Força da demanda por soja da China ameniza impacto da nova safra dos EUA

Publicado em 11/08/2016 11:15
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A estimativa inicial para a safra 2016/17 de soja da China era de 12,5 milhões de toneladas. No entanto, as adversidades climáticas que acometeram o país nos últimos meses - com enchentes prejudicando muitas áreas agrícolas, enquanto outros pontos sofriam com a seca - já vêm gerando especulações de uma redução nesse volume, o qual poderia chegar, segundo informações de agências internacionais a 11 milhões de toneladas.

Enquanto isso, os Estados Unidos projetam, nesta temporada, colher sua maior safra desde 1979. A última projeção do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) é 105,6 milhões de toneladas. Os números serão reajustados nesta sexta-feira, 12, e as consultorias particulares apostam em um volume ainda mais elevado. Por outro lado, uma forte onda de demanda da nação asiática - e também de outros importadores com enorme potencial - vem drenando os estoques da oleaginosa. De acordo com uma pesquisa realizada pela agência internacional Bloomberg, pela primeira vez em três anos, os estoques americanos podem ser menores do que os do ano-safra anterior.

De 2005 para cá, as importações chinesas de soja mais do que triplicaram e agora o país responde por adquirir mais de 60% das exportações mundiais da commodity. Esse aumento mais do que expressivo da demanda se dá, primariamente, pela necessidade maior do setor de ração animal, uma vez que a população da China vem mudando seus hábitos, na medida em que a classe média vem crescendo, e consome mais proteína animal, especialmente carnes.

O gráfico a seguir, da Bloomberg com dados do USDA, indicam a relação entre as exportações norte-americanas - na linha azul - com as importações chinesas - na linha branca. 

Gráfico 1 - Soja Bloomberg

Dessa forma, para manter "estoques adequados" internamente, os EUA terão de bater o seu recorde de produtividade do ano passado de 54,45 sacas por hectare (48 bushels por acre), segundo explica o presidente da AgResource Co, Daniel Basse, em entrevista à Bloomberg.

"Nós podemos usar tudo o que nós produzimos. É uma grande safra, mas essa força da demanda está aparecendo. Os EUA continuarão a ser a principal fonte de oferta de agora até meados de fevereiro, já que as safras do Brasil e da Argentina sofreram com, respectivamente, um clima quente e seco e problemas de enchentes", disse.

Em dez dias consecutivos encerrados em 9 de agosto, os EUA venderam 3,17 milhões de toneladas de soja em grão somente para a China, sendo a maior parte de volumes do ano comercial 2016/17, o qual começa em 1º de setembro, de acordo com anúncios diários de venda feitos pelo USDA. Os números surpreenderam e foram determinantes para dar um novo fôlego ao mercado da commodity na Bolsa de Chicago. Somente nesta semana, foram vendidas mais 615 mil toneladas. 

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No presente ano comercial, porém, o Brasil deve seguir liderando as exportações de soja com cerca de 57,2 milhões de toneladas, a frente dos EUA, com as 48,9 milhões estimadas pelo USDA no último mês. E esse número, segundo analistas, também poderá ser revisado pelo departamento em seu reporte mensal de oferta e demanda que chega nesta sexta.

Paralelamente, há ainda a perspectiva de que os estoques globais de soja sejam também menores na temporada 2016/17, caindo cerca de 20% - em uma segunda baixa consecutiva - e alcançando os menores níveis em cinco anos, ainda segundo os últimos números do USDA, no reporte de julho. O gráfico abaixo, também da Bloomberg, mostra, nas barras azuis, a produção americana e, nas laranjas, os estoques. 

Gráfico 2 - Soja Bloomberg

Assim, uma revisão nas projeções para cima da nova safra dos EUA poderia amortecer o impacto desta informação. Entretanto, o alerta da diretora de commodities da Fulcrum Asset Managemente, de Londres, Fiona Boal, é claro. "Se eu sou dependente de importação de soja, enquanto estou satisfeita com o tamanho da safra americana, na sequência, o foco tem que ser, justamente, sobre o que irá acontecer na safra da América do Sul na próxima temporada. Simplesmente não há espaço para manobrar a oferta global de soja".

E o ano é de La Niña para o Brasil e os impactos, depois de um El Niño severo e que causou muitos prejuízos, já preocupam os sojicultores brasileiros e, para o climatologista Luiz Carlos Molion, o evento climático deverá se intensificar entre setembro e outubro e permanecer até 2019, e voltar a atrapalhar a produção agrícola nacional.

