Quando alguém ganha, o outro perde? Felicidade de um é o logro do outro? Comum ou privado?

Publicado em 19/04/2018 06:51 392 exibições
O BRASIL PRECISA DE TRÊS CHOQUES: DE REALIDADE, DE LIBERDADE E DE PERSONALIDADE (Por Roberto Rachewsky, publicado pelo Instituto Liberal)

O que nos faz patinar há décadas, sempre enrolados com ideias equivocadas que privilegiam a coerção em detrimento da liberdade? Ideias que esvaziam o sentido de propriedade privada para ali implantar a tragédia dos comuns? Ideias de que a felicidade alheia deve ser fruto de algum logro, que se alguém está lucrando é porque outro está perdendo?

Será que é a mentalidade coletivista calcada nas frustrações psicológicas geradas pela inveja e pela culpa? Ou é a incompreensão de como funciona a realidade, por séculos de má educação que leva o povo e a elite a acreditar nas ideias racionalistas, religiosas e seculares, que pregam o sacrifício, próprio e alheio?

Todos os lugares do mundo que enriqueceram, o fizeram combinando respeito às instituições (livre iniciativa e propriedade privada) com virtudes pessoais (racionalidade, produtividade, honestidade, integridade, independência, justiça e autoestima). Isso é a combinação de capitalismo com a força empreendedora do indivíduo na busca da sua felicidade.

Pensem bem, a realidade mostra que isso é possível. Se vocês acham que no Brasil isso não é possível, a culpa não é das ideias, mas das pessoas. Se as ideias capitalistas que defendem a livre iniciativa e a propriedade privada trouxeram resultados impressionantes para países tão diferentes quanto Suíça, Japão, Chile, Hong Kong, Estados Unidos, China, Irlanda, Alemanha, Estônia ou Holanda, por que não traria para o Brasil?

Precisamos de três choques para tirar o Brasil do atoleiro: um choque de realidade, um choque de liberdade e um choque de personalidade. Choque de Realidade, para enxergarmos o mundo como ele é, seguir os exemplos que deram certo, abandonando as fórmulas que só dão errado. Choque de Liberdade, para pensarmos, agirmos e sermos felizes, cada um à sua maneira. Choque de Personalidade, adquirindo o hábito de colocar em prática as virtudes que podem nos levar a florescer e prosperar.

O Brasil só será um país rico se cada um dos brasileiros puder fazer o que estiver ao seu alcance, exercitando o seu potencial, num ambiente de liberdade, para sonhar, criar e produzir riqueza. Riqueza em todos os sentidos, representada por valores materiais, intelectuais e espirituais.

Não existe um Brasil rico sem um brasileiro que enriqueça trabalhando para si e para os demais. Assim como riqueza nacional não existe, interesse nacional também não. A riqueza nacional não existe para ser distribuída, é a riqueza individual que deve ser criada e o seu somatório serve apenas para fins estatísticos.

O interesse nacional não existe para ser buscado, é o autointeresse dos indivíduos que os levam a agir para buscarem seus propósitos e a eventual felicidade.

Um país feliz só é possível se e quando os indivíduos, na busca da satisfação de seus próprios interesses, criarem os valores que atenderão os seus propósitos pessoais.

A saída para o Brasil é abandonar as ideias coletivistas e abraçar de vez o individualismo. Isso não significa buscar o próprio interesse a qualquer custo, sacrificando a si mesmo e aos demais. Não é enriquecer mentindo, trapaceando ou roubando. Não é viver isolado como se estivesse numa ilha deserta, onde esse conceito nem teria porque existir.

Individualismo é ter a clara noção de que, para alguém florescer e prosperar, é preciso cuidar do seu autointeresse de forma racional, criando valor para os outros para obter em troca o que os outros têm a oferecer.

Individualismo é cooperar e transacionar com o maior número de pessoas que se é capaz para que se possa obter o máximo que a sociedade tem e pode oferecer.

Reconhecer a realidade, ser livre para agir e agir com base em valores éticos racionalmente estabelecidos é o único caminho que leva os indivíduos à felicidade.

A felicidade dos indivíduos é a felicidade da sociedade.

