Consórcio aumenta para 28 ocorrências de ferrugem na soja; risco segue alto

Publicado em 26/11/2018 14:15 e atualizado em 26/11/2018 19:36
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A proliferação da ferrugem asiática nesta safra continua se agravando e os números dos alertas sobre a doença seguem aumentando. De acordo com o último dado do Consórcio Antiferrugem, já são 28 ocorrências em todo o Brasil até este momento. 

Consórcio Antiferrugem - 26.11.2018

O estado que ainda lidera os casos é o Paraná onde, segundo o consórcio, já são 19 ocorrências. E entre os 169 coletores da Emater PR, no sistema Alerta Ferrugem, o número anterior de 27 deles com a presença dos esporos do fungo causador da ferrugem também já aumentou. A instituição atualiza seus números nesta terça (27) pela manhã. 

E a preocupação dos produtores paranaenses é a característica em que se apresentam os esporos nos coletores. 

"São esporos esparramados pela lâmina, não estão agrupados, o que significa que eles vieram de muito longe. E outros coletores, de outra s regiões onde estão, mostram a mesma constatação", diz um produtor de Mangueirinha, no sudoeste do estado. A região é um dos principais focos do Paraná. 

Veja o vídeo do relato no município:

Segundo o agricultor, no ano passado, esse mesmo coletor demorou um mês a mais para coletar o esporo. "Esse é um ano diferente. Esse é o momento adequado para nós produtores estarmos fazendo a aplicação dos fungicidas", diz. 

Como reafirma o analista da Embrapa Agropecuária Oeste, Alexandre Roese, em um artigo nesta segunda-feira (26), a principal ferramenta do produtor neste momento é, de fato, o intenso monitoramentos dos campos. 

"Mesmo para realizarmos aplicações preventivas de fungicida, precisamos avaliar as lavouras para ver se a aplicação é realmente preventiva ou se a ferrugem já está instalada na lavoura. Isso é muito importante porque se a ferrugem já estiver presente, recomenda-se diminuir o intervalo de tempo entre as aplicações e acrescentar fungicidas multissítios (de contato) no programa de controle", diz Roese.

E mais do que isso, o especialista lembra ainda que "o cadastro dos focos de ferrugem no Consórcio Antiferrugem é voluntário. Ao mesmo tempo em que é muito importante notificar o Consórcio e as autoridades competentes sobre a ocorrência da doença, pois isso serve de alerta aos produtores, não podemos confiar cegamente na ausência de ferrugem em locais sem relatos de sua ocorrência. Isso reforça a necessidade do monitoramento constante de cada lavoura, especialmente a partir do início do florescimento ou do fechamento das entrelinhas, pois não há como prever com segurança quando a ferrugem vai aparecer".

As condições climáticas dos últimos meses têm sido bastante favoráveis para a proliferação da doença e, por conta disso, as primeiras lavouras de algumas áreas do Paraná, que já apresentam porte menor, podem também ter menor produtividade por conta do excesso de chuvas e da falta de luminosidade.

O assessor técnico da Coplanta de Pato Branco, Carlos Luciano Uberti, relata que o município é uma dessas cidades onde a situação exige maior acompanhamento e cuidado. 

"Nas áreas do cedo, o controle é um pouco mais fácil, e nas áreas do tarde, essas áreas plantadas no final do mês, dia 20, já foram feitas de 4 a 5 aplicações, e estas são áreas que mais preocupam na questão de ferrugem, têm dificuldade maior de controle", diz Uberti. 

Veja a íntegra da entrevista de Carlos Luciano Uberti:

>> Excesso de chuvas e falta de luminosidade podem afetar o rendimento das primeiras áreas de soja em Pato Branco (PR)

Paraguai

No Paraguai, as precoupações também já aparecem sobre a ferrugem e os produtores já começam a fazer suas aplicações de fungicidas. E de acordo com o produtor rural de Santa Rosa Del Monday, Márcio Mattei, o produtor tem conseguido fazer o controle da doença. 