"Isso pode atrapalhar muito a produção agrícola, especialmente, a produção de soja, porque as chuvas no Centro-Oeste começam a ficar mais firmes a partir de novembro, e os produtores querem plantar em outubro por causa da safrinha. Muitos podem perder a semente se plantar no fim de setembro, começo de outubro", explica Molion.

O La Niña, tradicionalmente, traz condições de um tempo mais seco para a América do Sul durante sua ocorrência e, para o Brasil, especificamente, se caracteriza por mais chuvas para a região Nordeste, temperaturas mais baixas do que o normal durante o verão no Sudeste, atraso da chegada das chuvas no Centro-Oeste e Sudeste, além de um verão mais seco no Sul do país. Entretanto, ainda segundo o especialista, esses efeitos podem variar de acordo com a intensidade do fenômeno.

"Modelos climáticos mostram que no Matopiba e em parte região Centro-Oeste, as chuvas serão muito fracas até 20 de outubro, e também fracas entre 20 de outubro e 20 de novembro - o que é um problema muito sério, já que em Mato Grosso, liquidamos o plantio até 20 de novembro, que já não foi possível no ano passado e pode não ser também neste ano. E o professor Molion indica ainda que janeiro também poder ser seco, na época em que está enchendo grão ou terminando a floração, o que já pode causar transtornos", diz o presidente da Aprosoja Brasil, Marcos da Rosa.

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A China e os transgênicos

Conhecendo sua dependência e a crescente demanda que tem pela frente, a China deverá buscar incentivar a comercialização e o cultivo de soja transgênica pelo menos nos próximos cinco anos, como forma de aumentar a eficiência de sua agricultura e assim aumentar o potencial da produção da oleaginosa no país que é o maior consumidor e importador da mesma.

Nos últimos anos, o país tem investido bilhões de dólares na pesquisa de culturas geneticamente modificadas e já vem utilizando a tecnologia na produção de algodão. Entretanto, ainda não permitiu o cultivo de variedades de produtos alimentares, ainda reticentes sobre a recepção dos consumidores, principalmente em relação aos impactos para a saúde.

No último plano quinquenal chinês para ciência e tecnologia, a China, pela primeira vez, especificou a necessidade do desenvolvimento de produções GMO, incluindo a soja - utilizada em produtos alimentares como tofu, molho shoyu e ração animal - e também milho. A nota oficial do governo recomenda "a comercialização de variedades de algodão e milho resistentes à pragas e soja resistente a herbicidas".

Para o milho, o sinal verde para os transgênicos veio mais cedo, em abril, quando uma autoridade afirmou, em Pequim, que seria importante incentivá-lo pelos próximos cinco anos. O cereal, no país, é utilizado em sua maior parte para alimentação animal e produtos industrializados como amido e adoçantes.

Já para a soja, o suporte aos GMOs chega diante da necessidade de a nação reformular sua estrutura dessa cultura. Os produtores locais vêm sendo encorajados a migrar do milho para a soja e a promover uma rotação de culturas. Entretanto, para analistas internacionais, aumentar a produção de soja pode ser difícil sem subsídios mais elevados.

Atualmente, o país já permite a importação de soja transgênica para a produção de ração e suas compras, neste ano comercial, deverão atingir um recorde de 86 milhões a 87 milhões de toneladas, segundo expectativas do USDA tanto de sua matriz como de adidos.

A resistência que será enfrentada, no entanto, já é conhecida pelos chineses em todos os elos da cadeia produtiva e do complexo soja. Afinal, a oleaginosa convencional, apesar dos custos mais elevados, conta com uma espécie de "prêmio" na hora da comercialização.

"As maiores áreas de culturas-chave não devem ser plantadas com transgênicos", disse Liu Denggao, vice-presidente da Associação da Indústria Chinesa da Soja. "A soja local é extremamente requisitada e inspira confiança entre os consumidores de alimentos", completa. 

Com informações da Reuters e da Bloomberg. 

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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

1 comentário

  • geraldo emanuel prizon Coromandel - MG

    Estão dizendo que a safra de soja chinesa quebrou 10% em decorrência das adversidades climáticas. Pergunto: Será que a safra de milho também teve esta quebra? Seriam mais de 20 milhões de toneladas... (Neste ritmo de vendas a safra americana se esgotará mais rápido que a safra brasileira.)

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