UMA MENTE LÚCIDA: HOMENAGEM A ROBERTO CAMPOS (por RODRIGO CONSTANTINO)

Roberto de Oliveira Campos, também conhecido como “Bob Fields” pela esquerda ressentida, nasceu no dia 17 de abril de 1917, em Cuiabá. Um dos ícones do liberalismo brasileiro, pregou no deserto, enfrentou o atraso com coragem e sabedoria, e se tivesse mais economistas como ele naqueles tempos o Brasil seria outro hoje, bem mais livre e próspero. Em sua homenagem, segue um texto que escrevi sobre esse gigante:

Uma mente lúcida

“O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele nos pode dar é sempre menos do que nos pode tirar.” (Roberto Campos)

Não existe perfume francês que faça um fétido gambá virar um gatinho de estimação. Roberto Campos foi uma das mentes mais lúcidas que a política nacional já teve, e seu olfato era bem aguçado para detectar tais gambás disfarçados de gatos. Não foi por acaso que o apelidaram de “Bob Fields”, além de “entreguista”, já que a verdade, quando esfregada na cara, gera ressentimento nos pérfidos. Em sua coletânea de artigos Na Virada do Milênio, Campos oferece um vasto repertório racional contra os “heróis” dessa terra de Macunaíma que é o Brasil. O triste é que as críticas dele não ficaram obsoletas. Pelo contrário, são mais atuais que nunca.

Seu entendimento acerca do mercado era preciso, e até hoje vemos que muitos ainda não foram capazes de compreender tal conceito. O mercado “é apenas o lugar em que as pessoas transacionam livremente entre si”, o que não é pouco, “porque no seu espaço a interação competitiva entre os agentes econômicos eqüivale a um plebiscito ininterrupto”. Os agentes podem rever a todo momento suas escolhas, assim como a medição quantitativa de suas preferências lhes permite o cálculo racional. Os socialistas jamais assimilaram este fato.

Campos não pouca críticas aos socialistas. Para ele, estes, e em especial os marxistas, “sempre pensaram que existia um estado natural de abundância”. Nada mais simples, portanto, “que a economia de Robin Hood: tirar dos ricos para dar aos pobres”. Eis como Campos encarava tais figuras: “No meu dicionário, ‘socialista’ é o cara que alardeia intenções e dispensa resultados, adora ser generoso com o dinheiro alheio, e prega igualdade social, mas se considera mais igual que os outros”. Eles sempre souberam “chacoalhar as árvores para apanhar no chão os frutos”. O que não sabem é plantá-las! Nas palavras de Campos, “os esquerdistas, contumazes idólatras do fracasso, recusam-se a admitir que as riquezas são criadas pela diligência dos indivíduos e não pela clarividência do Estado”.

A metralhadora anti-esquerda, munida de sólidos argumentos, não pára por aí. Para Campos, nossas esquerdas não gostam de pobres, mas sim de funcionários públicos. Afinal, “são estes que, gozando de estabilidade, fazem greves, votam no Lula, pagam contribuição para a CUT”. Os pobres não fazem nada disso. “São uns chatos”. A elite não escapa ilesa: “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo burguês”. E conclui: “Trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola”.

Roberto Campos presta uma rara homenagem, no Brasil, aos economistas da Escola Austríaca, que previram a derrocada socialista: “O colapso do socialismo não foi mero acidente histórico, resultante da barbárie da União Soviética ou da perversão de carniceiros como Stalin e Mao Tsé-Tung. Era algo cientificamente previsível. Os aludidos cientistas sociais teriam certamente chegado a essa conclusão se, ao invés de treslerem a história, tivessem lido os grandes liberais austríacos”.

Em uma nação onde o senso comum coloca o nazismo e o comunismo em extremos opostos, a lucidez de Roberto Campos ganha ainda mais valor ao compreender que ambos os regimes são, na verdade, irmãos de sangue: “Os dois monstros gêmeos, o comunismo e o nazismo, têm vocação genocida. Naquele, o genocídio de classe; neste, o genocídio de raça”. Para ele, a violência comunista foi “algo diabolicamente inerente à engenharia social marxista, que, querendo reformar o homem pela força, transforma os dissidentes primeiro em inimigos, e depois em vítimas”.

