Soja do Brasil tem 2% a mais de proteína que a americana... mas ainda há quem duvide

Publicado em 21/07/2019 07:48 e atualizado em 22/07/2019 13:49
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Nota de Esclarecimento da Embrapa Soja sobre o teor de proteína da Soja brasileira, rebatendo noticias de que haveria perdas na qualidade. O que há, isso sim, são perdas em torno de R$ 1 bi em grãos ardidos e avariados

A Embrapa Soja esclarece que informações publicadas em matérias jornalísticas que discutem o teor de proteína da safra brasileira de soja, veiculadas nos dias 19 e 20 de julho de 2019, a partir de reportagens originadas pela Agência Reuters, não refletem os resultados de pesquisas que vêm sendo conduzidas pela empresa desde a safra 2014/15, junto ao setor produtivo.

Os dados da Embrapa, levantados pelo projeto Qualigrãos, mostram que não ocorreu variação significativa no teor de proteína do grão no país nas safras de 2014/15 até a safra 2017/18. O projeto Qualigrãos, da Embrapa Soja, traçou uma radiografia da qualidade da soja comercial brasileira nas quatro últimas safras. 

De acordo com o pesquisador Irineu Lorini, líder do projeto, pequenas variações nos teores médios de proteína são consideradas normais, inerentes ao sistema de produção de soja, uma vez que há inúmeros fatores que interferem no teor médio de proteína no grão de soja, como a própria safra agrícola, o clima, as cultivares, o manejo da cultura, a região de produção, para citar alguns exemplos. 

-- “Os números brasileiros têm girado em torno de 37%, o que indica uma estabilidade do teor médio no país”, explica.

Os estudos completos  do projeto Qualigrãos estão disponíveis em: www.embrapa.br/soja/teordeproteina. Você também pode conhecer como os estudos da Embrapa estão ajudando o setor produtivo brasileiro a priorizar qualidade, clicando aqui: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/42730069/brasil-pode-ganhar-mais-com-a-soja-se-priorizar-a-qualidade-do-grao

Brasil pode ganhar mais com a soja se priorizar a qualidade do grão

O teor médio de proteína da soja brasileira, entre as safras 2014/15 a 2016/17, foi aproximadamente 2% superior ao dos grãos produzidos nos Estados Unidos. Por outro lado, os grãos defeituosos causaram prejuízos anuais de R$ 1 bilhão à sojicultura nacional. Os resultados são de um estudo feito pela Embrapa Soja(PR) sobre aspectos econômicos relacionados à qualidade de grãos no Brasil a partir de dois atributos: teor de proteína e percentual de grãos avariados (defeituosos). “Esse trabalho pretende introduzir a discussão sobre os aspectos relacionados à qualidade da soja para que se possa realizar a devida valoração de atributos qualitativos na comercialização”, explica o analista econômico da Embrapa Marcelo Hirakuri.

estudo foi feito em dez estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Tocantins, que juntos são responsáveis por cerca de 93% da produção nacional.

País sofreu mais de R$ 1 bilhão em perdas por grãos avariados

Perdas grandes

Em relação aos grãos avariados, grande parcela da soja colhida excedeu a tolerância de 8% de grãos defeituosos permitida por lei. Algumas regiões apresentaram amostras de até 30% de grãos avariados, que representam a soma dos mofados, ardidos, queimados, fermentados, imaturos, chochos, germinados e danificados por percevejo. “Esses casos representam prejuízo para o produtor, porque o armazenador pode descontar o percentual que estiver avariado, já que esse material tem baixa qualidade para a indústria”, avalia o pesquisador Irineu Lorini, da Embrapa.

“No caso de grãos avariados, a perda econômica estimada alcançou um valor superior a R$ 1 bilhão, considerando o percentual da produção que excedeu o limite de 8%, a quantidade excedida e o preço da soja pago nos estados”, calcula Hirakuri. Os principais defeitos observados foram os grãos fermentados e danificados por percevejos, que responderam por 84,6% dos defeitos existentes nos grãos de soja avariados.

