Soja: Produtor americano depende do protagonismo do Brasil, diz Liones Severo

Publicado em 15/03/2019 17:04 e atualizado em 17/03/2019 05:46
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A China negociou cerca de 20 navios de soja com o Brasil esta semana,segundo o diretor do SIMConsult, Liones Severo, e mostra que enquanto não se resolve com os EUA mantém sua demanda focada no mercado brasileiro. Os embarques dos volumes estão previstos para acontecer entre os meses de abril e maio. 

Os produtores brasileiros continuam aproveitando as boas oportunidades trazidas pela dinâmica diferente que se instalou no mercado global da oleaginosa depois de inciado o conflito comercial entre a nação asiática e os EUA. 

Números do Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária) mostram que, somente na última semana, as vendas da soja 2018/19 no estado avançaram 7,45 pontos percentuais, para alcançar 61,29% da produção de Mato Grosso. 

"A evolução nos negócios pode ser justificada pela valorização da moeda americana e nos prêmios nos portos brasileiros, em conjunto com a necessidade dos produtores em escoar a safra, uma vez que fevereiro é o período de pico da colheita no Estado", diz o reporte do Imea.

O instituto mostra ainda o início de 2019 foi o melhor da série histórica de sua avaliação quando se trata de exportações de soja de Mato Grosso. Do total embarcado pelo Brasil no primeiro bimestre do ano, o estado responde por 30,43%.

O gráfico a seguir ilustra estes números:

Exportações de soja MT - Imea

"A China é o principal destino da soja mato-grossense, e sua participação como importador, considerando apenas jáneiro e fevereiro, passou de 61,29% em 2018 para 76,66% em 2019. Este maior interesse pela soja de Mato Grosso é reflexo direto da disputa comercial entre chineses e américanos, já que, em vez de comprar a soja dos EUA, a China direciona suas aquisições para o Brasil, que é o único capaz de suprir a sua demanda", afirmam os analistas do Imea.  

A contabilidade de quem perde e quem ganha no quadro da guerra comercial entre China e Estados Unidos continua e muda a cada nova declaração que é feita por líderes dos dois país que seguem na busca por um acordo. Entretanto, Severo alerta: "os produtores dos EUA dependem do protagonismo brasileiro". 

O diretor do SIM Consult reafirma que com o Brasil consolidado como o maior exportador mundial de soja, as operações realizadas aqui hoje acarretam em forte impacto para a formação dos preços internacionais e hoje são um dos principais fatores de desempenho para as cotações na Bolsa de Chicago. 

"O Brasil, como maior exportador mundial, é o principal fator de mercado para o desempenho dos preços da CBOT", afirma Severo.

Ainda como explica o executivo, as operações de venda feitas no país - principalmente na moeda local, o real, acabam por "depor contra os preços em dólares cotados na Bolsa de Chicago. Para sua análise, Severo utiliza o exemplo do último dia 7, quando a desvalorização do real fez com que chegasse ao mercado um total próximo de 1 milhão de toneladas em vendas nos contratos futuros da CBOT, uma consequência das vendas de soja brasileira da safra 2019/20. Neste dia, o vencimento março/20 em Chicago fechou com US$ 9,50 por bushel. 

No final da última semana e início desta, muitos analistas e consultores de mercado já vinham falando sobre estes negócios acontecendo com a soja da nova temporada. O Imea reafirmou as informações trazendo números sobre a comercialização em Mato Grosso. 

E de acordo com seu último boletim semanal, as operações com a próxima temporada começaram, de fato, antecipadas, e já há cerca de 2,45% da colheita 19/20 comprometida com as vendas. O preço médio foi de R$ 66,94 por saca. 

Apesar de se apresentarem como boas oportunidades neste momento, o diretor do SIMConsult alerta que operações especulativas como estas acabam - na tentativa de se garantir alguma margem de renda - "depreciando o preço em dólares" e pesando sobre os valores presentes para a soja desta safra. 

Afinal, como lembra Severo, a formação dos preços na Bolsa de Chicago se dá, além de outros fatores, "como resultado do efeito preço a partir da negociação física do produto", diz. "Não faz qualquer sentido os produtores optarem vender a soja na base da moeda local e ficar esperando uma reação dos preços cotados na CBOT", completa.

E é então que o consultor explica que os produtores americanos dependem do protagonismo e do bom desempenho comerical dos produtores brasileiros para não amargarem prejuízos ainda mais intensos. O setor agrícola dos EUA passa por uma de suas piores crises desde os anos 1980 e aguarda, urgentemente, medidas que possam tirá-los de um cenário de altos estoques, baixos preços e elevado grau de endividamento prestes a começar o plantio de uma nova safra. 

Para Severo, ao se firmar um acordo entre China e EUA e acarretando em uma depreciação do produto brasileiro, a demanda chinesa poderia se voltar novamente para o Brasil, agravando os prejuízos americanos. 

"Nesse contexto, o produto brasileiro, como acontece atualmente, será mais competitivo para todos os mercados consumidores globais. Então, o estoque de soja americano poderá passar de 24 mihlhões de toneladas estimados atualmente para mais de 30 milhões".

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Com a falta de uma solução efetiva no horizonte, a principal consequência já tem sido a projeção de uma área de plantio com a soja bem menor nos EUA nesta nova temporada, com algumas consultorias norte-americanas já estimando uma colheita quase 10 milhões de toneladas menor do que a anterior. 

"A continuar esse modelo, os produtores americanos não terão recuperação e, se perceberem o atual status-quo, irão reduzir drasticamente o plantio da soja da safra 2019/20", acredita o executivo. 

E na sequência, os reflexos para os produtores brasileiros viriam também em seu planejamento e custos de produção. "A seguir, os produtores brasileiros também terão revezes pontuais pela fraqueza dos preços em dólares, já que boa parte de seus insumos são negociados nessa moeda", orienta Liones Severo.

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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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