"A ferrugem é uma preocupação de todo produtor, ela já apareceu sim, mas o pessoal está conseguindo entrar e fazer um controle efetivo, de acordo com as exigências agronômicas daqui. Está tudo sob controle.  Não sei de ninguém que não tenha entrado com aplicação preventiva", diz Mattei. "O pessoal está bem ciente e de como tem que ser aplicado. Se não fizer bem no começo, o problerma da ferrugem aparece no final", completa. 

Veja a íntegra da entrevista de Márcio Mattei:

>> Soja: Com bom desenvolvimento das lavouras, produtores de Santa Rosa Del Monday (PY) seguem atentos aos preços

Previsão do Tempo

A boa notícia vem do quadro climático. De acordo com as últimas informações, as instabilidades sobre o Centro-Sul do Brasil diminuíram após dias consecutivos de chuvas intensas. As áreas de mais precipitações agora deverá a ser a região do Matopiba. E as chuvas deverão dar um trégua à região, de acordo com as previsões mais atuailzadas, pelo menos até o final da semana. 

"As instabilidades se afastam dessas regiões (do Centro-Sul brasileiro) e deslocando para a faixa litorânea, deixando o tempo estável no interior", disse a Climatempo. Confirmadas, as condições favorecem os trabalhos de campo e os tratos culturais. 

Mapa com a previsão de precipitação acumulada para até 72 horas (24/11 a 26/11) em todo o Brasil - Fonte: Inmet

Leia mais sobre o clima na matéria de Jhonatas Simião:

>> Tempo: Chuva diminui no Centro-Sul, mas áreas do Matopiba recebem altos volumes neste início de semana

E veja ainda:

>> Paraguai: condições climáticas atrapalham conclusão do plantio de verão, mas produtividade deve ser boa

>> Só fungicida não basta, é preciso monitorar ferrugem, diz pesquisador

>> Alerta na Soja: Risco de infecção pela ferrugem é alto nesta safra

Na sequência, confira a íntegra do artigo de Alexandre Roese, da Embrapa Agropecuária Oeste:

A ferrugem chegou. E agora? Por Alexandre D. Roese

Analista Embrapa Agropecuária Oeste

O primeiro foco de ferrugem asiática em lavoura comercial de soja em Mato Grosso do Sul foi confirmado no dia 19 de novembro, em Maracaju. Este fato desperta uma ótima reflexão. Alguém pode dizer que já era esperado, e está certo. Outro pode dizer que agora temos que redobrar o cuidado, e também tem razão. Mas nossa reflexão pode ir muito além de apatias e alarmismos.

Como controlar a ferrugem?

Para diminuir os prejuízos com essa doença devemos insistir no monitoramento das lavouras. Mesmo para realizarmos aplicações preventivas de fungicida, precisamos avaliar as lavouras para ver se a aplicação é realmente preventiva ou se a ferrugem já está instalada na lavoura. Isso é muito importante porque se a ferrugem já estiver presente, recomenda-se diminuir o intervalo de tempo entre as aplicações e acrescentar fungicidas multissítios (de contato) no programa de controle. Outras recomendações importantes são optar pelos fungicidas com melhor desempenho nos ensaios anuais de eficiência, publicados anualmente pela Embrapa (clique aqui para acessar), e alternar aplicações de fungicidas com princípios ativos diferentes, evitando mais do que duas aplicações do mesmo fungicida na mesma safra.

Devemos alertar que quanto mais cedo a ferrugem aparece no ciclo da planta, maior será a dificuldade de controle e maiores serão os potenciais prejuízos devido a falhas no controle. A ocorrência da ferrugem no início do florescimento ou antes, em anos com clima favorável à doença, pode ocasionar redução drástica da produtividade, chegando à inviabilizar a colheita quando não eficientemente controlada. Felizmente, casos assim não têm ocorrido, e isso se deve aos controles legislativo (vazio sanitário e datas limites para semeadura) e cultural (cultivares precoces e semeaduras no início da época recomendada), além do controle químico preventivo e quando necessário.

E as cultivares resistentes?