Sobre o golpe, ou contragolpe de 64, Roberto Campos comenta com um realismo sui generis também: “É sumamente melancólico – porém não irrealista – admitir-se que no albor dos anos 60 este grande país não tinha senão duas miseráveis opções: ‘anos de chumbo’ ou ‘rios de sangue’…”. Não creio que os revolucionários comunistas isentem de culpa nossos ditadores militares, que à exceção de Castello Branco, muito contribuíram para o atraso nacional. Mas isso não torna a avaliação de Campos menos verdadeira: “Comparados ao carniceiro profissional do Caribe, os militares brasileiros parecem escoteiros destreinados apartando um conflito de subúrbio”.

O completo afastamento do modelo liberal, não obstante seu uso como bode expiatório para nossos males, era profundamente lamentado por Roberto Campos. Em sua opinião, “o que certamente nunca houve no Brasil foi um choque liberal”. O liberalismo econômico assim como o capitalismo não fracassaram na América Latina, “apenas não deram o ar de sua graça”. Em resumo, “o Brasil está tão distante do liberalismo – novo ou velho – como o planeta Terra da constelação da Ursa Maior!”.

A burocracia e a fome insaciável de recursos e poder do governo sempre foram alvos dos ataques de Campos. Para ele, “continuamos a ser a colônia, um país não de cidadãos, mas de súditos, passivamente submetidos às ‘autoridades’ – a grande diferença, no fundo, é que antigamente a ‘autoridade’ era Lisboa, hoje é Brasília”.

Enfim, Roberto Campos foi um defensor do livre mercado, das privatizações, do capitalismo, do império das leis objetivas. Combateu o nacionalismo retrógrado, o planejamento estatal, os impostos elevados e progressivos, a burocracia asfixiante, a concentração de poder, o socialismo em geral. Viveu a angústia de ver as idéias racionais desprezadas por políticos presos em uma mentalidade ultrapassada, que chegou a parir um absurdo como a Lei da Informática. Lamentou, enquanto muitos vibravam, a Constituição “besteirol” de 1988, que oferecia garantias irrealistas, promessas utópicas, plantando as sementes das desgraças que se seguiram. Sofreu com as imensas oportunidades perdidas, que mantiveram o Brasil longe de realizar seu potencial. Poderia ser um tigre mas agia como uma anta. E foi praticamente uma voz isolada e abafada por um uníssono ensurdecedor de idéias esquerdistas. Como ele mesmo reconheceu, “admitir o ‘liberalismo explícito’, num país de cultura dirigista, é coisa tão esquisita como praticar sexo explícito em público; não dá cadeia, mas gera patrulhamento ideológico”. Infelizmente, muito pouco mudou desde então…

Rodrigo Constantino

 

Liberdade econômica, o mais importante e esquecido dos direitos humanos (por LEANDRO NARLOCH)

Imagine que dois homens estão fechados numa sala trocando carinhos. Estão ali por escolha própria – cada um deles pode ir embora quando quiser. Para intelectuais mais ligados à esquerda, ninguém deve atentar contra a liberdade desses homens, pois um dos direitos humanos fundamentais é o de buscar a própria felicidade sem que outras pessoas se intrometam.

Agora considere que os mesmos dois homens, fechados na mesma sala, não estão trocando carinhos, mas serviços. Estão ali por escolha própria – cada um deles pode ir embora quando quiser. Digamos que um trabalha para o outro sem carteira assinada ou que um deles é motorista ou personal trainer sem o registro profissional exigido pelo Ministério do Trabalho.

Diante desse segundo caso, intelectuais de esquerda se omitem e começam a impor regras, proibições e punições. Esquecem que aqueles dois homens, assim como no primeiro exemplo, estão exercendo seu direito fundamental de buscar a própria felicidade sem que outros os importunem.

A liberdade econômica, medida pelo ranking divulgado hoje pela Heritage Foundation, é um direito humano tão ou mais importante que a igualdade perante a Lei, o acesso a uma Justiça imparcial, a liberdade de pensamento, de expressão, de crença religiosa ou de opção sexual. Na verdade é até mesmo difícil dissociá-la dos demais direitos humanos.

“O controle econômico não é apenas o controle de um setor da vida humana, distinto dos demais”, disse Friedrich Hayek, o grande economista liberal do século 20, num dos principais trechos de O Caminho da Servidão.“É o controle dos meios que contribuirão para a realização de todos os nossos fins. Pois quem detém o controle exclusivo dos meios também determinará a que fins nos dedicaremos, a que valores atribuiremos maior ou menor importância – em suma, determinará aquilo em que os homens deverão crer e a que se esforçar.”

