.

Agora substitua “chuva” por “China”. Um belo dia os brasileiros acordam e descobrem que podem comprar roupas e brinquedos chineses não de graça, mas por um décimo do que costumam pagar. É uma excelente notícia. Não precisam mais trabalhar tanto para adquirir essas coisas. Melhor ainda, os pobres podem economizar uma parte maior do salário, pois têm acesso a roupas e brinquedos baratos.

Da mesma forma, haveria um grupo de descontentes. Confecções e fabricantes de brinquedos reclamariam que a China impôs sobre eles uma concorrência desleal. Ninguém mais compra o que eles produzem, preferem comprar da China. Indústrias fechariam, centros industriais se tornariam cidades fantasmas como Detroit. “A China roubou nossos empregos”, diria a faixa de protesto dos operários desses ramos. “Contra a globalização!”

Apesar dos protestos, há um consenso entre economistas que o prejuízo concentrado em pequenos grupos é menor que o imenso benefício criado pelo comércio internacional. No topo da lista de consensos entre economistas, com 93% de aprovação entre eles, está a afirmação “Tarifas e cotas de importação geralmente reduzem o bem-estar econômico geral”.

Não faz sentido que trabalhadores e empresários brasileiros ou americanos gastem tempo e esforço produzindo coisas que a China vende tão barato. O melhor a fazer é ajudar empresários e trabalhadores desses ramos a se adaptarem e se especializarem em produzir coisas que o Brasil faz melhor que a China.

David Ricardo explicou há 200 anos que o comércio internacional torna a vida mais fácil porque nos faz ter mais com menos trabalho (e com menos empregos). Escoceses trabalhariam demais para produzir vinhos ruins – melhor se especializarem nas destilarias e trocar algumas garrafas de uísque por vinhos dos franceses. Da mesma forma, a forma mais fácil dos franceses obterem uísque é produzindo vinhos para trocá-los com os escoceses.

O fato de o comércio internacional ou a tecnologia roubar empregos não é uma má notícia. É simplesmente a raiz da prosperidade humana. Que pena que o novo presidente da maior democracia capitalista do mundo não se entusiasme com essa ideia.

@lnarloch

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Fonte:
Blog Augusto Nunes (UOL)

1 comentário

  • dejair minotti jaboticabal - SP

    Michel Temer sempre muda suas posições, ao receber criticas pela sua fraqueza no programa Roda Viva ao referir-se que a prisão do chefe da quadrilha poderia desestabilizar o governo,agora corrigiu, ou esclareceu lulla precisaria ser condenado após o término do processo com culpa decretada,como nunca vai chegar ao fim este processo do apedeuta,assim como não chegou de maluf e outros,deste mal o governo não precisa se preocupar.Homem costuma ter uma palavra só,mas se tratando de políticos.........

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