A busca por cultivares de soja resistentes à ferrugem tem demandado um grande esforço da pesquisa agropecuária. Existem algumas cultivares resistentes no mercado, porém todas elas baseadas em resistência monogênica, ou seja, muito eficiente mas que pode ser facilmente suplantada (“quebrada”) pelo fungo causador da doença. Por isso, mesmo nessas cultivares deve-se aplicar fungicida preventivamente. Mas por que então semear cultivares resistentes se teremos que aplicar fungicida? Porque a cultivar resistente diminui consideravelmente os danos pelas falhas no controle (e essas falhas são muito mais frequentes do que imaginamos!). As cultivares com genes de resistência não são imunes, ou seja, a doença ocorre, mas não progride ou, então, evolui muito lentamente. A cultivar resistente é uma garantia, um seguro, talvez o seguro mais barato que existe. Além disso, cultivares resistentes diminuem a pressão de seleção do fungo sobre os fungicidas, retardando o surgimento de populações do fungo resistentes. A mais recente cultivar de soja resistente à ferrugem asiática é a BRS 511 (clique aqui para conhecer a cultivar), uma variedade de ciclo precoce e recomendada para diversas regiões do país. O gene de resistência dessa variedade é diferente do que está presente em todas as outras variedades lançadas anteriormente. E, além de ser resistente à ferrugem, também é resistente à podridão-de-fitóftora, uma doença comum na região Sul do Brasil, cuja relevância vem crescendo no Centro-Oeste.

Do que a ferrugem gosta?

A presença de água na superfície das folhas é uma condição essencial para o estabelecimento da ferrugem. Sendo assim, quanto maior o tempo com molhamento foliar, melhores as condições para seu desenvolvimento e mais severos serão os danos.

O tempo no qual uma planta permanece com as folhas molhadas é muito mais dependente da frequência das chuvas, do que de seu volume. O orvalho e a irrigação também são determinantes. Dias quentes e noites amenas, com alta umidade do ar, favorecem a formação de orvalho e, assim, criam condições favoráveis para a ferrugem.

O foco de ferrugem em MS

É muito interessante observarmos que a primeira lavoura na qual foi detectada a ferrugem em MS já estava no estádio R5, ou seja, no enchimento de vagens. Essa é uma informação extremamente importante, porque mostra o resultado de duas medidas de controle muito valiosas adotadas pelo produtor rural, que são: 1) realizar o vazio sanitário (para diminuir a sobrevivência da ferrugem na entressafra) e 2) semear a lavoura no início da época recomendada (para que as plantas escapem da ferrugem). Não fossem essas duas medidas de controle, a ferrugem provavelmente surgiria muito mais cedo, talvez mesmo antes do início do florescimento.

Apesar disso, esse primeiro foco em MS foi detectado bem mais cedo do que no ano passado, quando os primeiros relatos ocorreram no mês de janeiro. O número de dias com chuva, de primeiro de outubro a 15 de novembro, foi muito semelhante entre os anos de 2017 e 2018. No entanto, em 2018 o volume de chuvas nesse período foi quase 200 milímetros superior, o que manteve a umidade do ar alta e criou condições para maior duração de molhamento foliar, favorecendo a ferrugem. Esses dados climáticos estão disponíveis no Guia Clima, página das estações meteorológicas da Embrapa Agropecuária Oeste.

Outra informação importante é que o fato de a ferrugem ter sido detectada agora não significa que já não estava presente antes. Devemos lembrar que o cadastro dos focos de ferrugem no Consórcio Antiferrugem (www.consorcioantiferrugem.net) é voluntário. Ao mesmo tempo em que é muito importante notificar o Consórcio e as autoridades competentes sobre a ocorrência da doença, pois isso serve de alerta aos produtores, não podemos confiar cegamente na ausência de ferrugem em locais sem relatos de sua ocorrência. Isso reforça a necessidade do monitoramento constante de cada lavoura, especialmente a partir do início do florescimento ou do fechamento das entrelinhas, pois não há como prever com segurança quando a ferrugem vai aparecer.

Contato: [email protected]

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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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