Soja: Momento não é de novas vendas para produtor brasileiro, orientam consultores

Publicado em 16/01/2019 16:36 e atualizado em 16/01/2019 18:26
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A hora é do produtor brasileiro de soja segurar suas vendas. A orientação que parte de analistas e consultores de mercado é reflexo de um cenário onde tudo está acontecendo ao mesmo tempo em que nada está confirmado. Dessa forma, talvez a cautela seja, de fato, a melhor postura a se adotar neste momento. Há, afinal, um combinado de fatores negativos pairando sobre os preços da oleaginosa no mercado brasileiro e as mudanças não deverão vir tão cedo. 

Segundo Carlos Cogo, diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, os sojicultores devem limitar suas vendas, pelo menos, até meados de abril e maio, quando a situação estiver um pouco mais clara e quando o mercado já irá conhecer melhor o que esperar da nova safra dos Estados Unidos. 

"Estamos começando a passar pelo fundo do poço", diz Cogo, alertando sobre uma tendência de baixa para os prêmios, que poderão ficar ainda mais baixos em março, combinados com um mercado patinando na Bolsa de Chicago e um dólar que também carrega um viés de baixa. "Há muitas variáveis em aberto", completa.

No intervalo de 10 a 15 de janeiro, somente, os preços da soja nos portos brasileiros acumulam uma baixa de mais de 4%. Em Rio Grande, por exemplo, as referências perderam 5,13% no spot, para R$ 74,00, e para fevereiro, e 5,53% para R$ 73,50 por saca. NO mesmo período, os prêmios também cederam consideravelmente nas principais posições de entrega. No terminal de Paranaguá, o fevereiro caiu 20% de US$ 0,50 para US$ 0,40 sobre os valores praticados na Bolsa de Chicago, e o março foi de US$ 0,40 para US$ 0,35, com baixa de 12,50%. 

E ainda segundo o executivo, somente no acumulado de 2019, a baixa do dólar se aproxima de 6%, o que pesa ainda mais sobre os preços. Nesse âmbito, o destino da moeda americana, ao mesmo em partes, virá das próximas decisões do governo federal e de suas conquistas no Congresso Nacional. 

Ao mesmo tempo, os custos subiram para o produtor brasileiro, nesta temporada 2018/19, entre 6% e 8% nas principais regiões produtoras do país, o que exige, portanto, uma comercialização ainda mais planejada e eficiente. O chefe do setor de grãos da Datagro, Flávio França, compartilha da opinião de Carlos Cogo, e afirma que novas vendas, portanto, deverão ser feitas somente na necessidade imediata do cumprimento de compromissos financeiros. 

"As mudanças não devem ser grandes agora, entre janeiro e fevereiro, a tendência, na verdade, no curto prazo, é piorar", explica França. Além de todos os fatores que pressionam Chicago, os prêmios, e o dólar, há ainda a colheita ganhando cada vez mais ritmo no Brasil, apesar das perdas pelo clima, e essa maior oferta de produto disponível. E até este momento há menos de 35% da soja 2018/19 comercializada no Brasil. 

Safra do Brasil

E entre as tantas variáveis em aberto que ainda vão manter o mercado volátil, inclusive na Bolsa de Chicago, é o real tamanho da safra brasileira. As estimativas atuais das consultorias privadas são semelhantes e se aproximam de 116 milhões de toneladas, variando um pouco para mais, um pouco para menos, como mostra a tabela abaixo.

Estimativas soja

A Conab, em seu último boletim, trouxe seu número em 118,8 milhões de toneladas e a Aprosoja Brasil, em seu posicionamento mais recente falou entre 110 e 115 milhões de toneladas. 

Que as perdas foram severas na produção brasileira, o mercado já sabe e em parte já as precificou. No entanto, ainda como explica o executivo da Datagro, é necessário saber suas reais proporções e entender que as mesmas, ao menos até este momento, são insuficientes para promover uma mudança muito drástica no cenário global de oferta. Dessa forma, uma mudança também muito drástica nos preços na Bolsa de Chicago. 

"As perdas são muito ruins para o produtor, mas não mudam muito o quadro geral. E com as recentes chuvas, as perdas estão estabilizadas", explica. Ainda assim, porém, afirma que caso as adversidades climáticas tirem ainda mais do potencial produtivo da safra e a quebra aumente, o mercado internacional pode sim reagir. 