As menores perdas econômicas foram observadas nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, uma vez que pequena parcela da soja colhida excedeu o limite tolerado. Os estados de Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Tocantins tiveram perdas econômicas entre R$ 10,4 milhões e R$ 19,5 milhões.

Teor de proteína é diferencial competitivo

A soja é valorizada principalmente por seu alto teor de proteína, que é superior ao de outras oleaginosas. Por isso, o grão tornou-se matéria-prima indispensável para produção de farelo proteico, utilizado principalmente na fabricação de rações para aves, suínos, bovinos e animais de pequeno porte. “A qualidade é um aspecto favorável, tanto para a indústria brasileira consumidora de soja quanto para países que importam o grão em larga escala, como é o caso da China”, explica Hirakuri.

Enquanto o teor médio de proteína da soja brasileira nas três safras analisadas foi de 36,69%, o da soja norte-americana foi de 34,70%, entre 2006 e 2015, caindo para 34,1% na safra 2017, segundo a United States Soybean Export Council. “O Brasil poderia explorar comercialmente esse fato, porque cada tonelada brasileira exportada tem 2% a mais de proteína, se comparada à soja americana”, frisa Lorini. Em 2017, a China, por exemplo, importou quase 65% da soja em grão mundialmente exportada para produzir farelo internamente, em vez de importar o produto derivado. “No entanto, a valoração do grão é quantitativa e medida em toneladas e não se considera a proteína embutida”, explica.

Proteína por estado

Na safra 2016/17 o teor médio de proteína nos grãos de soja variou de 32,03% a 41,35% nas 903 amostras analisadas. O estado que apresentou a maior média no teor de proteína foi a Bahia, com 38,16%, e o Paraná foi o estado com a menor média: 36,74%.

Teor de proteínas (%) em grãos de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras.

 

A Embrapa fez um cálculo do valor pago por percentual de proteína na soja e as médias variaram entre R$ 25,57 e R$ 28,79 por tonelada, considerando o preço pago em cada estado e o teor de proteína obtido. O menor valor médio pago por percentual de proteína no grão em 2017 foi observado no estado de Mato Grosso, onde a tonelada da soja teve o preço de venda mais baixo no ano: R$ 938,06. Hipoteticamente se for considerado um valor único em todo o Brasil para a tonelada de soja, quanto maior o teor proteico obtido em cada região, menor seria o valor pago pelo percentual de proteína no grão.

Por exemplo, embora a cotação da soja na Bahia (R$ 1.006,47/t) tenha sido levemente inferior àquela verificada para Minas Gerais (R$ 1.017,75/t) em 2017, o valor pago por percentual de proteína na tonelada do grão no estado do Nordeste foi significativamente inferior. Isso porque a Bahia apresentou a maior média no teor de proteína brasileira com 38,16%.

Quanto mais alto for o teor de proteínas nos grãos, tanto melhor será para a produção de farelos com teores de proteína mínimos exigidos pela legislação, atingindo-se até o ideal para a produção do farelo com alto teor de proteína. “Quanto maior o teor de proteínas nos grãos utilizados para produzir farelos, menores serão os processos industriais necessários para se adequar aos padrões”, explica o pesquisador José Marcos Gontijo Mandarino, da Embrapa Soja.

Lorini explica que, no momento, o Brasil não faz a valoração econômica da proteína de soja porque o produtor recebe por tonelada entregue, independentemente do teor de proteína. “Caso venha a ser valorizada a qualidade, o produtor teria um bônus, se o teor de proteína for superior à média ou a um referencial mínimo”, explica. “Por outro lado, o preço sofreria um deságio se o teor de proteína fosse menor que esse referencial. O importante é que temos informação sobre a qualidade da soja produzida no País e que ela pode fazer parte da valoração do produto no mercado”, conclui.

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/

Reuters: Teor de proteína de soja no Brasil cai, coloca vendas à China em risco

Por Ana Mano

SÃO PAULO (Reuters) - O teor de proteína na soja brasileira caiu pela primeira vez em quatro safras em 2018, de acordo com dados preliminares do governo, uma situação que já custou às empresas brasileiras negócios com o maior comprador, a China.