Por exemplo, quem quer exercer seu direito à liberdade de pensamento e expressão precisa de tempo livre para estudar e debater. Precisa de dinheiro para montar um jornal, ter um computador e acesso à internet para conhecer e divulgar ideias.

Até mesmo dois homens interessados em trocar carinho numa sala precisam, antes de tudo, de uma sala, ou seja, da propriedade ainda que temporária de um imóvel. E precisam de um sistema que os reconheça e os remunere pelo seu trabalho, e não por preconceitos ou identidades de grupo.

Sem liberdade de comprar e vender livremente, de fechar contratos de trabalho ou de parcerias, de ter uma profissão sem precisar apresentar títulos ou documentos, de manter ou negociar propriedades, a ação humana se torna refém de burocratas e poderosos. E assim todas as demais liberdades correm perigo.

Paulo Ghiraldelli Jr.: Para acabar de vez com a escola brasileira (na FOLHA)

A reportagem nesta Folha é da jornalista Érica Fraga. Mas, que fique claro, ela não tem culpa pela pesquisa contida no texto publicado nesta segunda-feira (16).

Eis o que ela diz: "A inclusão de filosofia e sociologia como disciplinas obrigatórias no ensino médio em 2009 prejudicou a aprendizagem de matemática dos jovens brasileiros, principalmente os de baixa renda. A conclusão é dos pesquisadores Thais Waideman Niquito e Adolfo Sachsida, em estudo inédito que será publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada)." 

A continuação da leitura da reportagem é mais estarrecedora ainda. Poupo o leitor de seguir em frente e receber tamanho golpe ideológico. Ou seja, dois jovens fazem uma pesquisa (!) e terminam por descobrir que míseros 50 minutos por semana de filosofia ou sociologia acabaram com a possibilidade dos alunos de aprenderem matemática. Juro! É isso que Niquito & Sachsida afirmam. É difícil de engolir.

Duvido que matemática seja mais importante que filosofia ou sociologia. Isso por uma razão simples: sem filosofia o entendimento da matemática não é entendimento, é decoreba de transposições algébricas.
Mas, ainda que possamos ceder ao senso comum estúpido, que acha que matemática e português sejam as únicas coisas que devem ser ensinadas na escola, seria completamente insano dizer que uns míseros minutinhos de filosofia na semana são o lobo mau que tem impedido os porquinhos de se tornarem os vencedores das olimpíadas de matemática em Codó (MA) ou em Cruz das Almas (BA).

Agora, um coisa é certa: falta, sim, matemática para o brasileiro. Principalmente para os que se confundem com a interpretação de estatísticas. O resultado da pesquisa relatada por Fraga é esdrúxulo, ideológico. Funciona na base de uma continha de subtrair que ninguém faria. Ou seja, quem acredita que ter hoje, nas condições atuais, 50 minutos de matemática e não de filosofia vá resultar em algum benefício prático, na escola pública, para algum estudante?

Trata-se aí, nessa pesquisa em questão, de se colocar na mesa elementos ilegítimos de apoio à reforma do ensino do governo Dilma-Temer, cujo único objetivo é enxugar a grade curricular da escola média. O objetivo é torná-la igual para todos —igual na mediocridade. Democratizar a escola virou sinônimo de socializar a incultura.

Claro que uma escola que corta disciplinas combina com o arrocho salarial dos professores e com a transformação da carreira do magistério em bico.

Mas é engano achar que todas as escolas particulares seguirão a determinação de estragar o ensino. Algumas escolas particulares vão continuar o ensino de ciências humanas, junto com todas as outras disciplinas, e sempre vão fazer propaganda desse currículo rico, não do currículo pobre.

Afinal, currículo enxuto é para aluno que não quer estudar. Sabemos disso. Então, mais ainda haverá um fosso entre ricos e pobres do ponto de vista educacional. Quem puder pagar vai continuar tendo o melhor ensino propedêutico à universidade. Os outros terão o ensino Dilma-Temer, o do currículo esvaziado. A escola pobre para o pobre.

Paulo Ghiraldelli Jr.

É filósofo e autor, entre outros, de "Dez Lições sobre Sloterdijk" (Vozes, 2018)

UMA MENTE LÚCIDA: HOMENAGEM A ROBERTO CAMPOS

 

Tags:
Fonte:
Blog Rodrigo Constantino/Gazeta

0 comentário