EUA X China

As relações entre China e Estados Unidos também seguem como ponto central para a formação dos preços na Bolsa de Chicago. Neste ano, as conversas entre os dois países têm evoluído de forma bastante importante, um encontro já aconteceu no início do mês e outro está previsto para o final e os sinais são de que ambos estão buscando um consenso. 

No entanto, até que mais detalhes sejam conhecidos sobre a real evolução destas negociações, o mercado especula com menos força, já cansado de boatos que não foram confirmados nos últimos meses. 

Além do mais, nesta quarta-feira (16), o governo de Donald Trump entra em seu 26º dia de paralisação, que já é a mais longa da história, e mantém o fluxo de informações bastante limitado. "O mercado, com isso, continua neste sobe e desce, bastante errático, sem direção", diz Flávio França. 

>> Paralisação recorde do governo americano tira direção do mercado de grãos e pressiona preços

No paralelo, o último número conhecido dos estoques finais norte-americanos de soja é de 26 milhões de toneladas, associado à nova safra da América do Sul que começa a chegar ao mercado, o que ajuda a manter as cotações pressionadas. Afinal, embora a China ainda esteja na busca por fortalecer sua demanda por soja novamente, seu consumo deverá ser menor neste ano comercial. 

O CNGOIC (Centro Nacional de Informações sobre Grãos e Oleaginosas da China) elevou sua estimativa para as importações de soja do país para 87 milhões de toneladas no ano comercial que se encerra em setembro próximo. Apesar de mais baixo do que no ano passado, o número cresceu 3 milhões de toneladas em relação à sua estimativa anterior. 

Além disso, o centro informou ainda que a China deve, de fato, importar mais 2 milhões de toneladas nos EUA além das 3 milhões que foram adquiridas em dezembro. 

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No mais, caso um acordo seja firmado entre China e Estados Unidos e a soja estiver envolvida, principalmente com a queda da taxação de 25% no produto americano pela nação asiática, os preços em Chicago teriam espaço para subir, ainda segundo analistas e consultores. A demanda voltaria aos EUA e ajudaria a reduzir os estoques do país. 

Caso contrário, a demanda chinesa voltaria a se concentrar no Brasil, ajudando a recuperar, pelo menos, parte dos prêmios pagos à soja nacional, os quais estão bem defasados no atual cenário, como explica o diretor da ARC Mercosul, Matheus Pereira. 

"O importador chinês de soja não tem interesse em adicionar compras agora. E a estratégia deles está certíssima", diz. "O cenário é extremamente delicado", completa. 

No mais, Pereira ainda lembra que quando o mercado conta com influências políticas fica ainda mais volúvel e sensível a novos cenários que podem ir se desenhando dia a dia. 

"Quando há influências políticas no mercado, infelizmente, não há uma tendência de longo-prazo específica. Da noite para o dia, o Trump pode revogar as tarifas sobre a China, os chineses quebrarem a retaliação e o cenário mudar completamente", explica o diretor da ARC. 

Dessa forma, é mais um profissional que acredita que o melhor momento já passou, de fato, e que a cautela deve ser redobrada neste momento. "Com os atuais patamares de preços que as tradings estão disponibilizando pra entrega futura, a aposta deveria ser no mercado disponível mesmo (no decorrer da colheita, efetiva a venda). Aquele com capacidade de armazenar o grão, deve apostar na volta das compras chinesas, que agora estão fracas, o que é comum pela sazonalidade" orienta o executivo. 

Eventuais rallies das cotações em Chicago ou do dólar, que são, neste momento, os fatores mais voláteis, é claro, devem sim ser aproveitados pelos produtores brasileiros, como explica o diretor da Labhoro Corretora, Ginaldo Sousa. 

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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

1 comentário

  • LUIS ALBERTO GROHE Assis Chateaubriand - PR

    Estranhei duas manchetes no site. Primeiramente, nesta matéria, falando em 20 de janeiro, quando hoje é apenas dia 18. Segundo, na entrevista do Enori Barbieri, sobre a situação das lavouras em SC, foi usado o termo "sofre com o frio", quando imagino que seria "sofreu com o frio", causando distorções ao leitor, num primeiro momento. Duas situações, na página de abertura do site...cabem revisões.

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    • CARLA MENDESCAMPINAS - SP

      Sr. Luis, bom dia! Obrigada pelas considerações. O dia 20 de janeiro foi um erro de digitação, o correto é dia 10 de janeiro. Mais uma vez agradeço.

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