O declínio dos níveis de proteína da soja do Brasil, maior exportador do mundo, causa problemas para exportadores, que enfrentam a possibilidade de cancelamentos, venda de grãos com desconto ou contratos mais rigorosos, que exigem garantias de qualidade para compradores que querem assegurar um produto rico em nutrientes.

O teor de proteína na safra de soja do Brasil de 2018 caiu para uma média de 36,83% --de 37,14% no ciclo anterior--, de acordo com resultados preliminares apurados pela Embrapa, disse à Reuters o pesquisador Marcelo de Oliveira. Em um comunicado, a Embrapa afirmou que as variações anuais do teor de proteína da soja não são estatisticamente significativas e indicam uma estabilidade nas porcentagens deste componente do grão.

Os dados serão ajustados até setembro, quando o relatório final da pesquisa de qualidade será publicado, disse ele.

Cesar Borges, membro do conselho da Caramuru Alimentos, disse em entrevista que a empresa recusou a exigência de um potencial importador chinês, nesta semana, por não ter condições de garantir níveis mínimos de proteína na soja em grão.

A China, que importa a soja para transformá-la em ração animal, compra cada vez mais o produto do Brasil, especialmente após a imposição de tarifas retaliatórias ao grão norte-americano em resposta à taxação de produtos chineses por Washington.

Mais recentemente, a demanda da China arrefeceu por causa da peste suína africana, que obrigou o país a sacrificar milhões de animais de seu plantel de suínos. Isto significa que eles podem ser mais seletivos em suas compras.

A China também importa soja da Argentina, o terceiro maior vendedor da oleaginosa, mas em quantidades menores.

Camilo Motter, um corretor de grãos no Paraná, confirmou que a queda do teor proteico da sojabrasileira e a competição argentina podem afetar os prêmios do produto local, que é pago no portos.

Antônio Pípolo, outro pesquisador da Embrapa, disse que os produtores no Brasil estão mais focados no rendimento da lavoura do que nas teores de óleo ou proteína do grão, já que os últimos não afetam o preço pago a eles por exportadores e processadores.

Os níveis de proteína caem à medida que o rendimento aumenta, ele diz.

Nos Estados Unidos, a porcentagem de proteína dos grãos também diminuiu, com produtores buscando produtividades mais altas. Isto ajudou o Brasil, onde o clima é mais quente e os níveis de proteína tendem a ser mais altos, a ultrapassar os americanos como os maiores exportadores de sojado mundo na última década.

A China compra aproximadamente 80% da soja em grão do Brasil.

Se os números da Embrapa se confirmarem, o teor de proteína de soja do Brasil ainda terá sido mais alto do que nos Estados Unidos no ano passado, onde a média estava 34,2%, de acordo com dados qualitativos compilados pela indústria.

"Todos os processadores estão sofrendo", disse Alessandro Reis, principal executivo de operações da empresa CJ Selecta.

Ele disse à Reuters que a queda dos níveis de proteína da soja brasileira leva a um aumento da necessidade de descascar o grão, diminuindo o peso do mesmo e assim o rendimento do farelo.

A separação da casca, que é rica em fibras, ajuda a aumentar o teor da proteína do farelo, que por contrato deve estar entre 46% e 48%, dependendo do tipo a ser vendido. É possível vender a casca propriamente dita, mas ela vale muito menos no mercado, disse Reis.

"Eu acho que não vamos deixar de entregar nada para a China. Mas se os chineses insistirem na proteína de soja na casa de 35-36%, vender para eles será um problema para nós sim", disse Reis.

Questionamentos chineses relacionados ao teor de proteína da soja do Brasil levaram a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) a discutir internamente eventuais mudanças no contrato padrão de exportação, disse Lucas de Brito, um executivo da entidade. O contrato estabelece alguns parâmetros de qualidade, incluindo concentração de óleo e umidade máxima permitida.

O chamado contrato Anec 41 não estipula a porcentagem de proteína do grão que o Brasil vende lá fora, mas os exportadores têm a prerrogativa de definir padrões de qualidade em negociações privadas com seus clientes.

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Fonte: Embrapa Soja

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